O terrível espelho da alma

Ele deita para ver um pouco de televisão. Sabe que dormirá, mas finge não saber, como finge não querer dormir mesmo sabendo que será por muito pouco tempo. Acorda duas horas depois e se convence que dormiu pouco, embora desejasse dormir menos para, mais tarde, dormir de vez. São terríveis todos esses momentos em que descontrolamos o sono mesmo com a ajuda de soníferos. Porque a madrugada e seu negror vão chegar e aí vem a maior solidão do mundo. Alguns dizem que a solidão é das pessoas, varia de pessoa para pessoa. Ainda não tenho certeza dessa afirmativa (e, certamente, não terei mais até o fim). Lembro a mim mesmo que não tenho certeza de nada, mas não adianta. Acho que esse meu temor – desde criança – não é exatamente de não dormir, mas de ter que passar horas e horas comigo, no escuro. Por outro lado – veja que curioso! – não quero estar com ninguém, acho que nunca vai dar certo e sofro por não ter passado o dia com quem está carente de mim. Invento (para mim mesmo) que assim é melhor, que não se deve tossir em cima de uma pessoa doente. Tem gente mal informada que acha que eu minto, mas é um desvio de percepção porque minto muito, mas sempre para mim mesmo. Busco as respostas nos livros – uma vez que eles trazem todas as opções existentes – mas não encontro respostas satisfatórias e leio outro e mais um… Uma espécie de agonia. Cada livro concluído (a leitura) é um prazer – por tê-lo conhecido – e uma decepção por não ter me aliviado. é isso, acho que é. Ainda não descobri onde se encontram esses alívios já que não rolam com psiquiatras, com párocos, em casamentos e nem em amizades sinceras. Por todas essas coisas, ele vai tentando compreender finalmente o que pretende quando fala em sentir alívio. Eu sei o que é sentir alívio (é algo que nunca senti), mas não sei qual o significado disso tudo para ele. No espelho a imagem é cansada, de corpo drogado. O que vai por dentro, igualmente não é bom, é alguma coisa que geme, que às vezes urra (mas sempre para dentro, silenciosamente). Uma das coisas mais curiosas é ver que as pessoas não estão entendendo nada, só entendem o que é dito explicitamente e esse “dito” é nada, é ponta de estoque. Não há muito o que fazer com todas essas coisas e talvez daí venha um certo pavor das madrugadas insones. Apenas talvez. Talvez fossem necessárias respostas, respostas convincentes – para si e para os outros – de todos os porquês do mundo. Seria como encontrar dentre milhares de livros, qual deles marquei um dia com um pétala de rosa seca. Impossível. De certo, só a perda. A perda iminente, dia a dia mais próxima, que deixará por fim a marca definitiva. O dia em que a ampulheta será virada pela última vez.

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1 Response to “O terrível espelho da alma”


  1. 1 João Pedro 26/08/2008 às 9:40

    Muito Muito bom!
    Sou leitor novo do blog, tinha guardado em meus favoritos um dia para ler mais tarde; não lembro quando foi isso, nem aonde eu achei o link.


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