Archive for the 'opções ao câncer' Category

Os vermes e deus

Fico me perguntando qual o pior tipo de degeneração. A do corpo ou a da mente. Ou do espírito, de preferirmos. O apodrecimento das carnes em vida, esse processo lento e contínuo que faz as pessoas perderem todas as forças, não conseguirem mais manterem-se em pé, que acaba afetando também o raciocínio e a capacidade cognitiva. São em pequenos passos que os vermes se espalham, não exatamente matando como uma bala de revólver, mas como quem instila poucas gotas de um veneno diariamente. Pessoas que já não caminho, que perdem a cor, tirnam-se assustadoramente macilentas, olhos fundos que nos observam como quem diz que (já) sabe tudo. Da vida e da morte próxima. E, finalmente, a angústia da impotência. Da simplesmente impossibilidade  humana de interferir, de alterar, desviar o caminho de um simples verme! De como todas as técnicas, todo o avanço científico… de como tudo se reduz a nada! As religiões (sempre apaguaziguadoras) nos dizem da vida e da morte. Nos dizem da vida após a morte. Só não falam da impotência de deus sobre o apodrecimento em vida. Afinal, a inacreditável impossibilidade humana…

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a falta de um professor

vários romances tratam das fases terminais. lembro de um filme que um escritor (Sean Connery), condenado, passa todos os ensinamentos para seu aluno. este, tem loucura por esse professor/escritor que, percebendo que está definitivamente terminal, estimula o jovem a escrever um romance. o professor é um erudito renomado, sem avisar, escreve o prefácio para a obra do aluno, não avisa e some durante um mês. ao fim desse tempo o aluno recebe o prefácio do mestre junto com o anúncio do seu falecimento. o rapaz entra em desespero (sequer sabia que o mestre estava doente – ele vivia apenas bebendo!). o filme não é sentimentalóide nem babaca. o professor esculhambou o aluno enquanto pôde, fez todas as críticas possíveis para que o jovem escrevesse direito. repito: ele some. ninguém vê, ninguém sofre, ninguém tem pena de ninguém.

outras obras, como o último romance de Philip Roth mostram detalhadamente os últimos dias de seu personagem predileto, seu alter-ego. detalha todos os sofrimentos e angústias, dores, dúvidas.

Pergunto-me qual a maneira correta de agir. O que se faz nessas horas? Minha tendência, contrária à do doente, é me esconder. me embriagar (muito e sempre) e me esconder. covardia? talvez. e o que é a covardia? quem pode dizer? o julgamento eu mesmo faço e sou o promotor, jamais o advogado de defesa! nuvens negras em frente à minha janela… nuvens nigérrimas.

Fuga

Fiquei me questionando se eu escrevo tanto sobre a doença da minha mãe para angariar peninha dos outros, pra levar tapinhas nos ombros e ouvir palavras doces e carinhosas. Por um tempo achei que, mesmo inconscientemente, era isso. E acredito até que isso não é de todo condenável, que as pessoas se fragilizam mesmo em alguns momentos e precisam de um ou vários ombros. Eu mesmo sei que vou precisar do ombro do meu gato, quando a coisa estiver consumada e eu estiver deitado na cama olhando o teto e sem coragem para mexer um músculo.

Mas existem coisas e coisas e a cabeça da gente não pára

Então fiquei pensando que pode não ser exatamente isso, pode ser que quanto mais eu fale nesse assunto, quando mais eu comente a dor (minha e dela), quanto mais isso estiver exposto, cru… nu… na veia… enfim que essa coisa vá exorcizando uma parte do medo, uma parte da saudade antecipada, uma parte do sofrimento incontido e, principalmente, do pânico. porque essa é a palavra correta para definir a morte anunciada: PÂNICO. Então, sim, é verdade que ando em pânico – que bebidas e calmantes praticamente não fazem efeito algum, – que eu me distraio ora vendo TV, ora trabalhando, ora lendo ou escrevendo, mas meu pensamento escorrega, escapa da prisão que eu pretendo mantê-lo e tudo volta desesperadamente e esqueço o que estou fazendo, o que decidi, o que li, o que trabalhei. Tudo passa a uma condição muito inferior, passa a uma condição de ‘SUB’, como se nada das coisas da vida vivida pudesse estar no centro do pensamento, na angústia desesperada (como se o desespero resolvesse alguma coisa). Então eu digo. Não. Não a nenhuma opção, a nenhuma explicação mais psicógica ou filosófica. Trata-se exclusivamente do bom e velho pânico. PÂNICO por tudo o que virá, por todas as lágrimas, dores físicas, falta de ar… incapacidade generalizada que é o que acontece. De verdade. A verdade, irmão, é dura, muito dura. É claro que todos nós na vida, num momento ou em outro, passamos pelas mesmas coisas e que, o que para nós parece o mais terrível, terrivelmente diferenciado, não é. Não. Todos passam pela mesma situação e todos acham que sua dor pode ser a maior.

É isso: exercício para conviver com o pânico mais absoluto.

Sendo assim, já sei que escreverei dezenas de cadernos, milhares de posts, e.mails, cartas manuscritas e, possivelmente, não enviadas e tudo para nada. Tudo para meu consumo próprio que é o alívio do sentimento que trago – de certa forma egoísta – o pânico. É quando você não consegue mais racionalizar nada, tudo está de ponta cabeça no seu espírito e você confunde essa inversão com o mundo e acha que o mundo anda plantando bananeira, acha que as pessoas te apontam o dedo acusador. Melhor: as pessoas, não. Deus. Um deus em que você não acredita, nunca acreditou e jamais vai acreditar… pois esse deus se materializa unicamente para acusar e depois volta à sua condição de nada.

Enfim, nada é nada. Na fuga, busco exorcizar tudo o que vai em mim. E sem nenhuma garantia de sucesso.

Dilemas

Otto Lara dizia que mineiro só é solidário no câncer (ou foi Nelson R. que disse e atribuiu a frase à Otto?). Camus, por sua vez, disse “que só existe um dilema realmente sério na filosofia: o suicídio”. Fico pensando nisso e, muitas vezes acho que Camus se enganou, que o câncer é um dilema mais sério que o suicídio porque o suicídio mão é um dilema exatamente, mas uma escolha, opção. Já, mesmo quem fuma escapamento de ônibus, não está, necessariamente optando pelo câncer e se o suicídio é consequência da consciência do câncer este suicídio não é um dilema, é uma opção bastante plausível – quase justa – ou totalmente justa e óbvia. Câncer e suicídio são mortais. E suicídio para aplacar o sofrimento do câncer, não é dilema, é escolha sobre a forma de morrer uma morte anunciada (com data e tudo). Então… de maneira nenhuma somente o mineiro é solidário no câncer. O solidário com o câncer é um covarde, é aquele que percebe ali, na cabeceira do canceroso, uma provável forma da sua própria morte. Expia-se então no outro, como a querer algum crédito com Deus.


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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

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