12 09 2007

deus é um péssimo dramaturgo. Eu acho a história da vida muito mal feita, mal escrita, mal elaborada, com clímax em horas erradas e personagens híbridos, personagens meio descaracterizados, meio sem ânima… desestruturados principalmente para o contexto da história contada. Assim. Parece que vida em-si é uma história. Os viventes (personagens) fazem parte de outra história (que poderia estar num teatro ao lado, percebe?) Não tem união, não tem liga. Então fica essa coisa assim. As coisas não batem. Concluo essa história pelo que eu digo sempre aqui de estar me desconstruindo e reconstruindo. Estou fazendo um “remendo” no texto de deus, mas ele é ruim demais, os personagens são todos frios demais, o cenário é árido demais. Não existe envolvimento entre as coisas. Eu quero, por exemplo, conquistar um personagem, tê-lo junto a mim e não consigo porque ele é distante em todos os sentidos: geográfica e sentimentalmente. Fica num pedestal além de mim, além do meu esforço, além do meu despojamento. E não vê esse “dilacerar-se” ou vê e isso não representa nada.

Eu li uma coisa bacana n’A Feminista quando ela fala que o cineasta deixa a camêra parada mostrando uma paisagem e os personagens entram, atuam e saem e a terra fica ali, sólida, presente, imutável. Isso, como representação cinematográfica é muito bacana, mas como matéria de vida, me parece péssimo, impessoal, duro demais para ser tudo o que a vida tem a oferecer e tenho percebido uma vida dura demais para ser vivenciada. O que procuro? Morrer? Não. Procuro discutir formas alternativas mesmo entendendo que se crie um paradoxo. O que acontece, se analisarmos com menos emoção é que a vida é um paradoxo porque é maravilhoso viver, mas a vida, dia a dia, não vale tanto à pena. E é bom se entender essa afirmação no sentido platônico, de Platão mesmo. Agora isso não desmerece o raciocínio lógico de uma certa fragilidade da vida, uma coisa enganadoramente meio rala de sentimentos… talvez. Talvez faltem sentimentos aos personagens ou, melhor, firmeza desses sentimentos nos personagens.

Agora, se você escreve uma peça e cria personagens dúbios (não no mal sentido), personagens que claudicam e têm medo, bom se você cria já assim, fica muito difícil reescrever essa história depois. Tem que lembrar, né? que Romeo e Julieta chegaram onde chegaram por um estado de determinação tão forte quanto o amor deles. Se não houvesse determinação eles talvez (com certeza) não morreriam ao final, mas teriam que renunciar ao amor. E ao amor, não se renuncia jamais! E o que eu vejo na vida vivida são pessoas renunciando ao amor, muitas vezes por medo desse amor! Como se fosse possível, cabível… Não é! Só um imortal pode renunciar ao amor numa determinada época. Esse é um atributo para imortais, uma coisa bem (i) lógica, mas como não conheço nenhum imortal e sou jogado de encontro a essa peça, a esse script mal feito, escrito sem emoção, sem alma.

Não interessa muito se a vida imita a arte ou vice e versa. Não importa mesmo, sabe? O que conta, no final das contas, é como se dão essas relações, como acontece a nossa história e como essa história não pode ser concebida dissociada do amor. Incompreensivelmente, essa geração que hoje tem em torno de quarenta anos tem, antes de tudo, medo de amar. É como A Peste de Camus. Igualzinho. Isso que eu penso é uma peste, uma peste que arrasa, destrói todas as possibilidades de uma vida melhor tornando-a uma não-vida e, ora!, uma não-vida é a mesma coisa que a morte determinada por uma peste. É pior, tornamo-nos mortos-vivos sem amor. Então, o que temos afinal de contas? O que somos e o que estamos fazendo e como vai ser daqui a vinte anos se não morrermos? Vamos apenas olhar para trás e lembrar as oportunidades que tivemos e não nos aventuramos por medo de parecermos frágeis? É essa a idéia? Mas é uma idéia que nega a própria essência do raciocínio e do desejo substantivo.

Evitar dar as mãos, evitar deixar-se tomar inteiro por um sentimento, evitar perceber-se frágil diante de uma coisa muito forte… O que se quer evitar, afinal? E, sendo assim, o que estamos traçando verdadeiramente, qual rumo? Esse cuidado constante, essa guarda elizabetana em não se sentir frágil ou vulnerável hora nenhuma… bom… ela pode ser exatamente a construção de um outro modelo de fragilidade, maior, mas com uma aparência sólida. Aparência pra quem, cara pálida?

6 Responses to “Amor”


  1. 1 Ka. 14/07/2010 às 16:11

    Só para conhecimento:

    ESTOU COM SAUDADE.

    bjo

  2. 2 Peter 09/04/2009 às 22:57

    Não faço idéia como definir “DEUS”, mas a vida que surgíu em nosso planeta é algo tão fascinante que não acho que “o dramaturgo” seja péssimo. A combinação das leis da natureza e do acaso (que pode ser considerado um sinónimo para “liberdade”) criaram algo inédito, histórico.
    E o ser humano? Olha, não sei. Talvez não sabe o que seja bom pra ele, talvez seja confuso com a liberdade, assustado com a realidade, com medo de reconhecer que ele realmente é. Talvez, por causa disso, haja tanta merda, tanta vaidade, ignorância e violência.
    Coitado do homo sapiens.

  3. 3 romina 13/08/2008 às 11:37

    E tudo muito lindo so que para existir havera de ser d completo e esse encontro, digo pessoal, so se entende com as duas partes em questao envolvida e acho que e isso e me perdoe e que fiquei de medo de desencontrar e deixar pra depois e muito bem tem de pensar nas respostas pra deixar de ofender, desculpe moca ai atras, mas acho q tem de ser mais espontaneo e ensaiar pra dizer coisas bonitas e ai parece que nem vem do coracao! Desculpe ai e beijos!

  4. 4 cochise 02/04/2008 às 12:40

    Show, George Bernard. Esqueci o livro, mas é o que fala das teorias lamarkistas.
    Adoro a idéia de Deus-Dramaturgo apresentando sua peça.
    E odeio a sua competência de autista com síndrome de down surdo-mudo.

  5. 5 Cochise 20/02/2008 às 6:35

    breve, escreverei a resposta que esse texto merece. Não vou ofendê-lo com uma resposta mal feita

  6. 6 Francisco 24/01/2008 às 14:19

    Realmente… acho que na contação de histórias a arte é maior que a vida, como o peixe da estória é muito maior que o pescado. O personagem nos dá a impressão de que ele sente muito mais do que poderíamos jamais sentir, faz coisas que, em seu lugar, jamais faríamos sem antes pensar duas, três, quantas vezes forem necessárias para que possamos desistir dessas insanidades.

    O medo de viver é enorme, massacrante, uma prisão, que nos sustenta mas não alimenta, protege e não nos permite sentir, como a própria morte.

    Concordo contigo plenamente, e não estou na casa dos 40. Digo que é dificil para mim divisar se tenho ou não medo. Digo, medo tenho, mas não sei se de amar.


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