Arquivo para a categoria 'Papéis esparsos'

… do Olimpo

Cavernas existem para serem exploradas. Morcegos existem para serem enfrentados. Não agimos assim na vida. Deixamos os buracos escuros em pedra para os mais valentes – que não aparecem nunca. E daí a imortalidade milenar das cavernas. Pois dessas cavernas existe muito em nós, bem naquele cantinho que fingimos desconhecer, aquela reentrância quase secreta (nada é secreto) que carregamos como se, de fato, não existisse. O atavismo da caverna remonta ao atavismo do homem bruto que existe em cada um de nós. Esse universo pré-histórico que temos mais ou menos visível. Como um plácido camponês aproxima-se de nós uma besta fera – que muitas vezes nos devora e só tomamos conhecimento quando já fazemos parte das suas entranhas. Nos debatemos então num mar de suco gástrico que corroi nosso discernimento, nossa visão mais romântica da vida. Habitamos então o gigante verde de um só olho e não nos debatemos diante da carnificina que virá em seguida. O humanismo é deixado de lado pelo próprio humano (ou ilusão do humano que temos). Às vezes penso que somente Dom Quixote foi realmente plenamente humano. Mas tudo não passa de sonhos, bem sei. O sonho é a realidade que tenho em mim, o sonho me livra do inferno, da danação. Assim consigo me manter junto aos meus “iguais” porque eles também sabem o que são e, igualmente, se utilizam dos sonhos, se utilizam das artes para amortecer o que queima tanto por dentro. E temendo a autofagia que mora em nós, distraio-me com plantas e flores, automóveis ou metralhadoras, qualquer coisa que tire a mira que tenho em mim mesmo, solerte que sou. Acabamos alçando vôo e aí aparecem nossas asas negras de fuligem, nossas  verdades não aceitas e o desejo de todos de chegar ao Olimpo.

Parangolé de mim

A relação com seres humanos é nociva até para seus iguais e só vence mesmo a barata. Tento me reenquadrar socialmente e o que acontece é o caos, é um misto de anti-apocalipse ou implosão de apocalipse como se a Terra fosse engolida pelo seu próprio buraco negro. Me assusta essa antropofagia de terror cibernético e me refugio numa espécie de plataforma virtual onde tenho a possibilidade de jogar o game ancestral assim como deus joga dados. Fujo da merda jogada por catapultas mediavais e subitamente me torno um templário do terceiro milênio, um soldado ferido que ficou para trás na Segunda Guerra e encontrou uma enfermeira que cuida de suas feridas aparentes sem ver o interior minado, doente, podre.

Caminho errante um um Portugal cheio de armadilhas intelectuais e bejo,  um feliz Fernando Pessoa de barro. Tudo é felicidade no vinho, na música, no colorido das roupas da moça de aldeia, no gentil cavalheiro de chapéu de palha vistoso. Não tenho muito para onde me movimentar e percebo que enfim a terra é um tabuleiro de jogo antigo, a Terra transborda porque não é mesmo redonda, porque não existe Rotação e exitem figuras sem cor – cinza sobre cinzxa respeitando apenas tonalidades diferentes da não cor. Folheio Josué Montello e choro pelo tempo que não vai voltar, pelo que fui e pelo que não sou. Caminho perdido entre enormes peças de xadrez como num labirinto mental, numa idiossincrasia própria a mim e a mais ninguém. Decepciono-me um pouco mais com homens que conheci e levaram meu cavalho malhado, deixando-me de pé nessa chuva torrencial.

Torrencial é o espaço-vida em que me aventuro mesmo sabendo o resultado, o Fim de Jogo de Becket, mesmo sabendo a cor dos que saem de dentro da mina de carvão, mesmo sabendo que o céu, o sol e a chuva são tão somente efeitos das artes produzidas em videografismo, brincadeiras de um pintor pós-moderno. O sol vai se apagar e talvez seja a hora de lentamente, retirar minha roupa de dândi tropical (afinal os parangolés pegaram fogo e os homens erraram de novo a meu respeito).

Alternativas fatais

Tempo que passa, tempo parado, dúvidas sobre o tempo tempo, essa opção pouco séria da existência. Quando o jipe de rodas enormes rodou pelas areias ferventes do imaginário de outra dimensão, me dei conta de que não estava mais aqui pelo simples motivo de que sentía-me vitimado: a perda de contato com minhas três pessoas, aquelas que entendiam um pouco melhor o processo em que ingressei no raiar dos tempos e até hoje é pouco compreendido. No dia em que decidi não explicar mais nada nessa terra malemolente (demais, às vezes) para as mesmas pessoas que reiteradamente insistem em não perceber esse meu óbvio que escorre daqui e dali, dessa gosma-vida refrigerada que empurra os ponteiros dos meu relógio desordenadamenete, sistólicamente, digamos. E nada mais aconteceu. Minha opção pelo silêncio ou pela filosofia do silêncio encontrou os ecos nos ouvidos moucos que partiram para outras plagas. Se me importo? Sim e não.

A aventura de olhar-se

Existe um lado obscuro em todas as coisas e, portanto, na vida. Esse lado obscuro da vida não é conhecido por todos porque, na maioria das vezes, precisamos procurar muito para encontrá-lo. E esse encontro não é nada agradável. Imagino mesmo que esse lado obscuro é separado de uma “loucura” por uma linha tênue, muitas vezes confundindo  se uma pessoa está do lado de cá ou do lado de lá. E essa possível confusão dá-se exatamente pelo número reduzido de pessoas que se aventuram, por livre e expontânea vontade – muitas das vezes num exercício filosófico único e perigoso. Podemos observar que praticamente todos os filósofos e aqueles que estudam a alma humana já se exercitaram nesse “lado negro”. O que eu não tenho certeza é se vale  à pena tornar-se equilibrista sobre esse grande oceano traiçoeiro. Trata-se de uma aventura única e solitária e muitas vezes perigosa porque os outros homens difilmente sabem distinguir uma coisa da outra.

de Garfield

Essa história toda corre demais, estressa demais, goza demais e, por fim, mata demais. Não dá tempo de estar atento à todas as coisas e falar e escrever sobre elas. Eu, pelo menos, não consigo. Bem verdade que (infelizmente) já uso filtros naturais que me afastam do que não é importante (será?)

= = = = = = = =>> A levar em consideração mínima razoável todas as coisas que me chegam, eu seria obrigado a, pelo menos, parar com os livros e com o blog. Depois, se ainda assim, o tempo não for compatível…  cortar essa ou aquela coisa das poucas que (já) faço. A televisão, por exemplo, não é mais um meio de educação ou lazer. Nenhum canal trás nada de útil ou novo (nenhuma delas! Mesmo as que têm obrigação de produzir). Televisão só presta pra gente ver filme, nada mais.

Revistas como a Rolling Stone se apresentam como “jovens”, o que torna a publicação ridícula, “apatetada”. A revista Piauí sem dúvida é a melhor, mas erra na mão, exagera numa cultura exacerbada que parece mais almanaque de farmácia.

Enquanto isso ficamos em casa com medo das ruas podres, dos tiroteios, dos assaltos e (até) dos proxenetas. Com isso somos rotulados de excêntricos ou de loucos (depende da conta bancária de cada um..). Isso aumenta o consumo da memória do computador e a quantidade de resmas ou cadernos que manuscrevemos. Sim, porque, de uma maneira ou de outra, sempre damos vazão à angustia de Garfield, a angústia existencial

Infecções virtuais

Não, ainda não morri. Muito menos sumi. Tenho andado com coisas a resolver, atitudes a tomar e, principalmente, a idéias a colocar no lugar (nos cadernos manuscritos). Se estou dando um tempo aqui? Não é exatamente, mas não deixa de ser. Agradeço os e.mails dos meus três leitores que se preocupam. Não há nada de mais. Resta saber o tamanho da contaminação.

Responsabilidade total de ser

Ao contrário das “previsões” de Domenico de Masi (italiano meio golpista que fica entre cientista social e escritor de livros de ‘auto-ajuda’ (O Futuro do Trabalho e A sociedade pós-industrial – quem não leu?), a modernidade com todas as parafernálias digitais que nos vendem dias e noites não são nem minimamente parecidas com “O Ócio Criativo” – também de Domenico. Entretanto não vai uma crítica direta, absolutamente, porque ele escreveu e descreveu inúmeras situações possíveis. O problema é que ele fala em tese, à partir do avanço das novas tecnologias (e aí ele acerta). O fracasso da sua proposta é que ele não se dá conta que deveria ser um processo completo, quero dizer. homens e tecnologias. E isso não acontece. Quanto mais lançam produtos que podem nos dar conforto, mas ficamos ansiosos, trabalhamos mais, nos desesperamos mais. Os exemplos podem até ser simplistas: quanto tempo levávamos para descobrir um verbete numa enciclopédia? E a mais atualizada enciclopédia falava de fatos importantes que ocorreram no dia anterior? Tudo não, não e não, certo? Mais ou menos. Temos algumas (e boas) enciclopédias virtuais (Wikipédia e o próprio Google). A pesquisa que há 15 ou 20 anos levaria minutos e mais minutos (e nada estava atualizado!) hoje temos a resposta em 5, dez segundos.

E o que acontece então? Usamos esse tempo para o ócio criativo? De maneira nenhuma: primeiro ficamos estressados com a demora das páginas abrirem nos computadores (sim, achamos tudo lento demais!) E então? Bom, abrimos outras páginas para ir adiantando o serviço (que levará intermináveis dez segundos). Escrevemos textos no word e disparamos vinte e.mails – PORQUE NÃO PODEMOS PERDER TEMPO!

Claro que Domenico de Masi merece todas as criticas por prever um futuro completamente irreal (e impossível). Ele errou gravemente ao levar em conta o futuro em relação aos avanços tecnológicos, deixando de lado o homem. E, lembremos, o homem é bicho do homem ou:

O inferno são os outros (de J.P. Sartre)

Para entender melhor, transcrevo trecho pequeno da Wikipédia – enciclopédia virtual – sobre Sartre

O Outro

As outras pessoas são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se sobrepõem. Mas Sartre não defende, como muitos pensam, o solipsismo. O homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Só através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo. Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro. “O ser Para-si só é Para-si através do outro”, idéia que Sartre herdou de Hegel. Cada pessoa, embora não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode reconhecer neles o que têm de igual. E cada um precisa desse reconhecimento. Por mim mesmo não tenho acesso à minha essência, sou um eterno “tornar-me”, um “vir-a-ser” que nunca se completa. Só através dos olhos dos outros posso ter acesso à minha própria essência, ainda que temporária. Só a convivência é capaz de me dar a certeza de que estou fazendo as escolhas que desejo. Daí vem a idéia de que “o inferno são os outros”, ou seja, embora sejam eles que impossibilitem a concretização de meus projetos, colocando-se sempre no meu caminho, não posso evitar sua convivência. Sem eles o próprio projeto fundamental não faria sentido.

Conversa fiada

Dia desses me perguntaram se eu tinha hábitos diurnos ou noturnos. Não consegui responder. Como vou saber uma coisa dessas. Existem momentos noturnos e períodos diurnos. Se eu for a um cinema, por exemplo, prefiro a tarde do que a noite. Se for brindar alguma coisa com amigos, prefiro a noite. Para escrever e ler, prefiro a manhã. Enfim, não sei mesmo se sou da noite ou do dia, mas acho que sou muito mais “diurno”. Durante o dia as coisas me parecem mais palpáveis - não exactamente pela iluminação do sol, mas por questões mais  ou menos psicológicas (essas “coisas psicológicas” são tactéis, não se iludam).

Tudo se desintegra no ar, todas as coisas são tão efêmeras que estão contidas, encapsuladas no “ACIDENTE VIDA”. Se aconteceu com você, quem ri por último é o espermatozóide que perdeu a corrida.

Durante a conversa (tolinha, reconheço) falei que durmo de dia e durmo pouco à noite. à noite também como mais, fumo muito mais, faço quase tudo demais!

Porque ser vivo é tornar-se imediatamente Sísifo para a eternidade. A diferença com o passar desse tal tempo é que as pedras vão tornando-se mais e mais pesadas.

E, como não poderia faltar, ele me pergunta sobre o suicídio. Qualquer conversa um pouquinho diferente termina sempre no bendito suicídio.  Ele me pergunta se eu tenho vontade de me suicidar. CLARO QUE NÃO! O suicídio é um cartucho final numa guerra onde todas as batalhas foram perdidas. Me despeço desse conhecido e vou para casa ler “Figuras e Coisas do Carnaval Carioca” dessa pessoa deliciosa que foi Jota Efegê.

Insônia

Quando se está lendo três livros simultaneamente dá a impressão que temos a atenção dividida em três partes (e, por que não dizer, a alma e o cérebro também?). Parece propaganda (auto) fazer um comentário sobre ler 3 livros ao mesmo tempo, mas não é. Ao contrário da maioria das pessoas, não tenho um hábito regrado de ler: às vezes passo dois, três meses sem tocar num livro ou, se tento, não absorvo nada e nunca passo da terceira página. Em outros momentos, a vontade é tamanha que não consigo ler um livro de cada vez, deixando os outros em “modo de espera”. Não, não imagine que posso fazer alguma confusão entre histórias e personagens. Não. Trata-se exclusivamente da capacidade, comum a todos nós, de nos dividirmos, para a atenção na leitura como fazemos em várias situações na vida: um perfil no trabalho, outro em casa e ainda outro no lazer. E não é só isso.

Quando vamos a um museu (fora do Brasil que não possui museus dignos desse nome), quando vamos a um museu não somos plenamente capazes de absorver a arte de vários quadros ou várias esculturas? A mim, na questão da leitura, parece igual. E eu leio mais do que os outros? Absolutamente não! Apenas a forma é diferente de relacionamento com a obra em questão. Possuo sei lá quantos livros e me lembro de mais 70% do enredo de cada um deles. Possuo ainda uns outros tantos livros que estão na fila de espera muito embora eu saiba que muitos deles eu jamais vou ler. Às vezes fico com vontade que comprar livros, mais do que o tempo que disponho para ler, é um vício como outro qualquer. Talvez pior porque atravanca a sua casa com pilhas de papéis encadernados e você ainda tem que ouvir aquela perguntinha idiota: “Nossa! Você já leu tudo isso?” – da mesma forma que sou obrigado a me segurar quando vem aquela outra perguntinha imbecil: “Puxa, você é parente do cantor?”

 Porque a vida é composta de maioria humana completamente jeka, completamente ordinária intelectualmente falando. Porque isso é ser ordinário: é ser burro, é caminhar com a horda, repetir modelos – normalmente os mais vis. Se eu tenho paciência? Claro que não! Simplesmente fui aprendendo a me conter, a fazer cara de árvore da frente de qualquer obtuso, da ignara em geral. E que fique bem claro, ignara não tem nada a ver com status financeiro, com pobreza. Conheço meia centena de pessoas cheias da grana que são de uma boçalidade inacreditável. Inclusive “os leitores” que se acreditam eruditos. Homens e mulheres que estão lendo um livro por semana ou por quinzena, palpitando em tudo sobre literatura, “se achando”.

Para mim, além de ensinamentos e conhecimento sobre outros lugares, outros hábitos, a literatura é motivo de relaxamento, de prazerosa distração. Até porque (eu já repeti isso por aqui, o escritor é um pára-raios do mundo, das pessoas, do ser humano. Esse artista apenas traduz o que recebe (e percebe) embrulhando para nós. NESSA CATEGORIA, OS POETAS SÃO IMBATÍVEIS.

No fundo, não era nada disso que eu queria escrever. Queria falar de noites insones e a gente agarrado com um livro, como se ele fosse fugir (o que não deixa de ser realidade também: alguns livros meus têm uma capacidade brutal de se esconderem de mim).

Perseguindo Francis

Escrever é uma forma de ler às avessas, Portanto, quando estamos lendo pouco, obviamente escrevemos pouco. Isso porque recebi um e.mail amável reclamando que eu escrevia em média três posts por dia e hoje mal escrevo um por semana. É uma observação verdadeira (pelo menos para as 3 pessoas que frequentam este sítio). Entretanto, tenho escrito mais nos cadernos, que é completamente diferente. Não sei se acontece com alguém, mas em determinados momentos da vida tudo o que se tem a dizer é secretíssimo (rs). São coisas que, publicadas, trarão muita dificuldade, muito transtorno – político inclusive. E se pensam que estou com medo de publicar, eu respondo: sim e não. E é a velha história: o medo não é por quaisquer prejuízos políticos, trabalhistas ou ainda de relacionamento, de amizade… Não, não é nada disso. Mas sempre lembro Paulo Francis falando sobre uma crônica escrita há muito tempo atrás. Essa crônica, publicada num jornal em um momento errado, sem pensar, fez com que Francis perdesse dois grandes amigos, por exemplo. Dizia ele:

“Se o editor do jornal fosse sensível, não publicaria aquilo imediatamente. No dia seguinte me perguntaria se era mesmo aquilo que eu desejava publicar. E à partir de então não entreguei mais um crônica no mesmo dia em que escrevi.”

Hoje em dia tudo mudou… quem publica é a pessoa que escreveu. Toda a responsabilidade é dessa pessoa. Então, diante dessa qustão do ‘SIM’ e do ‘NÃO”, dessa responsabilidade vou avaliando o que é para publicar – tornar público – e o que é muito particular. Por outro lado, a publicação das coisas é meio viciante… na verdade, o que escrevo em particular também está publicado em outros sítios, lugares que não divulgo e muito menos dou o endereço. Tenho certeza de que alguém, encontrando os escritos, imediatamente saberá quem é o autor.

O que passa na cabeça de uma  pessoa é infinitamente maior do que o espaço em seu blog.

Sem assunto…

Para me livrar da peregrinação nas filas de bancos no início do ano, resolvi adiantar hoje o que era possível. Até porque dia 1° é feriado e imagino a sanha desesperada dos “sacadores” e “pagadores” de contas, títulos e não sei mais o quê. E uma coisa que eu tenho pavor na vida (além de ir ao dentista) é enfrentar tumulto e fila em banco. Se eu pudesse ter uma só mordomia na vida gostaria de ter um boy que cuidasse dessas coisas de papéis, documentos, bancos e o diabo. Isso aqui é o país da “Firma Reconhecida”, da Estampilhas e toda essa burocracia insuportável. Soube que, não sei como, meu pai ia herdar um cartório o que acabou não acontecendo. Pena.. hoje eu seria riquíssimo…rs

Está chegando o dia da virada para um novo ano e o serviço de meteorologia prevê chuvas torrenciais no sudeste. Eu não me importo porque não saio de casa mesmo, mas tenho pena dos dois milhões de pessoas que acompanham a queima de fogos em Copacabana, por exemplo.

Aliás meus poucos amigos e conhecidos, nessa época do ano sumiram completamente. Não encontro ninguém. Até os acessos ao blog diminuíram consideravelmente. Mas nada disso me importa muito. Estou mais preocupado porque está sendo um processo complicado me desfazer do apartamento que mamãe ocupava (tem gente demais palpitando!), mas falta pouco. Quando isso acontecer, posso considerar este ciclo encerrado na minha vida. Não sei explicar muito bem o porquê, mas sinto muita necessidade de ver tudo isso terminado.

Tá…. a verdade é que não tenho nenhum assunto interessante, eu reconheço. Posso acrescentar que estou lendo dois livros: “As Mulheres do Meu Pai” do angolano José Eduardo Agualusa e, ao mesmo tempo, “Cidadezinhas” do John Updike. Na fila para posterior leitura tenho:; “Três Vidas” de G. Stein e “Gomorra” de Roberto Saviano. Não creio que durem até o final de Janeiro de 2009, mas já é alguma coisa. No mais… Passem bem!

Perceber através da leitura

Me dizem que escrevemos o que não é dito. Escrevemos o nosso silêncio, alguma coisa mais profunda, que não está em nós, alguma coisa que faz parte do nosso todo, mas não é verbalizado nem demonstrado pelo simples motivo de não poder ser. Limites despóticos que a própria vida vai nos colocando, impressões falsas, enganos, avaliações equivocadas. Dezenas e dezenas de situações-limite em que, muitas vezes, duvidamos de nós mesmos, em que acabamos acreditando no que é dito… não, não acreditamos. Aceitamos simplesmente. Muitas vezes entramos numa espécie de vácuo catatônico buscando ”onde se soltaram nossas amarras”. Dizem ainda que nosso silêncio pode ser covarde ou preventivo, mas acho que, na maioria das vezes, é covarde. É simplesmente a falta de impulso de buscarmos novos caminhos. É a Filosofia embaralhando-se com a Psicologia. É, principalmente, quando nas livrarias, pegamos esse e esse livro, mas não mudamos o estilo literário. Dizem, por fim que, através do que um homem está lendo, percebemos em que estágio ele se encontra.

O caos previsível

O dia enfarruscado e chuvoso, as ruas cinzentas e a chuva ácida que persiste em cair de forma constante, uniforme, sísifica. pessoas caminham apressadas sem saberem exatamente para onde vão, sabem que vão para o que chamam de destino – ainda que não façam idéia do que é esse “destino”. parece que todas as pessoas estão buscando o fio, a ponta de suas vidas, numa ânsia contida pelo preconceito de suas formações. sabem que a formação está errada, sabem que o “planejado”, o “idealizado” não é verdadeiro, que o caminho é outro e tantas são as encruzilhadas que por fim, no auge do existencialismo, concluí-se que “O INFERNO SÃO OS OUTROS”. verdade ou mentira? às vezes verdade e às vezes mentira. são inúmeras as opções quando se buscam frases exatas no desvão da vida que, por fim, instala-se uma espécie de caos programado e revisto

Carpeaux dos Trópicos, tristes Trópicos

arte de não dizer. de trancar-se em quarto escuro. em não temer aranhas nem outros bichos. nem um negro gato. possibilidade remota é fazer o homem dizer a verdade frontamentalmente. vejo mais subterfúgios, vejo mais caminhos escorregadios na lama do caráter claudicante. vejo pessoas que se aproveitam, canibais que comem uns aos outros. mas tudo isso é lá, é para além da minha janela. se me encarcerei do mundo? jamais! encarcerei o mundo do lado de fora, o que é completamente diferente. escrever à mão com Carpeaux? com certeza. não me interessam os modos nem os meios, nem o que dizem ou acham. busco alguma coisa mais distanciada, o encontro com determinada pessoa – quase encatada – que não se mostra não por excêntrica, mas por modéstia apesar de todo o seu gigantismo. o que ganho com essa perseguição aparentemente absurda? a chance de liberdade.

E essa

“Acho que a desordem no meu espírito é sagrada”

Rimbaud…

Desobedecer

As pequenas impertinências me atraem como uma certa desobediência civil. Quem pretende estar correto todo o tempo ou ser considerado “absolutamente normal”… bom, essa gente me causa uma certa estranheza,  dúvida profunda. Porque se olharmos bem o entorno perceberemos que leis existem para serem burladas ou para serem modificadas (incluindo-se aí e, principalmente, os dez mandamentos).

Não, não sou um rebelde sem causa não digo não a tudo e muito menos ultrapasso limites apenas por ultrapassar. Isso é tolice, criancice, é birra. Eu só não quero ficar num cercadinho infantilóide que os “ólogos” criam imaginando nos apresionar. Desejo ser prisioneiro de mim mesmo unicamente.

Dúvidas

Procuro soluções nos livros, mas elas não estão lá. Certo. É ilusão pura. Acreditar sempre (era o que eu imaginava). Não é mais assim. E não é que desconfie não, é que acho estranho. Alguma coisas são muito estranhas e não adianta correr para a ficção porque os personagens são igualmente estranhos. Personagens dos personagens é o que podemos ser nós. Ou vice e versa. E ainda tem os blogs com um viés jornalístico (que às vezes me incomodam). Nada contra. Só acho que. Deveríamos ter mais oportunidade de conhecer as pessoas meisssmo, lá por dentro e não apenas um comentário sobre um pedaço do jornal. Mas não vai aqui nenhuma crítica. Seria patrulhar. Quero estar longe disso. Quero apenas contar minhas história, minhas verdade (que não são verdades). Ousar ser o que não sou. Me desfazer em lágrimas que vêm do nada. Menos sustos, talvez. Mostrar que as coisas podem ser feitas com muito mais conteúdo e estética e não deixar a coisa descambar para a bobagem do comportamento. Opiniões sobre mim. Todas terríveis apesar de não me mostrar inteiro. Não me mostro inteiro nem para mim. Porque não sei mesmo o que é ser inteiro. Acho que são fragmentos. Um mundo de fragmentos. Pessoas-fragmentos. Parece mais lógico – ou interessante – não sei.

Infinita enquando dura

à propósito do personagem de um livro que li recentemente e comentei aqui, um homem que escrevia uma enciclopédia infinita, penso no ato de escrever nesse sítio. ora, é espantoso que eu venha aqui sempre, escreva meia dúzia de bobagens e, no dia seguinte, apresente-se a mim essa mesma página em branco virtual, como a pedir que eu escreva mais (ou não). escrever um blog ou esse tipo de coisa que ainda não foi estudada à sério mostra-se uma tarefa hercúlea, digo, sísifica. o escrevinhador de blogs perde a noção da tarefa a que se propôs. muito pior que Sísifo! páginas virtuais em branco sempre, eternamente, páginas que cobram, que denunciam uma certa vagabundagem nossa… páginas que mostram que não nos completamos, que somos frágeis e absolutamente incompletos, não plenos, que falamos e dizemos tantas coisas que não valem de nada porquê não têm começo, meio e fim! não existe ponto final…o ponto final foi abolido nessas novas tecnologias! ainda que um autor escreva um livro de duas mil páginas e o publique, esse texto continuará em seu HD e poderá ser continuado sempre, eternamente. podemos passar todos os nossos dias escrevendo aqui sem parar e continuaremos em eterna falta com quem nos lê, com quem se dispõe a tentar entender quem somos porque somos movimento, somos uma falsa passagem de tempo, um espelho que se posiciona à cada instante num lugar diferente… só isso… não conseguimos ser mais, eu, principalmente, não consigo concluir pensamentos, como não consigo terminar filmes nem dar por encerradas as minhas leituras… este espaço é a prova cabal da infinitude da vida… a vida é infinita, não é o amor, meu caro poeta… a vida é que é infinita enquanto dura.

e diante disso, o que sou eu? um pequeno deus que escreve reto num espaço sem linhas, um escravo metafísico condenado a escrever eternamente, a contar, a se explicar, a se desdizer, a voltar atrás ou saltar à frente desconsiderando regras elementares do cotidiano como um memorialista louco que se dispôs a revelar memórias e descobriu que elas não existem como tal, que memória é o ato de respirar e que só o término da respiração impedirá a geração de novos fatos, fatos medíocres, que seja, para serem contados. bom, já caí mesmo nessa areia movediça onde não há retorno possível… continuarei a reler A Caixa Preta de Amoz Oz, livro que comprei essa semana, esquecendo-me que outro exemplar descansava na minha estante lido nem há tanto tempo assim…

Outra Breve Explicação

Não adianta. Continuo completamente esquizofrênico também nos templates. Alguns deixam uma barra horizontal embaixo de forma que não se tem uma visão completa da página. Outros são isso, outros são aquilo. Para sumir com a maldita barra (eu, boçal, que não sei mexer em HTML) fico mudando a cara toda hora desse espaço. Ninguém nunca sabe se entrou no lugar certo ou errado (entrar onde rabisco é sempre uma opção erreda, a meu ver).

Revisitando nossos Autores

Não pretendo fazer resenha de livros por vários motivos – o principal deles: não ter competência para tal. Mas sinto-me obrigado ainda a falar rapidamente da “Crônica da Casa Assassinada” de Lúcio Cardoso, que releio, como disse, com alguma freqüência. E por quê? Porque esse caudaloso romance se passa numa fazenda em Minas Gerais, um lugar mágico onde parecem reunir-se todas as tragédias humanas. O tom de todo o livro é claustrofóbico, personagens doentes, arrogantes, loucos – e desses loucos que contaminam tudo. A fazenda e as pessoas em questão me remetem a “O Castelo” de Kafka, a ‘Fim de Jogo’ de Beckett ou a ‘Crime a Castigo’ de Dostoiévski com pitadas do mais sórdido de Nélson Rodrigues. Pode parecer um certo exagero, mas quem conhece o romance sabe do que eu falo.

A verdade é que, em geral, conhecemos pouco nossa literatura, conhecemos pouco a genialidade de autores que passam ao largo de Guimarães Rosa, Jorge Amado, Veríssimo e esses outros igualmente famosos (e igualmente geniais). Lúcio Cardoso se insere nessa galeria de autores que souberam criar um universo doentiamente mágico, ainda que decadente, da sociedade. A abrangência com que pontua, a profundidade emocional de seus personagens não fica a dever nada a ninguém. Seus livros não estão entre os mais vendidos, não se fala dele nem nas faculdades de Letras e os blogs que se referem eventualmente a livros igualmente o descartam. Mas não é por falta de genialidade em seu trabalho, por falta de persistência em buscar o que há de mais fundo (e secreto) nos homens. É falta de conhecimento.

Temos uma cultura errada, chinfrim, que “ensina” a cultuar autores de hoje ou clássicos (muitas e muitas vezes bolorentos!). É preciso revisitar a galeria de autores nacionais, deixar um pouco de lado o modismo de Clarice Lispector e afins e ir fundo no que existe de importante, de sério (não que os outros não sejam) em nossa literatura. É preciso menos odes a Machado de Assis e uma releitura maior de Lima Barreto, por exemplo. É preciso, por fim, olharmos para dentro, para o Brasil, para o nosso umbigo e percebermos o que há de importante, de impactante, não só na literatura, mas na cultura nacional.

Para a frente a qualquer custo

Buscar novos caminhos é, ou deveria ser, uma prerrogativa do homem. Porque existe sempre a possibilidade (bem mais fácil) de ficar parado, observado nasceres do sol. Na verdade, o homem que se coloca passivamente diante da vida é cômodo para a sociedade. Não fazer e, muito menos, dizer é tudo o que os outros esperam dos seus pares. Mas não é de graça: a beligerância existente em cada um, atávica, faz a roda da humanidade girar. Tal como a corrida espermatozóides, a corrida durante a vida é igualmente dura, incessante e abster-se dessa competição é morrer a pior das mortes. A competição está enraizada em todas as nossas atitudes, pensamentos, ações. A competição não é apenas com o outro, é igualmente conosco. Se um dia faço um determinado produto, no dia seguinte desejo fazer melhor. Se ganho algum dinheiro, desejo ganhar mais. Se descubro o amor, quero ser para sempre um “amador” e por aí vai.

É, portanto, um engano acreditar que a morosidade, a reclusão e a falta de iniciativa podem trazer algum bem. Trata-se de um engodo da famigerada religião católica-cristã que desde tempos imemoriais represa o homem em tudo o que ele tem de bom, em tudo o que ele é capaz de fazer e revolucionar. Não existem apenas grandes revoluções, mas uma eterna e incansável revolução diária em todos nós, dessas revoluções que nos fazem andar para frente, para trás, para os lados, mas caminhar sempre em busca do que, por fim, chamamos prazer (pedra filosofal?). Negar essa possibilidade é cometer suicídio errante, desses que a gente comete, mas não morre.

Sétimo Selo

Algumas dúvidas me assolam imediatamente após a última linha do último livro de Roth. São as mesmas dúvidas de sempre, embaladas com a qualidade de um bom texto literário. É um existencialismo despojado de filosofia e transformado subitamente em arte maior, em narrativa vivenciada na imaginação do autor maior quando seu alter ego envelhece com as agruras de quem retirou uma próstata cancerosa e reencontra amigos todos eles muito doentes ou mortos. Como se estivesse num outro mundo, como se todos os caminhos indicassem que ele, igualmente, deveria “sair de cena”. E, à medida que avançamos o romance, avançamos em idade, no dissabor da velhice e toda a sua desgraceira que nos aguarda sempre em cada esquina. Esquinas que não podemos evitar, espaços-tempo que não deixam atalhos ou encruzilhadas. Olhamos fixamente em frente e nossas pernas têm um caminhar autônomo que foge e ri da nossa tentativa de parar. Seguimos como quem segue preso a trilhos de uma montanha russa controlada por um deus sacana, velho, feio e doente, prisioneiro de uma psicose que ele mesmo criou. O homem segue embalado não mais por cantigas de ninar, mas pelo som indescritível soprado com hálito podre pelas bruxas ancestrais como que fugidas do Sétimo Selo com toda a sua peste e pestilência. O homem continua escorregando, buscando agarrar-se a alguma coisa que o salve, que diminua a velocidade da queda e percebe que não há nada em volta. Pessoas são apenas fantasmas que riem impregnados por suas condições do que “não são”, passaporte para a salvação de suas almas que nos deixam escorregar sem pena, olhando nossos olhos arregalados de pavor. O mundo é um pavor, é fruto de todos os pavores de nossas mentes que não tiveram oportunidade de optar desde o início do tempo.

Terra Crioula

O Revista Brasil (domingos, 17 h.) é um programa moderno porque é uma revista e um documentário. Ao mesmo tempo. O espectador mais atendo irá perceber que falamos de assuntos fundamentais e lúdicos, que “botamos pra quebrar” e, ao mesmo tempo, há ternura pelos temas, pela forma como é feito e pensado. Não pretendemos nos encontrar unicamente com a zona sul do Rio de Janeiro (nada contra). Pretendemos ter uma visão de Brasil, de brasilidade. Nossos “âncoras” são Darcy Ribeito e Câmara Cascudo. E mais os milhões de brasileiros que fazem essa terra malemolente, cheia de abaeté, de cuscuz e camarão. Nossa terra de índios tuninambás e nossos cablocos do Candomblé: Salve Zé Pelintra! Salve Mãe Menininha. Salve todos os Orixás! Salve Vinícius, poetinha camarada, salve Badem, salve Dorival, Amado, Gilberto Freire e todas essas almas que me vêm ajudar… me ajudem a levar esse barco mestiço e sem rumo, esse anão gigante, essa terra deliciosamente crioula…

Poetas do mundo

O contato se estabelece. Inventa-se outra forma…. e outra… e outra… Desconstruindo sempre. Ampliando e minimizando. Minimalista. Obscura forma de desejo. Vontades irracionais… certa confusão mental entre o que é romance e o que é História. Não se faz História. Nem ela tem tanto valor prático. Filosofia é mais prático do que realidade. Poesia, mais ainda! Poesia é vida imaginária e doce. Não atentamos para a força da poesia-vida. Do que foi e será. E será sempre. Mais e diferente. Afinal, o que somos uns dos outros?

Ainda não morri

A falta de tempo não tem me permitido voltar aqui com a freqüência que fazia antes. Recebo e.mails dos meus três leitores “cobrando” minha ausência e só posso pedir desculpas. A preparação de um produto áudio-visual que pretendo seja diferente do comum me encarcera dentro de uma ilha de edição, além de outros mil e poucos probleminhas que me aparecem diariamente e tento administrar (já que não administro, nem nunca consegui administrar minha própria vida). Mas acredito que tudo isso seja um processo passageiro, que em algum momento, as coisas entrem nos trilhos e me sobre algum tempo para mim mesmo. Hoje o que há é pouco tempo para comer, quase nenhum para dormir ( até porque minha cabeça não pára mesmo na cama) e todas essas coisas da vida. Vai melhorar. Acredito e torço para que melhore, para que eu conseguiga voltar em breve a me desconstruir diariamente nesse espaço aqui. Mas a vida é cheia de momentos com pequenas e enormes armadilhas. Perseguir ética e estética que serão analisadas por milhões de pessoas também me empurra em direção a um despenhadeiro existencial e de trabalho braçal. Diga-se: 90% desse trabalho braçal e 10% – ou um pouco mais (destruindo a regra dos 100%) – fazem de mim hoje eu dia um não-eu, um ser estranho, marciano talvez, que vagueia entre fitas com gravação de imagens, textos e 850 pessoas perguntando um milhão de coisas, como seu eu, por acaso soubesse. Mas vai passar (ou melhorar)

Sobre as coisas

No meio do bobó de Camarão eu desbundei. Desbundei e fui pra Pasárgada porque lá (também) sou amigo do Rei. Segui caminhos, trilhas, atravessei desertos e aprendi que os oásis são realmente miragens. Me desfiz num vatapá que minha nega Teresa me preparou com o carinho de quem dá comidinha na boca de um senil e louco. A loucura se me avantajou ou me cresceu ou me diminuiu e eu não entendi o final da história. Fiquei, como Capote, refém de vícios e tantos e tantos babados que a vida me ofereceu. Desci ao Inferno de Dante e não encontrei o inferno, encontrei o raso, o cotidiano. E me desesperei ao perceber que Dante se enganou e morreu acreditando que entendera Antígona. Não. Nada. Passei pelo céu róseo de um amanhecer distante, de uma terra outra que não era esse meu Brasil, esse minha terrinha onde tomo uma pinga em meio aos enjeitados, às tribos que se confraternizam no fim da madrugada num delírio etílico-cultural. Fui e voltei. Fui nequinha porque o Caetano assim o disse e não se discute com poetas (e filosofar só em alemão). Saí na contra-mão de uma história que eu não escrevi, sequer imaginei – era apenas ferrugem no espelho do meu banheiro com suas goteiras indefectíveis. Me envieso por outro caminho, esse mais ‘encruzilhada’ do que antes, esse mais à esquerda (ou será à direita? Não sei). Toalha de plástico grosso e azul escuro, dessas que passamos sempre um pano duvidoso e parecem novamente limpas. Som de carnaval fora de época, gente que requebra e se rende a uma orgia que o tempo já levou há muito.

Entender

Coisas em dias melhores e dias piores, muito piores. Uma confusão mortal para que as coisas se acomodem, mas tudo é de maneira tão diferente que é necessário que você praticamente dê uma volta sobre você mesmo. Até aí, normal porque precisamos estar nos reescrevendo sempre. Não é esse o problema. E também não é que não haja boa vontade de quem propõe o novo – nada disso. Pelo contrário, companheirismo há demais. Falta apenas a percepção de que pessoas fazem coisas de maneiras diferentes, que podem mudar a maneira de fazer, mas precisam entender bem e errar à tempo para se consertarem à tempo.

Tudo muda o tempo todo no mundo

Estou precisando desesperadamente percorrer  vários sebos porque muitas coisas importantes, muitos livros que eu possuía estão agora fora de catálogo. Ir a um sebo sempre me pareceu uma viagem mágica, dessas onde você ultrapassa espaços-tempo, onde você se (re)insere em mundos outros, ainda que exatamente este como num Aleph), mas são as épocas que fazem os mundos. A vida não é tal como é ou como parece. A vida é conjunto de situações espaço-temporais que colocam determinados mecanismos em funcionamento e param outros enquanto ainda outros nem começaram a girar. Acredito que uma época seja um mundo e outra época seja outro mundo completamente diferente e não conseguiríamos estar cem anos atrás ou na frente. Não exatamente pela natureza humana, mas por essa questão social e ambiental em que nos agarramos qual a uma placenta. A vida é “placentária” e nosso caminho por esses espaços (e tempos) é definido por “portais de mundos” onde definimos nossos papéis (por mais que a gente se construa e reconstrua diariamente). Os tempos (a passagem deles) também ocorrem de maneiras completamente diferentes e surpresas são inúmeras como aquela que os futurólogos diziam que, num mundo prioritariamente digital haveria mais tempo de lazer para o homem. Ledo engano! Na verdade, não conseguimos sequer responder aos e.mails quando nunca se deixou de responder uma carta manuscrita, por exemplo. Tempos diferentes, vidas diferentes, seres humanos completamente diferentes. E, se afirmam que as coisas se repetem, articulam como uma parábola porque, na prática, “tudo muda o tempo todo no mundo”

Sonhos ou delírios

Às vezes sinto vontade de falar da minha família. Minha mãe, meus filhos, minhas tias (que me deixaram órfão), meu irmão e mais  outros, mais distantes. Não consigo, entretanto. Alguma coisa aconteceu, em algum momento que me desgarrei de todos e eu mesmo, sozinho, passei a ser minha família, com a convivência de Artur, meu gato. Já procurei entender o que aconteceu nesse período e não consegui. Nem porquê aconteceu. Com certeza não foi minha família que me abandonou, fui eu que a abandonei. E por quê? Não sei. Talvez preservá-los de perceberem os caminhos que escolhi para mim (resposta cômoda? Sim.) Talvez ainda tenha entendido que, mutante e ermitão por opção, devo seguir meu caminho sem dividir com quem me conheceu no passado - no que me transformei no presente. Talvez, nenhuma das opções acima. Certamente alguma coisa mais profunda (quem sabe, inconsciente?) Famílias encontram-se mais freqüentemente em datas especiais. Nem isso eu faço. Muito poucas coisas eu sei porquê faço. Talvez eu seja um alienado, talvez um mutante, talvez um sobrevivente (não no sentido glamouroso que a palavra se tornou recentemente). Não sei ao certo. O que tenho de certo sou eu e uma possível UTI. Não, nenhum drama, apenas as perspectivas que se encerram em mim diante de uma idade que se encaminha para “avançada”. Já contei aqui que durmo abraçado com meu gato. Já contei que, eventualmente, me deixo levar a ambientes (um tanto sórdidos) onde só existem bebidas, fumaças e alguém cantando na madrugada músicas que gosto e outras que detesto. Com certeza, uma vida errante. E não sei exatamente o que seria uma vida não errante fora o aludido convencional que abandonei. Melhor, não abandonei, a idéia é viva. Não realizo, simplesmente, o convencional. Talvez eu esteja procurando alguma coisa nova como o rouxinol que canta ao alvorecer e me confunda por não estar na alvorada vida. Talvez me perca entre sentimentos diferenciados e, por que não dizer, difusos, intransponíveis. Certamente não estou tratando a realidade de maneira amadora. Não! O que existe é a necessidade – não dita – de uma compreensão impossível. Muitas vezes me encontro no limiar do impossível, da retórica canhestra, do sonho escorregadio, da expectativa vã. São todas encruzilhadas, são todas relativas a uma certa fragmentação de um eu que nunca foi de fato. Percebo que é uma ilusão acreditar que falo toda a verdade na medida em que não a conheço completamente, numa ambiência em que verdades e sonhos e delírios se misturam de forma evidentemente não coerente.

Inconsciente? Mesmo?

Em determinados momentos enfrentamos enormes desertos super áridos, como se tivéssemos viajado ao Saara. Mas o deserto é aqui, é invidual, cabe inteiro em nosso inconsciente (passando para o consciente). Se é realmente assim termino por discordar de Sartre quando afirmou que “o inferno são os outros”. Eu diria que o inferno somos nós mesmos na medida em que não temos o menor controle sobre o inconsciente – e por isso ele é inconsciente.

Por outro lado, seria inconcebível não termos inconsciente. Com certteza seria o mármore do inferno. Viveríamos numa mistura de desejos proibidos, paixões, taras, lutas, assassinatos em massa, suicídios infanticídios etc. sem ter algo que colocasse um pouco de ordem em corações e mentes. E se tudo isso está contido em nós, com certeza, o inferno somos nós (o que não impede que sejamos do outro também)

De uma foma ou de outra é muito bom possuir esse depósito contido, ser, essencialmente, inconsciente ( e um pouco inconseqüentes também)

Pessoa

Pela manhã estive com o grupo dos meninos de discussão de literatura. O entusiasmo é grande com os novos textos encontrados no baú de Fernando Pessoa (que morreu inédito). Parece que nunca termina a descoberta de textos do autor. Juntando tudo (do material conhecido) vai nascendo a certeza de que Pessoa levou toda a sua vida num processo de criação feérico, devotado dia e noite à produção dessa caudalosa (e maravilhosa) obra literária. Se reler Fernando Pessoa é um deleite, imagine saber que sempre estão aparecendo mais inéditos do autor! Estranhamente, parece que os eruditos não se dão conta de que o conjunto da obra do autor português faz parte (sim!) dos clássicos universais. E nossa discussão de hoje foi justamente em torno dessa questão: o que é um clássico e porquê Pessoa não é um clássico? Ou é e não se dá o crédito devido? Existe um tendência tolinha de achar que a produção literária moderna é distanciada do que se convencionou chamar cultura universal. Isso é tolo demais, é não perceber o amplo movimento intelectual moderno. É fechar os olhos para o presente.

Dar pão a quem tem fome

A fragilização do processo ontológico, fruto de uma “modernidade” apressada e não bem compreendida pelas pessoas está causando incapacidade na juventude em perceber a vida e o ser, tais como são. Os jovens não se reconhecem pessoas tais como são e sim numa tribo “diferente” dos “mais velhos”. É bem verdade que essa divisão sempre existiu como um processo da recém criada faixa do adolescente. Mas, com o passar do tempo e o estudo esse jovem começava a perceber o meio e o ser tais como verdadeiramente são e migravam para um grupo (tornando-se adultos) que racionalizava tudo e assim sucessivamente.

Nas minhas atividades com jovens, percebo uma inadequação, não do modo (de ser jovem), mas com um processo que deveria ocorrer em paralelo. A televisão tem uma cota de responsabilidade na história, mas certamente a internet, se mal utilizada, é um tiro fatal no crescimento individual. Quando a formação no – sentido acadêmico - vai sendo deixada de lado em prol de jogos e na pseudo-facilidade que o Google oferecem cria-se um hiato cultural absurdo com o saber (mínimo que seja) necessário ao crescimento. Alguns videntes do futuro já disseram que ‘o verdadeiro saber atual é saber acessar o saber’. Essa “cultura” já vem sendo praticada há dez anos e o que aconteceu nesse período? Nada! E nem vai acontecer se não houver uma guinada firme numa pífia filosofia em prol do verdadeiro amadurecimento. Nelson Rodrigues, indagado por estudantes sobre o que achava da juventude, respondeu: ‘Cresçam, envelheçam”. Essa máxima - que hoje é contada entre sorrisos - é uma verdade profunda para a época em que o escritor a contextualizou. E hoje? Essa frase teria o mesmo valor? Creio que não. Não porque o crescimento não é individual e pleno e sim um crescimento na capacidade de saber acessar o saber. Não se percebe que não somos computadores, não somos internet, não temos um computador grudado no cérebro e, portanto, continuamos necessitando de uma dose forte de conhecimento para ‘andarmos sozinhos’… O e-book não é uma realidade, portanto o que temos de concreto são os livros tradicionais. Desestimular um sujeito em formação à cultura é um retrocesso tamanho que irá alterar a sociedade bem como todo o conceito de humanidade.

Atenção

Todos sabem que a mais terrível arma das ditaduras são os meios de comunicação. Países em que o governo controla jornais, rádios e televisões são ditaduras sem sombra de dúvida. Sem imprensa livre não há democracia, estamos cansados, todos, de saber. Mas como a sociedade reage? Como se posicionam os intelectuais de cada região ameaçada? Que atitudes a classe média toma? E os outros meios de comunicação? Como se dirigem ao povo? Os que têm o poder da escrita e da publicação, da divulgação de idéias… o que fazem? Até mesmo um blog fomenta idéias! O que todos nós estamos fazendo com o poder de divulgação de opiniões que as novas (nem tão novas) tecnologias nos oferecem? 

Esssas minhas lamúrias

Realmente não tenho audiência. Mentira, os números de visitas são altos, mas os comentários, pífios (em quantidade). Ninguém tem responsabilidade sobre isso, apenas eu. Falo de coisas “incomentáveis“. Trato de sentimentos, experiências e vivências metafísicas e ninguém (com toda a razão quer se meter nessa história complicada e chata)! – Até mesmo minha fiel K. sumiu! De uma certa forma eu estaria ardendo no mármore do inferno se  a tiragem fosse essencial. Não é. Estou completamente absorvido no trabalho da construção de um novo modelo de televisão. No futuro poderei ser reconhecido ou galhardamente defenestrado. Por incrível que possa parecer, não me importo muito. Creio que não tenho mais nada a mostrar a ninguém, tenho apenas que realizar as coisas que acredito (o conceito de ‘bem feito’ ou ‘mal feito’ é absolutamente relativo e, de certa forma, me soa irrelevante). Muitas noites em claro, Nenhuma leitura, pouquíssima escrita, apenas uma preocupação estética e de conteúdo com o que produzo. Pode ser o canto da cotovia que Romeo anunciou (ou foi Julieta? Não lembro). Em algum momento estaremos empreendendo o último voo, não é verdade? Pode ser agora e pode não ser (torço para que não seja). Aprendi, depois de bem velho, a gostar da vida. Eu não gostava da vida na minha juventude… Agora, num provável ocaso, gosto. Como sempre digo, eu mudo de opinião rs. Mas nesse momento não são essas coisas que ocupam essa mente claudicante… É a necessidade de colocar no ar um produto digno. Nada mais. Persigo essa proposta febrilmente. Conseguirei ou não. Impossível imaginar agora se conseguirei. Por outro lado, sinto imensa falta dos personagens dos livros que costumo (costumava) ler. Sinto-me mais ou menos órfão. Igualmente sei que as pessoas no meu trabalho ainda não me conhecem nem reconhecem (normal). Imagino que hoje eu esteja num dia “não”, talvez um pouco fragilizado por uma série de coisas. Mas sei que é assim mesmo, “faz parte do meu show”. Cigarros, bules e bules de café. Um tosse seca me persegue e relembro “A Montanha Mágica” de T. M. Claro que sou um ator de quinta que pretende, sem sucesso, provocar lágrimas numa platéia de esqueletos. Bem sei que o momento seria de aposentadoria, de abrir espaço para os meninos de talento que estão aparecendo. Ainda não tenho a resposta exata para continuar em cena, farsa da farsa. Tédio e Náusea. Sei que, no mínimo, não “sou mais o cara”. Sou um insistente, remanescente, sobrevivente. O mundo mudou e eu não acompanhei. Novamente a farsa: sou um “amador” e “fazedor” chorão.

 

Programação

Televisão aberta com filmes banais. Parece que a TV Brasil vai revigorar isso exibindo filmes nacionais, africanos, orientais… enfim… esperar para ver.

Pré Reação

Algumas pessoas não entendem bem as modificações que a vida impõe (sejam para pior ou para melhor). Rola preconceito, não aceitação de novas propostas – mesmo que sejam para despertar nossa agilidade intelectual. É preconceito mesmo, puro, da gema. É uma pré-antipatia, uma reação anterior ao fato, anterior mesmo à idéia ou proposta que virão. Tenho vivenciado muito essa experiência o que, confesso, causa um certo enfado porque você explica uma, duas vezes e a resistência continua, aumenta. Isso faz pensar um pouco no longínquo (nem tanto) período em que as máquinas de escrever foram, gradulmanete, trocadas pelo computador. Lembro-me de situações patéticas e outras engraçadas de pessoas que entravam em desespero porque iriam separar-se de suas máquinas. Essas mesmas pessoas hoje não vivem sem o computador. E comprovo que tudo continua igual, pessoas, antes de qualquer coisa, reagentes. Talvez na minha idade eu devesse estar assim, com medo, mas ainda não estou, ainda estou procurando um pouco de luz, de lucidez… uma certa abertura para apostar, ainda que depois eu mude de idéia.

Das incompatibilidade entre meus eus

Há muito a dizer, mas um branco toma toda a minha cabeça. Tenho a impressão de estar chegando a uma fronteira, ou melhor, à beira de um abismo existencial. Me reescrever é uma coisa muito diferente de “ser dois”. Ainda por cima meu corpo está maltratado e exausto. Tento pensar, relembrar as coisas que tenho lido, principalmente o caudolaso diário de Sylvia Plath e Molloy de Beckett. Nada: bloqueio intelectual completo. Eu ainda não havia percebido que o corpo castigado ‘breca’ qualquer tentativa no campo intelectual. Mas isso acontece. Infelizmente. As poucas horas em que relaxo, durmo (claro que com a ajuda de remédios). Até meu gato sente demasiadamente minha ausência. Minha casa está um caos. Não falo mais com meus filhos, não visito minha mãe. Busco em algum canto da mente uma saída honrosa onde eu consiga juntar tudo, dar conta de tudo (e, se der, algum prazer pessoal). A realidade me sacode e diz que isso é impossível, que estou delirando ao querer “jogar nas dez”. Tenho ódio do meu próprio embotamento. Olhos vermelhos e ardendo, corpo pedindo cama, intelecto pedindo alimento. O pior é que não existe nenhum culpado, são apenas circunstâncias da vida e a ‘inexorabilidade’ do maldito relógio que segue caminho, desconsiderando todo o resto. O meu resto. O relógio deveria ser uma aparelho para servir ao homem, mas o homem é prisioneiro do maldito tempo. Necessito desesperadamente ler Pessoa, Unamuno, Calvino – e alguns sonetos. Na prática vejo o ‘Eu’ esfacelado como rachadura que aumenta, como grave terremoto. Clarice, em sua sabedoria eterna, disse que não era profissional de nada, nem da escrita porque necessitava, antes, da sua liberdade. Sábio pensamento, pertinentes palavras. Certamente eu errei ao me convencer que era um profissional assim, nesse sentido. Eu não sou Clarice, mas sou uma espécie de Calvino (EVIDENTEMENTE SEM NENHUM TALENDO, QUE FIQUE BEM CLARO). Falo no estilo das viagens, dos questionamentos, nas buscas de entendimento do surreal. Porque parece que não se tocam, todas as pessoas não se tocam do quanto surreal e breve é a vida (brevíssima !).

As dificuldades na criação de uma televisão

Num determinado momento, fui obrigado a redesenhar meus projetos pessoais em função da demanda na televisão. Normal. Só me incomoda o clima tenso, mais nada. Está claro que a TV Pública veio para ficar, o que eu acho bom, mas faltam ajustes sobre o que sobrou da extinta TVE (que, no momento ficou como prestadora de serviços para a TV Pública). Imagino que o nascimento de uma TV provoque naturalmente uma certa confusão, pessoas com idéias novas, propostas diferentes e tal. Falta normatizar, criar uma grade de programação que o público entenda e se acostume. Falta à extinta TVE a percepção do seu novo papel, de prestador de serviços. Principalmente, para que os resultados fiquem corretos em forma, conteúdo e estética… que haja harmonia. Isso não há, é um momento de tormenta, confuso onde os papéis não estão claros ou se estão, não estão sendo percebidos. É necessário que a medida provisória que cria essa TV Pública seja imediatamente aprovada no Senado para que tudo se organize, para que exista verba para produzir e, finalmente para que se definam claramente os papéis de cada um. Definitivamente. No momento há muita tensão, muita resistência (como se estivessem sendo invadidos) de um lado e não entendimento do outro, achando, por engano, que o material humano estava “acomodado”. Realmente não estava. Ou seja: nem uma coisa nem outra. Apenas seguia-se uma grade prévia porque, repito, para se conseguir qualidade em todos os sentidos, é necessário que se entenda perfeitamente o que está sendo feito bem como o público precisa saber o que vai assistir, quando e onde.

Mas acredito que esse processo mais tormentoso seja passageiro e normal pela novidade. O que não se deve perder de vista é que as coisas não podem ficar muito tempo na expectativa da novidade, é necessário um desenvolvimento claro, uma proposta ainda que plural, mas firme e centrada porque só aí desenvolve-se a qualidade pretendida por todos. Por mim, pelo menos. O próprio ritmo do veículo televisão é completamente diferente – mais rápido – do que o do cinema, teatro, literatura e artes plásticas porém tem igual ou MAIS responsabilidade com o conteúdo e a estética.

Pressa, pressa, pressa preeeeeeeessa!!!

Essa questão de realização do EU me lembra muito o Mito de Sísifo. Muitas vezes eu reclamo que alguma coisa não está se realizando, mas quando ela se realiza eu já estou com outros cem desejos a serem realizados. Sou um descontente/ansioso crônico. Fico imaginando que todas as pessoas sejam assim. Dizem (com razão) que eu não sei esperar pelas coisas, que eu quero tudo na hora, afobado e tal. Ou seja, tenho muito mais defeitos do que qualidades, mas alguns desses defeitos acabam me possibilitando realizar minimamente o que quero. Espero que as pessoas todas não sejam assim para não acabarem com úlcera ou roendo rodapé. Conheço algumas iguais a mim e outras ainda piores (que pretendem uma velocidade que não existe, acho) Ou não. Ou vão conseguir concretizar um número maior de realizações. No post anterior falei do oráculo e da parede (verdades verdadeiras), mas, menina, também não parei de chutar pedrinhas (viu, Kastor? rsrs).

Eu e minha pulga de estimação

Entendo que trabalhamos sobre pressão. Vários compositores já declararam que também trabalham assim ainda que seja um trabalho sofrido (mas o resultado é sempre fantástico).  Não sou muito assim não. Gosto de planejar as coisas e pensar nelas, gosto de ter uma idéia rascunhada do que será um produto que vai ser visto por sei lá quanta gente. Talvez seja um erro meu, mas a minha formação profissional foi assim (talvez, velho, eu consiga conceder um pouco). Verdade também que existem projetos e projetos e programas e programas. E aí? De uma certa forma a humanidade é “fazedora”. A gente faz, faz e faz. Alguns resultados me agradam e outros não, mas pode ser insegurança resultante de uma auto-crítica ferrenha que tenho em relação ao que pretendo e ao que não pretendo, mas realizo. Se sou inseguro? Tecnicamente não, mas em vários momentos sou sim. Uma amiga disse que eu vivo dos meus desequilíbrios (não, ela disse isso dela mesma e eu percebi que também sou assim). Resultados? Não sei…. Estão por aí. Em mim? Insônia, úlcera e cabelos brancos. Quando eu bater as botas não terei deixado nem um livro nem uma árvore plantada, apenas filhos. Como se percebe, estou longe da realização plena que disseram fundamental. Deixo papéis esparsos, documentários e uns programas. Mas está claro que não basta… Não para mim. Tenho comigo uma pulga esperta que me inquieta e pula daqui pra lá e de lá para cá sem que eu consiga capturá-la. Essa pulga é ansiedade e vontade. Então qual é o problema? O problema é que a pulga me atiça, mas quem faz sou eu. Ou seja: não era nada disso o que eu queria dizer.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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