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Miscelâneas outras

Além da alimentação e dos líquidos, o homem funciona como um canudo também em relação ao dinheiro – que entra numa ponta e sai imediatamente na outra. Pensei isso de madrugada, ao deixar a taberna e a taberneira na porta me acenando. Os encontros nesses lugares não deixam de ser proveitosos porque é lá, sob o efeito do álcool que os homens me confessam seus planos e outros dão corda à fofoca do que está acontecendo. Só lá fico sabendo de tudo e os outros ficam sem saber que sei. As pessoas começam a falar, a despejar frustrações e ódios, os mais rasteiros e venenosos. O assunto é sempre trabalho, não falamos em outra coisa e dá a impressão que tudo desemboca ali. A taberneira e os serventes igualmente tomam conhecimento das coisas embora, muitas vezes, não compreendam os porquês do que está sendo dito. Se é uma ambiência agradável? Não acho, mas acho, eventualmente, necessária. A maioria das decisões sérias são igualmente tratadas nesse local e seus resultados práticos só aparecem na empresa três ou quatro dias depois. Não creio que haja vilania ou mesquinhez em estar atento nesses locais, é uma questão de sobrevivência atualizada.

Não, não troco a vida intelectual pela taberna. De maneira nenhuma. Aliás não troco absolutamente nada pelo prazer de estar lendo ou escrevendo. Minha visita às livrarias últimamente tem se dado de forma sui gêneris. Tenho uma amiga que trabalha na melhor livraria da cidade. Essa amiga está atenta a todos os lançamentos ou livros que possam me interessar. Telefona-me diariamente ou dia sim dia não alertando-me para o caso de eu não ter lido alguma resenha ou anúncio (anúncios nunca referem-se a um livro realmente interessante). Meus gastos são altos na livraria, muito mais altos do que na taberna. Entretanto, sinto-me  cheio de prazer quando me bate à porta o entregador com o objeto do desejo. Desfaço o embrulho como a criança em noite de natal e dedico algumas horas àquele volume, mesmo que não pretenda ler todo por estar em meio à outras leituras. Por outro lado, existe um fantasma que mora em minhas estantes e prega peças trocando volumes de lugar ou fazendo sumir um livro por 3 ou 4 dias. Depois aparece. Os volumes que desaparecem vão para uma estante ao meu lado, preparada anteriormente para uma espécie de quarentena e castigo, onde o livro fica claramente exposto sem ser, necessariamente, tocado.

Em outros momentos são os meninos do meu grupo de literatura que me procuram em busca dessa ou daquela obra. Se ela ainda estiver à venda eu não empresto, mando o infeliz comprar. Nem sempre eles entendem, me acham pão-duro e tal. Sou mesmo, não gosto de emprestar livros para ninguém. Acredito piamente que os volumes tomam o jeito e a forma de seu dono, como um sapato muito usado, não devendo, portanto, cair em mãos estranhas (invariavelmente destrambelhadas). As coisas tomam o jeito dos donos. Veja como meu gato Artur é quieto, tranqüilo e silencioso; ele sabe que sou assim, que a casa é assim e que essa é a forma de vida que imprimo ao meu redor.

Bossa Nova

Bom, de qualquer forma, vou me preparando um pouco porque não tenho nada a perder. Possuo uma boa bibliografia sobre a bossa nova como um todo, sobre Vinícius, Tom, João Gilberto (além das biografias escritas por Ruy Castro). São muitos livros, muito trabalho de pesquisa. Imagino que precisaria de uns 20 dias para começar a formatar roteiros de documentários. Caso a coisa não aconteça, azar, fico um pouco mais bem informado. Não sigo uma ordem cronológica e folheio a biografia de TOM, escrita por Helena Jobim. A fase em que ele esteve nos EUA com Frank Sinatra é simplesmente emocionante. Mas existe mais, muito mais a ser pesquisado…isso sem levar em conta que há dúvidas se Tom foi mesmo um dos primeiros da Bossa Nova… A coisa começou em 48 com Dick Farney… enfim…. é cedo pra eu entrar nessa seara…

Natal

Ela já chega na minha mesa com o copo de vodka transbordando. Comenta o meu uísque. Por que? Não sei. Não quero falar, não quero ouvir, não quero pensar. Amanhã. Talvez amanhã porque não sei como vou acordar. Sim, três livros para serem lidos e estudados rapidinho. O Teatro de Revista. Claro que eu tive a vida inteira para estudar, me aprofundar, mas, idiota, estava mais preocupado com Janis Joplin. Foi necessário que minha barba ficasse completamente branca para eu entender que minha veia estava aqui, do meu lado, dentro de mim. Eu, um gole de uísque…ela, um de vodka. Nos olhamos e a fumaça de nossos cigarros me dão a nítida impressão de um filme noir de terceira. Não, não é bem verdade. A verdade é que eu sou de terceira, provavelmente agrado seres de terceira e vivo nesse dilema/dicotomia entre o que desejo e me imagino e a realidade. Não tenho nada com a realidade. Sou mais irreal do que o conde Drácula, embora me reconheça sim um vampiro. (Quem não é?) Eu mesmo sou um vampiro de mim…. Ela, em preto e branco toma uma dose grande de vodka…. apenas seus lábios são vermelhos…. extremamente…. Penso que gosto mais dos lábios pálidos, como o dos cadáveres, mas não digo nada. Do outro lado da janela vejo luzes coloridas semi-frenéticas e penso que é Natal, essa época porca, desavergonhada. Deveríamos, imagino, vomitar em cima de cada Papai Noel. Barbas brancas e longas grudadas pelo vômito dos humildes.

Tudo na minha cabeça. Apenas ela na minha frente terminando o primeiro copázio de vodka e encomendando mais um. Faço o mesmo com meu uísque. Porque então a vodka é segregada e o uísque aceito? Tédio desse mundo de convenções babacas, de pessoas tolas, de gente vazia. Tédio do mundo acelerado, das propostas indecentes, dos homens de terno e gravata que usurpan a moeda dos pobres….Indisposição para levar adiante o que se apresenta como uma cena de assédio… Pra porra! Prefiro a penumbra e a leitura dos poetas malditos, a cachaça, o afago de um gato sincero, um telefonema de um filho distante. Melhor sim deixar a mulher noir com sua vodka podre e caminhar pelas ruas, sentir a chuva bater em meu rosto e pensar que sim, talvez amanhã…

Para mim mesmo

Transito num caminho de rosas mofadas (se é que ficam). Trago em mim não a dor, mas a incerteza de todas as coisas (inclusive a minha). Pergunto-me se não utilizo mal o meu tempo (Hoje em dia porque no passado desperdicei-o todo). Tenho temor de certas coisas: a internet é uma delas. Temo baratas também e muito! Tenho ainda temor das ruas, multidões, espaços amplos e de muitas e muitas pessoas. Imagino que sou aquilo que não era para ser, uma espécie de surpresa no nascimento (na verdade, amadurecimento). Um bebê de Rosemary? Nem tanto. Tenho uma calça de couro preta e outra de tecido vermelho. Chamo a atenção. Há quem me chame de cigano, a quem me abrace, há quem me deteste (maioria, graças). Perdi algumas pessoa insubstituíveis e ganhei outras que me ajudam a caminhas com essas sandálias de couro cru. Sou, para mim, o inesperado. A surpresa.

Vinícius….. o máximo

É diferente encontrar o amor de encontrar um amor. O que a gente prefere? O que a gente quer de verdade? A gente repete a palavra amor, amor, amor dia e noite, mas não sabe o que está procurando. Nem se está procurando. Nem se está aberto pra ir de encontro a ele. Existe uma bíblia do amor que é a obra completa do Vinícius. Lá você encontra toda a prosa, toda a poesia, todos os sonetos. Você encontra todas as possibilidades, todas as formas de amar e de amor. Se ele se contradiz? Sim, com certeza. Vinícius era humano demais e, portando, se contradizia. Talvez fosse até um pouco machista (embora tivesse muitas atitudes femininas e pró-feminismo). Ele era diversificado, diverso. Deixou uma obra que as gerações (medianamente cultas, o que é raro) lêem e pesquisam. E vão lá buscar segredinhos, receitinhas, como a “comidinha para depois do amor”. Eu acho isso bábaro: um cara não só cantar como se conquista um amor, mas como se vive um amor e, depois, que comidinhas se prepara “para depois do amor”. Receita completa. Ele não deixou nenhum espaço vazio. Nem uma ode deixou de ser cantada. Foi Homero bossa nova, não teve nenhuma vergonha em nenhum momento nem deixou de fazer todas as coisas que podia. Se viveu em paz? Sim e não. Acho que viveu plenamente a paz na medida em que viveu para o amor. E, por tanto amor, com certeza, teve momentos de angústia. Mas não parou, não desistiu, não renegou. Eu não conheço outro poeta assim nem um personagem de literatura ou ópera que tenha se entregado tanto. Porque se entregar de verdade é isso e não esses salamaleques que a gente faz e suspira que está se entregando. Não. É projeto de vida. Na veia. É falar assim: “eu vou ser um aterno amador”….e ser. Não deve ser fácil. Digo “não deve” porque estou a zilhões de anos-luz dele. Na verdade sou um projeto. Quando eu crescer, quero ser Vinícius, quero não ter preconceito nenhum e aprender a cantar todas as coisas que se pode cantar para uma mulher. Quero conhecer uma baiana e me converter ao candomblé, quero usar batinha e mudar pra Bahia, quero conversar com os amigos enquanto tomo banho de banheira, quero ser demitido do serviço público, quero ser amigo de Neruda, quero escrever minha versão do Orfeu, quero ser ídolo humilde, quero entender que o uísque é um cão engarrafado: o melhor amigo do homem.

Qüestão de lógica ilógica

Aos poucos, entendo que deve-se falar pouco. Escrever menos ainda. O que se deve escrever – e muito – são as coisas que nos vêm, coisas que passam em nossa cabeça, coisas descompromissadas, distantes de uma imaginada “realidade óbvia”, intimidades do intelecto que não façam necessariamente, lógica para os “desantenados”. Lógica, embora louca, de, simplesmente sentimentos, impressões. Expressões de realidades rarefeitas para os demasiadamente “lógicos”.

Bruna Surfistinha me redime e reconduz à tranqüilidade de ler um blog em paz!

Li um comentário do texto “Digam não ao comunismo intelectual” (por sinal um texto burro que já discuti e me recuso a voltar a ele) transcrito no blog D’Girl que me assustou. Eu achei que nada podia ser pior do que o texto: ledo engano! O comentário é ainda mais acéfalo. A comentarista, claro, adorou o texto (pra quem nunca foi ao Vaticano, o Bonfim é o máximo, né?).

Fora de contexto, no comentário encontram-se pérolas como: “Eu penso que o bom não tem que se rebuscado, o bom pode ser simples e quase sempre é. O bom é algo que, apesar de ter sido super pensado e estudado, parece que saiu de um suspiro”…………………..

e, ansiosa e cuidadosa para não fugir da sua seara: “(…)O livro SEXO ANAL(…). O autor, Luis Biajoni, jornalista e blogueiro ( … ). Sinto que os intelectuais torcem a cara. Sempre penso que daqui a vinte anos esse cara vai ser citado como gênio (ele e tantos outros blogueiros, citei um). Fico pensando se Chico Buarque era visto como gênio pelos colegas há 40 anos(..). “

Compara Chico Buarque com o autor de Sexo Anal. (rsrsrs) Esse é o padrão, moçada! Mas o preconceituoso mesmo sou eu! Sim. Claro. Sou um saco! Insuportável! Diante disso, em busca de um pouco de erudição, fui ler minha querida Bruna Surfistinha (escritora, modelo, atriz)… encontrei idéias mais coerentes, finalmente! Então, à partir de hoje, coloco na minha lista de favoritos, o site da Surfistinha que me redime e reconduz ao prazer de ler blogs sem sustos, na santa paz.

Caju

Revi o filme biográfico do Cazuza. É muito bom. Chorei. “A vida é breve”. A morte é tão irracional, tão injusta… Por que não nos deixam nossos ídolos?

O Homem ao Lado – final

Eu ia escrever uma coisa sem importância. Mudei de idéia e resolvi escrever uma outra, ainda mais sem importância, banal, que não interessa a ninguém. Não sei o quanto as coisas interessam a alguém (e por quanto tempo). Aliás, sei muito menos coisas da vida do que parece. Ou ainda, talvez, não saiba nada da vida e me assuste com as coisas mais banais (essa hipóetese é mais provável). Fico imaginando como se pode viver, viver muito tempo e não saber nada. Não era para ser assim… Ou era? Não posso falar dos outros, imagino que cada um tenha lá suas experiências pessoais, sua história, suas opções. Aliás, nem era o tom que eu queria dar aqui, aqui é outra história, aqui é uma história dentro de muitas histórias, uma experiência, aventura, expectativa, tentação, loucura. Olho pela janela e observo o vizinho. Vejo sua casa inteira. São nove horas da manhã e ele toma uísque. Toma uísque e parece chorar. Tem os ombros caídos como quem carrega o mundo nas costas. Ele olha à janela como quem busca amparo e Deus não está ali, só eu. Que amparo posso dar? Eu! Nada. Nenhum. Tenho vontade de gritar e me contenho. Aceno, mas ele não me vê ou finge que não vê. Normal. O que eu queria? O que ele quer? Por que essa casa (dele) está sempre tão solitária? Qual foi o grande pecado desse homem?

 

Talvez eu nunca vá saber, talvez ninguém nunca possa conhecer os segredos, as coisas que ele pensa, que sente, que sofre que chora, que lê de olhos inchados. Sou um curioso da vida e acabo me deparando com um homem sozinho, um homem que busca (Sim! Esse homem busca!). Todos os homens buscam? O quê? O que há para se encontrar realmente? O que se deseja, o que se quer? Para onde vamos nós todos ao longo desse caminho labirínico que me deixa sem fala, não por mim, mas por ele porque eu, por vezes, me sinto ele, eu me sinto todos os homens do mundo e percebo que essa busca infinda nunca teve começo e reconheço que não terá final. Findam os personagens, não os homens de carne e osso (se é que são mais de carne e osso do que os personagens!) Não sei. Busco um copo d’água e vejo a garrafa de uísque quase vazia. Então fui eu? Não, não fui, deve ter sido ele, mas ele está naquela casa e eu nessa… ele é ele e eu sou eu. Ou o contrário e não faz a menor diferença para quem já deixou de ler há muito tempo. Infinito. Breu. Destino. Negação. desconfiança. Lágrima. Nada.

 

É muito pouco a dar. O que contrinui o que eu vou dizer a esse homem? Ele quer me ouvir realmente? Não. Interessa o que eu tenho a dizer? Mas como se não faço a menor idéia do que dizer porque não sei dizer coisas a mim mesmo, não sei suportar as coisas normais da vida… porque não entendo a vida como vasto mundo, mas como um quintal meu. E quantos quintais mais, alguém sabe me dizer? Quantos quintais um homem precisa fazer ao longo dos tempos – que muitas vezes parecem ser eternos? Não sei de nada. Estou aqui, mas queria estar ali com ele e oferecer-lhe um café ou falar de um livro ou de um filme ou de um gato. Mas estou aqui, distante o suficiente. Mantenho uma distância de mim que proporciona a segurança que eu acreditava possível e que agora, vejo, não adianta de nada. Não adianta de nada. O que adianta de verdade? Quero respostas e soluções, quero certezas como a morte, quero, por fim, o distanciamento da racionalidade “boa” que traz sofrimento. O homem é louco porque assim se fez, assim escolheu e hoje vive a liberdade de morrer em paz. Um pouco à cada dia. O homem é racional porque não crê em nada, não espera nada, não reclama de nada. E muito menos cobra nada de ninguém. É um super-homem.

O reinício

Nem precisa colocar esse meio sorriso de escárnio na boca. Tampouco precisa avaliar se é uma atitude tola ou não porque atitudes são atitudes, nada mais que atitudes, não trazem em seu bojo nenhuma alteração para o mundo. O mundo – e os mundos – não se alteram nunca. Pelo menos não para nós.

Há um movimento que me altera, um movimento interior, um movimento de quem escuta os estalidos da madrugada. O SOBRETUDO DE LONA durou oito anos. Uma vida. Cumpriu o seu papel, ainda que, a meu ver, NÃO a contento. Não importa mais.

Não me vejo mais um contador de histórias nem um observador do cotidiano. Percebo-me alguém que (já há algum tempo) RASCUNHA coisas aqui e ali. A internet é uma circunstância menor. O guardanapo de papel ou a folha encontrada ao acaso servem igualmente. À partir de hoje, chamarei esse recanto de “A Descoberta do Mundo ou  Papéis Esparsos“. Mantenho o endereço antigo provisoriamente, para que não se percam os amigos e também e verdadeiramente por dificuldades operacionais (minha dificuldade e divergência  com a modernidade). O que muda? Nem eu sei. Mas será assim. Era mais do que a hora.

Tropa de Elite, consagração da paranóia

TROPA DE ELITE (não adianta mais querermos ser honestos, todo mundo já tem um cópia para nos emprestar) é um filme-documentário esclarecedor. É a palavra certa: esclarecedor. Se é bom? É. Não genial. Bom. Tem uma câmera nervosa como exige um filme de guerra urbana. É angustiante como um documentário. O treinamento dos soldados do BOPE. Barra pesada. Se é exatamente aquilo, a gente nunca mais vai confundir Polícia Militar com BOPE, nunca mais. Soldado do BOPE tem treinamente de guerra (muito poucos conseguem passar nas provas de resistência), tem instinto de justiça mesmo que essa justiça seja matar bandidos (e é o que fazem: matam, matam e matam). Fica claro que o morro se recupera mais rápido do que se conseguem novos soldados para o BOPE. É um filme violento. Como deveria ser. Não poderia ser diferente, né? Não poderia falar de tanta violência e não ser violento. Reafirma a violência das favelas e dos marginais. Algo me diz com certeza que estamos definitivamente perdidos. Perdemos para o tráfico e para toda a bandidagem. Perdemos. Penso no que fazer, que atitude pessoal tomar e não tem, não encontro nada. Vejo a perdição na minha frente, me vejo sendo queimado junto a pneus velhos. Verdade. Essa é a verdade que a gente não se toca, essa é a verdade que a gente convive e, como não vê muito claramente, finge que não tem. Tem. É uma violência intrínseca, não romântica. Eu lembro dos tempos do bandido Lúcio Flávio, lembro de uma época que não volta, de uma bandidagem outra, diferente, a bandidagem da época da ditadura militar (que não matou duzentos oponentes – estudantes comunistas). Hoje falamos em milhares. A ditadura é hoje. O tempo é agora, é a qualquer momento, é um instante que passa e o fuzil está apontado para a minha cabeça. Outro instante e estou morto. Ou o meu filho. Ou meu vizinho. Ou meu melhor amigo. Verdade que o filme substancia minha paranóia, minha fobia. Como dividir as coisas? Como delimitar o que é um pavor natural de uma fobia ilógica, fantasiosa? Não sei. Acho que então, se isso é fobia…. bom, então fobia não é fobia, é sentido de preservação da espécie.

Querer que eu não veja e não tema isso tudo é desejar-me alienado. E como fazemos tratamentos e terapias? Buscando entronizar que nada disso é verdade, que é ilusão, que é matéria da minha fantasia e o certo é não temer nada? Sinto, estou fora. Não quero me livrar da paranóia, não quero nem por um minuto perder o pavor, mais, a noção de pavor que é a constante da existência real. Real mesmo, sabe como? A gente deve então tomar medicamentos que nos deixem “alheios” a tudo isso? Sem medo? Lobotomia química? Prefiro não, prefiro me realizar nas fantasias em mim de uma realidade que está ali na minha esquina, que eu sei que existe, sei como e quando funciona, sei as regras e tenho um milhão de exemplos de pessoas que já dançaram. Algumas dançaram feio, outras, mais ou menos. E é isso que desejam que eu não perceba, que eu esteja fora?
Então é isso, eu ia fazer uma pequena crítica do filme TROPA DE ELITE ou A ELITE DA TROPA, mas não consigo mesmo, eu vejo apenas como um documentário que se utiliza de “recriações artísticas”, de simulações da realidade. Não me interessa muito aqui se a imagem ou o som são primorosos. Isso, no caso, é irrelevante. Não é esse o contexto. A idéia é outra, é jogar na sua cara aquilo tudo e dizer “E aí, irmão? Vai nessa ou não?”. Particularmente eu vou nessa, eu acredito naquilo tudo e talvez em muito mais. E é bom que, de vez em quando, joguem na nossa cara. Pra gente ficar esperto. E, se possível, vivo.

A coisa é um pouco mais complexa. Assistir ali, dentro de casa o que está acontecendo ali também, do outro lado da parede da casa, uau! Vontade de não ir na rua, vontade de pregar uma tabuleta em mim, dizendo que sim, sou doente, mas não seguro a onda dessa maneira de viver.

Circo: Bêbados, palhaços e equilibristas… e eu

De uma certa maneira, de um certo ponto de vista, a insegurança e a dúvida são, nada mais nada menos, que a boçalidade da alma. Falo exclusivamente por mim. À cada vez que titubeio, que penso duas vezes, que avalio demais, estão se carregando de munição a boçalidade que se empregna em mim. Não há como fazer de verdade, ir em frente pra valer sem se queimar, sem deixar tudo exposto (porque tudo tem que ser exposto!). Fugir disso é dizer não à si próprio, é não permitir-se avançar em rigorosamente nada, é “brincar de viver”. Acho que temos que apostar nas coisas, vivenciá-las com toda a força, sem nenhum medo. Como na “Cavalaria…” de Isaac Babel.

A segunda parte (volume dois ou segundo ato) se dá quando abandonamos o território da batalha. Quando nos rendemos não ao inimigo, mas à nossa impressão de “derrota”. A impressão de derrota é um sentimento frágil, mas comum, que assola à cada minuto, que está à espreita, aguardando o momento de entrar em cena. Se eu já abandonei arenas? Sem dúvida, já. Creio que mais de uma. Talvez muitas. Talves mais do que o usual. E agora? O que faço de mim? O que todas as pessoas assim fazem de si?

Realmente não sei o que virá nem faço a mínima questão de saber porque isso é a arte dos “advinhos”. Tô fora. Tô preocupado com essa sementinha aqui que acabei de plantar e espero ver, se não uma árvore frondosa, pelo menos um arbusto adolescente. Claro que eu tenho a curiosidade humana pelo porvir… O que não possuo é o desespero da expectativa no amanhã. Não. Não posso mais ter. A explicação lógica é que há mais de meio século convivo com a expectativa do amanhã e não acertei nenhuma vez. Nem conheço niguém que tenha acertado, nem a narrativa histórica de alguém que tenha acertado.

O que pode restar de tudo isso? Um vazio. Uma estranheza na alma. Uma incerteza sobre os próximos passos a dar. É titubear não pela finura o arame da corda bamba, mas pelo todo do circo armado, por toda a arquibancada, por todos os refletores, por todos os tigres enjaulados, por todos os despossuídos que não compraram o ingresso. À noite, o palhaço sai do tosco trailler e anda pela noite enluarada até um botequim que venda a cachaça que vai aplacar seu amor pela bailarina.

Por uma tarde que logrei uma conquista e fracassei como fracassam todos os homens que se empenham em coisas que são, de antemão, impossíveis, coisas distanciadas, outros mundos…

Blog, mofo, tédio e motocicleta

Eu ia dar nome aqui pra coisa ficar mais completa, mas terminei por deletar, deixar no ar assim mesmo porque as pessoas, aos poucos, vão sacando do que eu estou falando, vão conhecendo e vão dando razão ou não. Existe um grupo de senhoras de idade (esse grupo de vai de 40, 45 anos oa 70) que passam os dias tamborilando no teclado dos seus compatutadores para blogs com uma finalidade: mostrar que conhecem (que é NADA). Então é muito engraçado porque eu tava lendo um agora que não fala de um livro, fala de LISTAS DE LIVROS, todos CLÁSSICOS e fica repetindo aquele mantra chato e contando que vai ler esse e aquele com sua turma do ginásio. Diz ela que vai ler O Apanhador do Campo de Centeio (!!! putz!), fala em dezenas de títulos, chama de Rosa, ao Guimarães Rosa (deve ser íntima da família)… fico lendo, tentando entender o que aquela mulher faz descrevendo tantos lirvos, enumerando tantas listas e, ao mesmo tempo, continuo desesperado de pena do moleque que vai ler O Apanhador no Campo de Centeio. Deus! Se eu tivesse lido esse livro na pre-adolescência eu teria me enforcado numa árvore. Com toda a certeza! E ela continua, fala de livros solares e livros não solares, publica ainda fotos dela mesma (essas velhotas grisalhas de cabelo curto). Olha, ler um trecho daquele blog é uma maratona!

Por outro lado, não posso me esquecer que, igualmente eu, nos meus cinqüenta e dois anos, sou também um velhote, mais um desse grupo de “segunda idade e meia” e relembro ainda que, volta e meia, cito um livro aqui, coisas que estou lendo, que gosto, desgosto e tal. Talvez me achem pedante. Mas eu não tô falando disso, bicho!! Tô falando de uma mulher fazendo listas de livros, falando quais levaria para uma ilha deserta e começa por Ana Karenina (aquela coisa chatíssima!). É como se dissesse aqui que levaria Ulysses… De Joyce! Pelo amor de Deus! O que me incomoda é que são essas pessoas que disseminam “cultura” na net. Não são os verdadeiros (poucos) intelectuais que nós temos! São essas mulheres entrando ou entradas na menopausa com seu ar de “toda toda” da cultura. São elas que se exibem umas para as outras com um quê de pseudo-lesbianismo-de-terceira-idade! Claro que a gente tem que ficar apavorado! Eu insisto: uma coisa é você falar de livros como fala de qualquer outra coisa que seja assunto seu naquele momento, agora, ficar cagando goma e fazendo de listas de livros e falando em cultura e blá….por favor!

E quanto mais você vai entrando no blog da criatura, mais vai sentindo aquele cheiro estranho de mofo, aquela atmosfera pesada. Imagino essa mulher às onze e meia da noite, sentada numa poltrona de veludo lendo um clássico qualquer e ouvindo uma música clássica pra completar o quadro do seu devaneio pela Cultura! Imagino o que é tomar um chá na Colombo com essa mulher, imagino que é ser filho dessa mulher (sim ela tem uma adolescente – e publica a cândida foto das duas no blog como se aquilo fosse um aparador ou mesinha de centro do século passado!). Enfim, eu escreveria aqui o dia inteiro e não daria a idéia do que é o quadro geral daquilo.

Em muitos momentos, observo no guarda roupa meu sobretudo de lona que está guardado e reflito seriamente se não chegou a hora de eu comprar uma moto e ir embora pelas estradas.

Alberto Caeiro

HÁ METAFÍSICA BASTANTE EM NÃO PENSAR EM NADA

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro

Subestimar espermatozóides

Com certeza, escrever é reação contra o que está disposto, colocado. É dizer não ao que se propõe o todo e criar uma nova história, uma possibilidade diversa da chamada real. O que é real? Qual a literatura que não é real? Qual o filme, a ópera? Tudo é real, tudo pode ser visto sob o prisma de um olhar diferenciado, de uma ansiedade boa, dessas que nos movimentam, que nos fazem andar pra frente (e para trás). Todo mundo escreve e escreve muito. E se por acaso não grafa com lápis sobre papel, pensa e seu pensamento constrói histórias, siuações, personagens e tramas que estão correndo paralelamente em sua vida. Não existe uma vida, um homem não se basta. Não cabe em si mesmo. Um homem é um projeto, uma cápsula doida, meio tropicalista (sabe?) que promove situações e coisas que, por sua vez, vão interagir com o todo de sua cercania na vida. Nem mais nem menos. Quando duas pessoas estão juntas, na verdade são quatro e assim por diante. Entender a vida de maneira simplória, como um simples nascer, viver e morrer é subestimar espermatozóides, é coisificar tudo de maneira anormal, determinar um mundo outro, aí sim, um sonho, uma utopia. O que separa o normal do louco é a incapacidade do louco em fantasiar de verdade.

Tem uns assuntos que a gente vai escrevendo e pensando e aí vem mais coisas e, se não tomamos cuidado, escrevemos um tratado insuportável sobre coisa nenhuma, martirizando o leitor de boa vontade.

Os travos amargos

Ele toma uma garrafa de uísque seguida de outra. Talvez uma por dia ou um pouco mais do que uma. Seu estado é lastimável, seus olhos, inchados e esbugalhados, nada mais faz sentido, não tem razão e a lógica…. ah, a lógica. Não. Renega tudo e todos ao mesmo tempo e da mesma forma num sentimento mútuo dele com a humanidade que, igualmente, o despreza. Ele é um traste no mundo, um ‘dar trabalho’, um motivo de preocupação e chateação. O mundo gostaria de vê-lo morto, mas apesar da quantidade de uísque e dos quatro maços de Mallboro diários, ele ainda está ali. Aquele olhar indefinido que não se sabe se observa ou está louco. Já dormiu na rua várias noites por esquecer o caminho de casa, já teve todas as doenças e todas as decepções, já sofreu por todos os amores, por cada uma das mulheres sobre a terra. Já tentou se enterrar vivo pois seria a maneira mais original de se suicidar. Homens, baratas e rodox. Isso constitui o mundo, um mundo estranho, denso em fumaça negra irrespirável, denso até mesmo em sua incompletude, em sua insignificância de não ser. O paradoxo de ser pleno no chão, sarjeta, esgoto. Ratos enormes caminham pelas ruas, bichos estranhos que não atacam, mas rondam, observam e ameaçam. Esse pode ser um mundo paralelo, pode não estar exatamente aqui, mas um pouco ali adiante, não importa muito se está abaixo da janela ou numa dimensão paralela porque, para ele, não existem mais barreiras entre as dimensões de todos os paralelismos imagináveis. Há um momento em que você vai, cara, vai muito fundo, vai num estágio onde as coisas se misturam, as cores não têm mais matizes e a luz solar é carregada de muito pó, um pó que sobre de pedreiras e catacumbas.

Os homens de vez em quando percebem o mundo de forma diversa, de forma diferente do que olhamos todos os dias na estante em que nos colocamos como quem não quer pisar na lama. Isso não quer dizer que não exista a lama.

Dececlaração do amor demais ou “Aflições de Amor”

Nossa missão na vida é declarar amor. Fico imaginando uma pessoa que passe pela vida, faça de tudo, mas não declare imensamente seu amor. Perdidamente, apaixonadamente. Entretanto, fora da literatura, é raro a gente ver uma declaração dessas. Na literatura ela comove porque o autor, mesmo escrevendo uma ficção, não deixa nunca de falar de si próprio. Existem também as cartas, essa invenção mágica que os amantes se trocam contando segredos, aflições de amor (que é lindo). Na carta dá-se a grande declaração de amor. Mas ela é particular, quase secreta. Por isso eu acho lindo quando vejo aqui e ali essa manifestação rara, qualquer tipo de declaração de amor.

Eu acho que deveriam haver declarações de amor em todos os lugares onde passamos, em todos os cadernos, racunhos, blogs, espelhos de banheiros, gravado à ferro e fogo em nosso inconsciente

Jogos Mortais

Eu não tenho exatamente esperança. Seria um termo errado. Trata-se, na verdade, de expectativa. Uma expectativa libidinosa. E não é uma coisa simples porque não existem muitas pessoas que me interessem. Uma, talvez duas (nunca se sabe). Essa expectativa pode ser um joguinho entre eu e eu mesmo (prática que me agrada). Por que? Porque se UM EU perde, um OUTRO EU ganha.

Talvez seja outra história, talvez seja um exercício mental com características de joguinhos, de vídeo-games que exercito de maneira solitária mas linear. Aliás, sou das pessoas mais lineares que conheço

Estou

Sou pura e saudável hemorragia. Simples assim, como deveriam ensinar os poetas. Se não o fazem é porque estão, igualmente, esvaindo-se – o que não é mau.

Finalmente o chute necessário na minha bunda dado por mim mesmo

Cazuza – O Tempo Não Pára

Não é ele de verdade, mas não faz mal, vale a intenção. O áudio está bom e eu preciso cantar junto e gritar junto. A liberdade!
Cazuza: Tim, tim. Tua côrte te saúda!

Quem sabe que diga por mim

    TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar? (…)

Desde ontem essa poesia está na minha cabeça. Não gosto de transcrever poemas aqui. Acho tolo. Ao mesmo tempo estou oco demais, não sei bem o que dizer. Portanto, quem sabe que diga por mim (ele carregou esse texto consigo sem jamais vê-lo publicado)

Tudo de bom

Samba da Benção
(Vinícius de Morais e Baden Pawell)

Cantado

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Falado

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Cantado

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Falado

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Falado

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Colocado aqui exclusivamente para uma menina de 16 anos… exatos 16 anos… nem um mês a mais…

Reclamações de quem gosta de escrever e acreditava que podia

Porque é o seguinte:  no final dos anos 50 Kerouac escreveu “On the Road” porque correu as estradas de costa a costa, escrevendo desesperadamente, muitas vezes o dia inteiro e sem ser incomodado por ninguém. Normal. O que rola é que a gente escreve sem parar e escreve naturalmente tudo, sem amarras nem patrulhas. Porque você escrever com medo de todos os neuróticos e loucos se melindrarem com isso e aquilo, você não escreve nada. Ou não é você quem escreve, você está servindo de “mão” para outro escrever. Tem que colocar as coisas nos seguintes termos: se o que escrevo, eventualmente, incomodas outros e outras, se dá margem de dizer que eu sou isso ou aquilo ou que tenho tais e tais defeitos, igualmente eu posso vomitar sem parar em cima do teclado, monitor e o cacete lendo outras coisas só porque elas não são a minha. Eu conheci um psiquiatra há muitos e muitos anos que já me dizia uma grande verdade: com toda a certeza Eu me medico pelos outros, quer dizer, perto de tanta gente desajustada, louca, doentia… porra, bicho, eu sou um anjo de candura. O que não dá mesmo (e eu não vou fazer) é pegar um monte de marginais assassinos e ter que respeitá-los porque essa é a opção deles. Muita doideira, to fora. Não vai inverter tudo agora e a doença, a loucura virar normalidade e a crítica natural virar doença ou maldade. Quem fez o mundo e a sociedade não fui eu, agora se criaram regras do que pode e do que não pode, do que é normal e do que não é normal é porque precisava colocar alguns limites. Negar isso é boçalidade, é dizer que nada é nada. Sabe, é isso, é que nem aquela louca da MEG do Sub-Rosa quando inventou que tinha morrido pra fazer gracinha. Claro que ficou todo mundo puto, todo mundo queria mais é que ela tivesse morrido mesmo. Isso é putaria e pronto, anormalidade e pronto, não vamos agora chamar de opção bater palma pra maluco dançar. E tem mais, se eu falo de várias coisas, critico uma série de coisas, pessoas, obras, etc. é simplesmente porque eu conheço (não tenho culpa). Tão horrível quanto isso é não se conhecer nada e ficar num mesmo assunto eternamente, “monocórdicamente“, dessas coisas que você lê uma vez, acha graça e pronto, já leu tudo. E se tem alguém assim, deve se repensar, se resolver e não criticar nem se incomodar com o que o outro está fazendo (ou falando) quietinho. Morou?

Jack Kerouac


O amor é o cemitério populoso da podridão.
O leite derramado dos heróis.
Destruição de lenços de seda pela tempestade de pó.
Carícia de heróis vendados
presos nos postes.
Vítimas de assassinatos aceitas nesta vida.
Esqueletos trocando dedos e juntas.
A carne trêmula dos elefantes da gentileza
sendo despedaçada pelos abutres.
Concepções de rótulas delicadas.
Medo de ratos espalhando bactérias.
A Fria Esperança da Gólgota pela Esperança do Ouro.
Úmidas folhas de outono contra o casco dos barcos.
As delicadas imagens de cola do cavalo-marinho.
Morte por longa exposição à desonra.
Seres assustadores
encantadores
ocultando seu sexo.
Pedaços da essência de Buda congelados e fatiados microscopicamente
em morgues do norte.
Pômos do pênis a ponto de semear.
Mais gargantas cortadas que grãos de areia.
Como beijar minha gata na barriga.
A suavidade de nossa recompensa.

Filmes masoquistas na televisão de madrugada não me deixam dormir

Vendo televisão ontem de madrugada rolou um filme que nem eu entendi muito bem, mas que era sobre toda a sorte de tipos de taras e pederastia (eu nem sabia que haviam categorias!) e anormalidades mis, com gente batendo em gente, cortando, xingando, sente usando capuz, correntes, alfinetões, gritando, correndo um atrás do outro, gente chorando e implorando que parasse aquilo (mas parece que gritar para parar quer dizer que é para continuar!), tudo num ambiente dark, com muito couro e essas coisas todas. Bom, que tudo isso existe, existe (não vou dar opinião), agora fazer um filme mostrando… verdade que as pessoas que não desejam ver simplesmente mudam de canal. Agora e as pessoas que desejam ver? É por que gostam, certo? Assistem porque se amarram. Mas aí eu fiquei me perguntando: como é que dá pra gente se fantasiar todo, espancar pessoas, cortar, correr atrás e gritar e ao mesmo tempo ver o filme pra se excitar? Tem que ser um ambiente cheio de televisores de forma a que se veja no vídeo aquela história em qualquer ponto do lugar onde se esteja. Os mascarados devem sair no prejuízo porque devem enxergar menos. Quem tá amarrado de cabeça pra baixo assiste o vídeo de cabeça pra baixo (ou colocam uma televisão de cabeça pra baixo em frente a ele?). Mas o filme, ao invés de excitar, não pode tirar a atenção, desconcentrar? Ou eu não entendi nada? É um vídeo educativo? Primeiro você assiste tudo quietinho, sentadinho direitinho numa poltrona? Quando o filme acaba, aí você começa? Mas se voce não tiver hábito, não pode esquecer alguma coisa importante a ser feita?
Há muito tempo, por exemplo, eu assisti O Albergue, um filme tipo C muito parecido com esse da televisão. Todo mundo amarrado e sendo cortado em postas. O Albergue (ainda que vagabundo) era mais excitante porque os torturados morriam, o camarada arrancava língua, olhos, pau, braços, pernas e etc. A quantidade de sangue também era maior. Eu só esqueci, na saída do cinema, foi de olhar pra ver se tinha alguém excitado. Reparei apenas nuns poucos, com cara de enfado, de quem assistiu a um péssimo filme.

Porque eu sei (e já vi muito) que existem esses filminhos pornográficos bem mal feitinhos, que as pessoas compram ou alugam e ficam vendo e trepando (se excitam com isso, ok). Mas não tem gente de cabeça pra baixo, nem correndo… Se tiver, você não tem como ver o filme e fazer igual, né?

Uísque

Num final de tarde, acho que um uísque cai bem. Certo, um é mentira: alguns. Vinícius dizia que o uísque é como um cão engarrafado, o melhor amigo do homem. Não sei se chega a tanto. Paulo Francis afirma que ficava meses ou anos longe do uísque, coisa que não acredito, mas reconheço que é uma  frase de efeito. Todos fazem suas escolhas e falam delas de uma maneira ou de outra. Faço o mesmo. Mesmo sendo verdadeiras, eventualmente também cometo uma frase de efeito. Todos devem fazer o mesmo; difícil é perceber quando e como.

Confesso que tenho um livro sendo escrito, o que não quer dizer nada, pode ser da pior espécie. Certamente é e jamais será publicado. Muita gente escreve e não publica mesmo, embora tenha muito lixo também por aí nas bancadas das livrarias. Mas também é verdade que todos têm o desejo de publicar algo, deve ser chic, dar status. Eu me contento muito bem escrevendo blogs e lendo os livros. Mentira. Estou nas páginas finais do diário do Paulo Francis e, como sempre faço, economizando pra durar mais um pouquinho, embora saiba que vá ler tudo novamente em seguida.

Emprestei A Idade da Razão para uma menina do trabalho. Agora que ela me devolveu, me deu vontade de reler esse livro que fez minha cabeça na minha juventude; mais do que fez minha cabeça, foi um norte em minha vida por anos e anos.

Mas, ainda que seja Sartre da melhor estirpe, tenho medo de me decepcionar. Não com a obra, mas com o furor que me causou aos vinte anos. Vou pensar duas vezes antes da empreitada

Sempre tédio

O duro na história toda é o enfado. Eu sou francamente à favor do suicídio. Essas coisas todas que vivemos e fazemos são insuportáveis, dão um tédio do tamanho do mundo. Não tenho vocação suicida, portanto, condenado a ficar, continuar contando (e fazendo parte dessa) história que me dá a impressão que todo mundo já conhece. As pessoas têm uma tremenda resistência (e incapacidade mesmo) de permitir o novo, o inusitado, a experimentação. Dizem que não fazem isso e aquilo, não gostam disso e daquilo. Como assim? Pessoas são experimentadoras por natureza! Como negar-se a experimentar, provar? Pois é, mas é assim que acontece, o que me faz olhar o mundo com enorme distanciamento crítico. Como falam e escrevem se não leram os gregos? Opinam sem terem lido os críticos ingleses e americanos, enfim, um oba oba mulato, uma coisa tolinha, colegial (de CIEP).

Eu cada vez vou falando menos e discutindo praticamente nada porque não tenho paciência. Nenhuma. Ouço as maiores barbaridades e penso em outra coisa, finjo (e me conveço!) que não ouvi. Até porque ficam entusiasmadinhos comigo achando que trabalho em algo criativo…. balela! Criativo é pensar. E pra pensar tem que conhecer. Uma coisa leva à outra e desconheço pessoas preparadas. Minto. Têm algumas. Poucas. Fazer o quê? Daí as coisas se invertem e algumas pessoas se afastam dizendo que sou blasé. Sou? Claro que não!Nem tenho ainda a formação necessária para isso. É aquela história nojentinha de que quem tem um olho em terra de cego é rei. Blá! Prefiro conversar com meu gato que é mais inteligente e presta atenção no que digo (embora não concorde em metade das vezes).

Sempre a mesma história de “ir levando”. Não concordo. Ir levando o quê e pra quem, me diz? O que eu aposto é na proposta nova, na pessoa que chegue perto de mim e diga uma coisa que me espante, me impulsione, me faça pensar, me faça sentir-me humilde e correr pra estudar aquilo! O resto… é o resto. Dessas coisas como comer pão com mortadela todos os dias. Nesse ponto a internet é decepcionante porque estamos em contato com milhares de pessoas ao mesmo tempo, o que é impossível presencialmente. E nem aqui! Achava que tinha sono de dia porque durmo mal à noite, mas não é, é tédio, olhos pesados de mesmice, falta de impulso externo, de gente que chegue e diga: olha isso aqui! E eu ache revolucionário. Porque as coisas ou são revolucionárias ou não são nada, entende? Viver, em si, não é mérito, é obviedade de ter nascido, mérito exclusivo da velocidade ou trapaça de um espermatozóide.

Net

A net é interessantíssima e, ao mesmo tempo, chatérrima. Por isso ninguém se entende por aqui.

Até mais tarde

A gente realmente tá pouquíssimo ligando pra opiniões baratas. É melhor, já que o Brasil é assim mesmo, caipira, renunciar definitivamente à idéia de ser inteligentezinho e cair logo nessa gandaia babalaô, jeka, tolinha e morena. Esse friccionar de corpos sem emoção nem poesia.

Lágrima

Raramente choro. Não sei porquê. Machismo tolo? Talvez. Mas o fato é que não choro. No entanto, quando consigo, como é bom chorar! Como é bom deixar a alma falar mais alto sem se importar com as coisas que dizem por aqui serem as certas! Como é importante relaxar e deixar o espírito tomar conta, dizer que não somos exatamente assim como parecemos, que somos melhores, que podemos (e devemos) nos emocionar sempre…. Porque um homem quando perde a capacidade de ser romântico e a emoção…. bom, não é mais um homem.

Imortais

Tava conversando com um amigo. Papo machista, sabe? Pois é. E no papo machista a gente sempre concorda que feminismo é uma coisa tola, jeka, “coisa de mulher”. Ele me dizia que feminismo está diretamente ligado à enorme quantidade de neurônios que a mulher tem a menos do que o homem e às suas particularidades, como TPM, menstruação e seios. Talvez seja verdade. Talvez ele exagere um pouco, mas que feminismo é chato, isso, reconheçamos, é. Não é à toa que todas as mulheres inteligentes que eu conheço, não precisa nem isso, todas as pensantes, de-testam feminismo. Tô falando isso porque estava lendo uma passagem de Clarice Lispector que ela fala disso com outras palavras. Ela era, realmente, profética. Ela sabia o que aconteceria depois do movimento (dos quadris) de 60. Sabia que ia ser essa lambança. Então ela escreveu o que há de melhor na literatura brasileira exatamente contra isso, falando da mulher essencialmente, de verdade, como ela é, seus anseios.

Clarice não poderia viver nos tempos atuais. Acho que as pessoas vêm ao mundo no tempo certo. Chegam, fazem o que têm que fazer e vão embora. Verdade que, irracionalmente, tememos a morte e fazemos o impossível para nos mantermos vivos, mas não pensamos como seria doloroso e insuportável viver um futuro que não é o nosso. Como vivemos de ilusão, de aposta no futuro mesmo sem conhecê-lo, queremos viver mais e mais. Loucura. Não suportaríamos um tempo que não é o nosso. Nossa morte é a nossa marca, momento que viramos História.

Ainda Francis

Ler O Afeto que se encerra, de Paulo Francis, além de delicioso, é um mergulho na História do Brasil recente. Mas tem passagens antológicas, como essa:
“….E há o aspecto narcisista e ridículo que não parece ocorrer aos ideólogos do nacionalismo. Hannah Arendt disse-o melhor do que ninguém. Numa resposta a Gershom Scholem, o erudito hebraico, acusando-a de não amar o povo a que pertencia, o judeu, povo que, pré-Israel, tinha mais razões que a maioria de defender-se no nacionalismo, a incomparável Arendt escreveu:

‘Você tem toda a razão, me falta amor desse tipo por dois motivos: nunca amei povos ou coletividades, nem os alemães, nem os franceses, nem os americanos, nem a classe operária ou coisa semelhante. Em verdade, amo apenas meus amigos e a única espécie de amor que conheço e em que acredito é entre pessoas. Segundo, ‘esse amor aos judeus’, desde que sou judia, me parece suspeito. Não posso amar a mim mesmo ou aquilo que é parte de mim e de que sou parte’

E é verdade. Li essa declaração linda e antológica de Hannah há pouco, em sua biografia.

Ou

Vivenciar sem nominar as coisas. Sem querer certezas. Viver o que o tempo e o momento proporcionam. O que o signo induz, vontade ou instinto. Opções. Sim, tudo pode ser possível. Pode-se criar um mundo de “talvez”.

Senão

Muitas vezes eu vejo as pessoas justificando as coisas, eu mesmo justificando as coisas. Mas é bobagem, coisas não são justificáveis: coisas são coisas e pronto. Não adianta tentar entender e muito menos explicar. As pessoas vivem exatamente dos sentimentos, daquilo que rola e pronto, é isso e tá acabado. Se é bom ou não? Não sei. Sinceramente. Às vezes acho legal, outras vezes acho nojento. Mas quem sou eu, afinal? Eu apenas escrevo o que vai rolando, o que vou sentindo, me preocupando apenas em ser sincero o tempo todo comigo e com os outros. Dá rolo? Acho uma coisa infantil e tolinha, dessas que não valem à pena ver de novo. De qualquer maneira, a solução é seguir em frente de cabeça erguida porque homens e mulheres são falhos em várias coisas e em vários momentos e não adianta querer ficar julgando. Escolho os romances para julgar. os filmes também. Principalmente o filme que ainda não fiz e sei que vai ser um problema. A vida é breve e tenho que seguir. Aos tropeções, mas tenho. Posso igualmente silenciar para sempre ou apenas para alguns (como se isso fosse solução!). Não é! Não silencio! Morro gritando e esbravejando! E porque retiram posts lindos? O que faz uma pessoa voltar atrás em sentimentos? Prefiro, antes, ser odiado, mas admirado pela capacidade de me dar.

Mudança

Sim, mudei o template. Os motivos são vários. Uns posso falar e outros não. Mas é preciso mudar. Não suporto muito tempo a mesma coisa, escrever sempre sobre uma superfície igual. Não sei se o tamanho da letra ou a distância entre as linhas…. alguma coisa que aplaque uma certa angústia, que me diga que está tudo bem…. que a vida é complicada e as pessoas mais ainda. Tem umas coisas e umas atitudes que me deixam assim. Deve passar, sei lá. Mas não quero sentir vontade de tomar uísque toda hora, não…. Seria preciso um olhar mais plácido sobre a vida, o que evidentemente, não acontece… Isso me incomoda

Da vida

Tem umas coisas que me irritam, me indispõem, me incomodam e……principalmente…. me mostram que é isso mesmo…. devo realmente me recolher….

Sem mais

Finalmente terminei de ler CAPOTE de Gerald Clarke. Parece que é a melhor biografia (há controvérsias).
Fiquei estarrecido como sempre fico com algumas coisas especiais que me tocam muito de perto. Talvez eu leia novamente quando terminar SOLDADOS DE SALAMINA de Javier Peres (minha última paixão).
Tenho uma queda por uma certa degradação humana (Capote). Creio que não vivemos tudo se não vamos ao fundo do poço. Não sei, pode não ser exatamente isso. Talvez não seja mesmo, seja pior!
Quando li O PARAÍSO PERDIDO de Milton, achei que eu ia descer aos infernos (e realmente desci embora ainda possa descer bem mais). Mas quem não queima?

Talvez por isso o sono seja irregular (ora dormindo muito, ora não dormindo NADA).
E uma estagiária vem me dizer que a psicanalista mandou ela ler um livro…. eu mando a minha ler pra ver se adianta…. e nada…rs.

Não era nada disso o que eu ia escrever, mas é tanto tabú, que às vezes penso em desistir…..e começo tudo de novo!

Desequilíbrio

Estranho. Eu hoje tenho tantas, mas tantas coisas a dizer que não consigo dizer nenhuma. São muitas coisas, com um sem número de ramificações. Projetos, teorias, sentimentos, conseqüências… Estranhos pensamentos. Infinidade de coisas acontecendo ou, pelo menos, acontecendo em mim (o que, pra mim, dá no mesmo).
Mais ou menos assim: já escrevi muito sobre ser autor da vida, ser ator, se recriar e essa coisa toda. Isso, por si só, já basta para alimentar um espírito, deixá-lo ocupado cerebral e emotivamente.

Outra história, bem diferente ocorre quando você é autor e personagem de si mesmo, não se recria necessariamente e o ator que contracena não segue o script. Situação complexa em que você sabe o texto ou pensa saber, domina a ribalta ou assim imagina e contracena com um outro você que, libertariamente, possa mudar fragmentos de um discurso (…) Porque é preciso entender bem: é normal que eu queira escrever o meu papel e encená-lo com domínuo total de estética da cena como também é normal que meu outro eu não seja exatamente assim e me dê trabalho.

Seria normal ainda o outro escrever o texto e eu decorar. Mas o espanto, aquela história que eu falava sobre o tempo, do “instante descontínuo”, é a vivência de estarmos todos num mesmo palco (com) um texto sem dono (que talvez ninguem conheça) ou desconstruindo e reconstruindo personagens que podem ainda não terem sido. Ou, ao contrário, aproveitando a cena para construir de vez um personagem que seja adequado ou que nos identifiquemos mais ou que esteja naquele limiar de inconsciente coletivo sem ainda ter chegado lá.

Voltando um pouco na história da filosofia do tempo (e do instante como forma de medida), é mais ou menos como entender que esse tempo vem através de cada um dos seus instantes, mas que estes se alteraram. Em si mesmos! Instantes embriagados, por exemplo. Instantes que não seguem mais sua conceituação de instante de tempo e assumem a posição de sustos, espantos, certezas e incertezas. É quando o instante (tempo) se rebela e pretende assumir um outro papel na história além de ser medida de tempo. Um tempo customizado, personalizado. Esquizofrenicamente personalizando-se.

Porque não importa quem é o ator e quem é o diretor, quem é o dominador ou quem é o dominado ou ainda se há uma parceria. Tudo isso é o cotidiano não percebido. O que mexe na história é a possibilidade de fatores outros participarem do jogo vida colocando de uma hora para a outra, os valores todos em desassossego, subvertendo-os ou deixando em aberto, mantendo a possibilidade a qualquer instante de subversão. O que pode acontecer (e acontece) é uma anarquia diferente da anarquia ótima que gostamos de praticar. Vira, na verdade, a anarquia da anarquia. Ou, talvez, uma revolução molecular sem líder. Ou Mephisto oferecer a alma a Fausto. Subverter os espantos que nos ocorrem na vida por Vidas que nos ocorrem nos Espantos!

Porque o que me redime e me faz blasfemar é Cristo, quase morrendo, perguntar “Pai, por que me abandonastes?” Essa frase mostra o embuste de Cristo e viabiliza o questionamento metafísico. Se falarem agora que Cristo não existiu, pra mim não altera nada. Mas se Cristo não perguntar ao Pai porquê Ele o abandonou aí sim vem o susto, o espanto, a ação desestabilizadora!

Além do meu desequilíbrio de costume, me parece que o mar está em cima, no lugar do céu. Chega.rs

Miscelânia


Os meninos do grupo de estudos de filosofia fizeram um blog pra publicar trabalhos. Não dou o endereço porque é um lixo. Querem que eu publique, mas tô fora. Já me bastam os meus e minhas outras coisas. Devo estar numa fase maníaca, tantas as coisas sendo feitas e a serem realizadas. O tempo não dá mesmo, acordo muito cedo sempre pra conseguir adiantar alguma coisa. Mas tem coisas pendentes como visitar a mãe e comprar isso e aquilo na livraria. Este espaço evidentemente não está mais dando conta o que me fará reativar (mais) meus outros sítios (chamados “Outros eus” na barra lateral). Não sei se faz diferença, acho que não. Acho que uma parte da minha cabeça não está aqui, está bem longe, com uma pessoa – ela sabe que é ela – embora não compreenda porquê. Onze horas da manhã já dá pra tomar uísque puro (pra esquentar)? Imagino que sim, estômago não tem relógio, beber de noite é convenção burguesa. No fundo, eu não gosto muito de beber. Apenas vou utilizando os meios que me aparecem (não são muitos). Prefiro, por exemplo, tomar bules e bules de café. Tudo se mistura um pouco, sou bombardeado, nem precisa me dizer. Tomar Dramim? Melhor Fenergan que dá mais sono. Não? Não sei. Mas isso é parte, né? O que é centro? O centro são muitos. Tenho que falar na Venezuela, amanhã Chavez fecha o canal nacional. Censura absoluta. Lula é filhote de Chávez. Não fecha canal aqui, mas abre um de propaganda estatal. Recebo carta do presidente do sindicato dos jornalistas. Carta patética, ridícula.

Esperam minha adesão, esperam que eu tome partido oficialmente e brigue por uma TV Pública sediada no Rio e blá blá blá. Não tomo partido nenhum. Votou? Agora aguenta! Não vou me filiar a grupelhos de jeito nenhum. Tenho mais o que fazer. Hoje é sábado e me angustia a segunda feira que se aproxima, dia de filmagens intensas, o dia inteiro em estúdios, cenários, guarda-roupa, maquiagem, iluminadores, técnicos, assistentes, uma multidão em cima de mim, dia que nada pode dar errado, não tem espaço pra dor de dente, nem pra ler nem escrever. Um não-dia. Não tá longe, sei que não está. Pensamentos em ordem, é disso o que preciso. Mas como?! Queria ser levado pra passear na urca. Não serei, fato. Psi viajando, embora desdenhe psi. E o mar? Tá pra peixe? Hoje, por uma confusão que criei, chegaram dois exemplares do jornal. Leio parte de um e parte de outro.

Preciso muito falar com meus filhos. Enquanto não acontece, preciso falar deles. Tenho dois filhos singulares, antagônicos, Como pode? O adolescente é, antes de tudo, adolescente com tudo o que essa marca carrega. Esperto, sagaz, rápido, prático, atuante, sonhador, impulsivo. O outro, mais velho, é remanso, mente atribulada, mas parcimoniosa e consequente (nem tanto). Vejo-o como se ve um santo. Ele é meu santo. Vive num outro mundo e me dilacero. Por um lado, admiro esse modo, esse jeito santo. Por outro, me angustio por entender que a vida é mais dura e perigosa do que ele imagina. Falo mais depois…

Demais pra mim

me atolo numa discussão regada à cigarros e uísque. são tantas opiniões, tantas variações sobre o mesmo tema que tem horas que eu páro e fico pensando de que lado devo ficar, qual opinião devo defender (na verdade, umas quatro são adequadas a mim). como não vão mesmo entender, mantenho-me fiel a uma opinião, mas a coisa desanda. cada um faz referência a uma coisa, cita uma frase, um filme, um livro. saco! não estou com a menor paciência em ficar remexendo meu cérebro combalido. desnorteado, cito o banquete, de platão. silêncio. todos me olham. penso rápido no que disse, porquê disse (será que falei besteira? usei exemplo errado?). um, dois, três concordam comigo. um quarto e um quinto também. santa maria! o que eu fiz? destruí a discussão que me deu tanto trabalho pra construir? Não é possível. talvez na mesma obra haja um exemplo contrário, que se desdiga, que me alimente a dizer que aquilo que eu citei tá errado, que certo é o outro…. nada. não lembro de mais nada. minha cabeça é folha de papel em branco! pra meu desespero crescente os ânimos se acalmam pouco a pouco. um sorriso aqui, outro ali. no fim estão todos sorridentes e marcando um chope para depois do trabalho: vão festejar! E me chamam!!!! Essa não, por esse mico não vou passar. digo que estou com dor de cabeça e blá blá blá…. em casa tomo dois calmantes e um bocado de gim. eu, definitivamente, não me agüento…

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

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