Archive for the 'Ficheiro' Category

Natal

Ela já chega na minha mesa com o copo de vodka transbordando. Comenta o meu uísque. Por que? Não sei. Não quero falar, não quero ouvir, não quero pensar. Amanhã. Talvez amanhã porque não sei como vou acordar. Sim, três livros para serem lidos e estudados rapidinho. O Teatro de Revista. Claro que eu tive a vida inteira para estudar, me aprofundar, mas, idiota, estava mais preocupado com Janis Joplin. Foi necessário que minha barba ficasse completamente branca para eu entender que minha veia estava aqui, do meu lado, dentro de mim. Eu, um gole de uísque…ela, um de vodka. Nos olhamos e a fumaça de nossos cigarros me dão a nítida impressão de um filme noir de terceira. Não, não é bem verdade. A verdade é que eu sou de terceira, provavelmente agrado seres de terceira e vivo nesse dilema/dicotomia entre o que desejo e me imagino e a realidade. Não tenho nada com a realidade. Sou mais irreal do que o conde Drácula, embora me reconheça sim um vampiro. (Quem não é?) Eu mesmo sou um vampiro de mim…. Ela, em preto e branco toma uma dose grande de vodka…. apenas seus lábios são vermelhos…. extremamente…. Penso que gosto mais dos lábios pálidos, como o dos cadáveres, mas não digo nada. Do outro lado da janela vejo luzes coloridas semi-frenéticas e penso que é Natal, essa época porca, desavergonhada. Deveríamos, imagino, vomitar em cima de cada Papai Noel. Barbas brancas e longas grudadas pelo vômito dos humildes.

Tudo na minha cabeça. Apenas ela na minha frente terminando o primeiro copázio de vodka e encomendando mais um. Faço o mesmo com meu uísque. Porque então a vodka é segregada e o uísque aceito? Tédio desse mundo de convenções babacas, de pessoas tolas, de gente vazia. Tédio do mundo acelerado, das propostas indecentes, dos homens de terno e gravata que usurpan a moeda dos pobres….Indisposição para levar adiante o que se apresenta como uma cena de assédio… Pra porra! Prefiro a penumbra e a leitura dos poetas malditos, a cachaça, o afago de um gato sincero, um telefonema de um filho distante. Melhor sim deixar a mulher noir com sua vodka podre e caminhar pelas ruas, sentir a chuva bater em meu rosto e pensar que sim, talvez amanhã…

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Sou e não sou. Será?

Preso, encastelado na tua voz e teus encantos. Você é como a estrela nômade que um dia enlouqueceu os reis. Posso, gostaria até, mas não vou me perder agora que te tenho tão próxima. Os cachos do teu cabelo são meu anel de ouro, esse anel que trago comigo tão orgulhoso. Teus olhos são as pedras preciosas que um dia darei a ti.

Vivemos num mundo à parte da podridão, do crime, da maldade, da selvageria. Sabemos que tudo isso existe, mas está longe de nós ou melhor, estamos nós longe disso porque pertencemos a uma sociedade outra, distante, diferente, uma percepção de vida e de amores nunca presenciada por nenhum mortal.

Se estou exagerando? Mas é claro que estou! Pois não foi de exagerado a primeira coisa que você me chamou? Sou sim! Tenho orgulho do meu exagero porque nele viajo de nuvem em nuvem, estrela em estrela, mar e sub-mar. Sou um viajante convicto e minha meta é a Terra do Nunca ou mais… Não posso ser ninguém menos que Peter Pan, do que Kafka, do que o mendigo que dorme agitado à minha porta. Tanto faz. Por isso não guardo meus diários manuscritos. Sei que os abutres existem, são atentos, são vorazes. Sou voraz apenas em existir. Não sou hoje o produto do que fui ontem, não! sou o anti-produto, a anti-matéria, o anti-anti!

Se vou seguir em frente com minha história? Não sei. Agora tenho corpo e alma cansados. Amanhã talvez. E ainda talvez amanhã eu repita “amanhã”. Não sei de mim mais do que o meteoro sabe de seu rumo. Sou meteoro vivo, folha que cai descansada, barba que cresce contínua sem pudor. Sou a dor ,a tristeza e a alegria desse mundo. Acho eu.

Um soneto bárbaro, genial

Quando observo que tudo quanto cresce
desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste imenso palco se obedece
À secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória
Que se ergue uma seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
Esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento

Shakespeare (Sonetos)
Tradução: Ivo Barroso

Caminhos

Me fecho em mim. Sou um buscador incansável das coisas que tragam uma espécie de lógica amorosa à vida. Desistir disso é desistir de viver, é abandonar-se a uma prostração substantiva da essência. Não ser essencial é mentir, negar-me como amador. De qualquer forma. Pouco a pouco vou desistindo da busca de explicação das coisas, vou me popularizando, mesclando-me com um grupo que, entre sístoles e diástoles, repete a simplicidade da existência. É. Um boneco anestesiado que declama poesias vãs. Enfim…

Após a chuva

A contradição está em perceber que o dia seguinte após as enchentes, dia seco, vem nos lavar a alma. Lava a alma até mesmo um sol que não aparece, até mesmo a expectativa de alguma coisa que poderá acontecer ainda que não tenha ocorrido. Pedras lisas e limo, com equilíbrio, podemos ultrapassar com cuidado ao contrário da borrasca que nos leva de roldão. E, se não há realmente sol, pelo menos a esperança da possibilidade, mesmo instável, de seguir caminho. E para bom entendedor…

Partida antropofágica

Meus poemas toscos, são todos escritos em papel higiênico. Facilito a ação social da natureza e poupo a energia (elétrica) dos cortadores de papel. Kerouac disse tudo. Ficamos repetindo com outras palavras. Faltava só o movimento feminista que, concretizado, deu no que deu, mulheres que não entenderam a trip. Bah! Uma baratinha minúscula, insiste em me incomodar aqui. Vou esmagá-la como sou esmagado freqüentemente pelas baratas grandes, essas que pensam (mal)  e agem (pior). Só penso em paz na preparação da partida (antropofágica, de uma certa maneira)

Pessoa

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida…

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –
Um bocado de ti e de mim!…

                                    Álvaro de Campos


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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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