Dialogar com os mortos

Entro e saio por determinadas portas que me levam a outras. Labirinto que reputo à própria alma e não a uma realidade improvável. Claro que estou lendo as mensagens que chegam a mim de formas imprevisíveis, misteriosas, de formas que me induzem a não acreditar em nenhuma delas (como as oníricas) muito embora saiba que, sim, são verdadeiras e têm endereço certo. Meu endereço! O salto agulha não chega a me dizer muita coisa depois que a vi descalça. São os movimentos independentes, esgares e ritos de prazer que não me impressionam, que recebo com a naturalidade de quem já viveu processos semelhantes (embora continue me surpreendendo com tudo). São impressões vagas como bruma rala, como cenário de papelão, como uma existência fake mais ou menos à partir de um script velho e mais do que decorado. Scripts velhos não deixam de emocionar e surpreender (como bons livros e bons vinhos). Esses personagens (quase folclóricos) que me aparecem do nada devem ter uma ligação profunda com um mundo imaginado, um mundo em que acreditamos, embora não apareça como realidade vivida – e comprovada.

Decido então seguir em frente e atirar com minha arma de bolas de sabão, munição que, ao atingir os mortos, ressuscita-os. Meus mortos são de cera como no museu, não são realmente mortos porque em vida não se pode entender a morte. Se os mortos são os outros, então não são verdadeiros mortos, apenas “deram um tempo” porque a morte é um privilégio meu (e de cada um). Se reparamos bem, percebemos que os ditos mortos continuam nos falando, conduzindo, induzindo. E, para muita gente, podemos também estar mortos, o que me parece natural. De todo o modo, dependendo da situação, estamos vivos ou mortos e só não pensarei mais assim quando, de fato, eu estiver morto. Cremado. Creio que posso vivenciar apenas o momento da situação imediata, de uma realidade que se imponha a mim sob qualquer forma, qualquer explosão que me faça (a todos nós) saltar de um ponto ao outro na imaginação ou nessa possível matrix.

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