Homem peixe em sala azul

Olho a minha sala. As paredes, objetos, coisas. Minhas coisas. Esse monte de cacarecos que colecionei em meio século de vida. Eventualmente foram mesmo sonho de consumo. Hoje não são nada, estão ali, imprestáveis. Pilhas de folhas de papéis manuscritos, uma caneca azul, um telefone sem fio que não funciona mais, uma quantidade de canetas muito maior do que a minha real necessidade. Uma cafeteira e maços de cigarro Marlboro espalhados aqui e ali. Uma rã de pano que a faxineira me deu de presente (e já contei aqui essa história: essa mulher não é apenas uma faxineira, é a pessoa que organiza e cuida de tudo para mim). Uma imagem de São Francisco (sim, estilizada porque sou ateu). Tenho simpatia pela imagem de São Francisco, não por sua história, mas realmente por sua imagem embora me desagradem aqueles passarinhos todos que deveriam cagar toda a sua roupa. Desagrada-me imaginar um São Francisco com vestimentas cagadas por pássaros. Deve ser uma tolice minha: pássaros não podem cagar em santos. Minha sala. Parede azul e parede branca. Chão de ladrilhos. Livros lidos e livros aguardando. Queijo ralado, leite e cerveja na geladeira. Observo atentamente e acho tudo tão sem importância… Coisas não são importantes. Pessoas são importantes, mas pessoas morrem. Quando eu morrer a vida vai continuar aí para os jovens, os sortudos, os saudáveis, os que nascerão? Não sei. Porque a vida é minha. Fui eu que juntei a tralha na minha sala é esse meu pulmão baleado que respira e, através de lentes corretoras, são meus olhos que observam a beleza e a tragédia dos homens. Se eu não existo, não posso ver e vivenciar a vida. E se não sou, não existe vida. Entretanto, não me convenço com uma filosofia tão barata. Outros, antes de mim viveram essa mesma vida: morreram e a vida continuou para mim. Ou seja, a vida não é minha, embora seja a minha vida. Talvez eu seja um passageiro numa espécie de rio e quando este chegar ao mar eu não estarei presente porque estar vivo representa “descer o rio”. Simplesmente. Por outra: talvez eu seja um peixe vivente num enorme cardume que um dia, sem mais nem menos, serei pescado pelo anzol de um menino de doze anos. Um peixe de águas rasas porque um peixe de regiões abissais seria alguém muito saudável que morreria de velhice. Se eu estou delirando? Certamente… e quem não delira? Resta-me então nadar, observar plantinhas e ver as pedras que rolam no fundo do rio, rolam tanto que terminam achatadas (mas continuam pedras)

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