O rato que peida

No princípio achei que era apenas uma posição errada do carregador. Depois que ele me entregou os livros percebi que não; era corcunda. Aliás um estranho tipo de corcunda, dessas que parecem crescer diariamente como um morro em suas costas. Difícil explicar. Ele recebeu e saiu deixando-me um cartão da loja.

Abri os volumes. Eram três livros em péssimo estado para uso considerando-se que a obra foi há pouco tempo editada pela milésima vez.O preço não era justo. Telefonei então para o livreiro e disse que não estava satisfeito com a compra e desejava desfazê-la; O homem não reclamou. Depois da consulta com meu velho alquimista, fui ao livreiro e desfiz a compra sem problemas. Quando saía, percebi uma enciclopédia (edição bem antiga – de 40 anos, no mínimo) exposta no próprio chão da loja. De imediato me lembrei do conto de Borges (ou Bioy Casares?) e abri logo o volume correspondente. Ali estava o verbete que eu sempre estivera buscando sem sucesso. Perguntei ao livreiro se havia outro exemplar completo da mesma enciclopédia e ele me disse aliviado que sim, tinha e apanhou-a para mim. Como no conto, peguei o mesmo volume e, ávido, abri. Sim, o verbete não estava lá. – Nesse caso não é importante qual o verbete e sim o fato da existência do verbete numa edição da enciclopédia e a falta do mesmo numa edição mais recente (Ok, uma cidade peruana, antiga, que não existe mais – Pelo menos nos mapas – ).

Claro. De imediato comprei a enciclopédia mais antiga, a que continha o tal verbete e exigi que me entregassem a compra ainda no mesmo dia. Acompanhei o processo de pegarem a enciclopédia e amarrerem com groso cordão. Em casa, após espanar rapidamente a poeira que veio com os livros, busquei o volume com o verbete e, assustado, vi que o verbete não estava lá. Mas eu tinha certeza de têlo visto NAQUELA enciclopédia! Telefonei mais uma vez ao livreiro e perguntei se, numa distração minha, algum volume havia sido trocado por engano. O homem estranhou e me afirmou, como eu mesmo tinha acompanhado, que a enciclopédia era aquela, a que eu escolhera. Apesar do velho não ter lá muitos bons bofes, pedi encarecidamente que ele procurasse o verbete na enciclopédia que ficara na loja. Ele procurou (com enfado, imagino) e me informou que não, não havia tal verbete. Fiz uma nova busca e nada: o verbete desaparecera.

Leitor, não imagine que eu esteja sendo original. Li essa mesma avenura num conto de Borges (ou Casares, não lembro). Mas ali era ficção, um conto, e aqui falo realidade. Sentei e tomei um litro do meu refrigerante predileto. Eu suava muito e parecia que o ventilador de teto esquentava mais o ambiente do que refrescava. Procurei o verbete na internet e ele não existia. Enfim…. existira para mim no livreiro e desaparecera por completo depois? Não é possível uma coisa dessas, precisamos de lógica. Adoro, amo a lógica, muito embora eu me reconheça , na maioria das vezes, bastante ilógico.

Para hoje, aguardo a visita de uma  mulher mística (conhecedora da obra de Casares e de Borges). Por telefone, um tanto exasperado (apesar de haver ingerido potes debarbitúricos), falei com a mulher, Srta. F que me socorra em mais esse delírio que me acomete (como o do rato branco que peidava alto).

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