Srta. K. ou Doce Kastor

Não sei realmente porque falei de Updike com você. Claro que tive um motivo na hora, mas realmente esqueci (e do que eu me lembro na vida?). Acuso o recebimento da nota de falecimento da Mara. Uma pena, eu também gostava muito dela. Tanto bandido ruim pra morrer por aí… Mas não existe mesmo controle sobre mortes ou nascimentos e muito menos ‘acontecimentos’. Por iso insisto sempre em ir além do Filósodo quando diz que “Deus morreu”. Não, ele nunca existiu. Mas não quero esse papo existencial. Não hoje.

Não estou trabalhando tanto como você, K.  – Assustadoramente há na minha frente um volume (um tijolo) de Dickens – A Casa Soturna -Meu momento é de projetos futuros e uma certa forma de repensar e reconstruir como sempre. Enfim, não foi uma carta agora (te mando um e.mail depois).

Beijos

G.

dor de dente

Não sei através de que reveses na vida ou o uso continuado de substâncias, drogas lícitas, cheguei ao ponto de perder-me em meu ínfimo escritório. O fato é que aconteceu. Tentei pedir ajuda pelo telefone (é para isso que ele serve – eu achava) e não consegui porque atendiam-me sempre de uma livraria, um sebo desses do centro da cidade). Verdade verdadeira que os livros que andei lendo ultimamente contribuíram um bocado para esse estado de pseudo (?)-loucura em que me encontro. Porque a verdade verdadeira é que trato-me com um alquimista que está muito preocupado com seus experimentos gasosos.

Três telefones celulares, duas agendas, quatro livros confusos, o computador, uma calculadora de camelô, dois cinzeiros abarrotados, maços de cigarros amassados, cédulas de pequena monta, potes de medicamentos de manipulação, um microfone fálico, um copo vazio e uma taça com sorvetes de chocolate amontoam-se como se quisessem me engolir – e tenho a impressão de que falta mesmo pouco. E tudo isso por quê? Porque sim. Porque procuramos o nosso botão, nossa manivela própria para desconectar e o primeiro sinal é quando a caneta tinteiro começa a vazar.

Claro que as estantes me ameaçam da mesma forma como eu ameaço (e cumpro!) castigar os volumes que insistem em esconderem-se de mim.. Quando termino por encontrá-los vão direto para uma pequena estante, algo como uma “solitária” que todos já conhecem e não gostam nada. Ficam ali, em destaque… dias… de castigo. Esse texto, aliás, foi proposto pelo jovem que veio aqui e se espantou da maneira que eu conseguia sobreviver nesse monta de papéis –  lixos uns, preciosidades outros… – tudo ali misturado como a engolfar-me ou me levar aos abismos que somente  Borges proporia… Calvino? Não sei

retalho

Não ouso com uma barata. Não quero pessoas-baratas nem baratas-pessoas. “A Metamorfose” me causa engulhos, a possibiliade de…

O banheiro é o lugar onde o sangue mais mais aparece. Cinema. Menstruação nunca se inicia no banheiro. Somente tiros e facadas, somente personagens escondidos embaixo da banheira antiga ou ainda imagens que aparecem no espelho enquanto ela se observa. Grito. Fade com trasição de 20 frames. Tudo fica óbvio porque mulheres muito brancas tem visíveis veias roxas – como uma flor que nunca lembro o nome – (acho que uma é hortência). Me parece que suspense no cinema prega mais sustos do que na literatura. E concluímos cedo que o cinema usa planos fechados das ‘vítimas’ exatamente para não percebermos quem está escondido, de tocaia. E  na hora: susto. Claro que a trilha sonora é fundamental (e livros não têm trilhas sonoras). Mas não adianta: o livro é sempre melhor.

O livro mexe com nosso consciente e com o inconsciente, com a dor e a necessidade premente como se ‘fora do tempo’: o livro está ali.  Os escrevinhadores são seres desalmados que não se penalizam de nada nem ninguém e colocam para fora, no papel, todos os surtos, todos os estados catatônicos, toda a sujeira da mente exposta à crianças de quarenta anos.

O escrevinhador é um deus que joga dados conosco o tempo todo e jamais deixa de vencer, jamais se abala (com todos os seus dentes cariados e feios, seu mau hálito, suas badalhocas). Galopo no cavalo negro em busca de albergues, de pousadas vagabundas de beira de estrada e o céu pode ser vermelho.

sobre as coisas

Lendo, lendo e lendo. Coisas boas e más… O queridinho da hora é Martim Page, o modernoso de livros curtos e simples. Francês. Li todos. São livros bastante leves e até engraçados. Não os levaria para uma ilha deserta simplesmente porque precido de Trama e DRAMA. É um equívoco: viver só (e evitar pessoas) não é só neurastnia. A Excentricidade muitas vezes advém do existencialismo e não, necessáriamente, do niilismo – como as vezes é confundido. A referência que tenho mais forte é a solidão no líquido amniótico. Lá pode e aqui não? Por que? Por quê “lá” é normal e aqui neurose? Parece que é simples: o ser humano não consegue assumir todas as responsabilidades pelo que faz e diz e, quando em grupo, dissolve esse “peso”, essa “cruz”… Isso é traduzido em vários signos e símbolos, como o casamento, os amigos do peito, os simplesmente amigos e os colegas. Grupo. Homem: ser essencialmente social. E se você não quer fazer parte dessa tribo meu irmão… você é doente e excêntrico. Se afastam (o que não é ruim) de você e, um tempo depois, você é deletado do inconsciente pessoal e coletivo. Você não existe. O mesmo com o ateísmo. Parece que você chegou aqui para incomodar os outros. E não nego. Mas incomodar não é a palavra certa.

Se eu espermatozóide venci a corrida, tenho o direito de criar a minha vida, vivenciar meus momentos da maneira que mais me agradar e ser -MUITO  responsável por mim mesmo. O Existencialismo bate nessa tecla: você é responsável totalmente pelo que faz. E se a vida é o jardim (feio ou bonito) da minha casa/vida, planto então o que quero e bem entendo. Imagino que seja bastante chato conviver com pessoas assim. Chato não: conveniente ( por isso Borges, Calvino, etc.). Em nome do “social” os homens “camkinham” vagarosamente aceitando tudo que a vida e deus acham certo. Como gado indo feliz para o abatedouro. Não pertencer a essa fila é como ser um marciano (obviamente verde). A irrelevância das coisas comezinhas da vida não são levadas em consideração. O homem comum não se apercebe da impossibilidade da “normalidade”. Normal? Normal é gado? É a crucificação de quem “se atreve” a pensar com seus próprios neurônios (sejam poucos ou muitos). Daí toda a filosofia e antropologia do filme MATRIX, por exemplo (pena que deram continuidade fazendo o 2 e o 3 duas belas porcarias).

São flores roxas em jardins etéreos, verdadeiras holografias de um mundo que se reparte um milhão de vezes e mantêm sua unidade, o seu todo. Ou seja: sou o todo repartido um milhão de vezes. Os milhões ou bilhões de pessoas que optam por essa alternativa, já que a vida é única e finita, não são  astronautas catatônicos nem elfos ou pirilampos de uma amazônia nórdica. Somos a realidade que, como a areia fina, escorre entre nossos dedos. – ...e junta-se mais adiante….

P.S. Não esquecer do livro de Philip Roth em que ele conversa com Primo Levi, Isaac B. Singer, Milan Kundera, Saul Below – saudade ! – e muitos outros.

do front

Olhando por determinado prisma (sim, esférico) reconheço que 2009 foi para mim um “ano Não”. Desses anos que não deviam existir assim como não existem décimos terceiros andares em alguns prédios americanos. Foi tudo muito confuso e creio que cansarei vocês com um número mínimo de posts suficientes para explicar tudo. Assim, proponho uma anistia. Nem me perguntam nem eu conto nada sobre 2009. Na verdade não há nada de muito errado, nada escatológico, nada digno de nota. Como disse: “UM ANO NÃO”.

Estou em dívida com a minha eterna musa, a Kastor, com O Pior Homem do Mundo e outros poucos sobreviventes que ainda vêm aqui. E a verdade é que têm encontrado somente escombros. Em 2009 eu não escrevi e nem li uma única linha. Brabeira. Na verdade estive preso do outro lado do espelho (sem lamentações). Como a pane foi relativamente grave tive que me reconstruir em grande parte e em lugares sensíveis. Mas consegui. Consegui sorrir de mim mesmo, consegui perceber melhor ainda o nascer do sol… Continuo uma pilha inenarrável de dúvidas. Continuo sem saber como estão totalmente as coisas,  muito menos como será amanhã. Mas admito o amanhã. Os atores que tentaram me dar uma rasteira foram todos devidamente defenestrados, detonados, o que me deu enorme alegria. Mas nada de vinganças pueris. Eles chegaram ao fim e eu renasci. Em breve mando notícias do front.

Meus Caros Amigos

Eu sou pleno de felicidade por saber que tenho poucos, mas fiéis amigos. E amigo é aquela coisa única, não é verdade?

E por um tempo eu sumi. Não de propósito ou seguindo algum planejamento. Sempre disse que eu me construo e me desconstruo. Essa, me parece, é uma dessas fases.

Resolvi dar uma descida ao fundo do poço para ver como andavam as coisas por lá… no extremo do meu íntimo e, de certa forma, do meu inconsciente.

Passei um tempo grande sem ler também (não conseguia me concenttrar na leitura (agora estou relendo O MUNDO DE SOFIA).

Parece que encontrei tudo em ordem em mim mesmo e, ainda assim, resolvi por uma desconstrução e uma nova construção. Estou nesse processo. Minha saúde está boa. Minha mente está o que sempre foi: claudicante.

Mas está tudo bem.

Beijos

… do Olimpo

Cavernas existem para serem exploradas. Morcegos existem para serem enfrentados. Não agimos assim na vida. Deixamos os buracos escuros em pedra para os mais valentes – que não aparecem nunca. E daí a imortalidade milenar das cavernas. Pois dessas cavernas existe muito em nós, bem naquele cantinho que fingimos desconhecer, aquela reentrância quase secreta (nada é secreto) que carregamos como se, de fato, não existisse. O atavismo da caverna remonta ao atavismo do homem bruto que existe em cada um de nós. Esse universo pré-histórico que temos mais ou menos visível. Como um plácido camponês aproxima-se de nós uma besta fera – que muitas vezes nos devora e só tomamos conhecimento quando já fazemos parte das suas entranhas. Nos debatemos então num mar de suco gástrico que corroi nosso discernimento, nossa visão mais romântica da vida. Habitamos então o gigante verde de um só olho e não nos debatemos diante da carnificina que virá em seguida. O humanismo é deixado de lado pelo próprio humano (ou ilusão do humano que temos). Às vezes penso que somente Dom Quixote foi realmente plenamente humano. Mas tudo não passa de sonhos, bem sei. O sonho é a realidade que tenho em mim, o sonho me livra do inferno, da danação. Assim consigo me manter junto aos meus “iguais” porque eles também sabem o que são e, igualmente, se utilizam dos sonhos, se utilizam das artes para amortecer o que queima tanto por dentro. E temendo a autofagia que mora em nós, distraio-me com plantas e flores, automóveis ou metralhadoras, qualquer coisa que tire a mira que tenho em mim mesmo, solerte que sou. Acabamos alçando vôo e aí aparecem nossas asas negras de fuligem, nossas  verdades não aceitas e o desejo de todos de chegar ao Olimpo.

Parangolé de mim

A relação com seres humanos é nociva até para seus iguais e só vence mesmo a barata. Tento me reenquadrar socialmente e o que acontece é o caos, é um misto de anti-apocalipse ou implosão de apocalipse como se a Terra fosse engolida pelo seu próprio buraco negro. Me assusta essa antropofagia de terror cibernético e me refugio numa espécie de plataforma virtual onde tenho a possibilidade de jogar o game ancestral assim como deus joga dados. Fujo da merda jogada por catapultas mediavais e subitamente me torno um templário do terceiro milênio, um soldado ferido que ficou para trás na Segunda Guerra e encontrou uma enfermeira que cuida de suas feridas aparentes sem ver o interior minado, doente, podre.

Caminho errante um um Portugal cheio de armadilhas intelectuais e bejo,  um feliz Fernando Pessoa de barro. Tudo é felicidade no vinho, na música, no colorido das roupas da moça de aldeia, no gentil cavalheiro de chapéu de palha vistoso. Não tenho muito para onde me movimentar e percebo que enfim a terra é um tabuleiro de jogo antigo, a Terra transborda porque não é mesmo redonda, porque não existe Rotação e exitem figuras sem cor – cinza sobre cinzxa respeitando apenas tonalidades diferentes da não cor. Folheio Josué Montello e choro pelo tempo que não vai voltar, pelo que fui e pelo que não sou. Caminho perdido entre enormes peças de xadrez como num labirinto mental, numa idiossincrasia própria a mim e a mais ninguém. Decepciono-me um pouco mais com homens que conheci e levaram meu cavalho malhado, deixando-me de pé nessa chuva torrencial.

Torrencial é o espaço-vida em que me aventuro mesmo sabendo o resultado, o Fim de Jogo de Becket, mesmo sabendo a cor dos que saem de dentro da mina de carvão, mesmo sabendo que o céu, o sol e a chuva são tão somente efeitos das artes produzidas em videografismo, brincadeiras de um pintor pós-moderno. O sol vai se apagar e talvez seja a hora de lentamente, retirar minha roupa de dândi tropical (afinal os parangolés pegaram fogo e os homens erraram de novo a meu respeito).

… determinadas ilusões

O rosa do amanhecer me lembra a boneca de pano da minha avó, a boneca de pano que somos todos, fantoches de ilusões ilusórias. Entendo melhor avatares do que pessoas, bonecas do que avós, soldados de chumbo do que empreendimentos. Não fui empreendedor nesse sentido comezinho da palavra. Deixei cantar o rouxinol, dei ouvidos às corujas, me destemi diante de crânios já descarnados e javalis prontos para o abate. Não me adaptei à solidão do campo, não vi sinceridade em todas as lágrimas e, talvez por isso, não tenho lágrimas em meus olhos mesmo nas adversidades. Os motivos para as lágrimas são os mesmos dos suicídios e o querosene é inflamável e veloz porque assim convencionei.

Hoje percebo que, se ofereci pouco no passado, ofereço muito menos hoje, hoje sou efêmera folha de papel virtual, sou uma possibilidade que está no espaço (de zeros e uns) e só é percebida por nós. (Uma árvore enorme que cai numa floresta totalmente deserta faz algum barulho?) O que não percebo não é. E se o outro não me percebe é simplesmente porque não sou e não poderia ser de outra maneira ===> outra maneira seria minha negação, seria minha eterna diáspora que não reencontra porto seguro, não vê continente nem luz (nem a das estrelas) e se vou em frente, da mesma maneira não é por valentia ou espírito desbravador e sim pela dúvida entre o profano e o sagrado

Susan

“As idéias perturbam a regularidade da vida….

E o que é ser jovem durante anos e de repente despertar para a angústia, a premência da vida?

É ser alcançado, um dia, pelas reverberações daqueles que não acompanham, escapar da selva aos trambolhões e cair num abismo.

É, então, ser cego aos erros dos rebeldes, ter ânsias dolorosas, completas depois de todos os opostos da existência da infância. É o ímpeto, o entusiasmos frenético, imediatamente submerso numa enxurrada de autodepreciação. É a consciência cruel da própria presunção… (…)

É a retratação do sentimento pela própria família e por todos os ídolos da infância. É mentir…. e o ressentimento… e depois o ódio… (…)”

Sontag

Pensando alto

O conhecido me pergunta porque deixei o blog de lado. Por um momento pensei em contar-lhe a verdade, mas deu para me conter à tempo e fazer cara de árvore. Finalmente (nessa terceira idade) aprendi a me conter, controlar minha língua em muitas situações (o que me dá uma sobrevida (linda palavra) menos conturbada). Angústia é o que me passa, o que se passa e os motivos são igualmente variados e únicos. De brincadeira fala-se de uma certa excentricidade, mas é só mesmo brincadeira. Muitas vezes percebo que a coisa é muito mais séria (outro problema se apresenta: não tenho mais nenhuma paciência com problemas, com situações difíceis, etc, etc).

Os livros estão ali, naquela quina de parede vermelha. É uma pilha razoável de autores interessantes. Falta tempo, falta o hoje, falta a capacidade desses olhos cansados buscarem luz e lentes para decifrar letras, umas colocadas atrás das outras, nessa esperança de recriar o universo, de recriar você, de recriar-me, por fim.  Ou somos a criação do que está ali, naquela pilha? Sei que tudo pode ou tudo “dá”, mas falta algo, alguma coisa parecida com a ânima universal ou coisa parecida. Tem a necessidade de produzir alguma coisa rapidamente já que o tempo entrou em desabalada correria no enfraquecimento da emoção. E me desfaço, me assusto e me refaço outro, diferente, incomparável com o ontem… com os sonhos e as letras desse mistério,  principalmente esse ‘ontem mais distante’…

Talese

Hoje mais ou menos entusiasmado com os livros de Gay Talese como em priscas eras me entusiasmei com outros jornalistas (começando por Capote, claro). Verdade quando dizem que me entusiasmo ora por esse, ora por aquele, que sou dado a “paixonites” literárias independente do calibre dos escritores. Sim, tudo verdade. Sou assim desde muito jovem, desde os primeiros livrinhos de aventuras escritas pobremente e, depois por Meigret. Coisas do tempo, coisas que todos nós temos (ou tivemos) bem antes de entrarmos no modernismo. Coisas de antes de Euclydes, de antes, muito antes… Por falar em jornalistas, não esqueçamos Wolf... Mas não importa: agora é Talese. É bom conhecer um pouco do submundo que habitam esses homens que transformam fatos às vezes corriqueiros em grandes histórias.

Novo

Pois é. Nasceu o mini blog

http://telog.com.br/sobretudodelona

Apareçam

Esparsos

Do caderno 17 C 2:

“,,, depois a noite e o silêncio. Unicamente essas expectativas para esse futuro incerto. Futuro de lutador que abandonou a luta há muito tempo, que abandonou o sorriso farto e solto, de ser que conhece a realidade e, de certa forma, desceu aos infernos e voltou. (…) verdade que não reafirma quem é como não reafirma “verdades” dessa vida brejeira, vida ordinária que corre tranquila como uma riacho virgem. Não ter nada e não lamentar. …. porque esse lamento é o do crente, do que espera respostas como um  Sísifo às avessas. Não existem respostas. …. exclusivamente o tempo a correr frente a frente, de forma livre, independente e liberta de ações. Não ser, portanto, mais um jogador. Não tentar interferir no movimento da Terra ou no dos astros. Basta a Estrela Guia. Movimentem-se pois à revelia, já que à  revelia tudo se deu: nascimento e morte. Força e fraqueza. Fim das esperanças pueris. (…) Desconhecer céus e terra, seus símbolos e lendas contadas de forma oblíqua deixados em documentos esparsos através dos tempos em que se acreditava nas empreitadas (…)

Alternativas fatais

Tempo que passa, tempo parado, dúvidas sobre o tempo tempo, essa opção pouco séria da existência. Quando o jipe de rodas enormes rodou pelas areias ferventes do imaginário de outra dimensão, me dei conta de que não estava mais aqui pelo simples motivo de que sentía-me vitimado: a perda de contato com minhas três pessoas, aquelas que entendiam um pouco melhor o processo em que ingressei no raiar dos tempos e até hoje é pouco compreendido. No dia em que decidi não explicar mais nada nessa terra malemolente (demais, às vezes) para as mesmas pessoas que reiteradamente insistem em não perceber esse meu óbvio que escorre daqui e dali, dessa gosma-vida refrigerada que empurra os ponteiros dos meu relógio desordenadamenete, sistólicamente, digamos. E nada mais aconteceu. Minha opção pelo silêncio ou pela filosofia do silêncio encontrou os ecos nos ouvidos moucos que partiram para outras plagas. Se me importo? Sim e não.

Sem nada… só

Busco a palavra de fé. A palavra que acompanha, diz, chora… Nenhuma delas se mostra assim para mim, são todas outras, acompanhadas do desprezo da amiga que ganhou o mundo num sucesso real, mas ambíguo. olha, moça…. SEM PALAVRAS

Rever…. rever…..

Existe uma utilidade toda especial no tempo em que estamos sozinhos, ao contrário do que parece. Os que consideram a solidão algo insuportável não se percebem totalmente, não percenbem ainda que, no fundo, estamos todo o tempo lidando cosnosco mesmo que hajam pessoas em volta. Estamos representando nossos papéis, nossas personas, nossos avatares cuidadosamente criados consciente ou inconscientemente. A insistência da não percepção do óbvio funciona apenas como uma espécie de ‘freio de mão puxado‘ que travamos (e impomos) com nossa própria existência assim formulada. Por isso muitas vezes acredito que o existencialismo deveria ser relido e novamente estudado, de forma a não deixar equívocos assim como está hoje. E quem acha isso tudo uma bobagem são aquelas pessoas que fecham e apertam bem os olhos fechados sempre que passam por um espelho.

A aventura de olhar-se

Existe um lado obscuro em todas as coisas e, portanto, na vida. Esse lado obscuro da vida não é conhecido por todos porque, na maioria das vezes, precisamos procurar muito para encontrá-lo. E esse encontro não é nada agradável. Imagino mesmo que esse lado obscuro é separado de uma “loucura” por uma linha tênue, muitas vezes confundindo  se uma pessoa está do lado de cá ou do lado de lá. E essa possível confusão dá-se exatamente pelo número reduzido de pessoas que se aventuram, por livre e expontânea vontade – muitas das vezes num exercício filosófico único e perigoso. Podemos observar que praticamente todos os filósofos e aqueles que estudam a alma humana já se exercitaram nesse “lado negro”. O que eu não tenho certeza é se vale  à pena tornar-se equilibrista sobre esse grande oceano traiçoeiro. Trata-se de uma aventura única e solitária e muitas vezes perigosa porque os outros homens difilmente sabem distinguir uma coisa da outra.

Se ou não ser

Existe uma forma de pensamento (com fumaças de cartesiano) que pode nos enviar para caminhos muitas vezes obscuros. Mas por quê? Isso aplicado à Teologia e à religião de uma forma geral ocasiona determinados “engarrafamentos emntais”, via de regra quando a dicussão cai para a crença metafísica ( se podemos chamar assim ) e um certo ateísmo atávico do ser humano (embora em 99% dos casos esteja presente de uma forma totalmente inconsciente). Freud escreveu muito sobre o seu ateísmo e Jung escreveu outro tanto pela sua fé inabalável em Deus. Diante dessa herança miscigenada apareceram mundo a fora várias concepções “filosóficas” – uns puxando para cá e outros, para lá. A solução individual é simplesmente uma profunda auto-análise e o livre arbítreo de cada um.

Mãe

A grande verdade é que desperdicei tempo demais.  Quanto tempo mais nós poderíamos ter estado juntos se eu permitisse. Quanto consolo nos daríamos mutuamente. Quantas tardes e noites maravilhosos… E eu fiz tudo errado… Eu nunca imaginei que minha mãe me faria tanta falta.

Do nada

O existencialismo pode ser tão falho quanto o criacionismo, mas parece-me mais transparente. Os dogmas do criacionismo me irritam, não por eles em si ou de per-si, mas pela dissimulação atávica do pensamento. Melhor seria dizer do não pensamento, das trevas mentais a que tentam induzir os de mais frágil espírito. E não se deve construir toda uma arquitetura filosófica apropriada para os de menos capacidade cognitiva. Isso seria (e é) patético)

Crítica Literária

Editado em 1961, só agora me chega as mãos esse precioso volume de “UM EXPERIMENTO NA CRÍTICA LITERÁRIA” de C.S. Lewis. Ainda nas primeiras páginas, percebo um livro interessante e importante…. principalmente para certas pessoas. (continua)

Livros, corações e mentes

Lendo ” Outro” de Bernhard Schlink. Best seller? Dizem que sim e daí? Desde quando um livro que agrada multidões, tem enormes tiragens e vira filme é necessariamente ruim? Boabagens. Criancices. Essa literatura que nos cativa, prende, que minusturamos à nossa própria existência… que recoloca mais uma vez que vida e a literatura se entrelaçam, que num momento dominamos o livro e, em seguida, somos nós, antes personagens que o autor deixou de nos escrever.

O estudo da filosofia continua, não é nada simples (embora o seja). De qualquer forma, por preservação, deve manter-se guardada em mim. Acredito que o anonimato seja importante. Muito importante pelo menos num primeiro momento. No mais, é sorrir quando for possível

Pesadelos

Não venho sumido assim como me dizem alguns companheiros via e.mail. Bem verdade que não tenho postado aqui diariamente e a lista de motivos é tão longa que nem vale à pena começar. E ando afastado dos meus livros comuns tamanho está o meu envolvimento com o estudo de uma determinada filosofia. E como a minha movimentação pela cidade anda pequena… resulta então uma falta de assunto que possa interessar a alguém daqui. Antes de ontem coloquei um ponto final no conto que venho  escrevendo há quase um mês. O tema, comum, é sobre uma mulher e seu amante que, subitamente passam a perceberem o outro numa epécie de dimensão extraordinária, a visão apenas dos IDs de cada um. Até o suporte  profissional/psicólogico não funciona porque ninguém dessa área está acostumado a tratar de personas assim, já expostas (como um cirurgião não está acostumado a operar pessoas sem as devidas ‘carnes’ a serem invadidas pelo bisturi).  Acho todo o produto simples, quase banal, mas alguns amigos e conhecidos que leram disseram que gostaram muito (o que pode ser unicamente ‘bondade de amigos’)… Eu tenho pesadelos à noite.

Eu, elefante em loja de cristais (cartas)

Há um tempo atrás, num momento em que eu estava profundamente irritado postei uma reclamação contra uma senhora de idade de uma forma nada elegante. Hoje, muito tempo depois, recebo correspondência (justíssima) da filha da octogenária livreira. Ei-la:

prezado Geraldo,
Somente hoje, dia 12 de maio, tive conhecimento sobre seus comentários,
feitos em 29 de janeiro último,  a respeito da “mulher com sotaque”  que
lhe atendeu por telefone aqui na livraria.
Esta “mulher” é uma senhora de mais de 80 anos, italiana de nascimento,
e por acaso, minha mãe.
Como já dizia o saudoso Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra, não
se pode agradar a todos, todo o tempo.
Minha mãe não é “dessas estrangeiras que fizeram fortuna no Brasil”,
senão não moraria num apartamento mediano em Copacabana, não andaria num
Peugeot  fabricado em 2000, nem continuaria a trabalhar passados os 80.
Não se deita em louros passados, não fica se vangloriando nos jornais,
continua trabalhando duro.
Me pareceu sentir no tom de seu blog um rancor contra estrangeiros, como
se os únicos habitantes realmente autóctones de nossa terra não fossem
apenas os índios. (Aliás, me parece que Iglésias deve ser espanhol, não
é mesmo?). Ser “mulher” e ainda por cima “gringa” não é defeito, é
condição contra a qual nada se pode fazer, assim como ser “negro” ou
“japonês”.
Também estranho sua opinião a respeito do suposto local de moradia dos
“intelectuais”, apenas “fora do Rio”, ou “Ipanema-Leblon”. Saiba que há
vida inteligente em vários outros bairros do Grande Rio, muito além do
perímetro Arpoador-Dois Irmãos, não apenas em Copacabana, Flamengo,
Botafogo, Laranjeiras, mas também na Tijuca, no Méier, na Ilha do
Governador, em  Olaria, Campo Grande, Niterói,  ou seja, em todos os
lugares do Estado do  Rio de Janeiro!!Talvez você tenha querido se
referir às recentes “celebridades globais”, que não ultrapassam as
fronteiras do Jardim Botânico, mas que, infelizmente, com  raras e
honrosas exceções, pouco ou nada lêem…
Fnac ( na Barra) e Saraiva (em vários bairros), ambas grandes empresas
do tipo SA, podem ter várias qualidades, mas certamente não são
especializadas em livros importados ou raros, nem pretendem sê-lo, pois
fundamentam sua estratégia de marketing na venda em altos volumes de
best-sellers, e também de outros produtos que não livros.
Perguntar qual era exatamente o “livro Negro” que você procurava não foi
“deboche”  nem “crítica”, ninguém consegue acompanhar  o número nem a
velocidade dos lançamentos que jorram diariamente das editoras.
Ninguém é perfeito, e isto nos permite melhorar sempre, ao reconhecer
nossos defeitos, mas me parece que seu objetivo não era realmente fazer
uma queixa (poderia ter enviado uma mensagem via internet, reclamando),
e sim apenas extravasar seu aborrecimento, jogando-o na rede. Você pode
não ter gostado do “jeito” com o qual minha mãe respondeu ao telefone,
mas lhe garanto que não havia qualquer intenção de ofendê-lo.
Quando tiver tempo, venha passear no centro da cidade, verá que há
muitas atrações por aqui, teremos prazer em lhe oferecer um café e uma
água !
Até breve,
Milena Piraccini Duchiade
(filha de pai romeno e mãe italiana, nascida no Rio de Janeiro,
brasileira com muita honra)”

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Ao que respondi:

Milena

Há dois anos e meio, resido no centro do Rio, próximo à Lapa.
Não pretendi denegrir sua mãe (que conheço pessoalmente). E sua livraria é
sem dúvida importante na formação cultural da nossa cidade.
Realmente meus avós são espanhóis com muita honra. Eu não disse que só havia
vida inteligente na zona sul. Disse que eles (eruditos) se “mudam para lá”.
Apenas uma coisa eu reafirmo: sua mãe (talvez em função da idade – o que é
plenamente justificável) nem sempre é muito gentil num primeiro momento de
atendimento. Não é possível que você jamais tenha percebido isso ou ninguém
tenha falado.
O blog são minhas memórias e não procuro nenhuma fama ou sensacionalismo.
De toda forma se, contra minha vontade, fui agressivo, se ofendi, quero
reparar meu equívoco e pedir sinceras desculpas.
obrigado
Geraldo Iglesias”

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E ela a mim para finalizar:

Prezado Geraldo,
Fico feliz por sua resposta, tão rápida e gentil !
Concordo que minha mãe, às vezes, é ríspida e impaciente (aliás,
estes também saõ defeitos que tenho, e dos quais tento me policiar, nem
sempre com muito sucesso).  Eu mesma lhe digo com frequencia que  é
preciso ter mais calma, mas saiba que não é fácil, a idade tende a nos
tornar mais ranzinas e rabugentos…Desculpas feitas, desculpas aceitas,
de parte a parte, seguimos em frente…
Será de todo modo um prazer conhecê-lo pessoalmente. Não se preocupe em
divulgar minha mensagem,  faça como achar melhor.
Enquanto isso, aqui ficamos, insistindo, persistindo e resistindo às
lojas da internet, às grandes redes, aos camelôs, às feiras de livros,
etc e tal.
Até breve,
um abraço,
Milena”

Almodóvar

“Caminhando e cantando e seguindo a nossa canção”. E qual é a minha canção? Depois de Caetano, Tom jobim… não sei. A canção é uma coisa tão importante, tão séria que eu acho meio bobo quando se diz que “se gosta de música”. Se gosta de literatura, se gosta de artes plásticas? Sim. Mas dessa maneira? Assim tão genérica? Tom é igual a música sertaneja? Preconceitos à parte, eu acho que não, que não é assim. E como é eu também não sei dizer. Espero que alguém me diga. Sei que os dias continuam amanhecendo com um sublime e emocionante céu vermelho (digno de Almodóvar)

Céus vermelhos da minha terra

Tava tentando escrever no glorioso I. Explorer e nada acontecia. Ele come as letras que digito e olha que digito mui lentamente. Coisas da Microsoft. Então, Viva o Mozilla!. Isso não vem ao caso. Bom, tentei postar a foto, mas não consegui… sei lá o porquê. Enfim, era um céu absolutamente vermelho (lindo!) com fiapos de nuvens. Quando morei numa casinha de campo em Secretário costumava ver sempre o sol nascer e, nascer avermelhado significava um dia belo e frio. Era quando eu juntava a lenha para mais tarde preparar a lareira. Já por aqui parece que não é a mesma coisa: o dia nasceu finalmente e, para minha surpresa, chuvoso. Chove e, eventualmente, faz sol numa espécie de traquinagem de São Pedro. De qualquer forma, de uma maneira ou de outra, o céu é belíssimo. O céu é a expressão da própria vida. As pessoas que andam olhando o chão, muitas vezes perdem um espetáculo inesquecível. Tem gente que faz análises e ‘prevê’  o futuro através da posição dos astros. Nisso eu não acredito. Antes, acredito numa beleza ampla e plena da vida incluindo as matas, o céu e mesmo o concreto, o asfalto e a fumaça. Cada um vive a vida na época em que veio para viver. Igualmente ocorre com as pessoas: umas mais belas, outras não tanto. Porque vale a beleza interior, vale a percepção que cada um tem do outro e, simultaneamente, do todo. Nem sei mesmo porque falei dessas coisas.

Tanto mar

Acabo de receber um presentão do nosso Mr. Almost. Fiquei pensando se deveria contar o que havia dentro da sacola que atravessou o oceano em minha direção… Sim ou não? Perdi alguns segundos pensando, mas me convenci de que realmente o NÃO era a resposta correta. Não vou contar até porque as pessoas que me conhecem minimamente saberão, com certeza, advinhar. O habitante do priorado não é então o pior Homem do Mundo. Por outra: pode ser, dependendo de quem o vê bem como do ângulo que o percebe. Dirão os incautos, os de cognição ralentada que esse “elogio” ocorre pelo presente recebido. Nada mais falso. O que aconteceu de fato é que demorei a entender (ou aceitar) esse amigo que a  “tanto mar” está distante. Ou seja: foi um problema meu que ele soube ‘utilizar’ (rsrs) muito bem, tratando de me irritar bastante. Já de muito tempo nos correspondemos e eu passei a admirá-lo muito. E agora, surpreso, absolutamente surpreso, recebo essa gentileza. O resto, meus caros, é o RESTO


Homenagem ao Homem do Priorado

Nada muda?

Os de mal com a vida poderão não me entender bem, podem até achar que é despeito, mas não é.  Realmente o programa do Ancelmo Gois (Domingos, TV Brasil, 18 h) é muito melhor do que o confuso folhetim que o antecede. Não mudou nadinha e o que fez foi para pior. Uma pena. Parabéns à dirção do “De lá para cá”, a Ancelmo Gois e à Vera Baroso.

Absoluta falta de estrutura (egos, egos em profusão)

Não se trata absolutamente de chorar o leite derramado ou de não estar “aberto para o novo”. Nada disso. Os funcionários da extinta TVE do Rio de Janeiro, Brasília e Maranhão viram com receio a criação da TV Brasil, assim como foi feita, através de medida provisória. Um ano e meio depois de implantada (e o término oficial da TVE) havia um enorme desconforto entre os antigos funcionários, ora pela forma da invasão feita pelas pessoas de São Paulo, ora pela (nenhuma) experiência no ato de fazer uma televisão de qualidade. Bem verdade que traziam propostas interessantes (como a troca de programas entre o Rio e televisões regionais, a troca da cultura entre os estados bem como uma visão diferenciada de alguns países como os da África por exemplo.

Mas não foi assim que aconteceu. A equipe que chegou era tremendamente agressiva, prepotente (só eles sabiam a verdade) não acreditava no potencial dos funcionários que ‘tocavm’ a TVE há não sei há quantas décadas. E o que fez a TV Brasil de revolucionário? Nada! As mudanças que houveram na programação com documetários e filmes nacionais poderia igualmente ser feita pela TVE desde que orientada para isso. Os meses foram se passando, a guerra de egos dos que chegavam em cargos comissionados de ‘gerentes’ foi aumentando,,, apesar das inúmeras ‘trocas de cadeiras’. Agora vem toda essa bosta no ventilador – ainda que bastante racional e mostrando todas as irregularidades da nova TV – bosta essa tornada pública pelo ex-diretor de programação e conteúdo, Leopoldo Nunes. (E já corre um boato de que alguns gerentes estariam “caindo” – esses que por altos salários, acreditaram que uma televisão publica, poderia chegar assim, de cima para baixo, de afogadilho, por MP).

O que resta saber é se a sociedde organizada, os intelectuais e os produtores de cultura vão entrar nessa luta para ajudar a todos e ao Brasil a possuir e disponibilizar uma verdadeira TV Publica

Várias histórias

Breves conversas nos arredores me dão conta de que não foi bem assim a história na TV do Lula. Na verdade, Leopoldo Nunes já tinha sido demitido quando deu a entrevista bomba. De uma forma ou de outra, tem muita gente de cabelo em pé.

Funrdunço da TV Brasil

O furdunço Na TV Brasil continua (e quente) Tive contato com inúmeros e.mails de produtores independentes – alguns mesmo radicalizando. Pelo que entendi, a Presidente da EBC quer exercer mais de uma função, que ela não foi escolhida através de uma lista tríplice como deveria ser e muito menos escolhida pelo presidente da república e sabatinada pelo congresso. Dizem ainda que o conselho deliberativo não apita  e nem reuniões tem mais. Enfim…. pouco a pouco vai aparecendo a verdadeira face dos que fazem essa televisão, dita pública. Ou seja: a desorganização entre eles só gerou até agora poblemas. E agora foi a gota d’água. Ouvi muita gente valentinha dizendo que sairia junto com Leopoldo o diretor. E agora? Será verdade ou vão procurar um cantinho para continuares na ‘bocadinha’?

São muitos e muitos mails se solidariezando com Leopoldo, o diretor que foi demitido. Escolhi um que demonstra claramente o descontentamento com toda essa confunsão:

Subject: Carta de Beth Formaggini

É com grande preocupação que vejo a saída de Leopoldo Nunes, diretor
de Programação e Conteúdo da TV Brasil. Mesmo com todos os problemas
que a Tv  enfrenta hoje já começavamos a perceber um diferencial na
sua programação. Principalmente se comparamos com o modelo perverso de
televisão que existe no Brasil. Um modelo que ignora o cinema
brasileiro de ficção, o nosso documentário, o curta-metragem, a
animação, enfim, que não exibe a produção independente que,
infelizmente, só podemos ver nos festivais de cinema ou, em menor
escala, no gueto do Canal Brasil e que estávamos finalmente assistindo
na TV Brasil.

Temo que haja um retrocesso com a saída do Leopoldo, que foi um
articulador politíco deste  projeto, fruto de muito trabalho e
discussão, que sonhou conosco com uma TV pública gestora de conteúdos
produzidos pela sociedade e não apenas produtora de conteúdo como
todas as outras emissoras que produzem quase tudo que põem no ar.
Contra este modelo perverso de TV travamos muitas discussões e lutas
nos Comitês, e depois no Forum Nacional pela Democratização da
Comunicação, dentro da APACI, ABRACI, ABDS, CBC, Sindicato dos
Jornalistas. Foram anos de debate que finalmente desembocaram no Fórum
da TV pública. Conhecemos a derrota na nossa luta pela ANCINAV, que
mobilizou todo o país, e que foi derrubada, quem sabe, pela mesma
força que hoje está afastando este diretor. Quem garante que a saída
dele não é sinal da derrubada de um projeto de TV que Leopoldo
representa? Já assistimos a mudança da gestão da TV Pública do MINC
para a Secretaria de Comunicação Social e a saída de Orlando e Mario
Borguineth. Quem  garantirá agora o cumprimento deste compromisso,
firmado na Carta de BSB e endossado pelo presidente Lula, com toda a
classe, de criar uma TV verdadeiramente pública?

Para garantir estas conquistas, a primeira coisa que podemos fazer é
realmente exercer um controle social sobre a nossa TV. Mas como
fazê-lo com um Conselho Curador que não foi eleito, que não se reúne,
que não tem um representante do produtor audiovisual independente?
Temos que exigir que o conselho seja reformulado, com representantes
eleitos numa comissão que inclua todos os setores da sociedade,
inclusive o nosso.

O Conselho deve averiguar com urgência as graves denúncias contidas na
entrevista de Leopoldo, de que foram devolvidos R$ 18 milhões aos
cofres públicos no ano passado. E averiguar porque não lançaram os
editais referentes à verba de R$ 100 milhões do PEF (Programa Especial
[WINDOWS-1252?]de Fomento) e do “Mais Cultura”, destinada à programação da
produção
independente. São denúncias graves, que não podemos ignorar
passivamente. O Conselho tem que averiguar! Ou não?

Teremos agora, diante de nós, a oportunidade de discutir a TV Pública
que queremos e o Conselho que necessitamos na Conferência Nacional de
Comunicação, em dezembro, e nas reuniões preparatórias onde poderemos
exigir mudanças na TV Brasil e nas Tvs privadas. Na verdade concessões
públicas que deveriam também  sofrer o controle da sociedade e ter um
diálogo com a produção audiovisual brasileira.

Concordo com Assunção, que diz que o pacto que se fez para a rápida
[WINDOWS-1252?]aprovação da atual TV pública foi para evitar que “o destino
desta TV,
fosse o  mesmo do projeto da Jandira Feghali, que está há 18 anos
[WINDOWS-1252?]circulando como barata tonta no Congresso”.
[WINDOWS-1252?]Como ela diz, “quando concordamos com aquela proposta, todos
previmos
[WINDOWS-1252?]que haveria um segundo tempo nesse jogo, o de transformar, .
essa  TV
[WINDOWS-1252?]Brasil, na nossa  verdadeira TV Pública.”

Então vamos repensar o Conselho, a gestão da EBC e. ainda citando
[WINDOWS-1252?]Assunção, assegurar “que os programas  produzidos internamente,
incluindo o jornalismo, não ultrapasse  de  30% de tudo que for
[WINDOWS-1252?]exibido em toda grade” e que “a escolha do Presidente da TV 
deve sair
de nomes  indicados  em lista tríplice  que o Presidente da República,
recebe,  escolhe um nome  e encaminha ao Congresso para  ser
[WINDOWS-1252?]sabatinado e aprovado ou não.” E, ainda, que “o mandato da
Presidência
 da TV Brasil, não deva coincidir com o mandato da Presidência da
República, para que  seja efetivamente um gestor público e  não
[WINDOWS-1252?]estatal ou governamental.”

Acho que perdemos mais uma batalha, mas acredito que este baque vai
renovar as nossas forças, para que possamos realizar nosso sonho de
uma TV pública de verdade.

Beth Formaggini
Produtora independente

A coisa continua

Salvo algum equívoco. corre que Leopoldo Nunes, Diretor da TV Brasil foi demitido após está entrevista concedida a Renato Rovai para a Revista Fórum.

 

Diretor da TV Brasil teme pelo projeto e diz que Cruvinel é má gestora

Por Renato Rovai
Fórum – O senhor avalia que a TV Brasil tem desempenhado o papel para
a qual ela foi criada?
Leopoldo Nunes – Acho que de alguma forma sim. O mais positivo de tudo
é em relação à produção nacional de audiovisual. Porque a mídia
comercial e a televisão aberta sempre estiveram alijadas de todo o
processo de produção audiovisual brasileira. A TV aberta no Brasil se
constitui como uma TV de qualidade basicamente nos anos 1960 com a TV
Globo, que numa aliança com a ditadura militar e num acordo com o
grupo Time Life cria uma grande empresa de comunicação. Foi ali que se
criou uma referência, um padrão de televisão brasileira. Tudo o que se
faz em televisão brasileira hoje é derivado ou imitação daquilo que
foi a Rede Globo, principalmente no modelo de negócio. Por exemplo, o
cinema brasileiro foi substituído pela teledramaturgia. A
teledramaturgia é uma produção de baixíssima qualidade, mas de grande
interesse popular. Vende xampu, exporta seus produtos para o mundo. As
pessoas ouvem como se fosse rádio, ela vem da matriz cubana da radio
novela. Mas mesmo assim é uma coisa de qualidade.
No jornalismo é a mesma coisa. Tivemos experiências como o Última
Hora, mas de qualquer forma a matriz é a mesma. É o padrão Rede Globo.
Então, quando se cria a TV Brasil, vê-se a aspiração da criação de um
modelo de negócio e de um modelo de produção de conteúdo para compor
essa televisão. Por exemplo, em relação à programação infantil. Nós
temos uma animação no Brasil de altíssima qualidade. Por exemplo, 20%
do (filme) “Asterix” foi feito em Águas de Lindóia, o
diretor de “A Era do Gelo” é brasileiro, exportamos
mão-de-obra da mais alta qualidade para fazer isso. No entanto, a
televisão brasileira nunca absorveu a animação brasileira.
Quer outro exemplo? O Maurício de Souza tem uma das maiores famílias
de personagens de animação do mundo. E comparado com a Walt Disney
seus personagens são mais politicamente corretos. Os árabes usam, os
chineses usam, enquanto não usam [os desenhos da] Disney. E aqui no
Brasil ele é pouco usado. A verdade é que a TV brasileira está de
costas para o Brasil. Bem, acontece que a Constituição brasileira
prevê nos seus artigos 221, 222 e 223, o princípio da
complementaridade entre o público, o privado e o estatal.
O privado, quer nós gostemos ou não, é o modelo que deu certo; o
estatal passou a existir com a Lei do Cabo em 1995, com as TVs
Assembléias, das Câmaras Federal e Municipal e do Senado. Já o
(modelo) público surge com a criação da EBC. A lei que cria a EBC cria
o termo público, porque até então era educativo. Todas as TVs eram
educativas. Dentre as educativas, nós temos 26 emissoras e 19 modelos
jurídicos diferentes. Desses 19 modelos, temos um que é exemplar, que
é o da Fundação Padre Anchieta de São Paulo. Sai governo, entra
governo, a TV Cultura de São Paulo está aí. Ela tem um conceito forte,
uma diretoria executiva, é ligada ao governo do Estado, tem uma
produção de qualidade e exerce bem sua função. É a mais sólida de
todas as emissoras que a gente e que inclusive ajudou e muito a criar
a TV Brasil. Foi um dos berços que clamava por uma TV pública.
Por isso, quando nasce a TV Brasil, ela vem com toda uma esperança de
se colocar no ar uma nova programação. Por exemplo, as pessoas não
conhecem a África? Então eu abri uma janela de produção africana
chamada “DOC África”, que agora vai passar a se chamar
“Mama África”. Toda semana passa um documentário africano.
Na semana retrasada, por acaso, entre os 10 programas de maior
audiência da casa havia um filme africano. O mesmo que acontece em
relação à África, também se dá com a América Latina, ninguém conhece.
Por exemplo, você sabia que existe uma cidade andina na Colômbia que
respeita as leis incas e tem curso de Direito, uma universidade de 600
anos e que responde a leis incas? Pois então, criamos o Tal Como Somos
que apresenta documentários latino-americanos. Além disso, temos uma
série de programas com o Ministério da Cultura.
É este o modelo sistêmico que nós criamos na Secretaria do Audiovisual
voltado para a TV pública. Além disso, temos uma série de programas
voltados para a cidadania, desde questões de idade, de gênero, de
trânsito, de educação básica… Mas há outras coisas. Por exemplo, nós
temos 180 línguas indígenas no Brasil. Nós temos uma diversidade
lingüística maior do que a China, maior do que a Índia, e não
reconhecemos. Nós somos brancos ocidentais. Índio, para a gente, é
motivo para abate, porque ocupa uma área muito grande onde é possível
produzir “x” sacas de arroz, como no caso da Raposa Serra
do Sol. Hoje, a TV Brasil apresenta curtas-metragens indígenas. Por
fim, sempre entendemos que o público brasileiro gostava de cinema
brasileiro. E a TV Brasil está provando que gosta. Das 10 maiores
audiências da TV, semanalmente medida, quatro são de cinema
brasileiro. O povo ama cinema brasileiro.

Fórum – Você considera que a TV Brasil está fazendo um caminho de
construir esse padrão público a partir dessas iniciativas? Ou eles
ainda são incipientes e demandariam um investimento maior?

Nunes – Certamente já são caminhos irreversíveis. Nas audiências da
semana retrasada, duas delas são de América Latina, uma de África, uma
de DOC TV, quatro de cinema brasileiro. Isso está sendo medido através
do Ibope e demonstra que estamos no caminho certo. Quero ver a TV
pública brasileira deixar de exibir produção indígena sem revelar os
povos indígenas. Quero ver a TV pública sobreviver sem exibir um
documentário ou um filme de ficção africano por semana. Isso é
irreversível. Outra coisa irreversível é a produção independente. Ela
tem muito mais qualidade técnica, humana e tecnológica do que se pode
vir a ter na estrutura da TV pública ou mesmo da TV comercial. Porque
a TV é um conglomerado de “x” mil funcionários, equipamentos de 5ª, 6ª
geração e tal. Eu contrato uma boa produção, exerço meu poder de
programação e meu poder editorial e exijo qualidade e preço. No mundo
todo é assim. As TVs a cabo no Brasil trabalham com 26 funcionários,
incluindo estagiários.

Fórum – Existe uma disputa dentro da TV que a gente que está de fora
não consegue entender direito? Aliás, isso até foi matéria na
CartaCapital, os cineastas versus os jornalistas…

Nunes – Existem disputas e existem falsas disputas. Por exemplo, a
disputa que foi colocada na CartaCapital, jornalistas versus
cineastas, é uma falsa disputa. Agora, uma disputa real, que existe, é
o fato de nós termos um projeto que foi gestado há muitas mãos durante
décadas, que a gente acredita que são valores brasileiros da
diversidade cultural – nós assinamos e lideramos a Convenção da
Diversidade Cultural –, a riqueza e a qualidade da produção
independente, da informação, isso tudo é o projeto original, porque
esse projeto está escrito nos cadernos do Fórum da TV pública, e na
Carta de Brasília. Esse documento é fundante da esperança, porque nós
conseguimos fazer um pacto. Nós juntamos sindicatos de jornalistas e
outros, o FNDC, as associações de produtores independentes, governo,
órgãos de controle e fizemos um grande pacto. Ele foi traduzido em
alguns documentos, o presidente Lula lançou esse programa. Mas existe
conflito com outro programa que está sendo desenvolvido pelos
remanescentes de outras emissoras de televisão que não tem qualquer
compromisso com esse projeto a não ser dizer “eu ajudei na
Constituição de 1988”. Ajudar, pode ter ajudado, mas nós também,
não é verdade?
Então, coisas que nós criamos que estão consagradas hoje como valor da
TV Brasil foram sendo apropriadas e tocadas por pessoas sem o menor
compromisso e sem a menor referência com esse movimento de criação da
TV.

Fórum – Você poderia nomear as pessoas?

Nunes – Não, não dá. Acho que tem coisas como, por exemplo, o Conselho
Curador. Qual é o papel do Conselho Curador?

Fórum – Esse Conselho Curador deveria ter sido eleito, você não acha?

Nunes – Eu acho. Sou um homem de governo e, acima de tudo, alguém que
representa um setor, um campo da cultura. Tenho uma vida muito mais
identificada a minha luta setorial no âmbito da cultura e do
audiovisual do que a um projeto político partidário, apesar das
relações políticas que tenho e que, aliás, tenho orgulho de tê-las.
Mas preciso dizer que não estou na TV Pública para servir apenas um
governo. Estou trabalhando para um projeto duradouro, para um projeto
de Estado. Por isso, não tenho o direito de não ser franco com você a
quem conheço de muito tempo e dessas tantas lutas pela democratização
das comunicações, discordo inteiramente da forma como foi constituído
esse conselho e da forma como ele vem se desmelinguindo. O Conselho
hoje mal se reúne…

Fórum – Como assim?

Nunes – Vários conselheiros pediram demissão, vários são
demissionários, o presidente (Luiz Gonzaga Belluzzo) não vai, até
porque ele hoje é presidente do Palmeiras. Sinceramente esse conselho
deveria convocar uma audiência pública, com as entidades interessadas
e legítimas que compõem todo esse rol entre o conteúdo e a
comunicação, para discutir o seu papel e os próprios rumos da TV. Hoje
uns poucos tem decidido tudo e, infelizmente, mesmo eu que sou diretor
muitas vezes não sou convidado a participar dessas decisões.

Fórum – Isso que você está dizendo é muito grave. Você está me falando
que há uma relação autoritária na TV até nos espaços de diretoria?

Nunes – Sim, de certa forma é isso que você entendeu. Não há relação
horizontal na TV. Hoje a relação lá é completamente vertical. Quem
manda na TV é o Conselho de Administração e o ministro Franklin
Martins. Depois que o Orlando Senna, que é uma figura pública
reconhecida, e o Mario Borgneth saíram quem assumiu a diretor-geral é
uma pessoa completamente sem qualificações para o cargo. Renato, não
tenho coragem de dizer outra coisa para você. O Paulo Rufino,
responsável pela diretoria-geral, é alguém cujo trabalho, por exemplo,
absolutamente desconheço. Não posso dizer o mesmo da diretora de
Jornalismo, a Helena Chagas, com quem eu tenho uma excelente relação.

Fórum – E a presidente, a Tereza Cruvinel?

Nunes – A Tereza Cruvinel não é uma pessoa aética, longe disso, mas
como te disse que seria franco nesta entrevista preciso dizer que
desconheço qualquer experiência dela em gestão pública. E acho que tem
feito uma falta danada a ela. A EBC é uma empresa muito completa e
acho que lhe falta experiência para tocá-la. Eu torço muito para que
tudo dê certo, porque o ano que vem é um ano eleitoral, nós vamos
seguir a partir de 1º de junho uma legislação específica, ou seja, nós
temos três meses para fazer todas as coisas e, dentre as nossas
atribuições, está a constituição de uma rede nacional.

Fórum – A crítica que você faz à Tereza é bastante específica. Você
disse que o problema é que ela não tem experiência de gestão. Esse
poderia ser um dos motivos que está levando ao atraso da constituição
da Rede Pública? Nunes – Sem dúvida nenhuma. Por exemplo, ela devolveu
R$ 18 mi aos cofres públicos no ano passado.
Fórum – Como assim… isso não foi divulgado?
Nunes – Não. A sua categoria (jornalistas) é muito corporativa. Não
foi divulgado. Mas 18 milhões viraram pó, superávit primário.
Fórum – Qual o orçamento da TV, o que isso representaria?
Nunes – Foi em torno de R$ 300 milhões em 2008.

Fórum – Mas, por exemplo, qual era o custo da produção de rede, no ano
passado?

Nunes – Era de R$ 12 milhões. Com R$ 12 milhões, eu teria produzido em
todas as regiões do Brasil programação infantil, programação
científica, história dos rios brasileiros, estradas brasileiras,
estradas de tropeiro, turismo, tudo. Poderia ter sido feito no ano
passado e estaria estreando agora em março ou abril. Com R$ 6 mi que
sobrariam poderia ter sido feito, por exemplo, reformulação dos
programas da casa que são importantes, reconhecidos, de grande valor
público cultural e informativo. Outra coisa grave, em termos de
gestão: foi aprovado em agosto de 2007 o Plano de Cargos e Carreiras,
porque nos temos três anos para promover concursos internos, aprovado
pelo DEST, que é o departamento de estatais. Aí a presidente resolveu
interferir na negociação, e para o azar dela e nosso, veio a crise
internacional. A não ser que seja uma benevolência muito grande do
presidente Lula, tudo indica que não teremos o concurso neste ano. Ou
seja, perdemos outra oportunidade.

Fórum – Pelo tom da sua entrevista, você parece estar muito
decepcionado, você pretende ficar na TV Brasil ou está de saída?

Nunes – Eu não só pretendo ficar, como sou uma referência no setor
audiovisual, dos longas-metragistas, dos curtas-metragistas, dos
animadores, dos documentaristas. É uma responsabilidade minha ficar e
fazer o debate. E ajudar a construir a TV Pública que nós sonhamos,
que nos lutamos para criar. O que acontece é que a gente vê o tempo
passando e algumas pessoas se aproximando da TV sempre como salvadores
da pátria, mas são pessoas que nunca participaram desse tipo de
discussão. O trabalho que nós fizemos está todo aí feito, colocado,
reconhecido. Agora, tem gente que porque trabalhou na televisão
comercial fazendo programas como “Sex Shop” em Shoptime se acha no
direito de dizer que sabe mais.

Fórum – Isso é uma metáfora ou você está dizendo algo que de fato existe?

Nunes – Não é metáfora não. Tem gente lá assim. Claro que não é uma
pessoa que participou do debate da TV pública como você participou.
Não é uma pessoa que tem alguma história pela democratização dos meios
de comunicação como eu e você temos. E tampouco quer dizer que você
seja o máximo ou que eu seja o máximo. Mas há pessoas que não têm a
menor referência, aí eu vejo um risco enorme de a TV se perder.

Fórum – O que estou entendendo é que há um grupo que não tem
compromisso público e que está se tornando majoritário na TV Brasil, é
isso?

Nunes – Talvez fosse melhor dizer que quando você entra em uma época
de crise, aparecem dois tipos de pessoas: os oportunistas e os
puxa-sacos. Isso é muito comum e está acontecendo agora na TV Brasil.
E me preocupa muito, porque este movimento é histórico da sociedade
brasileira, e eu não o vejo sendo conduzido com a responsabilidade que
ele merece. E mais: vejo a preocupação de muita gente na Esplanada,
nas bancadas parlamentares do setor progressista, nos movimentos
sociais, nas áreas setoriais e organizadas em relação a isso. E por
isso decidi que é hora de tornar esse debate público. E escolhi fazer
isso para você porque sei dos seus compromissos. E sei que você não
vai transformar isso num ataque ao projeto, mas num debate sobre ele.
Tenho um nome, uma história e por isso me cabe colocar esse debate de
forma legítima. E coloquei isso internamente antes de ter ligar
dizendo que aceitaria te dar essa entrevista que na verdade você já
havia me solicitado no final do ano passado.

Fórum – E como está sendo realizado esse debate internamente?

Nunes – A presidente não gostou. Ela sugeriu que eu peça uma licença,
que eu me afaste um tempo. Ela me chamou e disse isso, o que te
parece? A coisa está ficando grave. O projeto democrático de
comunicação e de conteúdo está perdendo a luta interna. Uma luta,
aliás, que não deveria existir. Por exemplo, no ano passado por
decisões equivocadas da presidência rasgamos R$ 100 milhões em
editais. Havia a possibilidade de se conseguir para a produção
independente R$ 60 milhões de um programa chamado PEF (Programa
Especial de Fomento) em parceira coma a Ancine (Agência Nacional de
Cinema) e R$ 40 milhões que o Ministério da Cultura preparou para a TV
pública, chamado “Mais Cultura”, que era destinado ao
Audiovisual. Criaram tantas dificuldades que esse dinheiro não veio.
Ou seja, rasgamos R$100 milhões. Isso poderia ter significado uma
revolução na produção audiovisual brasileira. Literalmente uma
revolução. Mas ao contrário, travou-se uma disputa de poder interno,
onde rolou a cabeça do Orlando Senna e do Mário Borgneth.

Fórum – O Orlando saiu por causa dessa disputa?

Nunes – Sim.

Fórum – E na época você decidiu ficar…

Nunes – Para conduzir o projeto até o outro lado da margem.

Fórum – Pelo que estou entendendo a Tereza Cruvinel está pedindo que
você saia…

Nunes – Ela quer hegemonia. Ela quer fazer a TV dela, não a pública.
Infelizmente do jeito que está o projeto da TV pública não sai. O que
vai ficar aí vai ser um pastiche. Agora, é preciso dizer também que
hoje a TV pública tem uma equipe fabulosa. Eu, aliás, trabalhei como
um louco para construir essa equipe. E tirando o jornalismo, tudo que
está na TV foi essa equipe que fez. Agora, o presidente Lula não sabe
disso. Na verdade, quem entendia e defendia no governo uma TV
realmente pública era o Gilberto Gil. Porque quem fez o Fórum de TVs
Públicas foi ele. Quem quis peitar a Ancinave (Agência Nacional do
Cinema e do Audiovisual) foi o Gil. Quem quis peitar a Lei Geral de
Comunicação de Massa foi Gil. Quem deveria tocar a TV Brasil era o
Gil. Eu acho que se isso tivesse ocorrido ele teria ficado no governo.
E hoje teríamos caminhado muito mais, teríamos um projeto a essa
altura muito melhor, de altíssima qualidade.

Fórum – Você saiu da Ancine com mandato para ir pra TV pública, hoje
você considera que errou?

Nunes – Abri mão de um mandato eleito pelo Senado em comissão e em
plenário. Meu mandato iria até dezembro de 2010. Mas de forma nenhuma
me arrependo de ter tomado essa decisão. Eu contribuí demais com a TV
Pública e quero continuar contribuindo.
Não vou tirar a licença sugerida, minha intenção é continuar na TV e
com esse debate público redirecionar seus rumos. Agora, se a
presidente quiser me demitir ela pode fazê-lo. Mas não deixarei de
fazer o debate por conta disso. Já disseram antes, né? Mas não custa
repetir. Sou o mesmo no planalto e na planície. Eu precisava tornar
público esse debate. E espero que a presidente da TV tenha
tranqüilidade para realizá-lo. Não podemos nos amesquinhar, o que
estamos construindo é muito maior. É algo que não pode ficar restrito
a fulanizações, a disputas de poder.

Fórum – Mas pelo jeito há uma grande diferença de projetos, é possível
trabalhar juntos?

Nunes – Sim, com republicanismo e legalidade. Em lei, há marco legal,
que define competências. República é um pacto.

Fórum – Sinceramente, Leopoldo, qual o seu objetivo ao trazer esse
debate a público neste momento?

Nunes – Nós estamos no mês quatro de 2009 e pela lei só temos até
junho de 2010 para tocar as coisas. Depois termina o mandato do
presidente Lula. E em TV é tudo demorado, não dá pra decidir hoje e
fazer amanhã. O que eu quero com essa entrevista é chamar a atenção
das pessoas que são co-responsáveis pela criação desse projeto, um
projeto que não tem dono, um projeto público, para os riscos que ele
está correndo. Nós temos algumas agendas importantes nesse ano, vai
ter uma Conferência Nacional de Comunicação, nós temos conferência da
CUT, uma série de preparatórias e acho que a TV pública deve ser o
centro de tudo. Eu quero chamar a atenção do movimento social para
lutar pela TV Pública, pelo projeto original dela.

Fórum – Ou seja, na tua opinião esse projeto de TV pública está sob alto
risco?

Nunes – Acho que sim. Se um outro setor político vier a ganhar a
próxima eleição ele fecha a TV pública com certa tranqüilidade. A
atual direção não está conseguindo consolidá-la por uma certa
incompetência na gestão. E não estou dizendo que é fácil. Não é. Mas
poderíamos estar num outro patamar.

Fórum – Mas sinceramente, não me parece que basta apenas trocar a condução.

Nunes – Não, você tem razão. É preciso discutir e gerar um novo modelo
de negócio. Esse modelo tem que distribuir recursos para a sociedade.
E a sociedade precisa em contrapartida produzir com qualidade. Sem
demanda interna, você não faz economia. E para que isso se implemente
o Conselho é fundamental. Esse Conselho foi feita de uma forma muito
esquisita. Por isso, está esvaziado e não tem poder. Por isso, acho
que entidades como o Sindicato dos Jornalistas e o FNDC deveriam ir
pra cima, exigindo uma audiência pública para que se institua o
controle social devido na TV Pública. Esse projeto não é de um
governo, não é de um grupo, esse projeto é da sociedade. Então ele tem
que ser para todos.

Fórum – Vou insistir, esse não é uma entrevista de quem está se
despedindo do projeto. Você não sai da TV pública?

Nunes – Não saio. Só se me saírem (risos). Sou legítimo, sou orgânico,
sou de governo, sou da base que deu origem a criação dessa TV. Não
quero dizer com isso que quem vem de uma empresa “x” ou
“y” também não mereça respeito. Claro que merece. Mas
precisa respeitar os outros também. A respeitar as outras experiências
e histórias.
Fórum – O conflito é entre os oriundos da TV comercial e dos que
tinham relação com o Ministério da Cultura?
Nunes – Não necessariamente. Eu e a Helena Chagas temos uma excelente
relação. Ela foi gestora, ela tem experiência de gestão. E nós temos
uma relação extremamente respeitosa.

Fórum – E essa relação não existe com a Cruvinel?

Nunes – Sinceramente, de certa forma não. A Tereza vem trazendo, por
exemplo, consultores e colocando-os acima dos diretores. Está dando a
esses consultores poderes maiores do que aos diretores da EBC. Isso se
deve a um erro de origem na constituição da empresa. O Brasil tem 117
empresas na União e a TV Brasil é a única onde um presidente da
empresa pode nomear diretor, ou seja, onde isso não é atribuição do
presidente da República. Tenho receio de que depois do presidente Lula
ter tomado a iniciativa de bancar a criação dessa televisão e passar a
sua constituição por medida provisória por diferença de apenas três
votos no Senado ela venha a se tornar um mico. Porque ela já poderia
estar numa velocidade muito maior. Nós poderíamos hoje estar
assistindo uma TV pública de alta qualidade. E ainda não estamos.

Fórum – Por quê?

Nunes – Ineficiência de gestão.

Sempre, eternamente….

Com toda certeza os defensores das Farc, do MST, do Chavez e todo o tipo de traquinada, estrepolia pseudo-esquerdista, essa coisa antiga e requentada, deve estar aplaudindo o presidente lula pelo convite feito ao defetível e beligerante presidente do Irã ao Brasil. Seria interessante colocar na sala um punhado de alopradinhos também.

Tem pra tudo, né?

Tempo, tempo, tempo, tempo…

Não. Que eu saiba não morri ainda. Ando mesmo enrolado com determinados estudos que resolvi fazer mais à fundo. Diante disso, deixei muitas e muitas coisas de lado e uma dessas coisas mais caras a mim é esse convívio aqui com meus três leitores. Mas é a tal coisa: eu até me acho o Super Homem, mas a verdade é que não sou (e nem de longe). Ou seja, me viro para um lado e fico, momentaneamente, de costas para o outro. Onde estou enfiado? Ainda é cedo para dizer (aliás acho mesmo que não direi nunca). Afinal, todos nós temos nossas particularidades e para isso existem os cadernos e blocos manuscritos, não é? Mas não sumi, não morri, não evaporei nem caí em desgraça (imagino eu rsrs). É o tal do bendito tempo, tempo esse que me irrita e eu o irrito questionando-o sempre. Me lembra uma noveleta que escrevi para a televisão em 1985 sobre um determinado homem que, ao entrar numa cidade causava o estrago (ou a virtude!): TODOS OS RELÓGIOS  deixavam de funcionar. Não sei como terminei essa trama. Talvez Flávio Migliaccio ainda se lembre – se é que ainda se lembra de mim. Vou em frente.

Breve

Dia desses, num determinado grupo de discussão conheci uma mulher que achei muito interessante. Infelizmente eu não concordo com suas teorias e nem ela com as minhas. A vida é assim, é a “arte do desencontro” como dizia Vinicius.

Bom dia, Vietnã

Dia desses uma “peça rara” me “xingou” dizendo que ninguém vinha aqui, nesse meu espaço. Não sei no quê ele imaginou estar me aborrecendo. Existem sites que milhares de pessoas visitam para ouvir os desabafos dos blogueiros, outros não. O meu está entre esses. Oscila em retorno dos 120 visitantes/dia. Mas isso realmente é um problema? Se vierem 40/ dia… Deveria de fato de chatear com isso? Talvez se eu gostasse de me “pavonear” como alguns (nem todos). Mas eu? Praticamente converso via e.mail ou MSN com todos os que aparecem por aqui. É uma turma legal, descolada, não agressiva e, de certa forma, meio espartana como eu. Pois bem. Escrevo para eles, eles respondem para mim, conversamos e debatemos assuntos. Tudo muito simples, muito tranquilo. Meu espaço não foi idealizado para ser denuncista, “patrulhador” dos atos e ações dos outros. Não me interessa o que fazem deputados nem senadores, me incomoda muito mais o presidente Lula e seus aloprados. O resto é o resto. (continua)

Eternamente abril

Entre idas e vindas e o ar fino iniando a esfriar abril começo a me debater entre isso e aquilo, possibilidade X ou Y, vontade e volúpia entre folhas secas e amarelas que já começam a cair para gáudio dos garis. Alegria também dos velhos, dos muito jovens, dos apaixonados… de todos. A percepção de ar fino, aprendi com Vinícius. Estar vivo é continuar a ter sensações, impressões, sentimentos e náusea, mas também de alegria, felicidade…. é, acredito, ser e estar pleno. E claro que nem sempre estamos assim. O que resta é caminhar à tardinha pela Lapa ou o Leblon, mesmo com uma chuvinha fraca, mesmo com a ignara à espreita, dentes negros e vampirescos, com seus eternos golpelhos à sorrelfa. Enquanto isso…

As Cores De Abril

Composição: Vinicius de Moraes / Toquinho

As cores de abril
Os ares de anil
O mundo se abriu em flor
E pássaros mil
Nas flores de abril
Voando e fazendo amor

O canto gentil
De quem bem te viu
Num pranto desolador
Não chora, me ouviu
Que as cores de abril
Não querem saber de dor

Olha quanta beleza
Tudo é pura visão
E a natureza transforma a vida em canção

Sou eu, o poeta, quem diz
Vai e canta, meu irmão
Ser feliz é viver morto de paixão

Como era de esperar, as caminhadas não estão me fazendo nenhum bem. Talvez do ponto de vista teórico de uma medicina fracassada seja excelente, mas a prática…. putz. Aliás, como não ligo para orientações médicas, a caminhada aqui citada é resultado de uma ansiedade renitente, de um desconforto (que esfria a barriga e nos joga como se fôssemos um feto na cama) que nada aplaca. Verdade que doses cavalares de soporíferos talvez melhorassem bastante a coisa, mas, igualmente, não estaria resolvendo nada. Quando penetramos no universo escuro e denso do estupor, muito poucas atitudes nos permitem passar “para o lado de cá”. Aliás, essa é a questão que se coloca: o que é exatamente o lado de cá e o lado de lá…

Bem, por motivos que não devo revelar nesse instante, continuarei esse assunto no meu caderno azul n° B- 9

Frenesi (Hornby) Polissilábico

Puxa…. Na Páscoa ninguém quase passa por aqui…. Recebi uma dezena de e.mais, bem verdade, a maioria dos meus três leitores. Mas realmente num evento da magnitude de uma sexta feira santa e uma Páscoa, isso parece mesmo normal: NINGUÉM TÁ NEM AÍ PRA NADA, apenas para o feriadão, para as viagens, farra e bebedeiras… rs.. Orações? Ninguém nem lembrou (no que fazem muito bem).

Bom, dia desses eu falei por aqui que estava na área um novo Nicky Hornby (esse autor inglês com seus romances simplesmente d-e-l-i-c-i-o-s-o-s!) Dessa feita, no recém lançado “FRENESI POLISSILÁBICO”, Hornby nos leva ao universo de suas crônicas literárias para uma revista inglesa. E não se trata de sucessão de resenhas. Ele? Mas é claro que não! Ele relaciona, mês a mês quantos livros comprou, quantos ganhou e quantos efetivamente leu e o porquê. E o que tem isso de interessante? E em quantos momentos a gente se identifica com essa história de não ler o que comprou ou de ler quatro vezes um mesmo livro ou…ou… Nesse volume, Hornby nos transporta para um mundo de títulos que deixa a gente suando frio de inveja

Depende exatamente do que cada um dos latininhos aqui conhecem de Hornby. A maioria nem conhece esse cara. Um outro grupo (muito erudito eh eh eh) considera-o um autor menor, de menos importância porque “seus romances seriam demasiadamente leves” ou “incapazes de penetrar num mundo de de seriedade).

Sim, tem gente mesmo que pensa isso.  Muita gente que me disse exatamente isso. Porque o brasileiro, claudicante ferrenho, de visão de mundo ou percepção do que é legal ou com o eterno problema de cognição dividi-se em 3 categorias: Quem só lê Paulo Coelho (eu gosto do Paulo Coelho e o que dizem da literatura dele é apenas despeito), quem só lê clássicos ou famosos e…….. os comunistas viúvos de Stálin que buscam nos títulos latinos algum resquício de ideologia.

Hornby não é nada disso. Nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário. Ele é um camarada , culto e descolado… uma cara normal, mas um cara que gosta de ler e de escrever, um ser humano de bem com a vida. O pessoal daqui, “no lado de baixo do Equador” não gosta disso. Ou gosta? Eu sei de uma pessoa que ama, Marina W.

E vocês?

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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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