Memória vazia

Recebi um e.mail com as estatísticas do blog em 2010. Números interessantes muito embora simples se comparados com outros sítios. Ainda mais porque não escrevi aqui duraante não sei quanto tempo. Anos, acredito. Não me aconteceu nada digno de ser narrado durante o ano, estive retirado, em casa, sem atividades nem literárias nem de outra espécie. Talvez o blog seja mesmo o lugar onde se contam coisas, fatos, atividades e, se não acontece nada, não há material para a narrativa. Normalmente o blogueiro é um livre memorialista – pelo menos me vejo assim. E quando não há nada na memória… E… é verdade… nenhuma perspectiva….

Medo?

O suor escorre mesmo nessa baixa temperatura. Como se a febre consumisse tudo o que vai em mim. As drogas consentidas que rolam no meu sangue. Sangue inócuo, apagado, frágil. A mulher atravessa a rua e eu observo apesar da neve. Bela e fugidia. A neve não me incomoda mais. A mulher segue em frente num passo apressado de quem não quer se molhar, de quem tem frio, de quem tem medo. Medo. Medo. Minha gente tem medo, minha gente corre com medo mesmo sem saber exatamente de quê ou exatamente porque acredita saber em quê.

púcaro

Engraçado essa coisa de eu passar a vida escrevendo a minha história…. descobri que eu não sou esse ente que umas poucas pessoas conhecem. Não, sou um personagem criado por uma abstração, por um lapso de deus, que me deixou nascer e chegar a quase decrepitude. Mentira. Cheguei à decrepitude ainda antes dos trinta anos, mas não tinha consciência exata.
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Era uma coisa vaga, um sentimento estranho, um frio na barriga e uma vontade de fugir para uma outra dimensão que não conseguia explicar nem ao papa. Depois a coisa foi piorando e os analistas faziam juntas médicas para tentarem compreender. Não adiantou nada. Nem poderia.
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Quando você trata com uma não pessoa, com um ser que está sendo escrito por outro, quando você trata com uma alma fugida do Purgatório de Dante tem que estar atento para entender as reviravoltas que a história pode dar. Freud dançou feio nessa e seus seguidores até hoje rodam feito baratas tontas aplicando soporíferos aqui e ali sem conseguir um resultado palpável.
Seria preciso uma conjunção de teóricos de várias vertentes com médicos, pais de santo, eruditos, prostitutos, padres e freiras lésbicas, todos juntos, estudando um personagem, seguindo os meandros da história e tentando captar-lhe a essência.
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O problema é que personagens mal escritos por espíritos impuros normalmente não têm essência o que acaba tornando tudo mais difícil. Acho que Guimarães Rosa poderia entender isso um pouco melhor, mas não existem mais “Guimarães Rosas” dando sopa por aí. Para esse caso seria necessária a entrada do pai de santo que faria uma consulta ao Senhor das Esferas e, em transe, tentaria contato com o escritor.
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Ainda assim acho que não daria certo. A ala politicamente correta ia ser do contra e coisa ia acabar em nada, acabar num banho de banheira com hidromassagem e creolina. Tudo isso porque eu tentei explicar para outrem o verdadeiro motivo de eu ter revelado a estada de Nadja na minha casa, uma estada breve, diga-se de passagem, que acabou numa gritaria danada com vizinhos na janela e ameaças de chamarem a polícia. Por aqui existe a cultura de se ameaçar chamar a polícia (o que, de fato, nunca acontece porque todo mundo sabe que não adiantaria nada, que a desordem aumentaria).
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Me falta alguma coisa, tenho certeza. Vergonha na cara pode ser uma delas, mas me faltam outras coisas, coisas banais que todo mundo tem (e nem sabe!). À partir de amanhã vou sair em buscas dessas coisas, vou de loja em loja, de mafuá em mafuá, de bairro em bairro. Tudo isso porque tem uma voz renitente que não pára de gritar na minha cabeça insistindo sempre e em vários tons que sou um púcaro sem tampa, púcaro sem tampa!

ilusões perdidas

QUANTO MAIS eu caminho pela vida, em muitos momentos, parece que minha experiência é menor por acreditar ainda em duendes. Passoas duendes não deveriam mais estar no meu rol, mas acabam entrando inclusive com a minha facilitação. São os mendigos, as moças bonitas que passeiam nas avenidas ao entardecer, são as pessoas que falam de uma determinada experiência qualquer ou de toda a experiência de toda a sua vida. Os meios, as aparências e as histórias variam, mas estão todos lá cumprindo seus papéis de atores fracassados e eu, de espectador mais fracassado ainda, que BATO PALMA PRA MALUCO DANÇAR. Solução? Não há nenhuma dúvida que a solução deve estar em mim e não no outro, no parceiro. Insistindo na teoria que a vida imita a arte, estou certo que a resposta pode estar na literatura, que certamente está lá, mas é quase impossível acharmos o livro certo para ler. Livros certos são aqueles que escrevemos, aqueles em qua ditamos regras e pontos finais a personagens. Mesmo que não vendam nenhum exemplar.

… dos carnavais…

 TIVE uma profunda relação com o carnaval quando trabalhava com o arlindo rodrigues. ele era um mestre diligente em seu processo de criação, minimalista às vezes. foi na prancheta dele que esbocei meus primeiros desenhos de planos de imagens. ele discutia meus story boards, desenho por desenho. tinha paciência infinda em me ouvir explicar o porquê das posições das câmeras.

tempos depois o haroldo costa me revelava bastidores da montagem do orfeu, do vinícius porque eu estava roteirizando um documentário que dirigi posteriormente chamado ‘em verdade, vinícius’. o haroldo é híbrido, transita vários caminhos e se refaz depois através dos seus comentários.
no ano de 1983 eu conheci o diretor alcino diniz e pedi para produzir eventos na recém nascida tv manchete. o que eu não esperava era que desse o rolo que deu no ano seguinte, 84, quando a globo resolveu não cobrir o carnaval em oposição ao brizola e à inauguração do sambódromo.

me peguei percorrendo todo o sambódromo, fazendo o mapeamento de onde ficariam as câmeras, os comentaristas e toda a parafernália de cobertura de um carnaval. saiu na revista manchete uma foto nossa (eu e alcino) de página dupla, caminhando na pista. achei engraçado. daí eu sentei numa sala de reunião com o jaquito e o alcino (tinham mais pessoas que não lembro, ah, o geraldo matheus!) e ficou acertado que cobriríamos todos os bailes importantes da cidade e o desfile das escolas.

a manchete não tinha todos os recursos e a gente saía muito na porrada pra conseguir as coisas. fizemos camisas amarelas para a equipe e crachás rodados na gráfica da revista (que imprimia também na época os folhetos da loteria esportiva, olha que doideira…)… a coisa tomou rumo e, muito antes do carnaval, eu já estava dirigindo um programa chamado ‘esquentando os tamborins’ que cobria os barracões e os ensaios na quadra das escolas. nesse programa tinha outro diretor: o jacy campos.

em paralelo, o roteirista eloy santos me propôs fazermos uma documentário sobre o Zé Ketti na TVE. daí eu me aproximei do zé ketti também e passei o pão que o diabo amassou com ele que começava a beber no início das filmagens e numa hora lá eu tinha que parar porque o zé estava bêbado. um dia, estava gravando um quadro com o zé, ele se embriagou e foi dormir na casa de uma mulher num subúrbio… no dia seguinte estávamos no estúdio gravando o quadro (que tinha continuidade). nos ensaios o zé declamava e cantava e eu sentia que havia uma coisa muito errada, mas não descobria o que era.

aquilo me encucou demais. comecei a gravar logo na tve porque à noite eu ia dirigir a filmegem da manchete numa quadra de escola com o joãosinho 30. foi aí que eu percebi! o zé ketty esqueceu os dentes postiços superiores na casa da mulher!…. os sambistas que andavam com ele começaram a telefonar para todas as mulheres pra saber em qual casa a dentadura tinha ficado…o zé não lembrava. o tempo passava, meu horário de estúdio ia terminando e acabei sendo obrigado a gravar com o zé de qualquer jeito. botei uma grua porque, enquadrado por cima, se percebia menos a ausência dos dentes.

nesse programa tinha uma cantora que me deliciava, andávamos juntos para cima e para baixo. um dia o alcino mandou eu chamar uma comentarista, historiadora e tal (não era a maria augusta) para uma reunião. pois essa mulher era homônima da cantora… putz… a mulher (cantora) atendeu a convocação e chegou na sala. o alcino me fuzilou com os olhos rs… chamei a pessoa errada….

poucos dias depois eu tive que sentar numa mesa de bar com o pamplona. era tudo regado a muito uísque e o pamplona esbravejava contra o sambódromo, o niemayer e o brizola. mas ele tem um carinho paternal por mim e foi lá ser o comentarista nos desfiles.
montaram uma estrutura enorme no estúdio B da praia do rússel e lá estávamos nós, em frente à mesa de corte e às comunicações entre caminhões de externa na avenida, pequenas unidades nos clubes, mais o controle mestre da rede…. um rolo só.

acontece que o adolpho bloch, já que era dono de tudo, resolveu chamar a família e amigos para assistirem a transmissão justo de lá, do corte. toda a equipe de operações, técnicos, produtores e diretores… e a platéia do adolpho atrás, falando, comentando, dando palpites.
a gente tinha que prestar atenção a muita coisa ao mesmo tempo e aquela balbúrdia atrás era uma coisa de louco, mas o adolpho era o dono!

eu e o alcino nos falávamos pelos fones, cada um pilotando lá sua geringonça, ele o diretor geral, claro. ele me olhava desesperado, indagando o que podíamos fazer naquela situação. alcino me disse entredentes: eu não tô aguentando mais, garotinho…. falei pra ele se acalmar.
quando a primeira escola se posicionou na concentração, quando ia começar o desfile, para surpreza geral, o alcino levantou, socou a mesa, disse que assim não dava e mandou o bloch sair com toda aquela gente.

todo mundo ficou branco. pronto! estávamos todos, a começar pelo alcino, demitidos por justa causa! foram segundos de um silêncio sepulcral… ouvíamos o coração do outro pulando…
o adolpho levantou, chamou o grupo todo e saiu da sala de corte. o desfile estava começando e ele não podia fazer nada, era a inauguração da manchete!!!

pensei que ao final do carnaval o adolpho ia demitir todo mundo, mas ele fez exatamente o contrário: nos contratou por anos para dirigir sempre os carnavais da manchete (que foram mesmo memoráveis)

Eco

Meu primeiro contato com o italiano Umberto Eco foi através do romance O NOME DA ROSA. Naquela época eu não sabia que aquele homem era um intelectual vigoroso, grande em seu estudo da semiótica, das artes, da história da Idade Média. Não sabia nada, portanto. Depois, pouco a pouco, vim tomando conhecimento de ensaios, textos, palestras, etc. do autor. Ele não era mais aquele homem que me escrevera um livro policial autêntico passado em plena Idade Média. Tratava-se, eu ia vendo, de um intelectual raro, fino, verdadeiro. Desses semi-deuses que raramente chegamos perto fisicamente (academicamente nem se fala!). E foi lendo dezenas de livros de Eco que comecei a entender o que era tudo aquilo, quem eu lia e porquê eu lia, bem como percebia cada vez mais a fineza do livro O NOME DA ROSA. As coisas iam-se  juntando e eu compreendendo um pouco mais de cada vez. Não é fácil ler Umberto Eco, não é fácil compreendê-lo e sinto muitas vezes enorme falta de uma preparação acadêmica para que eu o alcance em toda a sua plenitude. Agora é tarde e devo apenas me esforçar e entender um pouco mais e outro pouco aqui e acolá. Compreender esse intelectual com certeza nos ajuda um pouco (não, muito !) a entender a vida.

Se der, filhos e netos e nada mais

De vez em quando sou tomado por uma bobeira. De vez em quando por duas. De vez em quando sou tomado por QUATRO bobeiras. Porque existem várias maneiras da gente se comunicar com as pessoas e o telefone é uma delas (talvez não a mais importante) e o telefone é um meio e não uma pessoa.E por que escrevo isso assim, tão de repente num meio de sábado ensolalarado? Porque eu tenho merda na cabeça é a resposta mais objetiva e verdadeira que me vem, mas tem outras.

Meu filho mais novo,a essa hora está em plena enseada de botafogo, num veleiro com o velho marujo, vendo a disputa de aviões. Meus filho mais velho está com sua mulher nas colinas de Minas Gerais preparando-se para fazer contato comigo via internet. Os dois estão por aqui, pertinho e eles, somente eles, me importam dessa forma total que só os filhos nos importam.

“Filhos? Melhor não tê-los… mas se não os temos, como sabê-los?”

Ter filhos, ter a coragem e a capacidade de ter filhos é uma das coisas mais maneiras do mundo. Eu seria, sem dúvida, outra pessoa, se não tivesse esses dois caras que eu tenho, que me enchem a vida de novidades, que povoam minha cabeça de idéias novas, de pensamentos que, sozinho, eu não teria.

Às vezes fico pensando que uma pessoa sem filhos não pode ser igual a uma pessoa com filhos.

Na verdade eu tava falando de companhia, pensando em companhia. Tem horas que eu não quero, que detesto companhia,tem horas que eu quero companhia Vá entender ! Me entender? Desista, eu já desisti há muito tempo.

Mas o que importa é que, se eu não morrer logo, vou ter netos e aí eu enlouqueço de alegria de vez. Não é todo mundo que chega aos 55 anos. Penso nisso quando estou dando uma volta no quarteirão, por exemplo. Quando tem um explosão de sons e luzes na minha cabeça. Ou quando eu piro. Quem não pira? Existem várias maneiras, né?

Porque você pode pirar com educação, pode pirar de uma maneira agradável…  pode pirar até com uma baita sorriso no rosto, não é mesmo?  Pois aí está lançada a campanha: Dê uma pirada, mas seja normalzinho ! Ah Ah Ah

 

P.S.  K. já sei que a senhorita é do contra, tem esses dois milhões de motivos para não, mas trate de colocar essa mãozinha alva na consciência.


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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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