Archive for the 'Líquido' Category

A leitura do “outro”

Escrever a gente escreve qualquer coisa. Ler também. Difícil é perceber o que se está querendo dizer verdadeiramente. Principalmente quando escrevemos uma coisa querendo dizer outra. Acontece muito por aqui. Aliás, sempre aconteceu. Mas não ocorre apenas nas coisas escritas mas também nas faladas. A maior dificuldade do ser humano é fazer-se compreender. Existe uma espécie de “pé atrás” em quem lê e escuta, meio que esperando sempre um deslize, um exagero, um falha qualquer para renegar todo o conceito que foi passado. Incongruências humanas…

Perder-se em si

Parece que existe uma busca imponderável do que é. Ou do que deveria ser. Ou do que imaginamos que seja. Mas é como andar numa floresta à noite. Vem a frustração de quem anda em círculos (porque ainda não se deu a verdadeira importância ao “andar em círculos”). Não nos damos conta, muitas vezes, dos ritos de passagem, de como estamos mudando, como o universo muda à nossa volta e como o que nos “parece novo”, chega. Não existe “novo”, no máximo o novo “para nós”. Mas tem mesmo essa doce e inocente expectativa do novo. É como canja, não faz mal a ninguém. Vivenciar o que conquistamos ou o que chega de surpresa. Isso. Ia falar de outra coisa e me perdi. Outra hora, talvez. As horas… as horas…

Quando

O dia enfarruscado faz-me lembrar de ti, do campo de pasto ao gado, das nuvens muito baixas ao amanhecer, dos cães brincando pelos quintais, do orvalho ainda presente em todas as flores. Na roseira com as rosas abrindo-se e (para meu espanto), enormes. Tudo era novo para mim naquela época em que acreditei ser possível mudar, alterar tudo, rever todos os conceitos até ali. O dinheiro não era farto (nunca foi), mas não me faltava e comíamos um queijo tipo Minas feito na fazendola ao lado. Achei que tudo era possível.

O mundo tinha outro cheiro e outra cor, os achaques da cidade tinham me abandonado todos, como encanto, a telefonia e as antenas eram um luxo que não me faziam falta porque meu mundo era outro, havia a lareira, o crepitar da madeira queimando nas noites frias onde preferíamos dormir na sala bem perto ao fogo. Nunca pensei se tudo era possível ou não porque o presente me bastava de sobra e eu buscava não olhar o futuro como se, não olhando, ele não chegasse.

Não, não havia má fé, em nenhum momento pensei em ser mais ou menos esperto em nada e tratava de cumprir com minhas obrigações de maneira firme, mas extremamente calma. No lugar de álcool, preferia o chocolate quente que preparavas para mim e que tomávamos rindo com a brincadeira dos gatos que se tornaram tão amigos. Não podia mesmo haver amanhã. Esse amanhã era apenas um novo céu vermelho e minha contemplação silenciosa de como dormias nos cobertores.

Quando chegou o dia em que me levantei (bem cedo, como de costume) e lá estavas sentada na varanda, quase escuro ainda, a névoa ainda longe de dissipar-se e teus cigarros ansiosos (que acendias um no outro), me dei conta de que havia chegado o momento que eu sabia que viria, mas que sempre guardei numa gaveta do inconsciente.

Foi nesse momento, após essa conversa, que algo partiu-se em mim, algo tão violento e profundo que, na hora, não me dei conta. Mas sim, foi à partir daquele momento, à partir daquele fim de sonho que acordei definitivamente para o que chamam limbo. Verdade que, assustado, demorei a me dar conta de tudo o que estava acontecendo e das conseqüências futuras que foram um eterno mergulho numa noite estranha, sem sonhos nem esperanças – simplesmente expectativa do pânico.

 

Do que não aconteceu

buscar as possibilidades da longevidade (e esse conceito de longevidade é tão fugaz…) ===> falamos com pessoas, procuramos entender todas as coisas disponíveis e as indisponíveis. faço-me entender mais pelo não dito do que pelo explicado minuciosamente. a chuva cai eternamente, não parando um segundo. imagino então a chuva caindo no meio do mar, durante a noite. água sobre água, nenhuma visão, apenas uma sensação de desconforto do próprio planeta, alguma coisa indistinta para os que não optaram por serem marujos. o marujo é um ser mítico, meio homem meio peixe, meio valente, meio suicida.

olho o mar aberto quando olho para dentro de mim, quando estou nesse estado de contemplação não do que é a vida e sim do que sou eu na vida, nas possibilidades que criei e nas que afastei, na explosão do momento cego, na virtude que não é, na percepção fragilmente humana, na dor da saudade antes da hora, saudade de antemão. e surpreendo-me ao ver que essa saudade não é exclusivamente minha, que é uma saudade de um todo humano, que a humanidade já sente falta do que ainda não deixou de acontecer, de estar presente. alguma coisa como a angústia não por despertar, mas pelo que poderia ter sido um sonho.

está em tudo e em todos uma percepção das coisas que poderiam ter sido – e não foram, impressão que seria igualmente percebida ainda que tudo fosse o contrário do que é/foi. os ônibus avançam bravamente sobre as poças d’água e fico admirando o tamanho das rodas dos veículos coletivos, como se elas fossem capazes de explicar um pouco a questão do paradoxo da supremacia.

Escrivaninha

Preciso escrever alguma coisa. todos nós, em algum momento, precisamos escrever alguma coisa. sento-me à escrivaninha e deito a deixar impressões em meus cadernos de rascunho, meus diários de bordo. escrevo um pouquinho sobre a vida, sobre os equívocos, sobre o que acho justo e injusto. mas é assim mesmo, muitos becos sem saída. existe algo errado nessa história toda que se desenrola na minha cabeça. muito errada mesmo. por enquanto, procuro me analisar o máximo possível para entender o que há de errado. de certa forma, “alguma coisa acontece no meu coração”. mas as coisas não acontecem todo o tempo no coração das pessoas? então, qual a novidade, qual a estranheza? não sei dizer. não sei se saberei.

introdução barata

“a gente mal nasce, começa a morrer…” só os poetas (e grandes poetas) dizem verdades. por mais óbvias que pareçam, por mais que que não nos demos conta, um livro de poesia é uma enciclopédia mais completa que a mais completa das enciclopédias. pedras que rolam, vida que rola independente da minha vontade (e da de todos)… rolam porque sim, por têm que rolar… mas não é bem isso….isso é só uma introdução fraca e frágil, nada inspirada

Em busca do Tempo

Num mundo de verdades e de sonhos onde não sei o que é mais verdade ou mais sonho, até porque não passam de conceitos, vou me perdendo daquilo em que fui adestrado para ser. Não sou mais, portanto. Sou outro, de certa forma leviano culturalmente, que se entrega a textos “baixos”, que se permite adornar com letras que não dizem mais nada, que expressaram num tempo outro, uma verdade que se provou mentira e num momento que, de fato, nunca existiu, um momento que faz muito mais parte de uma história própria “inventada” do que aquilo que os outros chamam realidade. Faço-o propositalmente, exatamente na busca de uma aventura que se dispersa, se esfarela com o tempo, com o passar dos dias, meses e anos. Não sei onde tudo isso vai dar, onde essa perspectiva meio assanhada de um intelecto já meio carcomido entrega os pontos para o que pode ser inventado. Sou muito mais inventado (por mim e pelos outros) do que um espermatozóide crescido. Os fios brancos que nascem em meu corpo alertam não exatamente para o convencional passar do tempo, mas para a possibilidade outra de reinventar alguma coisa – não sei o quê – que seja menos caricata como tudo o que há na vida. Se a vida é um amontoado de máscaras caricatas, dessas que se compram em lojas de produtos carnavalescos, busco então a máscara de Gênova e arrabaldes, berço de um carnaval bem comportado que, certamente, me agrada mais. Percebo, com espanto, que sou o contrário de um Macunaíma, que me encontro prisioneiro da “Crônica da Casa Assassinada” de Lúcio Cardoso – que releio sempre em busca de uma redenção perdida porque não somos personagens exatos de uma obra fechada, mas de uma obra em construção, em movimento. Mesmo sabendo que essa “possível obra” terá um final do qual não escaparei, ainda assim vou de um lado ao outro, percorrendo meu corpo e minha rua, teu corpo e tua rua admitindo que não finalizamos ainda, que esse ou aquele autor poderão alterar sentimentos e situações que se refletiram em mim ou nas coisas que observo ou que me observam.

Os bares, na verdade, não me dizem nada, como, de certa maneira, nada exatamente me diz nada e tudo me diz tudo como a mostrar que não há um porto seguro, não há uma situação de calmaria onde eu possa “ancorar” meu barco cansado. Não. O que há é um oceano à minha frente que clama para ser atravessado, para que eu veja as bordas do mundo, se a água por lá escorre para o espaço ou não. Essa é a maneira encontrada por aquilo que chamam destino de fazer eu me aventurar mais e mais em caminhos e descaminhos que deixam marcas profundas no meu espírito (Sísifico), forma de fazer com que eu me enamore por objetos marinhos (como se marinhos não fôssemos todos nós). Prefiro terra firme ao mar e ao ar, e nem por isso deixo de navegar e voar. Um vôo que não é só meu, que é de um grupo, de uma classe, de um gênero. Vou me diluindo nessa multidão, nessa massa amorfa que me dizem povo, humanidade ou sei lá o quê. Sei que não é bem assim, mas, como não tenho a definição exata, aceito o que me dizem enquanto ainda estou nesse quarto de formas inexatas, com perspectivas vãs em busca de uma redanção que não virá, bem sei.


Ela…

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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

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