“Minha porção mulher que até então se resguardara”…

Ao contrário do que eu disse, o amanhancer se dá pleno, sem medo de tomar, aos poucos o negror da manhã. Ele vem como quem vem de direito, como quem chega a seu lugar na hora certa e assume sua posição rósea e depois extremamente branca. Errei em minha análise, portanto.

Sim, não dormi por motivos variados, uma ansiedade no peito, no plexo, uma inconstância na alma e, talvez, pouca altivez sensorial. Li um bocado e minhas vistas ardem. Fiz anotações também. Muitas. Busco a essência dos ensaios críticos de Ana C. sobre sua negação à chamada literatura de mulher. Acredito que ela lutou um bocado e fez o possível para desmascarar isso, ainda mais numa época confusa, em pleno feminismo, onde as mulheres faziam o contrário para se afirmarem, gritavam por sua literatura específica e engajada sim! Foi um período tormentoso onde autoras importantes não se importavam com rótulos, como Clarice Lispector e seu CORREIO FEMININO. Até hoje ainda se fala de literatura de mulher como sendo algo diferente, como se intelectualmente a mulher fosse diferente do homem. Tolice. Como diz Ana, Gil já havia escrito Super Homem (“sua porção mulher que até então se resguardara”…). Para melhor ilustração, acrescento texto da Doutora Anita Costa Malufe: (quem não se interessar, pule o negrito)

Destacamos que não se trata de confidência quando Ana C. escreve seus diários ou monta suas cartas fictícias, ou seus poemas-carta, mas sim de construção, elaboração estética. Mas, para além disto, vale remarcar que, nesta operação de interferência no mundo, não se trata de um sujeito que se afirma através da linguagem, mas antes de um sujeito que se desfaz para fazer surgir a linguagem. Ou ainda, de um sujeito que, já de antemão, sabe da impossibilidade de sua captação, ou captura, pela linguagem. Devemos convocar aqui Maurice Blanchot, para quem o escritor não pode afirmar-se na linguagem, mesmo que assim o acredite ou deseje. Na escrita, ele é arrastado para fora de si e aí encerrado. A literatura só nasce desta renúncia do sujeito, devendo ser uma verdadeira quebra do vínculo que une a palavra ao eu. Temos assim, a poesia como um discurso impessoal, descolado da subjetividade do autor: “A fala poética deixa de ser fala de uma pessoa: nela, ninguém fala e o que fala não é ninguém, mas parece que somente a fala ‘se fala’”.(15)


o não-dito


Com este pano de fundo, algumas coisas podem mudar na leitura dos poemas de Ana Cristina. Acreditamos que estas idéias são fundamentais ao nos depararmos com os textos fragmentários e disparatados de A Teus Pés, seu último livro, e único publicado por editora – reunindo os três anteriores de edição independente: Luvas de Pelica, Correspondência Completa e Cenas de Abril. Deslocar a leitura para uma concepção do texto como não-representação é importante ao lermos poemas que imitam cartas (como é o caso do Correspondência Completa) ou diários (em Luvas de Pelica e Cenas de Abril). Mas se torna ainda mais premente quando nos defrontamos com a desmontagem desses gêneros operada em A Teus Pés. Ali, além de utilizar formas que nos remetem a essas escritas “íntimas”, Ana C. ousa mais, fragmenta mais, como se fizesse uma verdadeira colagem cifrada de frases vindas de diversos lugares.

O que temos no fim são textos aparentemente desconexos, cheios de saltos, de versos que parecem não se encaixar. E muita coisa ainda com cara de diário, de correspondência. Resultado: a impressão de que há segredos escondidos nas entrelinhas, símbolos a serem decifrados, silêncios que suspendem o entendimento e aguçam a curiosidade: o que ela está querendo dizer? Entretanto, parece não ser bem essa a pergunta a ser feita. Segundo Ana C., não se trata de fazer uma literatura de entrelinhas. Esses vazios, saltos, silêncios, espaços em branco seriam o que ela define como o “não-dito” do texto literário, algo que difere bastante do que usualmente se entende por “entrelinha”. Acompanhemos Ana C.:

“A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito outra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma, não. (…) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia, em geral, não existe entrelinha. (…) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?”.(16)

Não. Não busquemos o que está oculto no papel, no sentido de um significado fixo, escondido entre as linhas, codificado. O poeta não busca colocar símbolos no papel, como sinais nas placas de trânsito: uma coisa substituindo outra, uma coisa remetendo a outra especificamente determinada. Na poesia, tal qual a concebe Ana C., não há simbologia alguma, os elementos utilizados nos textos não estão ocupando “lugar de” ou representando algo. Questionada por alguém da platéia, no debate editado em Crítica e Tradução, a respeito do que ela quis dizer com a palavra “pato” em um de seus poemas, Ana Cristina enfatiza: “Pato, por acaso, é um significante que puxa muitos outros (…) Quanto mais puxar melhor (…) Não vou dizer nunca para você o que, para mim, o símbolo do pato significa…”.(17)

Tal é a natureza do que nos diz Ana C.: não busquem “o que eu quis dizer”, o que escondi por trás das palavras. Não há uma tradução para, por exemplo, a palavra “contramão” no poema/prosa “Mocidade independente”: “(…) Voei para cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão”.(18) O que seriam interpretações que procurariam um significado para o termo, como por exemplo aludi-lo ao movimento subversivo, ou crer que ela insinuou que a mocidade anda na contramão, etc. As interpretações psicológicas, que procuram no texto ocultamentos da intimidade do autor, iriam em direção semelhante a esta.

No lugar disso, o ato de leitura consistiria basicamente no que ela chama de “puxar o significante”, ou seja, ir fazendo associações as mais diversas e inesperadas a cada vez: “Ler é meio puxar fios, e não decifrar”.(19) As palavras devem ser encaradas como significantes nômades, que migram a cada leitura, ou seja, significantes com significados múltiplos, móveis, abertos. Para ela a linguagem poética não pretendia “dizer algo”, fazer literatura não é comunicar, não consiste em passar uma informação, transmitir palavras de ordem. “Tem um lado grilante da poesia. Ela não comunica”,(20) não do modo que nossa fala ou que o jornal comunicam. Eis um ponto central para Ana C.: a poesia revela mas não comunica.

Assim, no lugar de uma literatura de entrelinhas, Ana C. acredita no não-dito da literatura, um não-dito pertencente à própria materialidade textual. Enquanto a entrelinha remete a uma insinuação escondida, um “querer dizer sem dizer”, trazendo embutida uma concepção da poesia como veículo de comunicação (de significados, sentimentos, segredos), o não-dito é aquele que pertence ao próprio texto, e não remete a algum objeto externo originário. Por isso, trata-se de um não-dito enquanto questão literária, que não se confunde com intenções pessoais do autor, nem segredos de sua intimidade, nem tampouco com a clausura da simbologia. Seria antes um não-dito da liberdade: justamente esses espaços em branco, esses silêncios em torno das palavras, que as dotam de infinitos “fios”, aqueles que cada leitor irá puxar a cada vez. As brechas que arejam o verso e abrem-no à possibilidade das imprevistas associações. E afinal, completa Ana C.: “Toda literatura tem esse lado de: ‘ainda há uma palavra não falada’ (…) sempre haverá alguma coisa que escapa”.(21)

……………………………………………………………………………

VOLTO:

Tudo isso pra dizer que passo noites nesses embates filosóficos-caboclos-tupiniquins, que me atraco com volumes vários e de Ana C. e como que “discutimos” por ela ser uma igual, uma errante, uma perguntadora, uma doida que coloca em discussão coisas que deveriam ser óbvias, deveriam ser constantes em qualquer discussão literária, ou melhor, as discussões deveriam ser outras. Mas não são.

Por outro lado, com o atraso de um indolente, começo a ler O TÚNEL de Ernesto Sabato, livro que comprei, ávido, há anos e esqueci nas minhas estantes desorganizadas, rebeldes e agora tomadas de solidão por falta de muitos livros, de muitos dos seus pares. O jornal tarda.

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1 Response to ““Minha porção mulher que até então se resguardara”…”


  1. 1 Mingau 15/05/2008 às 10:48

    ai..ai como doi.. doi demais minha cons-ciencia. Quero mingau.
    Ruim querer ver so pedra, e nao ver so pedra mesmo. Afasta-se poesia…. nun quero mais ser… quero ardor de nao ser.


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