Livros e Vozes

Massacrado pelos meus recém 53 anos dou uma volta pelas ruelas. Aquele mendigo intelectual que escreve sobre um livro já impresso está de volta (Já relatei meu encontro com ele). Sento-me a seu lado. Ele me explica que está fazendo correções no livro, que o autor era muito “desligado”. Contei a ele que eu também faço isso, também remendo histórias contadas por outros e edito filmes com o sentido de torná-los mais ágeis. O mendigo diz então que eu sou igual a ele e concordo. Como ele não me parece sujo, trago-o à minha casa (para surpresa do porteiro) e conversamos tomando Coca Cola. Ele é muito mais consciente do que eu imaginava. Me conta coisas da sua infância em Vitória do Espírito Santo, em como a vida era difícil, a pobreza absoluta e um ambiente familiar desagregado. Fugiu no início da adolescência e trabalhou em pequenos ofícios informais até que as vozes o dominaram de vez. Essas vozes, conta ele, vinham desde a infância, mas ninguém dava atenção. Agora, com sua barba esbranquiçada ele “administra ” as vozes, mas nem sempre foi assim. Conta ainda que esteve preso em hospitais durante anos e levou muitos “choques” para ver se melhorava. Não melhorou. Começou a ler romances no hospital e as vozes vinham e davam idéias sobre personagens que não estavam contemplados e sobre finais de histórias pífios. Então, prossegue, resolveu escrever à caneta por cima do material impresso suas observações, a retirar alguns e acrescentar outros personagens.

Preparei sanduíches para nós dois. Ele permitiu que eu lesse algumas coisas, fragmentos do que ele estava lendo com suas anotações. Não, ele não escreve nas bordas nem em pés de página, escreve tranquilamente por cima do que está escrito, certo de que não há nenhuma agressão nesse ato. Ao contrário: o autor havia de lhe ser grato. Ele tinha uma velha edição vagabunda de “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”. Confesso que achei as observações dele pertinentes e interessantes, mas não disse nada antes que ele tentasse me convencer a morar na rua e “reescrever” romances como ele. Ficou mais um pouco, perguntou se eu tinha cachaça em casa e, ante a negativa, resolveu partir para tomar uma “branquinha por aí”. Eram sete horas da noite. Resolvi então continuar minha leitura de Molloy (atrasada, eu sei) e, de repente me percebi com uma caneta na mão, prestes a fazer anotações no livro. Passado o susto, guardei a caneta. Não, ainda me falta ouvir as vozes.

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1 Response to “Livros e Vozes”


  1. 1 K. 23/03/2008 às 11:14

    Você é um jovem maluco. 53 anos são nada… só uma mera marca. Estou com saudades de você e continuo aquele ser relapso. Mas, não te esqueço. Você sabe que tem lugar garantido no meu coração.

    beijo carinhoso.

    K.


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