Em busca do Tempo

Num mundo de verdades e de sonhos onde não sei o que é mais verdade ou mais sonho, até porque não passam de conceitos, vou me perdendo daquilo em que fui adestrado para ser. Não sou mais, portanto. Sou outro, de certa forma leviano culturalmente, que se entrega a textos “baixos”, que se permite adornar com letras que não dizem mais nada, que expressaram num tempo outro, uma verdade que se provou mentira e num momento que, de fato, nunca existiu, um momento que faz muito mais parte de uma história própria “inventada” do que aquilo que os outros chamam realidade. Faço-o propositalmente, exatamente na busca de uma aventura que se dispersa, se esfarela com o tempo, com o passar dos dias, meses e anos. Não sei onde tudo isso vai dar, onde essa perspectiva meio assanhada de um intelecto já meio carcomido entrega os pontos para o que pode ser inventado. Sou muito mais inventado (por mim e pelos outros) do que um espermatozóide crescido. Os fios brancos que nascem em meu corpo alertam não exatamente para o convencional passar do tempo, mas para a possibilidade outra de reinventar alguma coisa – não sei o quê – que seja menos caricata como tudo o que há na vida. Se a vida é um amontoado de máscaras caricatas, dessas que se compram em lojas de produtos carnavalescos, busco então a máscara de Gênova e arrabaldes, berço de um carnaval bem comportado que, certamente, me agrada mais. Percebo, com espanto, que sou o contrário de um Macunaíma, que me encontro prisioneiro da “Crônica da Casa Assassinada” de Lúcio Cardoso – que releio sempre em busca de uma redenção perdida porque não somos personagens exatos de uma obra fechada, mas de uma obra em construção, em movimento. Mesmo sabendo que essa “possível obra” terá um final do qual não escaparei, ainda assim vou de um lado ao outro, percorrendo meu corpo e minha rua, teu corpo e tua rua admitindo que não finalizamos ainda, que esse ou aquele autor poderão alterar sentimentos e situações que se refletiram em mim ou nas coisas que observo ou que me observam.

Os bares, na verdade, não me dizem nada, como, de certa maneira, nada exatamente me diz nada e tudo me diz tudo como a mostrar que não há um porto seguro, não há uma situação de calmaria onde eu possa “ancorar” meu barco cansado. Não. O que há é um oceano à minha frente que clama para ser atravessado, para que eu veja as bordas do mundo, se a água por lá escorre para o espaço ou não. Essa é a maneira encontrada por aquilo que chamam destino de fazer eu me aventurar mais e mais em caminhos e descaminhos que deixam marcas profundas no meu espírito (Sísifico), forma de fazer com que eu me enamore por objetos marinhos (como se marinhos não fôssemos todos nós). Prefiro terra firme ao mar e ao ar, e nem por isso deixo de navegar e voar. Um vôo que não é só meu, que é de um grupo, de uma classe, de um gênero. Vou me diluindo nessa multidão, nessa massa amorfa que me dizem povo, humanidade ou sei lá o quê. Sei que não é bem assim, mas, como não tenho a definição exata, aceito o que me dizem enquanto ainda estou nesse quarto de formas inexatas, com perspectivas vãs em busca de uma redanção que não virá, bem sei.

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1 Response to “Em busca do Tempo”


  1. 1 tania H. Beer 19/07/2008 às 19:28

    Alguns nascem com o poder de fazer da palavra a representação do que é. Para outros como eu resta a inveja.


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