Insônia

Quando se está lendo três livros simultaneamente dá a impressão que temos a atenção dividida em três partes (e, por que não dizer, a alma e o cérebro também?). Parece propaganda (auto) fazer um comentário sobre ler 3 livros ao mesmo tempo, mas não é. Ao contrário da maioria das pessoas, não tenho um hábito regrado de ler: às vezes passo dois, três meses sem tocar num livro ou, se tento, não absorvo nada e nunca passo da terceira página. Em outros momentos, a vontade é tamanha que não consigo ler um livro de cada vez, deixando os outros em “modo de espera”. Não, não imagine que posso fazer alguma confusão entre histórias e personagens. Não. Trata-se exclusivamente da capacidade, comum a todos nós, de nos dividirmos, para a atenção na leitura como fazemos em várias situações na vida: um perfil no trabalho, outro em casa e ainda outro no lazer. E não é só isso.

Quando vamos a um museu (fora do Brasil que não possui museus dignos desse nome), quando vamos a um museu não somos plenamente capazes de absorver a arte de vários quadros ou várias esculturas? A mim, na questão da leitura, parece igual. E eu leio mais do que os outros? Absolutamente não! Apenas a forma é diferente de relacionamento com a obra em questão. Possuo sei lá quantos livros e me lembro de mais 70% do enredo de cada um deles. Possuo ainda uns outros tantos livros que estão na fila de espera muito embora eu saiba que muitos deles eu jamais vou ler. Às vezes fico com vontade que comprar livros, mais do que o tempo que disponho para ler, é um vício como outro qualquer. Talvez pior porque atravanca a sua casa com pilhas de papéis encadernados e você ainda tem que ouvir aquela perguntinha idiota: “Nossa! Você já leu tudo isso?” – da mesma forma que sou obrigado a me segurar quando vem aquela outra perguntinha imbecil: “Puxa, você é parente do cantor?”

 Porque a vida é composta de maioria humana completamente jeka, completamente ordinária intelectualmente falando. Porque isso é ser ordinário: é ser burro, é caminhar com a horda, repetir modelos – normalmente os mais vis. Se eu tenho paciência? Claro que não! Simplesmente fui aprendendo a me conter, a fazer cara de árvore da frente de qualquer obtuso, da ignara em geral. E que fique bem claro, ignara não tem nada a ver com status financeiro, com pobreza. Conheço meia centena de pessoas cheias da grana que são de uma boçalidade inacreditável. Inclusive “os leitores” que se acreditam eruditos. Homens e mulheres que estão lendo um livro por semana ou por quinzena, palpitando em tudo sobre literatura, “se achando”.

Para mim, além de ensinamentos e conhecimento sobre outros lugares, outros hábitos, a literatura é motivo de relaxamento, de prazerosa distração. Até porque (eu já repeti isso por aqui, o escritor é um pára-raios do mundo, das pessoas, do ser humano. Esse artista apenas traduz o que recebe (e percebe) embrulhando para nós. NESSA CATEGORIA, OS POETAS SÃO IMBATÍVEIS.

No fundo, não era nada disso que eu queria escrever. Queria falar de noites insones e a gente agarrado com um livro, como se ele fosse fugir (o que não deixa de ser realidade também: alguns livros meus têm uma capacidade brutal de se esconderem de mim).

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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