Responsabilidade total de ser

Ao contrário das “previsões” de Domenico de Masi (italiano meio golpista que fica entre cientista social e escritor de livros de ‘auto-ajuda’ (O Futuro do Trabalho e A sociedade pós-industrial – quem não leu?), a modernidade com todas as parafernálias digitais que nos vendem dias e noites não são nem minimamente parecidas com “O Ócio Criativo” – também de Domenico. Entretanto não vai uma crítica direta, absolutamente, porque ele escreveu e descreveu inúmeras situações possíveis. O problema é que ele fala em tese, à partir do avanço das novas tecnologias (e aí ele acerta). O fracasso da sua proposta é que ele não se dá conta que deveria ser um processo completo, quero dizer. homens e tecnologias. E isso não acontece. Quanto mais lançam produtos que podem nos dar conforto, mas ficamos ansiosos, trabalhamos mais, nos desesperamos mais. Os exemplos podem até ser simplistas: quanto tempo levávamos para descobrir um verbete numa enciclopédia? E a mais atualizada enciclopédia falava de fatos importantes que ocorreram no dia anterior? Tudo não, não e não, certo? Mais ou menos. Temos algumas (e boas) enciclopédias virtuais (Wikipédia e o próprio Google). A pesquisa que há 15 ou 20 anos levaria minutos e mais minutos (e nada estava atualizado!) hoje temos a resposta em 5, dez segundos.

E o que acontece então? Usamos esse tempo para o ócio criativo? De maneira nenhuma: primeiro ficamos estressados com a demora das páginas abrirem nos computadores (sim, achamos tudo lento demais!) E então? Bom, abrimos outras páginas para ir adiantando o serviço (que levará intermináveis dez segundos). Escrevemos textos no word e disparamos vinte e.mails – PORQUE NÃO PODEMOS PERDER TEMPO!

Claro que Domenico de Masi merece todas as criticas por prever um futuro completamente irreal (e impossível). Ele errou gravemente ao levar em conta o futuro em relação aos avanços tecnológicos, deixando de lado o homem. E, lembremos, o homem é bicho do homem ou:

O inferno são os outros (de J.P. Sartre)

Para entender melhor, transcrevo trecho pequeno da Wikipédia – enciclopédia virtual – sobre Sartre

O Outro

As outras pessoas são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se sobrepõem. Mas Sartre não defende, como muitos pensam, o solipsismo. O homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Só através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo. Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro. “O ser Para-si só é Para-si através do outro”, idéia que Sartre herdou de Hegel. Cada pessoa, embora não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode reconhecer neles o que têm de igual. E cada um precisa desse reconhecimento. Por mim mesmo não tenho acesso à minha essência, sou um eterno “tornar-me”, um “vir-a-ser” que nunca se completa. Só através dos olhos dos outros posso ter acesso à minha própria essência, ainda que temporária. Só a convivência é capaz de me dar a certeza de que estou fazendo as escolhas que desejo. Daí vem a idéia de que “o inferno são os outros”, ou seja, embora sejam eles que impossibilitem a concretização de meus projetos, colocando-se sempre no meu caminho, não posso evitar sua convivência. Sem eles o próprio projeto fundamental não faria sentido.

Anúncios

0 Responses to “Responsabilidade total de ser”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Ela…

Ela...

Trocas

e-mail



Mini blog



"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

Visite:
wwwgeraldoiglesias.blogspot.com

""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

Tempo…

fevereiro 2009
S T Q Q S S D
« jan   mar »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
232425262728  

%d blogueiros gostam disto: