Almanaque de farmácia

Hoje que é o dia por excelência para a leitura, perco-me escrevinhando coisas aqui e ali, em belos cadernos e blocos sem pauta que descobri (mas à preço de ouro). Escrevo, escrevo e escrevo como quem tem a necessidade premente de mostrar-se… não… de olhar-se num espelho pouco confiável, mas ainda assim um espelho. Não posso me guardar para sempre, não posso me afastar de tudo porque não consigo coisas magnânimas, porque não sou. Engano pessoas e me engano a mim mesmo com a mesma leveza na alma. Sem pena, sem dor, sem remorso. Trilho caminhos que já trilhei milhares de vezes e outros novos, virgens para mim… onde não sei onde apoiar a bota. Vou em frente como que puxado por um jegue (ou sendo eu o jegue), como quem tem prazo de validade (ainda mais após o susto dessa madrugada quando acordei num acesso de tosse em que, dopado por tantos medicamentos, não cheguei a acordar direito, mas tive a impressão que as tripas me sairiam todas). De manhã busquei a garrafa de conhaque, certo de que me esquentaria e, para minha surpresa, estava absolutamente vazia. O fracasso do conhaque! O dia prenuncia borrascas, ventos, um frio inimaginável para nossos tristes trópicos e, ao mesmo tempo, tudo parece cenográfico, tudo me parece ilusão, que nada disso vai acontecer, que mais uma vez busco histórias no fundo da minha cabeça.

Para chegar a essas conclusões não chego a delirar nem fazer força, elas partem bem de dentro de mim, irresponsáveis como tudo na vida.

Penso em correr até a padaria, mas não tenho tanta coragem. Eu que olhasse tudo antes já sabendo que hoje seria um dia “de não fazer nada”, de azucrinar quem se encosta nesse espaço, de silenciar antes, de contar coisas tão íntimas, profundas e não pensadas que mais parecem mentiras, mais parecem dessas pessoas que escrevem qualquer coisa, apenas para bater no teclado, para fingir ocupação, para imitar seriedade. As mulheres por exemplo. As amigas. Uma está há 40 km, outra a 500 e outra a mais de 3.000 km. Os amigos: todos estão circunscritos num raio muito menor. Não vem ao caso quando a contestação única é de que nada altera nada, de que o centro – que, nesse caso, sou eu – continua jogando inúteis garrafas ao mar de Lost. Vou ficando convencido de que a irresponsabilidade não é toda minha, a irresponsabilidade é um ponto de vista da responsabilidade e o mundo – redondo – não transborda porque eu não presto atenção ao fenômeno. Nada mais. Os fenômenos estão todos aí, com a mesma intensidade e, se não me espanto, é pura distração do meu espírito.

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1 Response to “Almanaque de farmácia”


  1. 1 Tatiana 01/09/2008 às 8:13

    Estavas inspirado né….. mesmo a 3000km de distância estou pronta a trocar ideias sempre. bjusss e uma ótima semana


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