Último Ato
Terça-feira. 12. 6. 07 de G
Eu vivo a expectativa do encontro, busco mais na fantasia que na vã filosofia o momento em que o não transforma-se num sim constante, pontilhado, brilhante. O suor gelado nas palmas das mãos e o formigamento naquele ponto eqüidistante da barriga anunciam apenas que um instante se vai e outro chega para ocupar o lugar, linha de pontos que se tornam traço, como se sabe. Analiso meus olhos bem de perto com a ponta do nariz quase roçando o espelho e, nesses olhos, não percebo mais a presença do brilho de antes, do lampejo que perpassava o olhar em momentos gulosos. Percebo íris e glóbulos embaciados, opacos mesmo como os do ancião cego há decênios.
Não é motivo de desespero, nem mesmo angústia. Apenas um aperto no peito, perguntas que faço a mim mesmo já sabendo que não tenho as respostas, esqueci-as em algum desses baús que fui perdendo pela vida afora, nessas mudanças de saltimbanco que um dia fez planos oblongos, como galáxias distantes.
Agora, o deslize no sim é repetidamente o abraço do não. O que, por sua vez, é uma ilusão do outro já que não me manifesto para errar menos. De toda forma, sou essa interrogação suspensa no ar, elemento que chama medianamente a atenção de passantes esfarrapados, personas de Brechet.
Esse monólogo revela-se fraco em argumentação e frágil em dramaticidade. Lixeira com ele! O espetáculo mambembe nem sequer é risível no Novo Tempo. Resta distrair-se um pouco olhando velhos álbuns de fotografias sepiadas pelo tempo, relembrar as histórias que a avó contava sobre as companhias teatrais que percorriam o país em embarcações de terceira categoria, momento de artistas pobres, distantes no tempo do glamour que a televisão traria meio século depois. Vida dura. E sonhos também. Muitos! A cor moura dos ciganos, a encenação de uma peça teatral por semana, a ficha de atriz na delegacia arquivada junto com prostitutas e meliantes sem tom.
Agora, a era do recolhimento, a face que não recebe a luz do sol nem a queda da chuva. As últimas e efêmeras tentativas da centelha do encontro. Garantia (e costume) do fracasso auto-imposto pelos psicologismos de almanaque, dos velhacos trambiqueiros de jaleco que trombeteiam as maravilhas de suas beberagens mágicas, pílulas do prazer!
É só a fina camada de poeira que encobre lombadas de tomos relidos, de contadores de histórias que um dia entusiasmaram. O que chega mesmo é a hora verdadeira, momento de formular a última pergunta, talvez a única com resposta certa. Ou apenas com resposta.
A vez de desocupar o aposento, dar fim a tantos guardados inúteis, preparar com as forças que restam, o último ato, momento em que o ator já é persona, já não necessita mais tingir os cabelos de branco, tempo em que os poucos pagantes já tossem e bocejam na platéia. Sem pó de arroz, sem purpurina, sem grande final.
Apenas cumprir o trato, dar cabo de todos os atos e chegar ao último com um pingo de sobriedade, mínimo de dignidade não para aplausos que não virão, mas evitar tomates e ovos podres (indiferentes?).
Depois, fechar definitivamente a mala de papelão, juntar todo o dinheiro do borderaux somente para pagar a conta e, finalmente, retornar ao portaló do mesmo navio de terceira que um dia trouxe seus bisavós.
