Archive for the 'Seiva' Category

Srta. K. ou Doce Kastor

Não sei realmente porque falei de Updike com você. Claro que tive um motivo na hora, mas realmente esqueci (e do que eu me lembro na vida?). Acuso o recebimento da nota de falecimento da Mara. Uma pena, eu também gostava muito dela. Tanto bandido ruim pra morrer por aí… Mas não existe mesmo controle sobre mortes ou nascimentos e muito menos ‘acontecimentos’. Por isso insisto sempre em ir além do Filósodo quando diz que “Deus morreu”. Não, ele nunca existiu. Mas não quero esse papo existencial. Não hoje.

Não estou trabalhando tanto como você, K.  – Assustadoramente há na minha frente um volume (um tijolo) de Dickens – A Casa Soturna -Meu momento é de projetos futuros e uma certa forma de repensar e reconstruir como sempre. Enfim, não foi uma carta agora (te mando um e.mail depois).

Beijos

G.

If

Engraçado…. tava aqui lendo…. como tudo começou? Onde? Por que? Não sei mais… Depois vieram as intermináveis conversas…. depois uma certa “atração”… é esse o nome? Não tenho certeza…. Depois a paixão em comum:a literatura…. Mas é só isso? Não… o que é? Eu sei exatamente o que é (além de muitos gostos em comum), mas não sei descrever… não sei falar… Paquera? Não. Ciúme? Não. Aposta de quem desiste primeiro? Tenho primazia porque sou infinitamente mais velho, poderia ser seu pai (com certeza um libidinoso pai)… Mas também não é nada disso… Quanto mais escrevo, mais confundo e mais afasto a verdade. E qual é? Já disse, não sei dizer. Ontem? Não. Amanhã? Possivelmente não também. Um dia? Pode ser, mas não creio muito…

Por fim, o que é? E, novamente, por fim, me convenço de que tudo é examente porque não é…. é um delírio febril e inocente, uma expectativa em torno do sim e do não,de viver ou morrer…

Do tudo ou nada…. De acreditar, sentir e ter sem que nada disso, de fato, aconteça… de ser gêmeo siamês no descontrole, no desequilíbrio sutil de uma estranha leveza de não ser…

Até a hora do pesadelo (Diana Krall)

O céu azul com esses fiapos de nuvens brancas que se movimentam estranhamente não combinam com Diana Krall essa mulher estranhamente sensual, uma sensualidade na voz para ser mais exato e seu piano que ocupa as caixas de som, que se insere nesse ambiente de início de tarde de um tempo qualquer, que não me dou conta do que é, foi ou será. Calor intenso, um suor que não abandona, que está impregnado no meu corpo, nas minhas roupas, lençóis, nas paredes azuis e brancas desse lugar que agora me parece estranho, não exatamente novo, mas desconhecido o bastante para me fazer recordar como e porquê vim parar aqui. Não era isso, não era isso o que eu planejava embora não saiba o que planejava, o que imaginei. Essas músicas me lembram as curvas das estradas para a serra, curvas que eu fazia numa velocidade perigosa apesar da segurança do carro novo, faróis altos, noite fechada, alguma cerração e pneus cantando nas madrugadas que eu não sabia se frias ou não encapsulado que estava naquele ambiente pleno de um ar condicionado equilibrado, perfeito. Mesmo pronunciando tudo errado eu cantava alto junto com Diana, tranquilo na certeza de que ninguém mais me ouviria e que o jardim, ainda distante me esperava, que ela, de moleton cinza-claro me aguardava junto à porteira porque o tempo da minha pequena viagem era cronometrado já.

Quantos dias, quantas semanas, quantos meses? Não sei direito, mas pareceu-me uma eternidade, como se toda a vida sempre tivesse sido assim, como se todos os dias raiassem com céu vermelho, com pássaros cantando, com a grama úmida de orvalho, com a surpresa infalível de uma roseira única, mas que não decepcionou jamais. Era bom olhar aquela rosa, era bom desenrolar a mangueira e molhar todo o jardim antes que o sol ficasse mais forte porque aí seria a hora de, sandálias de borracha, banharmos os dois cães negros, jovens e brincalhões. Foi ao som de Diana Krall que vivi o universo perfeito, a vida boa, calma e justa até que chegou a inesperada (será mesmo?) hora do pesadelo.

Sobre a fragilidade de ser, sentir e demonstrar

Caminhante errante. Sou, somos. Busco o indizível, o sentimento de plenitude como algo aproximado do Nirvana, que, reconheço, não sei o que é. Afasto-me de garrafas deixadas ao relento temendo que uma delas possua um gênio que, por sua formação, me ofereceria a oportunidade de realizar três desejos. E não sei o que pediria (creio mesmo que três seja um exagero de pedidos) Durante a madrugada caminhei em meio a dezenas de enjeitados pela vida que dormiam em folhas de jornais. Vidas que não são, que não reclamam exatamente de seus destinos, certamente mais preocupados com as vozes que assolam suas mentes e espíritos. Por um momento perco-me nessa tentativa de compreender o incompreensível. Melhor: incompreensível para mim que sou um saltimbanco limítrofe diante da finitude da vida. Telefono então para uma amiga querida que perdeu seu pai nesse mesmo dia. Quero me mostrar presente, mas sei muito bem que não estou, não sou e a imperfeição da condolência me faz calar. Deixo-me levar em busca de um lugar à sombra mesmo sabendo que ela é vã. Procuro em mim palavras que façam sentido mesmo consciente que palavras não entorpecem as dores, que palavras são muletas humanas, tentativa mais que imperfeita de expressar sentimentos. Pergunto-me ainda quais são as atitudes corretas a tomar diante de acontecimentos concretos. Não encontro resposta porque não reconheço o concreto mesmo na morte. A morte não é concreta porque ao se consolidar, deixa, ao mesmo tempo de ser, é não ser e não há concretude no vácuo, apenas saudade. Essa mesma saudade é um sentimento quase impossível de se traduzir, a saudade me parece um momento de desorganização absoluta de átomos ou galáxias, quando todos os sentimentos, ao mesmo tempo, rompem o dique do possível e inundam a alma de perplexidade. Sim, insisto em me surpreender à cada instante e, ao mesmo tempo, reconhecer que esse “surpreendimento” é fruto do etéreo desconhecimento característico dos viajantes que peregrinam em busca de algo não se dando conta que a Terra é redonda, com redondos são todos os caminhos.

Novamente K(astor)

Curioso como as pessoas fazem perguntas a Kastor sobre eu e ela, se fazemos isso e aquilo e outras cositas más. Ela brinca com as respostas, ri muito e termina dizendo que é “brincadeirinha” rsrsr. Será mesmo? K. é um Beuvoir pós moderna, ou meta-Beuvoir. Não posso dizer que tenho um caso com ela – principalmente dependendo do que chamamos “caso”. Mas não posso negar que estamos muito próximos, um de olho sempre atento ao outro. Imagino que saibam porque ela é “minha Castor”. A verdade é que nossas vidas e nossas histórias misturam-se com biografias outras e novelas outras num mosaico, num paradoxo entre o Ser e o Nada. Nesse momento, ambos estamos trabalhando muito, sem tempo para nada, o que não impede de trocarmos rápidas correspondências. Mais ou menos sabemos o que está rolando com o outro. Verdade também que ela me adotou, é minha mãe total, mas ela igualmente sabe o quanto sou incestuoso. O único fato concreto é que não somos equilibrados, nunca fomos e jamais seremos. São Paulo e Rio: Lua e Sol. Vamos nos revezando em encontros e desencontros. Mas que tem alguma coisa nessa história, ah, isso tem.

Drogas

O nascer do dia, a possibilidade de sair e fazer coisas um tiquinho diferentes – como gravar o Comentário Geral com uma apresentadora nova (nada contra a anterior) – me deixa entusiasmado e mesmo ansioso, ansiedade que sempre sinto ao entrar num estúdio, ao ver câmeras, refletores, cenários, gente que se move, gente que faz. Eu já disse aqui várias vezes: todas as gravações me são diferentes, me fazem pensar em possibilidades outras, sempre a gente pode inventar um coisinha qualquer e sempre com aquela dose (ínfima que seja) de adrenalina no sangue (minha droga predileta)

Profano

Existe uma dívida existencial com o profano, existe uma pendenga eterna entre bem e mal que deus não dá conta. Nem vários deuses. Isso vem da vida sobre a Terra. Claro que não resolverei isso agora. O que me vem à cabeça é Sérgio Brito, Fábio Sabag, Napoleão Moniz Freire e Zilka Sallaberry (minha tia amada acima de tudo e todos) interpretando Fim de Jogo, de Beckett. Já busquei Druídas, Deusas da Terra e milhares de pirilampos mágicos que vagueiam na noite dos homens. Nenhuma resposta. Todas as respostas estão em mim e isso me dá uma tremenda desconfiança de toda a raça humana. Se Blade Runner não me dá resposta satisfatória, procuro (sem resultado) Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Nada. Silêncio cavernoso. Dou zero para Kerouac e afins. Nesse momento percebemos que estamos irremediavelmente sozinhos, entendemos melhor quando Cazuza nos disse que “meus heróis morreram de over dose”. Vemos amigos disputando espaços, pura carniça. Gente mentindo, enganando, sendo enganada, acusando, sendo acusada, boatos rolando, uma selva com feras salivando. Cara! Estou fora disso! Que rei sou eu? Não sou rei e tenho majestade, tenho história e só me interessa contar minha história (ou escutar alguma história). O resto é o restolho, não me interessa em nada, mesmo as decepções recentes. Porque decepção faz parte da vida vivida, não é susto pra ninguém. Realmente não me assusto. Tenho pessoas que me são sublimes como minha Kastor e isso me basta…. e muito. O que me salva do mármore do inferno são pessoas como ela que me revitalizam, me empurram pra frente, me dão prazer de viver. Prazer de viver. Repito: prazer de viver a vida vivida. Sou um abençoado nem sei mais por quem, mas estou em pé, vergando eventualmente com o vento e voltando à majestade do abacateiro. Talvez eu seja um abacateiro sem abacates, mas não se sabe o dia de amanhã. Hoje estou vivo.


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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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