Arriaga

“É estranho, mas parece que nos seres humanos o ato de mais profunda consciência aparece precisamente no momento de maior inconsciência: o sonho”

“A sensação que nos sobrevém quando algo é perdido é uma das mais fortes às que é submetido o ser humano, e isso porque tal sensação tem um forte parentesco com a morte. É, por assim dizer, sua manifestação cotidiana (…) quando morre em ente querido, nos dá tristeza, nos sentimos impotentes.. (…) Não há, no entanto, sentimento mais trágico, em toda a extensão da palavra que perder o destino ao qual se crê estar destinado (…)”

guilhermo arriaga em O ESQUADRÃO GUILHOTINA

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1 Response to “Arriaga”


  1. 1 K. (Incompletudes) 21/08/2008 às 22:12

    Saiu hoje na Folha de São Paulo.

    sorry, pelo sumiço… muito, muito, muito trabalho! beijos!

    Para Roth, escrever é uma questão de invenção, não de sentimento

    Principal escritor norte-americano vivo diz que não julga seus personagens e compara Machado a Beckett

    NOEMI JAFFE
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM NOVA YORK

    Um e-mail sobre a impossibilidade de conseguir uma entrevista, comparando-a à impossibilidade própria da literatura, fez com que Philip Roth aceitasse ser entrevistado, ele que raramente aparece em público. Um senhor alto, magro, que se mantém infenso a qualquer proximidade, Roth tem como resposta pronta: não. Não: a América não é um país de pessoas planas e convictas. Mas, ao mesmo tempo, não: na América, há muita gente atrasada. Com memória e inteligência monumentais, apesar da postura defensiva, Roth disse o quanto admira Machado de Assis, que comparou a Beckett, que a literatura não é feita de sentimentos, falou sobre seu último livro lançado em junho no Brasil, “Fantasma Sai de Cena”, e disse também não ter “um único osso religioso” no corpo. Em março do ano que vem, a Companhia das Letras lança no Brasil o novo romance do escritor, “Shop Talk”, ainda sem título em português.

    FOLHA – Seus livros falam da hipocrisia da classe média, mas há um interesse pela sua grande solidão.
    PHILIP ROTH – A hipocrisia não é um dos meus tópicos e não estou muito preocupado com a classe média. Não penso a partir de uma perspectiva de classe. A maioria dos personagens se encontra em situações extremas; muitos são personagens masculinos vulneráveis; são até fortes, mas não o suficiente. Coloco-os em face de forças intransponíveis e a hipocrisia não é algo que me interesse.

    FOLHA – Mas essa vulnerabilidade não tem a ver com o fato de eles pertencerem à classe média?
    ROTH – Eu não tenho consciência de classe quando trabalho. Em “A Marca Humana” (2002), o personagem é atacado pelos politicamente corretos, por utilizar a palavra “spook”, que é compreendida como um termo pejorativo para negro, quando não foi isso o que ele quis dizer. Ele fica isolado e, quando se envolve com uma garota da classe trabalhadora (não se diz mais “classe trabalhadora” porque também seria pejorativo, é “pessoa trabalhadora”), a sua vida se desfaz, mas não tem a ver com classe. Não julgo os personagens; eles podem ser vistos além da condição social.

    FOLHA – O sr. sente compaixão por seus personagens?
    ROTH – Sim, eu sinto. Embora sinta mais carinho pelos vivos. Os personagens estão só no papel. Nos últimos livros, como “Fantasma Sai de Cena” (2008) e “Homem Comum” (2007) há homens envelhecendo. Eu me preocupo com a condição das pessoas, com um tipo de solidão que penetra a vida dos mais velhos, que se sentem excluídos, perdidos. Não é tanto como eu me sinto, mas se consigo representá-lo de forma persuasiva e se consigo encontrar uma história que represente a condição.

    FOLHA – Mas o sr. representa de forma tão persuasiva que os leitores têm compaixão pelos personagens.
    ROTH – Isso é bom, mas você é uma leitora e eu sou um escritor, e as emoções não são as mesmas, porque escrever não é uma questão de sentimentos, é uma questão de invenção.

    FOLHA – O sr. leu algum livro de Machado de Assis?
    ROTH – É claro, li um livro incrível, narrado postumamente. Em inglês o título é muito estranho, “Epitáfio para um Pequeno Vencedor” [Roth se refere a “Memórias Póstumas de Brás Cubas]. Eu não sei de onde vem isso, mas é idiota, deve ser um nome de puro marketing, mas é um grande livro.

    FOLHA – Os personagens de Machado de Assis passam por situações ridículas, mas ele não faz com que o leitor sinta compaixão. Machado de Assis é cético; já nos seus livros não há tanto ceticismo, é como se houvesse uma saída.
    ROTH – Você tem razão. Ele é um grande irônico, é um comediante trágico. Em seus livros, nos momentos mais cômicos, ele representa o sofrimento fazendo-nos rir. Como Beckett, que é irônico com o sofrimento. Ele provoca compaixão no leitor, mas seu corte é duro e preciso. É possível representar o sofrimento de um ponto de vista distante, mas não faço isso.

    FOLHA – É possível não ser ridículo?
    ROTH – Nós não somos ridículos nem nos expressamos assim a todo o momento. Geralmente somos ridículos socialmente, quando nos sentimos deslocados, mas há muitas pessoas que não se sentem assim e os outros não as consideram ridículas.

    FOLHA – O sr. sente culpa por não ser um sobrevivente de guerra?
    ROTH – Eu só tinha seis anos quando a guerra começou e era um garoto americano. A culpa não é uma característica dos judeus americanos da minha geração. Eu passei minha infância durante a guerra e ela teve um tremendo impacto; eu prestava muita atenção nisso e o país também, mas não sinto culpa. Éramos treinados a nos sentirmos patriotas e a amar o país.

    FOLHA – Alguns de seus personagens costumam citar provérbios como: “Se minha avó tivesse rodas ela seria um trem” ou “Não seja modesto, você não é tão bom assim”. Eles contêm grandes verdades?
    ROTH – Eles são interessantes, mas incompletos. Nós vamos além deles. Há outras fontes de sabedoria, como os livros. Não conheço muitos provérbios judaicos. A religião não tem muito significado para mim, nem do ponto de vista ideológico. Eu não possuo nem um osso religioso em meu corpo. Sou essencialmente hostil às religiões, a todas elas. Hostil aos rituais religiosos. Eles são ridículos.

    FOLHA – A maneira como morre o personagem de “Homem Comum” é horrível. Trata-se de uma indústria da morte. O senhor acha que é possível morrer de forma mais digna?
    ROTH – As pessoas morrem sozinhas, com cuidados médicos, nos hospitais. Eu não diria que os hospitais são uma indústria da morte; o maior perigo é ser mantido vivo por meios artificiais. Tenho um testamento em vida em que determino que não quero ser mantido vivo por máquinas. Eu não sei nada sobre se preparar para a morte: estou especialmente despreparado e, como para todo o resto em minha vida, vou ter que lidar com isso no momento em que acontecer. Não desenvolvi nenhum protocolo: pode ser que eu a encare, pode ser que eu seja heróico, pode ser que eu grite…

    FOLHA – Caetano Veloso diz que nos EUA preto é preto e branco é branco. Aqui, vemos que o certo é certo e o errado é errado. O sr. concorda com isso?
    ROTH – Esse país é uma mistura de multidões e há muita sutileza, há uma sociedade de pessoas autoquestionadoras, inteligentes e intelectualmente sofisticadas. É claro que a maioria é burra, mas quando alguém de fora fala da América, eles estão falando sobre nosso mínimo denominador comum, talvez o mais óbvio, mas há muitas Américas. As pessoas vão aos museus em Nova York, eles existem e estão sempre cheios.

    FOLHA – Não quis dizer que as pessoas sejam burras…
    ROTH – Mas há muitas pessoas bem burras…

    FOLHA – Em “Fantasma Sai de Cena”, o personagem diz que Primo Levi se suicidou porque escreveu sobre a guerra e não porque esteve na guerra. Escrever sobre algo dói mais do que vivê-lo?
    ROTH – Eu conheci Primo Levi. “Os Afogados e os Sobreviventes” (1986) é um livro extraordinário e muito dolorido. Primo sobreviveu à guerra, voltou para a Itália e construiu uma vida! Ele sobreviveu a Auschwitz. Escreveu seu primeiro livro, que é incrível, “É Isto um Homem?” (1947), e depois não escreveu mais sobre a guerra. Escreveu “A Tabela Periódica” (1975), um livro fantástico e depois mais alguns livros e nenhum tinha a ver com Auschwitz. Então o que acontece? Ele se aposenta e começa a escrever “Os Afogados e os Sobreviventes”, um livro contemplativo, uma meditação furiosa. Acho que o campo tornou-se novamente algo vivo, a contemplação se transformou em pessimismo e o pessimismo em depressão. É isso o que eu quis dizer. Não acho que a experiência o matou, ele conquistou Auschwitz por meio de sua escrita e do exemplo de sua vida.

    FOLHA – O sr. acha melhor esquecer ou lembrar?
    ROTH – Lembrar a ponto de se deixar assombrar é ruim. Querer esquecer algo é completamente compreensível. Talvez a experiência seja tão assustadora que seja impossível lembrá-la sem se deixar assombrar. Eu não sei qual é a etiqueta nesses casos. O que é certo e o que é errado, o que é melhor ou pior.

    FOLHA – O “Fantasma Sai de Cena” é uma referência a “Hamlet”?
    ROTH – Não. É uma rubrica em “Hamlet”, em “Macbeth”, em “Julius Caesar”. O meu personagem se torna fantasmagórico, tem uma certa dissolução e desaparece da própria vida. Resta um tipo de fantasma.

    FOLHA – Seus personagens costumam afirmar alguma coisa e imediatamente depois costumam dizer exatamente o oposto. Por quê?
    ROTH – Acho que isso é o contrário da tal certeza de que você falou. Trata-se de autoquestionamento. Não pergunte o que aconteceu a você, pergunte como você fez acontecer. Mas às vezes as coisas acontecem. Não foi você. O mundo externo é muito poderoso.

    FANTASMA SAI DE CENA
    Autor: Philip Roth
    Tradução: Paulo Henriques Britto
    Editora: Companhia das Letras
    Quanto: R$ 42 (284 págs.)


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