O medo como representação

Sigo fielmente as indicações de K. sobre livros (menos os clássicos porque já li a maioria e não ando com saco. Acho que agora é a vez dela…(rs). Ela diz que Ricardo é o mentor literário dela e, já que ele se nega a ser o meu (rs – transtorno de homofobia…rs), transferi esse conceito de guru para ela.

Isso para contar

que estou começando a ler “Nas tuas mãos” de Inês Pedrosa e, pelas primeiras trinta páginas, parece-me uma obra de arte, um exercício literário desses que todos nós deveríamos fazer sem nos preocuparmos em que ano ou século o livro foi escrito. Desses livros que a gente vai lendo com vagar, prestando atenção a nuances que a autora vai mostrando e escondendo, dando a perceber e não dando outras vezes. Em alguns momentos, em meio à leitura, percebo que “tinha alguma coisa ali atrás”, no meio da página passada e não me dei conta. E volto lá para constatar que sim, havia uma ou mais frases dessas que nos tiram o ar, nos emocionam, nos fazem repensar toda a vida. Principalmente (se algo pode ser ‘principalmente’) o Diário de Jennifer – é nele que estou e já acho quase impossível um relato mais chocante e impressionante. Os mistérios das nossas almas, dos nossos gostares, das nossas opções. Quantas opções temos cada um de nós e não as praticamos porque estão apagadas, completamente apagadas no fundo do nosso cérebro, uma inconsciência terrível que impossibilita a plenitude de viver.

A força das mulheres é tão maior e mais profunda que a dos homens que compará-las é covardia.

Assim vou passando meu tempo enquanto chove tanto lá fora e sinto-me tão, mas tão só, como se fosse o único vivente desse mundo. O pânico (que falei abaixo) senta-se ao meu lado e fica tamborilando o teclado junto comigo, coloca o braço sobre meu ombro como se fôssemos já, inseparáveis. E justamente, ao lado desse pânico

vou reaprendendo a viver

vou percebendo que tudo o que mais considerei até o momento não era de fato o mais importante. Porque o momento é o agora e a forma como o futuro começa a levantar as cortinas para mim, muito suavemente, de forma a que eu vá tomando ciência, que vá percebendo pouco a pouco e a me ensinar principalmente que, ao contrário do que eu sempre acreditei e gritei, EXISTE futuro. Sim. E esse futuro é sempre pior do que o presente, as coisas podem melhorar sim, mas podem piorar igualmente… não… em tudo e por tudo, as coisas pioram sempre.

“RENEGO A PRIORIDADE DE IMAGINAR QUE ALGUMA COISA ESTEJA PREPARADA PARA LOGO APÓS AQUELA ESQUINA” E AGORA RENDO-ME À IGNORÂNCIA QUE TAL PENSAMENTO POSSA ESBOÇAR.

Então o que faço em meio à borrasca, em meio à chuva que açoita e ao meu espírito QUE vira um nada, não um “oceano de cachaça” como cantou meu amigo Geraldinho Carneiro, mas um respingo, uma pequena poça de uísque de quinta misturado com anti-depressivos e outras drogas baratas, drogas que não drogam, que fazem não um grande efeito, mas cócegas nas grandes angústias. Sim, essas grandes angústias conseguem te jogar no chão, cara, ainda que ao lado possa existir uma angústia mil vezes maior (e se não sinto, posso entender, mas não percebo). Somos egoístas? Não sei, não creio que seja uma avaliação muito correta como a querer que apenas as pessoas mais desgraçadas do mundo, em todos os sentidos, tenham algum direito a sofrer. Volto à “NAS TUAS MÃOS”. volto a torcer de K. me apareça, volto a torcer para que os sábados não terminem porque eles, minhas gripes e as chuvas são o álibi que uso tão à vontade nesse meu mundo de mentiras, de escamoteações constantes, de fugas atrapalhadas, de tremores durante o entrecortado sono.

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1 Response to “O medo como representação”


  1. 1 Jornal do Whisky 09/01/2010 às 13:45

    Por incrivel que pareça, cheguei neste blogue digitando “uisque wordpress” no google, para ver meus “concorrentes” do Jornal do Whisky http://jornaldowhisky.wordpress.com/
    Não sabia que blogs interessantemente cultos faziam sucesso. Inspirador!


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