Archive for the 'Gavetas' Category

Máscaras

A proximidade (do carnaval) me lembra sempre a história dos mitos e das máscaras. Máscaras que, no fundo, são nossas personas, nossos avatares, nossos inúmeros “eus” (mesmo para aqueles que não entendem ou não acreditam em nada disso. O carnaval ‘coisifica’ o que fazemos o ano inteiro de maneira discreta). Através do trabalho, do estudo, das relações, da leitura e da escrita vamos experimentando máscaras que possam se amoldarem melhor à persoonalidade, ao instinto em que estamos no dia. Parece meio incompreensível ou falso, não é verdade? Mas é assim mesmo – até nos que não têm consciência dessas coisas que, num primeiro momento podem parecer uma espécie de engano ou aparentar  alguém de caráter claudicante. Mas não é isso. Somos todos assim, eu repito. O que incomoda é que existem pessoas que fazem mudanças enormes, drásticas, draconianas do seu “eu”. Na minha opinião é razoável que mudemos, que estajamos sempre nos reconstruindo como já disse inúmeras vezes aqui. Mas não podemos chegar ao absurdo, à troca frequente de acordo com humores porque a troca excessiva de humores nos encaminham ao paradoxo. A mudança em-si dificulta a compreensão do outro ou, pior, faz com que o outro não se dê atenção àquilo que o companheiro deseja exprimir. Esse desgaste é quase metafísico, vai além do nosso controle racional (e acho impossível a relação descontrolada, ainda que seja absurda). Nada contra o absurdo, nada contra o susto, nada contra o mar revolto. Tudo é aceitável – até mesmo o desconhecido, a surpresa – mas dentro de parâmetros em que não estejamos dentro de um… como um minotauro manso. O carnaval é a época apropriada para usarmos diversas máscaras por dia, trocarmos de hora em hora com o intuito de assustar aquele que pensava ter visto… e não viu, viu outra coisa. Exatamente para iso existem três dias de carnaval. Prefiros os mascarados de Veneza.

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O mundo parou?

O problema é sobre o que falar quando, definitivamente, os assuntos estão mortos. Não existem mais. O que existe agora é a observação de alguma coisa que passa desapercebida aos olhares voltados para as coisas importantes. Porque de importante mesmo não acontece nada de novo, acontece uma releitura do que foi, do que ocorreu, do que nos chamou atenção no passado. Falar de livros? De pessoas? Nascimentos e mortes? Basta ler os editorialistas dos grandes jornais e revistas. Falam do que foi, fazem novas leituras do óbvio, de tudo o que digerimos há meses ou anos atrás. E se em torno não acontece nada começamos a “inventar” coisas, abandonamos a crônica e entramos numa zona perigosa do que seria criação literária (e não é) ou de uma forma de delírio, ainda que um delírio frágil, desses que não assustam, que fazem ensaiarmos um sorriso educado. O que existe de produção nessas áreas é nada porque o mundo parou. Curioso é que a maioria das pessoas não percebe essa “parada do mundo” e fala disso ou daquilo como se fosse novidade. São as mesmas guerras, as mesmas quebradeiras de bolsas, os mesmos óbitos, os mesmos livros os mesmos casamentos e descasamentos entre famosos, os mesmos programas de televisão (cada vez mais pasteurizados), os mesmos filmes (refeitos agora utilizando recursos de computação gráfica). Porque já relatamos todos os encontros estranhos que tivemos na vida, os mesmos malucos, os arranjos novos para canções velhas. Os blogs por exemplo, se repetem à exaustão – cada um deles batendo na mesma tecla que escolheram (principalmente este aqui). E os comentários nesses blogs (este não é), repetem observações, elogios, parabenizações que já vimos antes, que um dia até nos interessaram. Não aconteceu nada de novo desde “2001, uma odisséia no espaço”. Toda a produção posterior é repaginada. O Brasil comemora a edição em português de dois livrinho de Cotázar da década de 60. E poesia moderna é Fernando Pessoa. Nada contra autores nem fatos do passado, tudo à favor porque é graças a eles que estamos onde estamos (ainda que estejamos no nada). E é fato que o Sol vai se apagando e a Terra girando com menos velocidade.

Marlboro Azul

Como num aviso ancestral, o dia hoje nasceu com tons mais avermelhados do que de costume. Sinal? De quê? Bem verdade que não estou com muita paciência, tenho andado meio de saco cheio. Algumas pessoas ficam esperando que você pisque um olho e te abocanham e a idéia de viver minimamente feliz sem piscar me soa estranha e desagradável. Portanto, deixo esses assuntos para lá porque sou mesmo um sobrevivente da Coréia e não serão peidinhos rastaqüeras que conseguirão me desequilibrar.

O que tenho de bom é que nesse fim de semana terminei a leitura de “O Despenhadeiro” de Fernando Vallejo e me aventurei em iniciar “A gente se acostuma com o fim do mundo” de Martin Page apesar de uma crítica não muito favorável de K. De toda sorte, parece-me um livrinho leve e agradável e seu (anti?) herói passa por situações semelhantes às minhas. Ainda é muito cedo para falar.

Diante disso, desse cursor irritante que se recusa a parar de piscar, penso na máquina de escrever e da folha em branco que me cobrava antigamente, mas não havia o maldito cursor. Resta-me apenas mais uma caneca (das grandes) de café preto e uma infinidade de cigarros Marlboro Azul. Azul ou cinza deve ser igualmente a tonalidade dos meus pulmões carcomidos. Observo o dia azul, mas preservo muitas trovoadas sob a luz fria e branca dos escritórios, das reuniões vãs, das pessoas que lutam sem entenderem, da tola disputa de poder.

Volto ao meu livro como Sartre voltou a Colomba naquele bar na França deixando a garçonete sem saber se a sua taça estava meio cheia ou meio vazia de vinho doce. Nesse momento meu espírito voa longe, para uma certa juventude emocional que insisto em não perder para não cair no esgoto das pessoas vis. Essas crises de tosse alertam apenas que estou fumando, fumando muito, além do razoável e que o sofrimento, os estertores podem estar vindo à galope.

Observo então a vida sob novo ângulo, deixando de lado idiossincrasias, batalhas e personagens literários. Estou nu naquele sofá diante de um analista que se esforçar para salvar minha alma carregada, pesada, sufocada por tantos senões. Isso que chamam vida, eu chamo purgatório. Não há nenhuma depressão, nada patológico e sim, como já disse aqui, o que existe é alguma coisa filosófica como a mão (verme) descrita em A Náusea de Sartre. Percebo que meu desentendimento não é exatamente comigo, como parece, mas com o mundo a as situações escrotas desse mundo. Como num jogo de tênis quando dou uma raquetada numa bola normal e recebo – da raquetada do outro – uma bola de gosma. E assim termino não sabendo se quem sofre é meu cérebro ou o meu estômago – com essa quase eterna vontade de vomitar. Ou ainda se é tristeza pura por todos os outros mendigos esfarrapados que se arrastam em roupas caras e corredores assépticos. Não sei a verdade. Se soubesse tentaria mudá-la, sei apenas que existe um descompasso e eu entre uma determinada forma de vida.

Sonhos em fuga

Caminho pela madrugada e atravesso grandes espaços de ruas totalmente sem iluminação. Estranhamente, não sinto medo, muito provavelmente por não ser um homem da noite, não ser uma espécie de lobo. Dia desses me perguntaram como conjugo minha insônia renitente com minha afirmação de que “não sou um homem da noite”. Creio que expliquei que um homem da noite se diverte nas madrugadas e um insone crônico, sofre. Josué Montello me contou que sofria de uma insônia terrível. Chegava do trabalho em casa… jantava… conversava com sua mulher, ficava com ela até que dormisse. Depois levantava-se ia para o escritório e escrevia a noite inteira, escrevia à mão, num caderno para que o barulho da máquina de escrever não incomodasse a esposa. Esta, em retribuição, durante o dia datilografava todo o material de Josué. E assim, ele escrever mais de cento e cinqüenta livros!

Se eu tivesse talento, faria como ele, escreveria muitos livros. Na falta de talento, resta-me ler, assistir televisão ou contar carneirinhos. Aliás essa história de contar carneirinhos é o conselho mais vil que se pode dar a uma criança. Adultos são sempre vilões de crianças.

Aproveito o final de semana para colocar a leitura de alguns livros em dia e acompanhar na internet notícias dolorosas como a morte de Zélia Gattai. Não exatamente pela morte porque esse é o futuro de todas as criaturas que se aventuram em viver, mas por contar com menos um artista que me faça surfar na onda das reminiscências.

De volta à Lapa

Minha caminhada matinal não tem nada a ver com o culto ao corpo nem à saúde. Caminho simplesmente porque tenho que me deslocar de um ponto ao outro para comprar isso ou aquilo. Cigarros, por exemplo. Ao mesmo tempo encontro nas ruas conhecidos. Dessas pessoas que um belo dia te dão “Bom dia” no meio da avenida e, à partir daquela hora, te cumprimentam para sempre. São sempre pessoas de mais idade, pessoas com minha idade. Os mais jovens devem cumprimentar os mais jovens e os jurássicos idem. Quando eu morava em Copacabana ficava impressionado com o número de pessoas de idade que andavam em cadeiras de rodas elétricas (mais pareciam um carrinho, uma baratinha de corrida)). Aqui na Lapa nunca tive oportunidade de cruzar com nenhum sequer. Verdade que as calçadas não são boas e, apesar de se falar tanto em ‘revitalização da Lapa’, é mentira. Aqui só mora gente muito pobre. E pobre não tem cadeira de rodas movida a eletricidade. A Lapa é um ponto turístico onde as pessoas da noite vêm se divertir em busca das casas noturnas abundantes (algumas exóticas). Só isso. Depois cada um pega seu carrão e volta para o bairro de origem. De certa forma, o centro da cidade inteiro deixou de ser um bom lugar de moradia ou que tenha status para tal. Não tem. Quando eu conto para alguma pessoa que moro na Lapa, sempre há um sorriso curioso, como se eu fosse mais valente ou mais pobre. E a fala é sempre a mesma: “Você mora bem dentro do agito, deve ser ótimo morar aí”. Claro que eu não acredito no que estão dizendo, se fosse verdade, essas pessoas que admiram tanto o centro morariam aqui. Nas padarias, farmácias, ruelas, etc. encontro somente pessoas humildes. Outra característica: as pessoas não têm cachorros. Não existem cachorros nas ruas, o que não se pode falar de mendigos (são muitos e muitos). Verdade que também sempre encontrei milhões de mendigos em Copacabana, Ipanema e tal. Enfim, morar na Lapa não é pior nem melhor do que morar em outro lugar, mas não me venham fazer olhares de encantamento, como se aqui fosse um glamour puro. Não é! De toda a forma, eu gosto de morar aqui.

Pamuk

Por que escrevo

“Como sabem, a pergunta que mais fazem a nós escritores, a pergunta predileta, é: por que você escreve? Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever! Escrevo porque sou incapaz de fazer um trabalho normal, como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros como os que eu escrevo. Escrevo porque sinto raiva de todos vocês, sinto raiva de todo mundo. Escrevo porque adoro passar o dia à mesa escrevendo. Escrevo porque só consigo participar da vida real quando a modifico. Escrevo porque quero que os outros, todos nós, o mundo inteiro, saibam que tipo de vida nós vivemos, e continuamos a viver, em Istambul, na Turquia. Escrevo porque adoro o cheiro do papel e da tinta. Escrevo porque acredito na literatura, na arte do romance, mais do que em qualquer outra coisa. Escrevo porque é um hábito, uma paixão. Escrevo porque tenho medo de ser esquecido, porque gosto da glória e do interesse que a literatura traz. Escrevo para ficar só. Talvez escreva porque tenho a esperança de entender por que eu sinto tanta, tanta raiva de todos vocês, tanta, tanta raiva de todo mundo. Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque depois que começo um romance, um ensaio, uma página, sempre quero chegar ao fim. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva. Escrevo porque tenho uma crença infantil na imortalidade das bibliotecas, e na maneira como meus livros são dispostos na prateleira. Escrevo porque é animador transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo não para contar uma história, mas para compor uma história. Escrevo porque desejo escapar do presságio de que existe um lugar para onde preciso ir mas ao qual – como num sonho – nunca chego. Escrevo porque jamais consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz.”

Orhan Pamuk,


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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

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