A Leveza

 
(imitando ela e pra facilitar a leitura)

a gente não nasce exatamente para sofrer e não me parece justo fazer com que todos os acontecimentos sejam um sofrimento. não são. muitas vezes, ainda que sem querer ser dramáticos, apresentamos situações como um sofrimento. deve fazer parte da vida, deve fazer parte de um desconhecimento nosso, de uma fragilidade atávica que nos deixa mais sensíveis, mais incapacitados de aceitar coisas da vida, talvez de não aceitarmos a nós mesmos ou não aceitarmos a vida. assim imagino que seja, mas sem nenhuma certeza porque em momento nenhum temos certeza de nada – achamos que temos, mas não temos. é como a família, esse conceito tão estranho de pessoas que estão ligadas a nós. são como grupos, muitas vezes numerosos e outras vezes nem tanto. e quando esse grupo nos incomoda dizemos que família não se escolhe, família nos é imposta. o que é uma verdade… sempre tive uma família pequena: minha mãe e duas tias igualmente muito queridas que já morreram e foram grande perda para mim. tenho meus filhos, é claro, mas que estão grandes, levam lá a vidinha deles. tenho um irmão que, igualmente, leva a vida dele e fico anos e anos sem encontrar. minha família é minha mãe, uma velhinha de 80 anos, dessas pessoas que, pela idade, a gente sabe que estão para morrer, mas (que procuramos) não pensar muito nisso, como se fosse uma hipótese remota, uma fatalidade – tem gente que morre com dez anos e gente que morre com cem anos. de uma forma ou de outra e, sempre inventando argumentos para mim mesmo, como falta de tempo e todas essas mentiras, sempre fui um pai ausente e um filho ausente.

as coisas mudam, sempre mudam, não tenho dúvida disso e agora foi minha hora de que as coisas mudassem. minha mãe vem fazendo exames há quase seis meses, tentando descobrir a origem de uma tosse incômoda (que, veja que engraçado: venho tenho essa mesma tosse há meses sem que esteja com nenhuma gripe…. rs). há um mês ela descobriu (e aguardou um mês para me falar, para me poupar). bobagem, porque as pessoas nunca podem ser poupadas, as pessoas são o que são, recebem o que têm para receber por que na vida… “a gente mal nasce, começa a morrer…”

assim são todas as coisas independentemente do que achamos, desejamos ou idealizamos. não há o que idealizar sobre a existência porque existir já é em, si mesmo, um jogo, uma ‘pegadinha’, um enorme momento de reflexão – que não nos damos conta. minha mãe, com muito cuidado, falando da maneira mais tranqüila possível, me contou ontem (porque não havia mais como não contar) – que está com câncer. no pulmão! dentro de dois dias começam as malditas sessões de quimioterapia com sua patética queda dos cabelos. sim, não haveria como eu não saber. sei que ela está desesperada – porque nem aos oitenta anos estamos ainda preparados para saber o tempo que nos resta de vida e muito menos com sofrimento da morte causado por câncer no pulmão. puxa…

como eu dizia… é claro que uma pessoa que tem mãe muito idosa, “sabe” que ela, mais dia menos dia, vai morrer. óbvio. mas, igualmente ao idoso, o parente “apaga” essa certeza… acha que pode durar mais um mês ou mais dez anos. e, muito pior, poderá ser uma morte sem sofrimento. o câncer no pulmão não apenas reafirma a morte breve, como anuncia grandes sofrimentos. e, quem diria, não sinto vontade de chorar, não sinto vontade de blasfemar, não deixo de ser ateu… nada. não muda nada. muda tudo. muda a relação com a vida, a relação com as coisas, os momentos que deixamos de estar juntos (e que agora soariam falsos a nós dois). não é hora de fazer drama, não é hora de nada. relutei em narrar essa história aqui porque não desejo receber mensagens estimulantes dessas que falam que “às vezes as coisas acabam bem” ou “existem milagres” ou “devemos ter força”. por isso, fechei os comentários. no fundo é tudo e não é nada. são as verdades verdadeiras de uma vida que nem é tão verdade assim…

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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