Fuga

Fiquei me questionando se eu escrevo tanto sobre a doença da minha mãe para angariar peninha dos outros, pra levar tapinhas nos ombros e ouvir palavras doces e carinhosas. Por um tempo achei que, mesmo inconscientemente, era isso. E acredito até que isso não é de todo condenável, que as pessoas se fragilizam mesmo em alguns momentos e precisam de um ou vários ombros. Eu mesmo sei que vou precisar do ombro do meu gato, quando a coisa estiver consumada e eu estiver deitado na cama olhando o teto e sem coragem para mexer um músculo.

Mas existem coisas e coisas e a cabeça da gente não pára

Então fiquei pensando que pode não ser exatamente isso, pode ser que quanto mais eu fale nesse assunto, quando mais eu comente a dor (minha e dela), quanto mais isso estiver exposto, cru… nu… na veia… enfim que essa coisa vá exorcizando uma parte do medo, uma parte da saudade antecipada, uma parte do sofrimento incontido e, principalmente, do pânico. porque essa é a palavra correta para definir a morte anunciada: PÂNICO. Então, sim, é verdade que ando em pânico – que bebidas e calmantes praticamente não fazem efeito algum, – que eu me distraio ora vendo TV, ora trabalhando, ora lendo ou escrevendo, mas meu pensamento escorrega, escapa da prisão que eu pretendo mantê-lo e tudo volta desesperadamente e esqueço o que estou fazendo, o que decidi, o que li, o que trabalhei. Tudo passa a uma condição muito inferior, passa a uma condição de ‘SUB’, como se nada das coisas da vida vivida pudesse estar no centro do pensamento, na angústia desesperada (como se o desespero resolvesse alguma coisa). Então eu digo. Não. Não a nenhuma opção, a nenhuma explicação mais psicógica ou filosófica. Trata-se exclusivamente do bom e velho pânico. PÂNICO por tudo o que virá, por todas as lágrimas, dores físicas, falta de ar… incapacidade generalizada que é o que acontece. De verdade. A verdade, irmão, é dura, muito dura. É claro que todos nós na vida, num momento ou em outro, passamos pelas mesmas coisas e que, o que para nós parece o mais terrível, terrivelmente diferenciado, não é. Não. Todos passam pela mesma situação e todos acham que sua dor pode ser a maior.

É isso: exercício para conviver com o pânico mais absoluto.

Sendo assim, já sei que escreverei dezenas de cadernos, milhares de posts, e.mails, cartas manuscritas e, possivelmente, não enviadas e tudo para nada. Tudo para meu consumo próprio que é o alívio do sentimento que trago – de certa forma egoísta – o pânico. É quando você não consegue mais racionalizar nada, tudo está de ponta cabeça no seu espírito e você confunde essa inversão com o mundo e acha que o mundo anda plantando bananeira, acha que as pessoas te apontam o dedo acusador. Melhor: as pessoas, não. Deus. Um deus em que você não acredita, nunca acreditou e jamais vai acreditar… pois esse deus se materializa unicamente para acusar e depois volta à sua condição de nada.

Enfim, nada é nada. Na fuga, busco exorcizar tudo o que vai em mim. E sem nenhuma garantia de sucesso.

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1 Response to “Fuga”


  1. 1 Sentimental 11/09/2008 às 10:48

    Acho interessante a forma como cada um lida com a morte (odeio essa palavra) anunciada. Não sei pq mas eu preferi me distanciar, o amor é grande, intenso e jamais vai diminuir, mas de certa maneira me mantenho distante, é como se cada dia eu fosse me despedindo um pouco. Pelo pior já passei, agora está tudo bem, mas acho q o bum da coisa foi um jeito de dizer ‘oi, um dia acontece, ninguém é eterno’… apesar de ter chegado agora digo com certeza q estou aqui para o q precisar.
    bisous


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