Archive for the 'viagem' Category

O labirinto da saudade

Quanto tempo leva a saudade? Se me disserem que é a vida toda, então não quero essa vida. Esse dormir e acordar, esses dias tão longos, tão inúteis, tão sós (isso mesmo: quando você está só, o dia é só)… De que vale? O que resta fazer? Para quem? Com quem? E ainda mandam eu cuidar de mim! As pessoas aprenderem esse mantra para a despedida: “até amanhã, se cuida“. Eu até hoje não entendi o que querem dizer com isso. O que é exatamente “se cuidar”? Como alguém pode cuidar de si mesmo? Como desviar da bala perdida, do ataque cardíaco, do atropelamento inesperado, do desmoronamento da última hora, do abismo que se apresenta? Principalmente do abismo que se apresenta! Quantos abismos vão surgindo em nossa frente, ou do lado, ou atrás… Quantas vezes estamos prestes a cair… Mais: quantas vezes desejamos realmente cair…. inúmeras! Porque, afinal, esse abismo é apenas o inverso do patamar antes da queda, é o outro lado da mesma moeda. Acho mesmo que nos jogamos em alguns abismos e em outros não. Critérios? Não sei. Desconheço critérios no que poderia ser comparado a um jogo de espelhos, um Aleph por assim dizer. Imagino que o fim desse abismo não seja o encontro com a morte em rochas pontiagudas, está muito mais para uma terra de Alice no País das Maravilhas (que nem tão maravilhoso é, se olharmos com a crítica necessária).

Tudo isso para falar da saudade, essa palavra que nos desorienta, faz mudar de assunto, faz de cada um o prisioneiro X do labirinto existencial.

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Relógio ou como apagar Clarisse

em cada noite insone, à cada sonífero que não faz efeito, trago em mim uma preocupação, uma dose de medo, uma certeza de que me imobiliza como inseto nos antigos papéis pega-moscas (que nunca mais vi). olhar para o teto e criar histórias, como prega o último romance de auster também não chega a me solucionar a angústia porque um autor – por mais tenaz em seu ofício – dificilmente imagina a dispersão do escuro, do relógio que insiste em não caminhar. os relógios funcionam sempre contra nossas expectativas, acelerados quando não desejamos e lentos quando precisamos. sempre achei o relógio uma máquina do mal. o relógio, se prestarmos atenção, ocasiona guerras, mortes, depressões, suicídios. toda a sorte de desgraças que nos chegam vêm sempre através do caminhar de um relógio. no mínimo, ele nos aprisiona. no mínimo, nos domina. o relógio tem um parentesco muito próximo com o espelho, essa outra criação baseada no reflexo das águas que, em nenhuma hipótese é portadora de notícias boas. igualmente, o espelho decepciona, contradiz, irrita, é portador da má notícia inclemente do passar do tempo em nós. já pensei – em tempos remotos – em mardar construir para mim um relógio que andasse para trás, mas percebi à tempo que ele seria igualmente desagradável: ou não funcionaria (em contraponto com os bilhões de relógios existentes) ou me levaria uma uma situação uterina, ao período do meu big-bang pessoal – e nunca é bom arriscarmos um renascimento… renascer é começar de novo sem ter as garantias do que já nos ocorre hoje e sempre a vida pode ser mais madrasta do que é. prefiro olhar esse espelho (que é mais ferrugem do que outra coisa), perceber que todos os pelos do meu corpo nascem cada vez mais brancos, que as rugas se acentuam, que o céu não é mais tão azul como era há quarenta e cinco anos atrás. prefiro ainda, desdenhar relógios, banais como toda a inventividade humana que pensou antes na guerra e na caça do que no seu próprio bem estar. A surpresa final de Brick* talvez nem seja mais tão surpreendentemente assim quando nos permitimos observar a variedade de opões dos livros. acho tolo e ignorante (e rataqüëra) quando observo pessoas agarrando-se a um só autor como Clarisse Lispector, por exemplo. Já vi, em vários momentos, Clarisse servir de porto seguro para quem não vai à página 3 de outros tantos autores que têm tantas histórias para contar… Clarisse vira referência, apanágio e escapatória… símbolo e avatar aos que não se aventuram em mares mais profundos. porque tem isso, né? as pessoas se agarram num bom autor, num autor palatável e pronto. Clarisse não desvendaria o segredo de Brick antes da última página. não ousaria tanto. evidente que não estou desdenhando a genialidade de Clarisse, estou falando de outra coisa, trato da…. bom, deixa prá lá. o cerne dessa minha questão nesse momento é a independência matreira e ilógica dos relógios – que foram criados como a energia nuclear – onde acreditava-se que poderia ajudar o mundo e deu no que deu. talvez um homem no escuro possa se dar ao luxo de fazer um relógio andar para trás.

Terra Crioula

O Revista Brasil (domingos, 17 h.) é um programa moderno porque é uma revista e um documentário. Ao mesmo tempo. O espectador mais atendo irá perceber que falamos de assuntos fundamentais e lúdicos, que “botamos pra quebrar” e, ao mesmo tempo, há ternura pelos temas, pela forma como é feito e pensado. Não pretendemos nos encontrar unicamente com a zona sul do Rio de Janeiro (nada contra). Pretendemos ter uma visão de Brasil, de brasilidade. Nossos “âncoras” são Darcy Ribeito e Câmara Cascudo. E mais os milhões de brasileiros que fazem essa terra malemolente, cheia de abaeté, de cuscuz e camarão. Nossa terra de índios tuninambás e nossos cablocos do Candomblé: Salve Zé Pelintra! Salve Mãe Menininha. Salve todos os Orixás! Salve Vinícius, poetinha camarada, salve Badem, salve Dorival, Amado, Gilberto Freire e todas essas almas que me vêm ajudar… me ajudem a levar esse barco mestiço e sem rumo, esse anão gigante, essa terra deliciosamente crioula…

Homem peixe em sala azul

Olho a minha sala. As paredes, objetos, coisas. Minhas coisas. Esse monte de cacarecos que colecionei em meio século de vida. Eventualmente foram mesmo sonho de consumo. Hoje não são nada, estão ali, imprestáveis. Pilhas de folhas de papéis manuscritos, uma caneca azul, um telefone sem fio que não funciona mais, uma quantidade de canetas muito maior do que a minha real necessidade. Uma cafeteira e maços de cigarro Marlboro espalhados aqui e ali. Uma rã de pano que a faxineira me deu de presente (e já contei aqui essa história: essa mulher não é apenas uma faxineira, é a pessoa que organiza e cuida de tudo para mim). Uma imagem de São Francisco (sim, estilizada porque sou ateu). Tenho simpatia pela imagem de São Francisco, não por sua história, mas realmente por sua imagem embora me desagradem aqueles passarinhos todos que deveriam cagar toda a sua roupa. Desagrada-me imaginar um São Francisco com vestimentas cagadas por pássaros. Deve ser uma tolice minha: pássaros não podem cagar em santos. Minha sala. Parede azul e parede branca. Chão de ladrilhos. Livros lidos e livros aguardando. Queijo ralado, leite e cerveja na geladeira. Observo atentamente e acho tudo tão sem importância… Coisas não são importantes. Pessoas são importantes, mas pessoas morrem. Quando eu morrer a vida vai continuar aí para os jovens, os sortudos, os saudáveis, os que nascerão? Não sei. Porque a vida é minha. Fui eu que juntei a tralha na minha sala é esse meu pulmão baleado que respira e, através de lentes corretoras, são meus olhos que observam a beleza e a tragédia dos homens. Se eu não existo, não posso ver e vivenciar a vida. E se não sou, não existe vida. Entretanto, não me convenço com uma filosofia tão barata. Outros, antes de mim viveram essa mesma vida: morreram e a vida continuou para mim. Ou seja, a vida não é minha, embora seja a minha vida. Talvez eu seja um passageiro numa espécie de rio e quando este chegar ao mar eu não estarei presente porque estar vivo representa “descer o rio”. Simplesmente. Por outra: talvez eu seja um peixe vivente num enorme cardume que um dia, sem mais nem menos, serei pescado pelo anzol de um menino de doze anos. Um peixe de águas rasas porque um peixe de regiões abissais seria alguém muito saudável que morreria de velhice. Se eu estou delirando? Certamente… e quem não delira? Resta-me então nadar, observar plantinhas e ver as pedras que rolam no fundo do rio, rolam tanto que terminam achatadas (mas continuam pedras)

Revista Brasil, a Missão

Algumas pessoas conhecidas me perguntam sobre o Revista Brasil, programa da TV Brasil. Alguns estão achando que será um programa apenas de notícias atuais e agenda cultural. Não é nada disso! Parece que falta comunicação, que os devidos setores da empresa não sabem fazer o dever de casa. O programa Revista Brasil que vem aí de cara nova não é isso. Trata-se, na verdade, de um mosaico de informações que vão da África ao Modernismo de 22, do caos no trânsito das capitais à falta de água potável no mundo, do Reizado ao Carnaval, das galerias de Arte à Arte desenvolvida nas favelas, da literatura aos quadrinhos, do Terceiro Setor à Bahia e aos primórdios da Rádio no Brasil… e assim por diante (claro, sem deixar de lado o factual). Trata-se de um programa que demanda uma imensidão de pesquisa, de gravações externas, de roteiro e edição ágeis e, conquentemente, mais na frente, de muito estresse na equipe envolvida. Acho que um programa assim, em TV aberta, nas tardes de domingo vai bombar onde as pessoas só tem como opção Faustão e Gugu. E, claro, incluo-me na equipe rsrs.

OBS: REPITO! ROMANCE INÉDITO DE PAULO FRANCIS!

Revista Brasil

Dias atribulados. Equipe nova. Conceito novo. Explicar a pessoas que têm um cultura arraigada há 30 anos uma nova proposta. Sustos. Inseguranças. Incompetências pontuais. Nada disso! hahaha Uma esquipe que, de repente, uniu-se mais do que nunca, aceitou minha chegada com carinho. Uma equipe que, da noite para o dia, ao invés de “executora”, tornou-se “criadora”. De cara foi um susto e houve resistência, medo, revolta. Hoje tudo é adrenalina (boa), criatividade, trabalho. Tudo com muito entusiasmo! Sem falar que temos uma supervisão (Um supervisor, o Ricardo Soares) que, antes de tudo, aposta, confia, propõe, se expõe, cobra muito, mas participa, coloca a mão na massa junto com a galera. Exemplo: uma frase que pode ser entendida pelos pessimistas de plantão como ameaça é extremamente estimulante: “Quero que vocês proponham e criem. Se não quiserem, vem a ordem de cima pra baixo”. Ora, quem quer mais? Você criar, você propor (claro que haverão discordâncias, erros, broncas, mas você está VIVO, participando), essa confiança depositada é exatamente o que nunca rolou e, de certa forma, justifica o susto inicial das pessoas. Imaginem a minha surpresa de, quando vamos a um bar para relaxar, as pessoas tirarem dezenas de manuscritos das bolsas e continuarem discutindo idéias. Até eu dizer: “Pára! Amanhã de manhã a gente continua!” rsrs. Pois, acreditem ou não, esse é o clima de um programa dominical chamado Revista Brasil que vem aí em breve. Bombando!

O Grito Primal de cada homem em seu mundo – Quando falta a geléia que unta.

Ontem tive tempo para conversar longamente com um amigo. Claro que falamos muito mais de insanidades do que dessa realidade imposta. Existe um “comportamento exemplar” esperado pela sociedade. Mas quem definiu o que é esse comportamento? Quem faz as regras? Me dou o direito de subverter as regras impostas e agir como me agrada, como acho que devem ser as coisas e, para tanto, afasto-me da massa. Já escrevi que existem mundo paralelos, mas, percebo agora, não era o que eu imaginava. Existem, na verdade, milhares de mundos paralelos que são as pessoas dispostas a romper com o estabelecido e reescreverem seu script de vida. São os marginais, os malditos, os malucos. Muitos se arrastam pelas ruas falando sozinhos. Outros tantos estão presos em masmorras gradeadas de hospícios e outros tantos estão aí, à margem do estabelecido, incomodando os carneirinhos. Esses grupos são uma pedra no sapato de uma sociedade velha, carcomida, bolorenta. São os que discutem, questionam e dizem NÃO. São entraves, é verdade. A questão é que não são poucos, são milhares, talvez milhões. Num primeiro momento, parecem um exército de Brancaleone, andrajosos que se escoram nas artes, que pintam, escrevem livros (ou papéis esparsos), que moldam formas inenarráveis numa argila outra, num bronze diferente.

A sociedade “oficial” fica incomodada, coloca os marginais contra a parede sem perceberem que não existem as tais paredes, que as paredes estão dentro de cada um de nós, que os limites podem ser infindáveis, que até mesmo o conceito de guerra é outro, é interna, de si para si. Por isso a idéia de vários mundos, de várias realidades e verdades, de várias idéias individuais, indivisíveis em grupos. Assim está posto e não sei como e viabilizaria alguma homogeneidade. Impossível. São mundos diferentes. Existe um galáxia dentro do planeta Terra e existem várias galáxias fora da Terra. E se compreendemos as de fora, temos que entender as de dentro. É preciso aceitar o individualismo, a diferença não como algo metafísico, mas alguma coisa palpável – formas de pensar, agir e vivenciar.

Negar diferenças é negar a vida, negar a possibilidade de criação no curto espaço entre o nascimento e a morte. Temos todos esse divisor de espaço-tempo. Uma espécie de gincana em que ninguém está brincando. Todo mundo está experimentando sempre, caminhando para a frente, para os lados e, eventualmente, para trás. Faz parte do jogo. Deus não joga dados, nós jogamos. O peso do existencialismo paira sobre todos, mas apenas alguns se dão conta e embarcam de cabeça nessa proposta filosófica, nessa angústia de ver em cada mão, um verme como em A Náusea. Não ler a Náusea é não possuir certidão de nascimento, estar à margem de quem pensa, de quem propõe (e volta atrás ou não). Entender Quixote como louco é jogar uma fina e podre mortalha sobre o anseio humano. Não concluir a leitura dos versos do Paraíso Perdido de Milton, é inviabilizar-se, desconhecer todo o sentido do pensamento, fonte principal da existência. E existem bilhões de pessoas que fazem isso, que aceitam caminhar para o matadouro sem emitir um ruído, um grito de alerta, um grito primal. Por isso esse estranhamento em mim. É a incapacidade de cada um de abrir a cabeça, desnudar o espírito, voar, sem medo, para a Terra do Nunca e outras Terras.


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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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