Sem festa no arraiá

Jornais falam da epidemia da dengue, dos “tribunais” de execução nos morros e do dossiê de D. Dilma. Esses assuntos são recorrentes há mais de quinze dias. Não se fala em mais nada e, muito menos, resolvem-se essas questões. O Brasil é mais ou menos assim: sem solução. Não adianta nem a denúncia da imprensa, não adianta nada! É triste viver num lugar assim, nessa desordem, balbúrdia, irresponsabilidade. O povo é bovino, não vai para as ruas, não cria situações de fato. O tempo da passeata dos cem mil acabou, não volta mais. Simplesmente todo mundo acovardado, quieto em casa, sussurrando em botequins. Quer dizer, falar dessas coisas aqui, igualmente resultará em NADA!

Os dias de chuva são mais ou menos depressivos (ou deprimentes, como queiram) e, por outro lado estimulam o exercício pródigo da leitura e da escrita. E como os jornais são repetição da repetição restam os livros que nos trazem situações novas, empolgantes e emocionantes. Mais do que o cinema, a internet e a televisão, o livro ainda é o modo ideal de ocupação não formal (como carregar pedras, por exemplo). E repito que ainda estou muito atrasado em minhas leituras (finalizando agora “A elegância do ouriço” – indicação perfeita da mais que perfeita K.) Claro que isso não diminui minha angústia porque a pilha de livros à espera continua ali, olhando-me de soslaio. E repito que existem épocas em que damos uma certa emburrecida sim. Existem fases de desinteresse pelos livros, uma preguiça ancestral, atávica, uma distração que impossibilita avançar duas páginas… Ainda mais quando você olha seu saldo bancário negativo (rs). Estive assim e passou (o saldo continua igual). Voltando ao livro, muito interessante a passagem da menina que tenta fingir que é esquizofrênica. De certa maneira, acho que todo mundo é ou gostaria de ser um pouquinho esquizofrênico (mas não temos esse diagnóstico e isso frustra).

O resultado é que nos entregamos à Filosofia e ao estudo da Estética. Porque ambas as matérias são primas da loucura, dessa loucura básica que precisamos conquistar. Uma pessoa sem um mínimo de loucura nem chega a poder se classificar como pessoa. Temos todos a necessidade de falar e fazer coisas diferentes, nem que seja um pouquinho por dia. Quem não consegue, quem se impõe uma rotina draconiana embarca num processo regressivo até virar um macaco. Por isso vejo tantos macacos pelas ruas e todos eles chamam a atenção não por serem macacos, mas por serem macacos aloprados (palavra da moda). No momento, talvez eu seja um aloprado que ainda não chegou a macaco.

Se eu busco a fantasia? Sim, quem não busca? Como viver sem fantasia? Viver a vida à seco é nada, é não viver, é tornar-se o espermatozóide que não chegou lá. Até porque a fantasia é muito mais real do que algumas ‘realidades’ impostas e aceitas por um grupo. A realidade nada mais é do que um tipo de fantasia criada em cartório, com firma reconhecida. Eles dizem: “isso é a realidade” e colocam um carimbo. Ora, que bobagem: realidade e fantasia se entrelaçam e bailam juntas na geléia geral do dia a dia profano. Esperar alguma coisa muito diferente disso é esperar o que chamam de milagre e aí começa aquela história toda novamente sobre quem faz e quem é beneficiário dos milagres (e porquê). E como não espero milagre algum prefiro promover a grande festa, a grande bacanal, a urdidura do salto no escuro não me interessando se estou na senzala ou não.

Anúncios

0 Responses to “Sem festa no arraiá”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Ela…

Ela...

Trocas

e-mail



Mini blog



"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

Visite:
wwwgeraldoiglesias.blogspot.com

""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

Do que se gosta?

  • Nenhum

Tempo…

abril 2008
S T Q Q S S D
« mar   maio »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

%d blogueiros gostam disto: