Eu vivo a expectativa do encontro, busco mais na fantasia que na vã filosofia o momento em que o não transforma-se num sim constante, pontilhado, brilhante. O suor gelado nas palmas das mãos e o formigamento naquele ponto eqüidistante da barriga anunciam apenas que um instante se vai e outro chega para ocupar o lugar, linha de pontos que se tornam traço, como se sabe. Analiso meus olhos bem de perto com a ponta do nariz quase roçando o espelho e, nesses olhos, não percebo mais a presença do brilho de antes, do lampejo que perpassava o olhar em momentos gulosos. Percebo íris e glóbulos embaciados, opacos mesmo como os do ancião cego há decênios.
Não é motivo de desespero, nem mesmo angústia. Apenas um aperto no peito, perguntas que faço a mim mesmo já sabendo que não tenho as respostas, esqueci-as em algum desses baús que fui perdendo pela vida afora, nessas mudanças de saltimbanco que um dia fez planos oblongos, como galáxias distantes.
Agora, o deslize no sim é repetidamente o abraço do não. O que, por sua vez, é uma ilusão do outro já que não me manifesto para errar menos. De toda forma, sou essa interrogação suspensa no ar, elemento que chama medianamente a atenção de passantes esfarrapados, personas de Brechet.

Esse monólogo revela-se fraco em argumentação e frágil em dramaticidade. Lixeira com ele! O espetáculo mambembe nem sequer é risível no Novo Tempo. Resta distrair-se um pouco olhando velhos álbuns de fotografias sepiadas pelo tempo, relembrar as histórias que a avó contava sobre as companhias teatrais que percorriam o país em embarcações de terceira categoria, momento de artistas pobres, distantes no tempo do glamour que a televisão traria meio século depois. Vida dura. E sonhos também. Muitos! A cor moura dos ciganos, a encenação de uma peça teatral por semana, a ficha de atriz na delegacia arquivada junto com prostitutas e meliantes sem tom.

Agora, a era do recolhimento, a face que não recebe a luz do sol nem a queda da chuva. As últimas e efêmeras tentativas da centelha do encontro. Garantia (e costume) do fracasso auto-imposto pelos psicologismos de almanaque, dos velhacos trambiqueiros de jaleco que trombeteiam as maravilhas de suas beberagens mágicas, pílulas do prazer!
É só a fina camada de poeira que encobre lombadas de tomos relidos, de contadores de histórias que um dia entusiasmaram. O que chega mesmo é a hora verdadeira, momento de formular a última pergunta, talvez a única com resposta certa. Ou apenas com resposta.

A vez de desocupar o aposento, dar fim a tantos guardados inúteis, preparar com as forças que restam, o último ato, momento em que o ator já é persona, já não necessita mais tingir os cabelos de branco, tempo em que os poucos pagantes já tossem e bocejam na platéia. Sem pó de arroz, sem purpurina, sem grande final.
Apenas cumprir o trato, dar cabo de todos os atos e chegar ao último com um pingo de sobriedade, mínimo de dignidade não para aplausos que não virão, mas evitar tomates e ovos podres (indiferentes?).
Depois, fechar definitivamente a mala de papelão, juntar todo o dinheiro do borderaux somente para pagar a conta e, finalmente, retornar ao portaló do mesmo navio de terceira que um dia trouxe seus bisavós.

2 Responses to “Último Ato”


  1. 1 wagner augusto abreu arrotheia 12/03/2010 às 9:21

    minha fala que mora com capeta todo os dias

  2. 2 Robson 21/10/2008 às 12:29

    Tenho a nítida impressão de ser caótico, incoerente, diverso, sou apenas aquilo que chamamos de possibilidade. É assim que sou é assim que a maioria dos seres humanos são. Não cabe a ninguem julgar. O que cabe é a experiência, a certeza de estar vivenciando tudo que a nós possa interessar. Sou hedonista, nem tanto quanto os sofistas, mas acredito que o prazer de estar vivo passa pelas sensações… E elas são tantas, intensas ou não, elas pairam no ar a espera de quem tenha a sensibilidade de pegar. ” Cada um sabe a delícia e a angústia de ser o que é”. Assim, caminhamos em busca de algo que nem sempre sabemos o que é… Porém, saber para qual finalidade? Quantas vezes é melhor saber ou viver? Se penso que sei, não faço. Se faço sem saber, regozijo. Saber e regojizar-se. Qual escolher? Somos contraditórios por natureza e naturalmente somos compelidos, um para o outro, vezes… Quantas vezes mais? O importante de se refletir sobre questões tão estranhas é que podemos verificar a fragilidade de nossa ânima e perceber a inquietude, o fogo que ainda arde, a brasa que queima, o frio na espinha… Aquela coisinha que sentimos subindo e descendo na barriga, uma sensação comum quando se tem dezessete anos… ” Volver a los dezessete”…Sexo é exercício que fortalece a ânima. Amor é tolerância. Será que teremos outras vidas? Ou ela será apenas um fluxo perpétuo? Não importa…O importante é a compreensão hedonista da vida e acreditar no imponderável.


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