A coisa continua

Salvo algum equívoco. corre que Leopoldo Nunes, Diretor da TV Brasil foi demitido após está entrevista concedida a Renato Rovai para a Revista Fórum.

 

Diretor da TV Brasil teme pelo projeto e diz que Cruvinel é má gestora

Por Renato Rovai
Fórum – O senhor avalia que a TV Brasil tem desempenhado o papel para
a qual ela foi criada?
Leopoldo Nunes – Acho que de alguma forma sim. O mais positivo de tudo
é em relação à produção nacional de audiovisual. Porque a mídia
comercial e a televisão aberta sempre estiveram alijadas de todo o
processo de produção audiovisual brasileira. A TV aberta no Brasil se
constitui como uma TV de qualidade basicamente nos anos 1960 com a TV
Globo, que numa aliança com a ditadura militar e num acordo com o
grupo Time Life cria uma grande empresa de comunicação. Foi ali que se
criou uma referência, um padrão de televisão brasileira. Tudo o que se
faz em televisão brasileira hoje é derivado ou imitação daquilo que
foi a Rede Globo, principalmente no modelo de negócio. Por exemplo, o
cinema brasileiro foi substituído pela teledramaturgia. A
teledramaturgia é uma produção de baixíssima qualidade, mas de grande
interesse popular. Vende xampu, exporta seus produtos para o mundo. As
pessoas ouvem como se fosse rádio, ela vem da matriz cubana da radio
novela. Mas mesmo assim é uma coisa de qualidade.
No jornalismo é a mesma coisa. Tivemos experiências como o Última
Hora, mas de qualquer forma a matriz é a mesma. É o padrão Rede Globo.
Então, quando se cria a TV Brasil, vê-se a aspiração da criação de um
modelo de negócio e de um modelo de produção de conteúdo para compor
essa televisão. Por exemplo, em relação à programação infantil. Nós
temos uma animação no Brasil de altíssima qualidade. Por exemplo, 20%
do (filme) “Asterix” foi feito em Águas de Lindóia, o
diretor de “A Era do Gelo” é brasileiro, exportamos
mão-de-obra da mais alta qualidade para fazer isso. No entanto, a
televisão brasileira nunca absorveu a animação brasileira.
Quer outro exemplo? O Maurício de Souza tem uma das maiores famílias
de personagens de animação do mundo. E comparado com a Walt Disney
seus personagens são mais politicamente corretos. Os árabes usam, os
chineses usam, enquanto não usam [os desenhos da] Disney. E aqui no
Brasil ele é pouco usado. A verdade é que a TV brasileira está de
costas para o Brasil. Bem, acontece que a Constituição brasileira
prevê nos seus artigos 221, 222 e 223, o princípio da
complementaridade entre o público, o privado e o estatal.
O privado, quer nós gostemos ou não, é o modelo que deu certo; o
estatal passou a existir com a Lei do Cabo em 1995, com as TVs
Assembléias, das Câmaras Federal e Municipal e do Senado. Já o
(modelo) público surge com a criação da EBC. A lei que cria a EBC cria
o termo público, porque até então era educativo. Todas as TVs eram
educativas. Dentre as educativas, nós temos 26 emissoras e 19 modelos
jurídicos diferentes. Desses 19 modelos, temos um que é exemplar, que
é o da Fundação Padre Anchieta de São Paulo. Sai governo, entra
governo, a TV Cultura de São Paulo está aí. Ela tem um conceito forte,
uma diretoria executiva, é ligada ao governo do Estado, tem uma
produção de qualidade e exerce bem sua função. É a mais sólida de
todas as emissoras que a gente e que inclusive ajudou e muito a criar
a TV Brasil. Foi um dos berços que clamava por uma TV pública.
Por isso, quando nasce a TV Brasil, ela vem com toda uma esperança de
se colocar no ar uma nova programação. Por exemplo, as pessoas não
conhecem a África? Então eu abri uma janela de produção africana
chamada “DOC África”, que agora vai passar a se chamar
“Mama África”. Toda semana passa um documentário africano.
Na semana retrasada, por acaso, entre os 10 programas de maior
audiência da casa havia um filme africano. O mesmo que acontece em
relação à África, também se dá com a América Latina, ninguém conhece.
Por exemplo, você sabia que existe uma cidade andina na Colômbia que
respeita as leis incas e tem curso de Direito, uma universidade de 600
anos e que responde a leis incas? Pois então, criamos o Tal Como Somos
que apresenta documentários latino-americanos. Além disso, temos uma
série de programas com o Ministério da Cultura.
É este o modelo sistêmico que nós criamos na Secretaria do Audiovisual
voltado para a TV pública. Além disso, temos uma série de programas
voltados para a cidadania, desde questões de idade, de gênero, de
trânsito, de educação básica… Mas há outras coisas. Por exemplo, nós
temos 180 línguas indígenas no Brasil. Nós temos uma diversidade
lingüística maior do que a China, maior do que a Índia, e não
reconhecemos. Nós somos brancos ocidentais. Índio, para a gente, é
motivo para abate, porque ocupa uma área muito grande onde é possível
produzir “x” sacas de arroz, como no caso da Raposa Serra
do Sol. Hoje, a TV Brasil apresenta curtas-metragens indígenas. Por
fim, sempre entendemos que o público brasileiro gostava de cinema
brasileiro. E a TV Brasil está provando que gosta. Das 10 maiores
audiências da TV, semanalmente medida, quatro são de cinema
brasileiro. O povo ama cinema brasileiro.

Fórum – Você considera que a TV Brasil está fazendo um caminho de
construir esse padrão público a partir dessas iniciativas? Ou eles
ainda são incipientes e demandariam um investimento maior?

Nunes – Certamente já são caminhos irreversíveis. Nas audiências da
semana retrasada, duas delas são de América Latina, uma de África, uma
de DOC TV, quatro de cinema brasileiro. Isso está sendo medido através
do Ibope e demonstra que estamos no caminho certo. Quero ver a TV
pública brasileira deixar de exibir produção indígena sem revelar os
povos indígenas. Quero ver a TV pública sobreviver sem exibir um
documentário ou um filme de ficção africano por semana. Isso é
irreversível. Outra coisa irreversível é a produção independente. Ela
tem muito mais qualidade técnica, humana e tecnológica do que se pode
vir a ter na estrutura da TV pública ou mesmo da TV comercial. Porque
a TV é um conglomerado de “x” mil funcionários, equipamentos de 5ª, 6ª
geração e tal. Eu contrato uma boa produção, exerço meu poder de
programação e meu poder editorial e exijo qualidade e preço. No mundo
todo é assim. As TVs a cabo no Brasil trabalham com 26 funcionários,
incluindo estagiários.

Fórum – Existe uma disputa dentro da TV que a gente que está de fora
não consegue entender direito? Aliás, isso até foi matéria na
CartaCapital, os cineastas versus os jornalistas…

Nunes – Existem disputas e existem falsas disputas. Por exemplo, a
disputa que foi colocada na CartaCapital, jornalistas versus
cineastas, é uma falsa disputa. Agora, uma disputa real, que existe, é
o fato de nós termos um projeto que foi gestado há muitas mãos durante
décadas, que a gente acredita que são valores brasileiros da
diversidade cultural – nós assinamos e lideramos a Convenção da
Diversidade Cultural –, a riqueza e a qualidade da produção
independente, da informação, isso tudo é o projeto original, porque
esse projeto está escrito nos cadernos do Fórum da TV pública, e na
Carta de Brasília. Esse documento é fundante da esperança, porque nós
conseguimos fazer um pacto. Nós juntamos sindicatos de jornalistas e
outros, o FNDC, as associações de produtores independentes, governo,
órgãos de controle e fizemos um grande pacto. Ele foi traduzido em
alguns documentos, o presidente Lula lançou esse programa. Mas existe
conflito com outro programa que está sendo desenvolvido pelos
remanescentes de outras emissoras de televisão que não tem qualquer
compromisso com esse projeto a não ser dizer “eu ajudei na
Constituição de 1988”. Ajudar, pode ter ajudado, mas nós também,
não é verdade?
Então, coisas que nós criamos que estão consagradas hoje como valor da
TV Brasil foram sendo apropriadas e tocadas por pessoas sem o menor
compromisso e sem a menor referência com esse movimento de criação da
TV.

Fórum – Você poderia nomear as pessoas?

Nunes – Não, não dá. Acho que tem coisas como, por exemplo, o Conselho
Curador. Qual é o papel do Conselho Curador?

Fórum – Esse Conselho Curador deveria ter sido eleito, você não acha?

Nunes – Eu acho. Sou um homem de governo e, acima de tudo, alguém que
representa um setor, um campo da cultura. Tenho uma vida muito mais
identificada a minha luta setorial no âmbito da cultura e do
audiovisual do que a um projeto político partidário, apesar das
relações políticas que tenho e que, aliás, tenho orgulho de tê-las.
Mas preciso dizer que não estou na TV Pública para servir apenas um
governo. Estou trabalhando para um projeto duradouro, para um projeto
de Estado. Por isso, não tenho o direito de não ser franco com você a
quem conheço de muito tempo e dessas tantas lutas pela democratização
das comunicações, discordo inteiramente da forma como foi constituído
esse conselho e da forma como ele vem se desmelinguindo. O Conselho
hoje mal se reúne…

Fórum – Como assim?

Nunes – Vários conselheiros pediram demissão, vários são
demissionários, o presidente (Luiz Gonzaga Belluzzo) não vai, até
porque ele hoje é presidente do Palmeiras. Sinceramente esse conselho
deveria convocar uma audiência pública, com as entidades interessadas
e legítimas que compõem todo esse rol entre o conteúdo e a
comunicação, para discutir o seu papel e os próprios rumos da TV. Hoje
uns poucos tem decidido tudo e, infelizmente, mesmo eu que sou diretor
muitas vezes não sou convidado a participar dessas decisões.

Fórum – Isso que você está dizendo é muito grave. Você está me falando
que há uma relação autoritária na TV até nos espaços de diretoria?

Nunes – Sim, de certa forma é isso que você entendeu. Não há relação
horizontal na TV. Hoje a relação lá é completamente vertical. Quem
manda na TV é o Conselho de Administração e o ministro Franklin
Martins. Depois que o Orlando Senna, que é uma figura pública
reconhecida, e o Mario Borgneth saíram quem assumiu a diretor-geral é
uma pessoa completamente sem qualificações para o cargo. Renato, não
tenho coragem de dizer outra coisa para você. O Paulo Rufino,
responsável pela diretoria-geral, é alguém cujo trabalho, por exemplo,
absolutamente desconheço. Não posso dizer o mesmo da diretora de
Jornalismo, a Helena Chagas, com quem eu tenho uma excelente relação.

Fórum – E a presidente, a Tereza Cruvinel?

Nunes – A Tereza Cruvinel não é uma pessoa aética, longe disso, mas
como te disse que seria franco nesta entrevista preciso dizer que
desconheço qualquer experiência dela em gestão pública. E acho que tem
feito uma falta danada a ela. A EBC é uma empresa muito completa e
acho que lhe falta experiência para tocá-la. Eu torço muito para que
tudo dê certo, porque o ano que vem é um ano eleitoral, nós vamos
seguir a partir de 1º de junho uma legislação específica, ou seja, nós
temos três meses para fazer todas as coisas e, dentre as nossas
atribuições, está a constituição de uma rede nacional.

Fórum – A crítica que você faz à Tereza é bastante específica. Você
disse que o problema é que ela não tem experiência de gestão. Esse
poderia ser um dos motivos que está levando ao atraso da constituição
da Rede Pública? Nunes – Sem dúvida nenhuma. Por exemplo, ela devolveu
R$ 18 mi aos cofres públicos no ano passado.
Fórum – Como assim… isso não foi divulgado?
Nunes – Não. A sua categoria (jornalistas) é muito corporativa. Não
foi divulgado. Mas 18 milhões viraram pó, superávit primário.
Fórum – Qual o orçamento da TV, o que isso representaria?
Nunes – Foi em torno de R$ 300 milhões em 2008.

Fórum – Mas, por exemplo, qual era o custo da produção de rede, no ano
passado?

Nunes – Era de R$ 12 milhões. Com R$ 12 milhões, eu teria produzido em
todas as regiões do Brasil programação infantil, programação
científica, história dos rios brasileiros, estradas brasileiras,
estradas de tropeiro, turismo, tudo. Poderia ter sido feito no ano
passado e estaria estreando agora em março ou abril. Com R$ 6 mi que
sobrariam poderia ter sido feito, por exemplo, reformulação dos
programas da casa que são importantes, reconhecidos, de grande valor
público cultural e informativo. Outra coisa grave, em termos de
gestão: foi aprovado em agosto de 2007 o Plano de Cargos e Carreiras,
porque nos temos três anos para promover concursos internos, aprovado
pelo DEST, que é o departamento de estatais. Aí a presidente resolveu
interferir na negociação, e para o azar dela e nosso, veio a crise
internacional. A não ser que seja uma benevolência muito grande do
presidente Lula, tudo indica que não teremos o concurso neste ano. Ou
seja, perdemos outra oportunidade.

Fórum – Pelo tom da sua entrevista, você parece estar muito
decepcionado, você pretende ficar na TV Brasil ou está de saída?

Nunes – Eu não só pretendo ficar, como sou uma referência no setor
audiovisual, dos longas-metragistas, dos curtas-metragistas, dos
animadores, dos documentaristas. É uma responsabilidade minha ficar e
fazer o debate. E ajudar a construir a TV Pública que nós sonhamos,
que nos lutamos para criar. O que acontece é que a gente vê o tempo
passando e algumas pessoas se aproximando da TV sempre como salvadores
da pátria, mas são pessoas que nunca participaram desse tipo de
discussão. O trabalho que nós fizemos está todo aí feito, colocado,
reconhecido. Agora, tem gente que porque trabalhou na televisão
comercial fazendo programas como “Sex Shop” em Shoptime se acha no
direito de dizer que sabe mais.

Fórum – Isso é uma metáfora ou você está dizendo algo que de fato existe?

Nunes – Não é metáfora não. Tem gente lá assim. Claro que não é uma
pessoa que participou do debate da TV pública como você participou.
Não é uma pessoa que tem alguma história pela democratização dos meios
de comunicação como eu e você temos. E tampouco quer dizer que você
seja o máximo ou que eu seja o máximo. Mas há pessoas que não têm a
menor referência, aí eu vejo um risco enorme de a TV se perder.

Fórum – O que estou entendendo é que há um grupo que não tem
compromisso público e que está se tornando majoritário na TV Brasil, é
isso?

Nunes – Talvez fosse melhor dizer que quando você entra em uma época
de crise, aparecem dois tipos de pessoas: os oportunistas e os
puxa-sacos. Isso é muito comum e está acontecendo agora na TV Brasil.
E me preocupa muito, porque este movimento é histórico da sociedade
brasileira, e eu não o vejo sendo conduzido com a responsabilidade que
ele merece. E mais: vejo a preocupação de muita gente na Esplanada,
nas bancadas parlamentares do setor progressista, nos movimentos
sociais, nas áreas setoriais e organizadas em relação a isso. E por
isso decidi que é hora de tornar esse debate público. E escolhi fazer
isso para você porque sei dos seus compromissos. E sei que você não
vai transformar isso num ataque ao projeto, mas num debate sobre ele.
Tenho um nome, uma história e por isso me cabe colocar esse debate de
forma legítima. E coloquei isso internamente antes de ter ligar
dizendo que aceitaria te dar essa entrevista que na verdade você já
havia me solicitado no final do ano passado.

Fórum – E como está sendo realizado esse debate internamente?

Nunes – A presidente não gostou. Ela sugeriu que eu peça uma licença,
que eu me afaste um tempo. Ela me chamou e disse isso, o que te
parece? A coisa está ficando grave. O projeto democrático de
comunicação e de conteúdo está perdendo a luta interna. Uma luta,
aliás, que não deveria existir. Por exemplo, no ano passado por
decisões equivocadas da presidência rasgamos R$ 100 milhões em
editais. Havia a possibilidade de se conseguir para a produção
independente R$ 60 milhões de um programa chamado PEF (Programa
Especial de Fomento) em parceira coma a Ancine (Agência Nacional de
Cinema) e R$ 40 milhões que o Ministério da Cultura preparou para a TV
pública, chamado “Mais Cultura”, que era destinado ao
Audiovisual. Criaram tantas dificuldades que esse dinheiro não veio.
Ou seja, rasgamos R$100 milhões. Isso poderia ter significado uma
revolução na produção audiovisual brasileira. Literalmente uma
revolução. Mas ao contrário, travou-se uma disputa de poder interno,
onde rolou a cabeça do Orlando Senna e do Mário Borgneth.

Fórum – O Orlando saiu por causa dessa disputa?

Nunes – Sim.

Fórum – E na época você decidiu ficar…

Nunes – Para conduzir o projeto até o outro lado da margem.

Fórum – Pelo que estou entendendo a Tereza Cruvinel está pedindo que
você saia…

Nunes – Ela quer hegemonia. Ela quer fazer a TV dela, não a pública.
Infelizmente do jeito que está o projeto da TV pública não sai. O que
vai ficar aí vai ser um pastiche. Agora, é preciso dizer também que
hoje a TV pública tem uma equipe fabulosa. Eu, aliás, trabalhei como
um louco para construir essa equipe. E tirando o jornalismo, tudo que
está na TV foi essa equipe que fez. Agora, o presidente Lula não sabe
disso. Na verdade, quem entendia e defendia no governo uma TV
realmente pública era o Gilberto Gil. Porque quem fez o Fórum de TVs
Públicas foi ele. Quem quis peitar a Ancinave (Agência Nacional do
Cinema e do Audiovisual) foi o Gil. Quem quis peitar a Lei Geral de
Comunicação de Massa foi Gil. Quem deveria tocar a TV Brasil era o
Gil. Eu acho que se isso tivesse ocorrido ele teria ficado no governo.
E hoje teríamos caminhado muito mais, teríamos um projeto a essa
altura muito melhor, de altíssima qualidade.

Fórum – Você saiu da Ancine com mandato para ir pra TV pública, hoje
você considera que errou?

Nunes – Abri mão de um mandato eleito pelo Senado em comissão e em
plenário. Meu mandato iria até dezembro de 2010. Mas de forma nenhuma
me arrependo de ter tomado essa decisão. Eu contribuí demais com a TV
Pública e quero continuar contribuindo.
Não vou tirar a licença sugerida, minha intenção é continuar na TV e
com esse debate público redirecionar seus rumos. Agora, se a
presidente quiser me demitir ela pode fazê-lo. Mas não deixarei de
fazer o debate por conta disso. Já disseram antes, né? Mas não custa
repetir. Sou o mesmo no planalto e na planície. Eu precisava tornar
público esse debate. E espero que a presidente da TV tenha
tranqüilidade para realizá-lo. Não podemos nos amesquinhar, o que
estamos construindo é muito maior. É algo que não pode ficar restrito
a fulanizações, a disputas de poder.

Fórum – Mas pelo jeito há uma grande diferença de projetos, é possível
trabalhar juntos?

Nunes – Sim, com republicanismo e legalidade. Em lei, há marco legal,
que define competências. República é um pacto.

Fórum – Sinceramente, Leopoldo, qual o seu objetivo ao trazer esse
debate a público neste momento?

Nunes – Nós estamos no mês quatro de 2009 e pela lei só temos até
junho de 2010 para tocar as coisas. Depois termina o mandato do
presidente Lula. E em TV é tudo demorado, não dá pra decidir hoje e
fazer amanhã. O que eu quero com essa entrevista é chamar a atenção
das pessoas que são co-responsáveis pela criação desse projeto, um
projeto que não tem dono, um projeto público, para os riscos que ele
está correndo. Nós temos algumas agendas importantes nesse ano, vai
ter uma Conferência Nacional de Comunicação, nós temos conferência da
CUT, uma série de preparatórias e acho que a TV pública deve ser o
centro de tudo. Eu quero chamar a atenção do movimento social para
lutar pela TV Pública, pelo projeto original dela.

Fórum – Ou seja, na tua opinião esse projeto de TV pública está sob alto
risco?

Nunes – Acho que sim. Se um outro setor político vier a ganhar a
próxima eleição ele fecha a TV pública com certa tranqüilidade. A
atual direção não está conseguindo consolidá-la por uma certa
incompetência na gestão. E não estou dizendo que é fácil. Não é. Mas
poderíamos estar num outro patamar.

Fórum – Mas sinceramente, não me parece que basta apenas trocar a condução.

Nunes – Não, você tem razão. É preciso discutir e gerar um novo modelo
de negócio. Esse modelo tem que distribuir recursos para a sociedade.
E a sociedade precisa em contrapartida produzir com qualidade. Sem
demanda interna, você não faz economia. E para que isso se implemente
o Conselho é fundamental. Esse Conselho foi feita de uma forma muito
esquisita. Por isso, está esvaziado e não tem poder. Por isso, acho
que entidades como o Sindicato dos Jornalistas e o FNDC deveriam ir
pra cima, exigindo uma audiência pública para que se institua o
controle social devido na TV Pública. Esse projeto não é de um
governo, não é de um grupo, esse projeto é da sociedade. Então ele tem
que ser para todos.

Fórum – Vou insistir, esse não é uma entrevista de quem está se
despedindo do projeto. Você não sai da TV pública?

Nunes – Não saio. Só se me saírem (risos). Sou legítimo, sou orgânico,
sou de governo, sou da base que deu origem a criação dessa TV. Não
quero dizer com isso que quem vem de uma empresa “x” ou
“y” também não mereça respeito. Claro que merece. Mas
precisa respeitar os outros também. A respeitar as outras experiências
e histórias.
Fórum – O conflito é entre os oriundos da TV comercial e dos que
tinham relação com o Ministério da Cultura?
Nunes – Não necessariamente. Eu e a Helena Chagas temos uma excelente
relação. Ela foi gestora, ela tem experiência de gestão. E nós temos
uma relação extremamente respeitosa.

Fórum – E essa relação não existe com a Cruvinel?

Nunes – Sinceramente, de certa forma não. A Tereza vem trazendo, por
exemplo, consultores e colocando-os acima dos diretores. Está dando a
esses consultores poderes maiores do que aos diretores da EBC. Isso se
deve a um erro de origem na constituição da empresa. O Brasil tem 117
empresas na União e a TV Brasil é a única onde um presidente da
empresa pode nomear diretor, ou seja, onde isso não é atribuição do
presidente da República. Tenho receio de que depois do presidente Lula
ter tomado a iniciativa de bancar a criação dessa televisão e passar a
sua constituição por medida provisória por diferença de apenas três
votos no Senado ela venha a se tornar um mico. Porque ela já poderia
estar numa velocidade muito maior. Nós poderíamos hoje estar
assistindo uma TV pública de alta qualidade. E ainda não estamos.

Fórum – Por quê?

Nunes – Ineficiência de gestão.

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