Archive for the 'Papéis esparsos' Category

dor de dente

Não sei através de que reveses na vida ou o uso continuado de substâncias, drogas lícitas, cheguei ao ponto de perder-me em meu ínfimo escritório. O fato é que aconteceu. Tentei pedir ajuda pelo telefone (é para isso que ele serve – eu achava) e não consegui porque atendiam-me sempre de uma livraria, um sebo desses do centro da cidade). Verdade verdadeira que os livros que andei lendo ultimamente contribuíram um bocado para esse estado de pseudo (?)-loucura em que me encontro. Porque a verdade verdadeira é que trato-me com um alquimista que está muito preocupado com seus experimentos gasosos.

Três telefones celulares, duas agendas, quatro livros confusos, o computador, uma calculadora de camelô, dois cinzeiros abarrotados, maços de cigarros amassados, cédulas de pequena monta, potes de medicamentos de manipulação, um microfone fálico, um copo vazio e uma taça com sorvetes de chocolate amontoam-se como se quisessem me engolir – e tenho a impressão de que falta mesmo pouco. E tudo isso por quê? Porque sim. Porque procuramos o nosso botão, nossa manivela própria para desconectar e o primeiro sinal é quando a caneta tinteiro começa a vazar.

Claro que as estantes me ameaçam da mesma forma como eu ameaço (e cumpro!) castigar os volumes que insistem em esconderem-se de mim.. Quando termino por encontrá-los vão direto para uma pequena estante, algo como uma “solitária” que todos já conhecem e não gostam nada. Ficam ali, em destaque… dias… de castigo. Esse texto, aliás, foi proposto pelo jovem que veio aqui e se espantou da maneira que eu conseguia sobreviver nesse monta de papéis –  lixos uns, preciosidades outros… – tudo ali misturado como a engolfar-me ou me levar aos abismos que somente  Borges proporia… Calvino? Não sei

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… do Olimpo

Cavernas existem para serem exploradas. Morcegos existem para serem enfrentados. Não agimos assim na vida. Deixamos os buracos escuros em pedra para os mais valentes – que não aparecem nunca. E daí a imortalidade milenar das cavernas. Pois dessas cavernas existe muito em nós, bem naquele cantinho que fingimos desconhecer, aquela reentrância quase secreta (nada é secreto) que carregamos como se, de fato, não existisse. O atavismo da caverna remonta ao atavismo do homem bruto que existe em cada um de nós. Esse universo pré-histórico que temos mais ou menos visível. Como um plácido camponês aproxima-se de nós uma besta fera – que muitas vezes nos devora e só tomamos conhecimento quando já fazemos parte das suas entranhas. Nos debatemos então num mar de suco gástrico que corroi nosso discernimento, nossa visão mais romântica da vida. Habitamos então o gigante verde de um só olho e não nos debatemos diante da carnificina que virá em seguida. O humanismo é deixado de lado pelo próprio humano (ou ilusão do humano que temos). Às vezes penso que somente Dom Quixote foi realmente plenamente humano. Mas tudo não passa de sonhos, bem sei. O sonho é a realidade que tenho em mim, o sonho me livra do inferno, da danação. Assim consigo me manter junto aos meus “iguais” porque eles também sabem o que são e, igualmente, se utilizam dos sonhos, se utilizam das artes para amortecer o que queima tanto por dentro. E temendo a autofagia que mora em nós, distraio-me com plantas e flores, automóveis ou metralhadoras, qualquer coisa que tire a mira que tenho em mim mesmo, solerte que sou. Acabamos alçando vôo e aí aparecem nossas asas negras de fuligem, nossas  verdades não aceitas e o desejo de todos de chegar ao Olimpo.

Parangolé de mim

A relação com seres humanos é nociva até para seus iguais e só vence mesmo a barata. Tento me reenquadrar socialmente e o que acontece é o caos, é um misto de anti-apocalipse ou implosão de apocalipse como se a Terra fosse engolida pelo seu próprio buraco negro. Me assusta essa antropofagia de terror cibernético e me refugio numa espécie de plataforma virtual onde tenho a possibilidade de jogar o game ancestral assim como deus joga dados. Fujo da merda jogada por catapultas mediavais e subitamente me torno um templário do terceiro milênio, um soldado ferido que ficou para trás na Segunda Guerra e encontrou uma enfermeira que cuida de suas feridas aparentes sem ver o interior minado, doente, podre.

Caminho errante um um Portugal cheio de armadilhas intelectuais e bejo,  um feliz Fernando Pessoa de barro. Tudo é felicidade no vinho, na música, no colorido das roupas da moça de aldeia, no gentil cavalheiro de chapéu de palha vistoso. Não tenho muito para onde me movimentar e percebo que enfim a terra é um tabuleiro de jogo antigo, a Terra transborda porque não é mesmo redonda, porque não existe Rotação e exitem figuras sem cor – cinza sobre cinzxa respeitando apenas tonalidades diferentes da não cor. Folheio Josué Montello e choro pelo tempo que não vai voltar, pelo que fui e pelo que não sou. Caminho perdido entre enormes peças de xadrez como num labirinto mental, numa idiossincrasia própria a mim e a mais ninguém. Decepciono-me um pouco mais com homens que conheci e levaram meu cavalho malhado, deixando-me de pé nessa chuva torrencial.

Torrencial é o espaço-vida em que me aventuro mesmo sabendo o resultado, o Fim de Jogo de Becket, mesmo sabendo a cor dos que saem de dentro da mina de carvão, mesmo sabendo que o céu, o sol e a chuva são tão somente efeitos das artes produzidas em videografismo, brincadeiras de um pintor pós-moderno. O sol vai se apagar e talvez seja a hora de lentamente, retirar minha roupa de dândi tropical (afinal os parangolés pegaram fogo e os homens erraram de novo a meu respeito).

Alternativas fatais

Tempo que passa, tempo parado, dúvidas sobre o tempo tempo, essa opção pouco séria da existência. Quando o jipe de rodas enormes rodou pelas areias ferventes do imaginário de outra dimensão, me dei conta de que não estava mais aqui pelo simples motivo de que sentía-me vitimado: a perda de contato com minhas três pessoas, aquelas que entendiam um pouco melhor o processo em que ingressei no raiar dos tempos e até hoje é pouco compreendido. No dia em que decidi não explicar mais nada nessa terra malemolente (demais, às vezes) para as mesmas pessoas que reiteradamente insistem em não perceber esse meu óbvio que escorre daqui e dali, dessa gosma-vida refrigerada que empurra os ponteiros dos meu relógio desordenadamenete, sistólicamente, digamos. E nada mais aconteceu. Minha opção pelo silêncio ou pela filosofia do silêncio encontrou os ecos nos ouvidos moucos que partiram para outras plagas. Se me importo? Sim e não.

A aventura de olhar-se

Existe um lado obscuro em todas as coisas e, portanto, na vida. Esse lado obscuro da vida não é conhecido por todos porque, na maioria das vezes, precisamos procurar muito para encontrá-lo. E esse encontro não é nada agradável. Imagino mesmo que esse lado obscuro é separado de uma “loucura” por uma linha tênue, muitas vezes confundindo  se uma pessoa está do lado de cá ou do lado de lá. E essa possível confusão dá-se exatamente pelo número reduzido de pessoas que se aventuram, por livre e expontânea vontade – muitas das vezes num exercício filosófico único e perigoso. Podemos observar que praticamente todos os filósofos e aqueles que estudam a alma humana já se exercitaram nesse “lado negro”. O que eu não tenho certeza é se vale  à pena tornar-se equilibrista sobre esse grande oceano traiçoeiro. Trata-se de uma aventura única e solitária e muitas vezes perigosa porque os outros homens difilmente sabem distinguir uma coisa da outra.

de Garfield

Essa história toda corre demais, estressa demais, goza demais e, por fim, mata demais. Não dá tempo de estar atento à todas as coisas e falar e escrever sobre elas. Eu, pelo menos, não consigo. Bem verdade que (infelizmente) já uso filtros naturais que me afastam do que não é importante (será?)

= = = = = = = =>> A levar em consideração mínima razoável todas as coisas que me chegam, eu seria obrigado a, pelo menos, parar com os livros e com o blog. Depois, se ainda assim, o tempo não for compatível…  cortar essa ou aquela coisa das poucas que (já) faço. A televisão, por exemplo, não é mais um meio de educação ou lazer. Nenhum canal trás nada de útil ou novo (nenhuma delas! Mesmo as que têm obrigação de produzir). Televisão só presta pra gente ver filme, nada mais.

Revistas como a Rolling Stone se apresentam como “jovens”, o que torna a publicação ridícula, “apatetada”. A revista Piauí sem dúvida é a melhor, mas erra na mão, exagera numa cultura exacerbada que parece mais almanaque de farmácia.

Enquanto isso ficamos em casa com medo das ruas podres, dos tiroteios, dos assaltos e (até) dos proxenetas. Com isso somos rotulados de excêntricos ou de loucos (depende da conta bancária de cada um..). Isso aumenta o consumo da memória do computador e a quantidade de resmas ou cadernos que manuscrevemos. Sim, porque, de uma maneira ou de outra, sempre damos vazão à angustia de Garfield, a angústia existencial

Infecções virtuais

Não, ainda não morri. Muito menos sumi. Tenho andado com coisas a resolver, atitudes a tomar e, principalmente, a idéias a colocar no lugar (nos cadernos manuscritos). Se estou dando um tempo aqui? Não é exatamente, mas não deixa de ser. Agradeço os e.mails dos meus três leitores que se preocupam. Não há nada de mais. Resta saber o tamanho da contaminação.


Ela…

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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

Tempo…

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