Além da alimentação e dos líquidos, o homem funciona como um canudo também em relação ao dinheiro – que entra numa ponta e sai imediatamente na outra. Pensei isso de madrugada, ao deixar a taberna e a taberneira na porta me acenando. Os encontros nesses lugares não deixam de ser proveitosos porque é lá, sob o efeito do álcool que os homens me confessam seus planos e outros dão corda à fofoca do que está acontecendo. Só lá fico sabendo de tudo e os outros ficam sem saber que sei. As pessoas começam a falar, a despejar frustrações e ódios, os mais rasteiros e venenosos. O assunto é sempre trabalho, não falamos em outra coisa e dá a impressão que tudo desemboca ali. A taberneira e os serventes igualmente tomam conhecimento das coisas embora, muitas vezes, não compreendam os porquês do que está sendo dito. Se é uma ambiência agradável? Não acho, mas acho, eventualmente, necessária. A maioria das decisões sérias são igualmente tratadas nesse local e seus resultados práticos só aparecem na empresa três ou quatro dias depois. Não creio que haja vilania ou mesquinhez em estar atento nesses locais, é uma questão de sobrevivência atualizada.
Não, não troco a vida intelectual pela taberna. De maneira nenhuma. Aliás não troco absolutamente nada pelo prazer de estar lendo ou escrevendo. Minha visita às livrarias últimamente tem se dado de forma sui gêneris. Tenho uma amiga que trabalha na melhor livraria da cidade. Essa amiga está atenta a todos os lançamentos ou livros que possam me interessar. Telefona-me diariamente ou dia sim dia não alertando-me para o caso de eu não ter lido alguma resenha ou anúncio (anúncios nunca referem-se a um livro realmente interessante). Meus gastos são altos na livraria, muito mais altos do que na taberna. Entretanto, sinto-me cheio de prazer quando me bate à porta o entregador com o objeto do desejo. Desfaço o embrulho como a criança em noite de natal e dedico algumas horas àquele volume, mesmo que não pretenda ler todo por estar em meio à outras leituras. Por outro lado, existe um fantasma que mora em minhas estantes e prega peças trocando volumes de lugar ou fazendo sumir um livro por 3 ou 4 dias. Depois aparece. Os volumes que desaparecem vão para uma estante ao meu lado, preparada anteriormente para uma espécie de quarentena e castigo, onde o livro fica claramente exposto sem ser, necessariamente, tocado.
Em outros momentos são os meninos do meu grupo de literatura que me procuram em busca dessa ou daquela obra. Se ela ainda estiver à venda eu não empresto, mando o infeliz comprar. Nem sempre eles entendem, me acham pão-duro e tal. Sou mesmo, não gosto de emprestar livros para ninguém. Acredito piamente que os volumes tomam o jeito e a forma de seu dono, como um sapato muito usado, não devendo, portanto, cair em mãos estranhas (invariavelmente destrambelhadas). As coisas tomam o jeito dos donos. Veja como meu gato Artur é quieto, tranqüilo e silencioso; ele sabe que sou assim, que a casa é assim e que essa é a forma de vida que imprimo ao meu redor.
TROPA DE ELITE (não adianta mais querermos ser honestos, todo mundo já tem um cópia para nos emprestar) é um filme-documentário esclarecedor. É a palavra certa: esclarecedor. Se é bom? É. Não genial. Bom. Tem uma câmera nervosa como exige um filme de guerra urbana. É angustiante como um documentário. O treinamento dos soldados do BOPE. Barra pesada. Se é exatamente aquilo, a gente nunca mais vai confundir Polícia Militar com BOPE, nunca mais. Soldado do BOPE tem treinamente de guerra (muito poucos conseguem passar nas provas de resistência), tem instinto de justiça mesmo que essa justiça seja matar bandidos (e é o que fazem: matam, matam e matam). Fica claro que o morro se recupera mais rápido do que se conseguem novos soldados para o BOPE. É um filme violento. Como deveria ser. Não poderia ser diferente, né? Não poderia falar de tanta violência e não ser violento. Reafirma a violência das favelas e dos marginais. Algo me diz com certeza que estamos definitivamente perdidos. Perdemos para o tráfico e para toda a bandidagem. Perdemos. Penso no que fazer, que atitude pessoal tomar e não tem, não encontro nada. Vejo a perdição na minha frente, me vejo sendo queimado junto a pneus velhos. Verdade. Essa é a verdade que a gente não se toca, essa é a verdade que a gente convive e, como não vê muito claramente, finge que não tem. Tem. É uma violência intrínseca, não romântica. Eu lembro dos tempos do bandido Lúcio Flávio, lembro de uma época que não volta, de uma bandidagem outra, diferente, a bandidagem da época da ditadura militar (que não matou duzentos oponentes – estudantes comunistas). Hoje falamos em milhares. A ditadura é hoje. O tempo é agora, é a qualquer momento, é um instante que passa e o fuzil está apontado para a minha cabeça. Outro instante e estou morto. Ou o meu filho. Ou meu vizinho. Ou meu melhor amigo. Verdade que o filme substancia minha paranóia, minha fobia. Como dividir as coisas? Como delimitar o que é um pavor natural de uma fobia ilógica, fantasiosa? Não sei. Acho que então, se isso é fobia…. bom, então fobia não é fobia, é sentido de preservação da espécie.


Disseram