Meus papéis e folhas rabiscadas

Na verdade, o que sou mesmo é um assassino! Pano. Vaias. Saio pela porta lateral do teatro vagabundo. Ruas vazias. Mal cheiro. Lixo espalhado nas calçadas. Nu, em casa, observo uma nova teia de aranha na quina de um portal (cuja porta não funciona há dez anos). Meu gato careca esfrega-se em minhas pernas. Como sempre, esqueci o velho computador ligado. Na geladeira, uma lata aberta de sardinhas – já podres, uma garrafa de vodka pela metade, um copo de leite. Minha televisão ainda é em preto e branco, mas já tenho o sistema digital adaptado. “A Imagem-Tempo”de Delleuze está jogado ao chão e aberto numa frase solta. Montei uma estante rústica com tijolos e tábuas velhas. Alguns livros (poucos), resmas de papéis, de folhas dispersas, cadernetas e outras inutilidades amontoam-se sobre as tábuas desordenadamente. Preciso colocar água na garrafa plástica da geladeira. Preciso colocar um lençol sobre o colchão na minha cama. Mentira. Não tenho cama, o colchão está no chão. Não, o piso não é de terra batida, é de cerâmica (velha, mas cerâmica!) Descanso um pouco. Preciso comprar botas novas e colocar um solado mais alto de um lado para que eu claudique menos. Amanhã ou depois de amanhã. Recado na secretária eletrônica (sim, possuo uma), mas não me interesso por recados, recados nunca são boas notícias (nem más). Recados são recados e não me interessam em nada. Por isso nunca deixo nenhum recado para ninguém.

Sinto-me bem. O fracasso de hoje não me abalou. Escreverei, em alguma hora, uma outra coisa. Talvez gostem. Curioso que as pessoas me assistem exatamente por não gostarem do que eu faço. Sentem prazer em me jogar tomates em cima. Não, não gosto de vaias como Nélson gostava. Elas me são indiferentes. Uma caixa (de margarina) vazia. Estranho, achei que tinha comprado margarina, deve ter sido sonho (pesadelo) e descreio d’A Metamorfose de Kafka. Isso: não acho a história “kafkaniana”. Margarina amanhã, ok. A CAVALARIA de Isaac Babel. Com certeza todo mundo leu por conta de Rubem Fonseca (vão achar que também li pelos mesmos motivos, não acreditarão que li antes do romance dele). Amanhã estarei num apartamento clean de frente para a praia de Ipanema, bem ali na na Vieira Souto. Vidro fumê e tudo. Meu agasalho não será puído como o de ontem e vou ler a revista Piauí – que será lançada daqui a um ano e oito meses, terei telão de plasma e um carrão importado. Mais tarde. O relojoeiro da esquina (viúvo de Stálin) conseguiu a proeza que eu propus – mas acreditava impossível: fazer meu relógio andar para trás. Sim, ele conseguiu pouco antes de morrer, coitado. Câncer. Nosso medo eterno: o câncer. Como se, com medo,  ele não viesse. Espermatozóides não correm na contramão. Mortos só retornam em sonhos e vida se esvai diante de uma ampulheta digital, bem à frente dos nossos olhos (ou um olho apenas). Não necessito exatamente de dois olhos, preferia ter duas outras coisas que não tenho, enfim…. Não tenho nada contra Deus, só não creio nele pela imperfeição humana (e aprendi ainda pequeno, que somos à sua imagem e semelhança). Se, como me diz Vinícius, “O Senhor das Esferas” realmente existir, arderei nas chamas de um inferno improvável, mas agitado. Levarei creme Ponds para o Inferno e alguma Coca Cola. Sim, porque o meu verdadeiro vício é a Coca Cola. Tirem tudo de mim, deixem-me Coca Cola! (Aliás, esqueci de contar que tenho três latas do refrigerante na minha geladeira). Assisti “A bela adormecida” para compor um produto. Disney era rarefeito na edição dos seus filmes. Sempre que recorro a Disney tenho que consertar suas montagens apáticas. Chaplin era melhor. Mas conheço tão pouco de cinema…. Uma vida é muito pouco tempo para assistir e analisar todos os filmes (gosto mais dos feitos em preto e branco). Assistindo sua entrevista, concordo mais com Lobão do que os outros. Os Outros são motivo meu temor existencial. Assistir a um jogo de futebol é chutar o balde cósmico, é um suicídio pífio. Os Três Porquinhos foram mais fundo do que Kerouac. Certo, certo. Menos papo e mais ação, né? Vou pensar em um outro EU. Amanhã ou depois de amanhã. (continua)

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1 Response to “Meus papéis e folhas rabiscadas”


  1. 1 eliana mara 21/03/2008 às 11:35

    Fiquei uns dias sem poder aparecer. Do lado de cá, atividades e adversidades.
    E aprendi muito com as ultimas postagens, sobre seus projetos.
    Mas parei neste texto e parei mesmo. Não deu pra ler outra coisa. Porque é quase um conto pronto, fechado, resolvido. Gostei muito, muito mesmo.

    Abraços


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