Não, ainda não morri. Muito menos sumi. Tenho andado com coisas a resolver, atitudes a tomar e, principalmente, a idéias a colocar no lugar (nos cadernos manuscritos). Se estou dando um tempo aqui? Não é exatamente, mas não deixa de ser. Agradeço os e.mails dos meus três leitores que se preocupam. Não há nada de mais. Resta saber o tamanho da contaminação.
Arquivo para a categoria 'Os dias...'
Infecções virtuais
Publicado 24/03/2009 O resto é mar... , Os dias... , Papéis esparsos Deixar um ComentárioE as redes de proteção? 2009 e o tempo
Publicado 31/12/2008 Os dias... , a longa jornada , leveza do ser 2 ComentáriosOk, parece que a vida venceu, o tempo passou e termina 2008. Não creio que tenha sido um ano muito bom para mim (se é que devo insistir em considerar o ano, essa medida de tempo tão idiota quanto o relógio). Primeiro pensei em fazer uma pequena retrospectiva, falando de bons e maus momentos, mas parece besteira, não deve interessar a ninguém – e nem a mim mesmo! Passagem de ano é parecido com data de aniversário, um momento irrelevante, uma festa tolinha, jeka e inútil. Não posso me furtar a voltar ao assunto: minha mãe fez aniversário no dia 10 e morreu no dia 17… sete dias após. E qual a diferença em falar que ela morreu com a idade (que vivenciou sete dias) ou com a anterior? nenhuma. Se eu morresse em 2008 ou em 2009, igualmente será irrelevante.
Meus três leitores sabem muito bem a implicância que eu tenho com o tempo, com as marcações do tempo e tudo o mais. Acho tudo isso uma babaquice ímpar. Nunca fiquei bebendo qualquer coisa à zero hora. Nunca dei pulinhos nas ondas nem acendi velas nem joguei flores no mar. O custo dessas flores, por exemplo, paga um prato de comida para um pobre esfomeado… Fé é um nome esnobe para crendices populares. Por que deve-se adorar mais a deus do que a um duende? Alguém já viu qualquer um dos dois? Bom, se viu não se trata de milagre e sim um claro sinal que a dose de Haldol ainda está muito baixa.
Mas não quero agredir ninguém, respeito a crendice das pessoas. Se elas necessitam, ótimo, façam bom proveito. Igualmente para quem estuda o alinhamentos dos astros, os búzios, etc. etc. A única diferença clara que percebo é que terei de grafar 2009 ao invés de 2008 no preenchimento de cheques. Só isso já é uma chatice, porque estamos acostumados com um número de ano e trocá-lo sempre faz confusão e, invariavelmente, erramos. E perdemos dinheiro já que cada folha de cheque é paga.
Por outro lado, acontece o nascimento de várias crianças e a morte de outras tantas (crianças, jovens e idosos). Mais ou menos como se a vida fosse um elevador num prédio de 40 andares. À cada parada saltam uns e entram outros. Simples assim. E quando esse elevador chega ao último andar “muda o ano” para continuar tudo mais ou menos igual. Muito mais interessante seria comer um acarajé preparado por ela. Ou uma moqueca, quem sabe…. Ou oferecer uma pinga a um mendigo que precise porque dessa vida não se leva nada (muito menos o fígado). E, se leva, eu serei exceção e não levarei nada.
Contam-se os dias das férias e quando acabam retorna-se a um trabalho chato, inútil… E fazemos isso em troca de um dinheiro ‘meia boca’ que nos garante uns pacotinhos de miojo, uma eventual cerveja e tranquilizantes que nos mantém “normais”. Ser normal, independente da data e do tempo é estar sempre dizendo sim ou um não ameno, estar entrando e saindo de lugares, batendo cartão de ponto, sempre vestido razoavelmente e de banho tomado. É isso que o mundo exige de nós. Mais nada. O mundo, a vida e o tal do tempo não sabem nada de nós, de verdade, como, igualmente, não sabemos nada de ninguém. É um espetáculo, um show (brega, verdade)… somos os palhaços de um cirquinho mambembe, de lona furada e sem redes de proteção.
Atrás dos Panos ou Meus Óculos Escuros
Publicado 30/12/2008 Burros , Os dias... , liberdade Deixar um ComentárioO dia custa a amanhecer. Acordo frequentemente no meio da noite sem mais um pingo de sono – independente da quantidade de soníferos que tomei. Na verdade, não gosto de ficar acordado nas madrugadas. Não tenho paciência… prefiro infinitamente os dias… Se me considero uma pessoa solar? Igualmente não. Nem lua nem sol, talvez sombras onde eu possa perambular de óculos escuros, observando, mas não sendo observado. E olha que observar é uma coisa e xeretar a vida dos outros é completamente diferente. Na literatura de um ou dois séculos atrás sempre havia a personagem que vivia atrás de cortinas tomando conta da vida de todos. E me surpreendo hoje vendo pessoas que agem exatamente assim na vida real (e nesse ponto a arte imita a vida). Se me incomodo com esse comportamento? Certamente que sim. E me decepciono também. Na verdade, me irrito, não tenho saco e chego a ter um certo desprezo.
Hoje eu me lembro de cada uma das palavras que minha mãe dizia, que eu não acreditava, que eu achava serem exagero ou implicância dela. Não eram. Minha mãe com 79 anos, absolutamente lúcida me avisava, abria meus olhos e eu não via. Agora sinto um imenso remorso por ter duvidado dos alertas que ela insistia em me mandar. Tarde demais.
Meus óculos escuros: suavizam o excesso de luz que vem em minha direção… protegem meu espírito (não metafísico) – não que o mal deixe de existir, mas amenizo sua percepção. Gostaria de, com eles, não ser reconhecido como Clark Kent e seus óculos comuns, mas não se pode viver a fantasia das histórias em quadrinhos. Esses óculos escuros, enfiam, criam uma persona, um avatar e libertam meus sentidos e sentimentos. Por fim, disfarçam toda a tristeza que meus olhos carregam. Demonstram muito pouco toda a angústia que a ignara ululante insiste em me expor.
Sem assunto…
Publicado 29/12/2008 Os dias... , Papéis esparsos , livros & livros Deixar um ComentárioPara me livrar da peregrinação nas filas de bancos no início do ano, resolvi adiantar hoje o que era possível. Até porque dia 1° é feriado e imagino a sanha desesperada dos “sacadores” e “pagadores” de contas, títulos e não sei mais o quê. E uma coisa que eu tenho pavor na vida (além de ir ao dentista) é enfrentar tumulto e fila em banco. Se eu pudesse ter uma só mordomia na vida gostaria de ter um boy que cuidasse dessas coisas de papéis, documentos, bancos e o diabo. Isso aqui é o país da “Firma Reconhecida”, da Estampilhas e toda essa burocracia insuportável. Soube que, não sei como, meu pai ia herdar um cartório o que acabou não acontecendo. Pena.. hoje eu seria riquíssimo…rs
Está chegando o dia da virada para um novo ano e o serviço de meteorologia prevê chuvas torrenciais no sudeste. Eu não me importo porque não saio de casa mesmo, mas tenho pena dos dois milhões de pessoas que acompanham a queima de fogos em Copacabana, por exemplo.
Aliás meus poucos amigos e conhecidos, nessa época do ano sumiram completamente. Não encontro ninguém. Até os acessos ao blog diminuíram consideravelmente. Mas nada disso me importa muito. Estou mais preocupado porque está sendo um processo complicado me desfazer do apartamento que mamãe ocupava (tem gente demais palpitando!), mas falta pouco. Quando isso acontecer, posso considerar este ciclo encerrado na minha vida. Não sei explicar muito bem o porquê, mas sinto muita necessidade de ver tudo isso terminado.
Tá…. a verdade é que não tenho nenhum assunto interessante, eu reconheço. Posso acrescentar que estou lendo dois livros: “As Mulheres do Meu Pai” do angolano José Eduardo Agualusa e, ao mesmo tempo, “Cidadezinhas” do John Updike. Na fila para posterior leitura tenho:; “Três Vidas” de G. Stein e “Gomorra” de Roberto Saviano. Não creio que durem até o final de Janeiro de 2009, mas já é alguma coisa. No mais… Passem bem!
Nesse momento, minha única preocupação é o tempo. O tempo para chegar a crise final. Olho seus olhos opacos, sua tez acinzentada, seus cabelos muito ralos e de uma cor indescritível. Olho as coisas ao seu redor e me pergunto como resolverei tudo. Não, não serei eu, serão os outros que vão ter que dar um jeito nas coisas. Seu olhar demonstra insegurança, medo e, ao mesmo tempo, resignação. Fala de um futuro em que não acredita. De uma vida que sabe distante. Procuro aparentar naturalidade e sei que não consigo. Está preocupada com os papéis para a cremação e contraponho que é momento para pensarmos em vida, em cura, jamais em morte. Mas sei que ela está certa e eu, falso. Fica me olhando e rindo por dentro de todas as esperanças mentirosas que escapam pela minha boca envergonhada. Língua envergonhada. Vergonha da minha impotência, da impotência de tudo e todos, inclusive de um deus que desejaram me fazer crer sem nenhum sucesso. Agora mais ainda. Os minutos se arrastam, não tenho o que dizer. Sinto a necessidade de estar dopado de alguma coisa, qualquer coisa porque acho a realidade dura demais. A realidade que todos passam, uns com mais firmeza, outros com menos. A realidade estúpida por deixar de ser. Como reconhecer com estoicismo a realidade do “não ser”? Imprecisão. Tempo. Quanto? Como será? Lenta ou breve? Suave ou doída? Se doída, por que? Já não bastam as dores de uma vida? Vou lá fora fumar um cigarro. Depois outro. E outro. Coca Cola (a cachaça fica para outra hora). Olhamos um para o outro e sorrimos internamente das nossas tristes mentiras. Da nossa incapacidade de falar. De nos abraçarmos. De chorarmos. Não. Falamos sobre bobagens, sobre eleições, sobre o calor que faz lá fora. Falamos do que não é. Do irrelevante. Os minutos se arrastam e três horas depois preciso sair, não suporto mais, preciso da minha sovina e covarde solidão. O tempo.
Não creio que vá adiantar muito fazer uma análise, uma crítica sobre o resultados das eleições nos estados porque a situação está imposta, é fato.
No Rio, Gabeira fez boa campanha, mas, infelizmente, não se elegeu. Há mais ou menos trinta anos Pelé disse uma frase que irritou intelectuais, mas continua sendo verdadeira (como se vê): “brasileiro não sabe votar”.
Parece que existe uma busca imponderável do que é. Ou do que deveria ser. Ou do que imaginamos que seja. Mas é como andar numa floresta à noite. Vem a frustração de quem anda em círculos (porque ainda não se deu a verdadeira importância ao “andar em círculos”). Não nos damos conta, muitas vezes, dos ritos de passagem, de como estamos mudando, como o universo muda à nossa volta e como o que nos “parece novo”, chega. Não existe “novo”, no máximo o novo “para nós”. Mas tem mesmo essa doce e inocente expectativa do novo. É como canja, não faz mal a ninguém. Vivenciar o que conquistamos ou o que chega de surpresa. Isso. Ia falar de outra coisa e me perdi. Outra hora, talvez. As horas… as horas…
Possibilidades
Publicado 22/10/2008 Os dias... , equívoco , leveza do ser , possibilidades Deixar um ComentárioExiste o romancista de um livro só. Todos se perguntam porquê aquela pessoa escreveu um único livro, porquê não deu continuidade à sua carreira literária (ainda mais quando se mostra promissora). Escrever não deixa de ser um ato de angústia, aquilo que chamamos de “angústia boa”. Muitos passam para o papel essa angústia uma vez e depois se calam, ninguém fica sabendo o que aconteceu, o que está ocorrendo, onde anda aquela pessoa, o que faz, se morreu ou não. Porque é assim: pessoas aparecem e desaparecem eventualmente, misteriosamente. Como num espelho que se parte logo após refletir apenas uma imagem. Não são sete anos de azar. Até porque não existe propriamente “azar” nem propriamente a contagem dos “anos”. Ocorrem outras coisas, outras situações, outros caminhos que nem sempre são definidos pelos homens. O conceito de “show da vida” propõe alguma coisa de magnânimo – que, novamente, não quer dizer a verdade, não pode haver certeza. A própria “verdade” é apenas de ‘um’ e não coletiva.
Talvez a proposta de Camus do “zero à zero metafísico” seja algo mais próximo do possível. Claro que pode-se também acreditar na idéia do filme Matrix (não creio). Por fim, termina-se numa espécie de limbo (não esse católico romano que remete às portas do inferno), mas num meio de caminho, numa caminhada de certa forma abstrata, uma visão de horizonte sem cores definidas, sem placas de indicação. Um enorme deserto com pequenos oásis ou um oásis com pequenos desertos. É a relatividade do ser, do espírito, do olhar, do impulso, da (possível) explosão. É a pedra, o rio, a lama. Simplesmente admitir que tudo é possível e impossível na mesma proporção.
Ao ultrapassar a vitória quase certa de Crivella no Rio indo para o segundo turno (e com possibilidades de vitória) deve ser um alerta importante para os que tentaram condenar Gabeira por esse ou aquele ato. Talvez seja necessário um pouco de cautela ao julgarmos equívocos políticos do candidato ao longo do caminho porque sujeitos a equívocos estamos todos nós, muito mais os políticos que, por sua própria atuação estão cercados por várias armadilhas todo o tempo. Sim, talvez Gabeira não fosse o nome ideal para Alcaide do Rio, mas entre o que se oferece no menu, ele, sem dúvida será a melhor opção.
O dia enfarruscado faz-me lembrar de ti, do campo de pasto ao gado, das nuvens muito baixas ao amanhecer, dos cães brincando pelos quintais, do orvalho ainda presente em todas as flores. Na roseira com as rosas abrindo-se e (para meu espanto), enormes. Tudo era novo para mim naquela época em que acreditei ser possível mudar, alterar tudo, rever todos os conceitos até ali. O dinheiro não era farto (nunca foi), mas não me faltava e comíamos um queijo tipo Minas feito na fazendola ao lado. Achei que tudo era possível.
O mundo tinha outro cheiro e outra cor, os achaques da cidade tinham me abandonado todos, como encanto, a telefonia e as antenas eram um luxo que não me faziam falta porque meu mundo era outro, havia a lareira, o crepitar da madeira queimando nas noites frias onde preferíamos dormir na sala bem perto ao fogo. Nunca pensei se tudo era possível ou não porque o presente me bastava de sobra e eu buscava não olhar o futuro como se, não olhando, ele não chegasse.
Não, não havia má fé, em nenhum momento pensei em ser mais ou menos esperto em nada e tratava de cumprir com minhas obrigações de maneira firme, mas extremamente calma. No lugar de álcool, preferia o chocolate quente que preparavas para mim e que tomávamos rindo com a brincadeira dos gatos que se tornaram tão amigos. Não podia mesmo haver amanhã. Esse amanhã era apenas um novo céu vermelho e minha contemplação silenciosa de como dormias nos cobertores.
Quando chegou o dia em que me levantei (bem cedo, como de costume) e lá estavas sentada na varanda, quase escuro ainda, a névoa ainda longe de dissipar-se e teus cigarros ansiosos (que acendias um no outro), me dei conta de que havia chegado o momento que eu sabia que viria, mas que sempre guardei numa gaveta do inconsciente.
Foi nesse momento, após essa conversa, que algo partiu-se em mim, algo tão violento e profundo que, na hora, não me dei conta. Mas sim, foi à partir daquele momento, à partir daquele fim de sonho que acordei definitivamente para o que chamam limbo. Verdade que, assustado, demorei a me dar conta de tudo o que estava acontecendo e das conseqüências futuras que foram um eterno mergulho numa noite estranha, sem sonhos nem esperanças – simplesmente expectativa do pânico.
O problema é sobre o que falar quando, definitivamente, os assuntos estão mortos. Não existem mais. O que existe agora é a observação de alguma coisa que passa desapercebida aos olhares voltados para as coisas importantes. Porque de importante mesmo não acontece nada de novo, acontece uma releitura do que foi, do que ocorreu, do que nos chamou atenção no passado. Falar de livros? De pessoas? Nascimentos e mortes? Basta ler os editorialistas dos grandes jornais e revistas. Falam do que foi, fazem novas leituras do óbvio, de tudo o que digerimos há meses ou anos atrás. E se em torno não acontece nada começamos a “inventar” coisas, abandonamos a crônica e entramos numa zona perigosa do que seria criação literária (e não é) ou de uma forma de delírio, ainda que um delírio frágil, desses que não assustam, que fazem ensaiarmos um sorriso educado. O que existe de produção nessas áreas é nada porque o mundo parou. Curioso é que a maioria das pessoas não percebe essa “parada do mundo” e fala disso ou daquilo como se fosse novidade. São as mesmas guerras, as mesmas quebradeiras de bolsas, os mesmos óbitos, os mesmos livros os mesmos casamentos e descasamentos entre famosos, os mesmos programas de televisão (cada vez mais pasteurizados), os mesmos filmes (refeitos agora utilizando recursos de computação gráfica). Porque já relatamos todos os encontros estranhos que tivemos na vida, os mesmos malucos, os arranjos novos para canções velhas. Os blogs por exemplo, se repetem à exaustão – cada um deles batendo na mesma tecla que escolheram (principalmente este aqui). E os comentários nesses blogs (este não é), repetem observações, elogios, parabenizações que já vimos antes, que um dia até nos interessaram. Não aconteceu nada de novo desde “2001, uma odisséia no espaço”. Toda a produção posterior é repaginada. O Brasil comemora a edição em português de dois livrinho de Cotázar da década de 60. E poesia moderna é Fernando Pessoa. Nada contra autores nem fatos do passado, tudo à favor porque é graças a eles que estamos onde estamos (ainda que estejamos no nada). E é fato que o Sol vai se apagando e a Terra girando com menos velocidade.
As pequenas impertinências me atraem como uma certa desobediência civil. Quem pretende estar correto todo o tempo ou ser considerado “absolutamente normal”… bom, essa gente me causa uma certa estranheza, dúvida profunda. Porque se olharmos bem o entorno perceberemos que leis existem para serem burladas ou para serem modificadas (incluindo-se aí e, principalmente, os dez mandamentos).
Não, não sou um rebelde sem causa não digo não a tudo e muito menos ultrapasso limites apenas por ultrapassar. Isso é tolice, criancice, é birra. Eu só não quero ficar num cercadinho infantilóide que os “ólogos” criam imaginando nos apresionar. Desejo ser prisioneiro de mim mesmo unicamente.
Pensar diferente da maioria pode ser uma opção perigosa, pode nos encaminhar para o abismo social de uma solidão estranha, não programada. Ler e escrever de forma diferente também. Apesar de todos os avanços, a sociedade ainda cria, disponibiliza e só admite as pessoas que estão devidamente formatadas, ainda que numa pintura abstrata. O comportamento social caminha com pensamento único, o que equivale, na verdade, a não pensar. A ousadia é perniciosa porque assusta a média das pessoas que, comodamente, se enquadram. Não, ao contrário do que parece, não chego a ser um anarquista – acredito numa sociedade coerente e, dentro do possível ordeira – para que sobreviva a paz.
Mas se o tempo passa, as situações se alteram, paradigmas se quebram (e surgem em outros lugares), se pessoas nascem e outras morrem, evidente que nada continua exatamente igual, que é necessária a tal salutar desconstrução individual freqüente que provoca a discussão, a mudança pontual, o susto, a revisão do atavismo. Reencontro em mim mesmo o menino de cinco anos que fui um dia e dele sugo o que há de bom (e há em todos nós!) com a mesma certeza de que avanço no futuro, no que me resta de vida e encontro nesse homem-eu mais velho, ponderações (e até mesmo safadezas) que resgato para meu presente, que indefinidamente escorre entre meus dedos, perdendo-se nessa maratona “sísifica” de não se definir como presente e, muito menos, ser um pleno futuro.
O contato se estabelece. Inventa-se outra forma…. e outra… e outra… Desconstruindo sempre. Ampliando e minimizando. Minimalista. Obscura forma de desejo. Vontades irracionais… certa confusão mental entre o que é romance e o que é História. Não se faz História. Nem ela tem tanto valor prático. Filosofia é mais prático do que realidade. Poesia, mais ainda! Poesia é vida imaginária e doce. Não atentamos para a força da poesia-vida. Do que foi e será. E será sempre. Mais e diferente. Afinal, o que somos uns dos outros?
No próximo domingo, dia 29 estréia o programa Revista Brasil às 17 h. Tem sido uma produção muito difícil de ser levada adiante por ser um produto complexo de conteúdo e estética. A equipe tem trabalhado muito e ainda percebemos falhas aqui e ali. Trata-se de um programa de pura criação, exercício intelectual e estético. Um programa praticamente feito na hora da montagem, da finalização. Ainda existem muitas coisas a serem aparadas, não creio que já esteja totalmente pronto e idealizado, a não ser na minha cabeça e do Ricardo Soares, supervisor do programa. Entretanto, com muito trabalho e imaginação, creio que chegaremos lá em breve.
Morre André Valli, um grande ator brasileiro (talvez pouco conhecido pelos mais jovens).
Trabalhei com André pela primeira vez no início dos anos setenta, na segunda novela do horário das seis (A Primeira foi Helena, protagonizada de forma belíssima pela atriz Lúcia Alves). A segunda novela foi “O Noviço” onde Pedro Paulo Rangel intepretava o papel título e Andre Vali era o superior do convento.
São, todas essas mortes que vêm ocorrendo, enormes perdas para nossa arte no teatro, cinema e televisão.
A projeção de um fim escorregadio, falso
Publicado 15/06/2008 Idéias e ideais , O pânico , Os dias... 1 ComentárioTenho a impressão de que esse é meu último fim de semana em casa. Nos outros estarei trabalhando, me desesperando, chorando pelos cantos como um bebê chato. Bebês são chatos. Homens são chatos em sua eterna burrice. Muitas vezes sinto-me obrigado a falar com pessoas que não me conhecem, que não conhecem o que eu conheço e conhecem coisas que não conheço. Essa divisão mal versada de gostos e conhecimentos afasta mais do que aproxima. Por engano ou inocência, achei que na velhice encontraria algum tipo de paz, algo como um porto seguro (o que não quer dizer necessariamente uma mulher), algo que me fizesse diminuir o número de pílulas, de garrafas de uísque ou seja lá que cabeçadas vou dando por aí. Não aconteceu, nada mudou e isso me preocupa porque, se nada muda realmente, continuo com o amargor na boca, com a ansiedade, a pressão no peito. Pessoas passam e eu, com jeito para não parecer mais maluco do que sou, afasto-as, digo que estou no meio de uma tarefa inadiável mesmo sabendo que é mentira. Quando mentimos para nós mesmos essa idéia de mentira se minimiza porque não estamos sendo maquiavélicos, não estamos aprontando para o outros… Não? Claro sim! Quando mentimos para nós mesmos institucionalizamos a mentira, banalizamo-as, fazemos dela uma verdade num universo de ponta cabeça. Não tenho esperanças de escapar dessa roda viva, não tenho esperanças de que nada se altere até porque não sei como eu me sairia num mundo diferentes, diverso desse que abomino. Os filósofos, por sua vez, me parecem muito fracos, frágeis, inocentes. Os medicamentos são sempre muito fracos e deus, coitado, precisa ser inventado e reinventado por cabecinhas tolas. Entrego-me a um sono (induzido), busco vivenciar os personagens que leio, começo a perder a esperança em me desconstruir sempre porque a argamassa é a mesma.
A falta de tempo não tem me permitido voltar aqui com a freqüência que fazia antes. Recebo e.mails dos meus três leitores “cobrando” minha ausência e só posso pedir desculpas. A preparação de um produto áudio-visual que pretendo seja diferente do comum me encarcera dentro de uma ilha de edição, além de outros mil e poucos probleminhas que me aparecem diariamente e tento administrar (já que não administro, nem nunca consegui administrar minha própria vida). Mas acredito que tudo isso seja um processo passageiro, que em algum momento, as coisas entrem nos trilhos e me sobre algum tempo para mim mesmo. Hoje o que há é pouco tempo para comer, quase nenhum para dormir ( até porque minha cabeça não pára mesmo na cama) e todas essas coisas da vida. Vai melhorar. Acredito e torço para que melhore, para que eu conseguiga voltar em breve a me desconstruir diariamente nesse espaço aqui. Mas a vida é cheia de momentos com pequenas e enormes armadilhas. Perseguir ética e estética que serão analisadas por milhões de pessoas também me empurra em direção a um despenhadeiro existencial e de trabalho braçal. Diga-se: 90% desse trabalho braçal e 10% – ou um pouco mais (destruindo a regra dos 100%) – fazem de mim hoje eu dia um não-eu, um ser estranho, marciano talvez, que vagueia entre fitas com gravação de imagens, textos e 850 pessoas perguntando um milhão de coisas, como seu eu, por acaso soubesse. Mas vai passar (ou melhorar)
No meio do bobó de Camarão eu desbundei. Desbundei e fui pra Pasárgada porque lá (também) sou amigo do Rei. Segui caminhos, trilhas, atravessei desertos e aprendi que os oásis são realmente miragens. Me desfiz num vatapá que minha nega Teresa me preparou com o carinho de quem dá comidinha na boca de um senil e louco. A loucura se me avantajou ou me cresceu ou me diminuiu e eu não entendi o final da história. Fiquei, como Capote, refém de vícios e tantos e tantos babados que a vida me ofereceu. Desci ao Inferno de Dante e não encontrei o inferno, encontrei o raso, o cotidiano. E me desesperei ao perceber que Dante se enganou e morreu acreditando que entendera Antígona. Não. Nada. Passei pelo céu róseo de um amanhecer distante, de uma terra outra que não era esse meu Brasil, esse minha terrinha onde tomo uma pinga em meio aos enjeitados, às tribos que se confraternizam no fim da madrugada num delírio etílico-cultural. Fui e voltei. Fui nequinha porque o Caetano assim o disse e não se discute com poetas (e filosofar só em alemão). Saí na contra-mão de uma história que eu não escrevi, sequer imaginei – era apenas ferrugem no espelho do meu banheiro com suas goteiras indefectíveis. Me envieso por outro caminho, esse mais ‘encruzilhada’ do que antes, esse mais à esquerda (ou será à direita? Não sei). Toalha de plástico grosso e azul escuro, dessas que passamos sempre um pano duvidoso e parecem novamente limpas. Som de carnaval fora de época, gente que requebra e se rende a uma orgia que o tempo já levou há muito.
Eu o reconheci ontem na porta de um bar de esquina. Estava muito mais velho do que me lembrava dele – mais mal vestido também. Não me pareceu drogado. Tinha um olhar distante, apagado. Me aproximei e puxei algum assunto relembrando o tempo que trabalhamos juntos. Ele sorriu um sorriso triste, sombrio como se não se lembrasse de nada ou, pior, lembrasse mas nada importasse. Troquei algumas vezes de assunto, mas ele não reagia. Perguntei porque estava assim, triste e solitário e ele não me respondeu. Pessoas que se apagam em vida, que morrem sem deitar, que perdem a identidade a força, a coragem de continuar lutando. Seria uma doença fatal? Um grande desgosto amoroso? Um baque financeiro? Não me disse. Ao fim de alguns minutos percebi que ele realmente não diria uma só palavra, não diria nada a mim nem a ninguém porque estava numa espécie de outra dimensão. E trata-se de uma pessoa pública. Comprei, por fim, meu cigarro e voltei para casa, vazio, sem nem me despedir.
Dialogar com os mortos
Publicado 23/05/2008 Os dias... , Radicalizar , reais fantasias Deixar um ComentárioEntro e saio por determinadas portas que me levam a outras. Labirinto que reputo à própria alma e não a uma realidade improvável. Claro que estou lendo as mensagens que chegam a mim de formas imprevisíveis, misteriosas, de formas que me induzem a não acreditar em nenhuma delas (como as oníricas) muito embora saiba que, sim, são verdadeiras e têm endereço certo. Meu endereço! O salto agulha não chega a me dizer muita coisa depois que a vi descalça. São os movimentos independentes, esgares e ritos de prazer que não me impressionam, que recebo com a naturalidade de quem já viveu processos semelhantes (embora continue me surpreendendo com tudo). São impressões vagas como bruma rala, como cenário de papelão, como uma existência fake mais ou menos à partir de um script velho e mais do que decorado. Scripts velhos não deixam de emocionar e surpreender (como bons livros e bons vinhos). Esses personagens (quase folclóricos) que me aparecem do nada devem ter uma ligação profunda com um mundo imaginado, um mundo em que acreditamos, embora não apareça como realidade vivida – e comprovada.
Decido então seguir em frente e atirar com minha arma de bolas de sabão, munição que, ao atingir os mortos, ressuscita-os. Meus mortos são de cera como no museu, não são realmente mortos porque em vida não se pode entender a morte. Se os mortos são os outros, então não são verdadeiros mortos, apenas “deram um tempo” porque a morte é um privilégio meu (e de cada um). Se reparamos bem, percebemos que os ditos mortos continuam nos falando, conduzindo, induzindo. E, para muita gente, podemos também estar mortos, o que me parece natural. De todo o modo, dependendo da situação, estamos vivos ou mortos e só não pensarei mais assim quando, de fato, eu estiver morto. Cremado. Creio que posso vivenciar apenas o momento da situação imediata, de uma realidade que se imponha a mim sob qualquer forma, qualquer explosão que me faça (a todos nós) saltar de um ponto ao outro na imaginação ou nessa possível matrix.
Estou precisando desesperadamente percorrer vários sebos porque muitas coisas importantes, muitos livros que eu possuía estão agora fora de catálogo. Ir a um sebo sempre me pareceu uma viagem mágica, dessas onde você ultrapassa espaços-tempo, onde você se (re)insere em mundos outros, ainda que exatamente este como num Aleph), mas são as épocas que fazem os mundos. A vida não é tal como é ou como parece. A vida é conjunto de situações espaço-temporais que colocam determinados mecanismos em funcionamento e param outros enquanto ainda outros nem começaram a girar. Acredito que uma época seja um mundo e outra época seja outro mundo completamente diferente e não conseguiríamos estar cem anos atrás ou na frente. Não exatamente pela natureza humana, mas por essa questão social e ambiental em que nos agarramos qual a uma placenta. A vida é “placentária” e nosso caminho por esses espaços (e tempos) é definido por “portais de mundos” onde definimos nossos papéis (por mais que a gente se construa e reconstrua diariamente). Os tempos (a passagem deles) também ocorrem de maneiras completamente diferentes e surpresas são inúmeras como aquela que os futurólogos diziam que, num mundo prioritariamente digital haveria mais tempo de lazer para o homem. Ledo engano! Na verdade, não conseguimos sequer responder aos e.mails quando nunca se deixou de responder uma carta manuscrita, por exemplo. Tempos diferentes, vidas diferentes, seres humanos completamente diferentes. E, se afirmam que as coisas se repetem, articulam como uma parábola porque, na prática, “tudo muda o tempo todo no mundo”
K. além do horizonte
Publicado 18/05/2008 Idéias e ideais , Mulher , Os dias... Deixar um ComentárioPretendo do mundo apenas fazer as coisas – boas ou más – apenas mostrar o que deve ser mostrado, o que eu acho que pode chamar a atenção das pessoas para assuntos relevantes. Melhor: gosto de proporcionar coisas diferentes, falas e imagens que levem minha inquietude a outros, outros tantos que, como eu, estão cansados das velhas fórmulas, dos velhos embrulhos da informação. Acho que essa proposta não de adequa a internet ou a televisão, ela é mais própria a livros e debates (não necessariamente acadêmicos). Assim, de vez em quando tenho a impressão de que estou patinhando, chovendo no molhado. Verdade ainda que não foi sempre assim, houveram momentos em que consegui falar o que desejava para as pessoas e recebi respostas dessas pessoas – concordando ou discordando. O tempo traz pasteurização, atravanca idéias e pessoas, expõe ao mundo uma coisa mecanicista, ainda que boa. Imagino que todo mundo espera por algo, acredita que alguém está preparando alguma coisa que mexa com corações e mentes. Essas pessoas que vivem à reboque de alguma mídias apenas deixam de conhecer grandes obras que, de uma forma ou de outra, são material bruto para quem está criando um produto mais palatável. Só não compreendo a expectativa de quem aguarda ‘o mais palatável’. De certa forma, novas mídias e tecnologias criaram uma geração mais preguiçosa intelectualmente, gente que não corre atrás de nada porque sabe que vai receber aquilo tudo mastigado. Ao mesmo tempo, não vejo como reverter um processo que está arraigado e é global. Sento na varanda da vida, observo céus e nuvens, gente que vem e gente que vai. Folheio meus livros, converso com Artur, meu gato (não se choquem, K. conversa com as plantas…) e percebo que esse céu insiste em avermelhar-se com num sinal transcendente. Mas…. e além do horizonte?
Caminho pela madrugada e atravesso grandes espaços de ruas totalmente sem iluminação. Estranhamente, não sinto medo, muito provavelmente por não ser um homem da noite, não ser uma espécie de lobo. Dia desses me perguntaram como conjugo minha insônia renitente com minha afirmação de que “não sou um homem da noite”. Creio que expliquei que um homem da noite se diverte nas madrugadas e um insone crônico, sofre. Josué Montello me contou que sofria de uma insônia terrível. Chegava do trabalho em casa… jantava… conversava com sua mulher, ficava com ela até que dormisse. Depois levantava-se ia para o escritório e escrevia a noite inteira, escrevia à mão, num caderno para que o barulho da máquina de escrever não incomodasse a esposa. Esta, em retribuição, durante o dia datilografava todo o material de Josué. E assim, ele escrever mais de cento e cinqüenta livros!
Se eu tivesse talento, faria como ele, escreveria muitos livros. Na falta de talento, resta-me ler, assistir televisão ou contar carneirinhos. Aliás essa história de contar carneirinhos é o conselho mais vil que se pode dar a uma criança. Adultos são sempre vilões de crianças.
Aproveito o final de semana para colocar a leitura de alguns livros em dia e acompanhar na internet notícias dolorosas como a morte de Zélia Gattai. Não exatamente pela morte porque esse é o futuro de todas as criaturas que se aventuram em viver, mas por contar com menos um artista que me faça surfar na onda das reminiscências.
Gostei tanto de “Um Livro em Fuga” de Edgar Telles Ribeiro que fui em busca de uma outra obra sua, “Olho de Rei”. Mais um livro que se amontoa a outros (esses, entre romances, também de pesquisa sobre trapiches e histórias dos bairros da Saúde, Gamboa, etc. no Rio de Janeiro. Ou seja, os livros continuam se amontoando à minha volta aguardando a leitura ou a releitura ou a pesquisa. Eu continuo em falta com todos eles, como estou em falta na resposta de e.mails e textos rabiscados em guardanapos que deveriam estar publicados aqui e ainda não estão.
Sobre a fragilidade de ser, sentir e demonstrar
Publicado 09/05/2008 Os dias... , Seiva 1 ComentárioCaminhante errante. Sou, somos. Busco o indizível, o sentimento de plenitude como algo aproximado do Nirvana, que, reconheço, não sei o que é. Afasto-me de garrafas deixadas ao relento temendo que uma delas possua um gênio que, por sua formação, me ofereceria a oportunidade de realizar três desejos. E não sei o que pediria (creio mesmo que três seja um exagero de pedidos) Durante a madrugada caminhei em meio a dezenas de enjeitados pela vida que dormiam em folhas de jornais. Vidas que não são, que não reclamam exatamente de seus destinos, certamente mais preocupados com as vozes que assolam suas mentes e espíritos. Por um momento perco-me nessa tentativa de compreender o incompreensível. Melhor: incompreensível para mim que sou um saltimbanco limítrofe diante da finitude da vida. Telefono então para uma amiga querida que perdeu seu pai nesse mesmo dia. Quero me mostrar presente, mas sei muito bem que não estou, não sou e a imperfeição da condolência me faz calar. Deixo-me levar em busca de um lugar à sombra mesmo sabendo que ela é vã. Procuro em mim palavras que façam sentido mesmo consciente que palavras não entorpecem as dores, que palavras são muletas humanas, tentativa mais que imperfeita de expressar sentimentos. Pergunto-me ainda quais são as atitudes corretas a tomar diante de acontecimentos concretos. Não encontro resposta porque não reconheço o concreto mesmo na morte. A morte não é concreta porque ao se consolidar, deixa, ao mesmo tempo de ser, é não ser e não há concretude no vácuo, apenas saudade. Essa mesma saudade é um sentimento quase impossível de se traduzir, a saudade me parece um momento de desorganização absoluta de átomos ou galáxias, quando todos os sentimentos, ao mesmo tempo, rompem o dique do possível e inundam a alma de perplexidade. Sim, insisto em me surpreender à cada instante e, ao mesmo tempo, reconhecer que esse “surpreendimento” é fruto do etéreo desconhecimento característico dos viajantes que peregrinam em busca de algo não se dando conta que a Terra é redonda, com redondos são todos os caminhos.
Uma confusão dos diabos. Confusão tola, dessas que não têm razão de ser, mas ficam ali, perniciosas. Muito difícil fazer pessoas entenderem mudanças radicais, pessoas resistem, insistem num modelo antigo trocando apenas o discurso. Dizeres desnecessários, conversas paralelas. Eu odeio falar, sempre rezo para que as pessoas entendam rapidamente o que estou dizendo. Em alguns momentos da vida, encontro essas pessoas abençoadas, em outros não - e aí me dão uma canseira danada. É gente incapacitada e problemática que by passa etapas, gente que que não tem noção onde está metida (o tamanho da responsabilidade)… uma coisa de “comadres”, mais parece chá de panela… Eu fico olhando aquilo tudo, vendo as pontas todas frouxas, o não entendimento amplo…. enfim…. eu me recuso a administrar pessoas.
Bobagem dizer que nem sempre somos compreendidos. Bobagem mesmo. Somos compreendidos todo o tempo. O que ocorre é que nem sempre somos levados à sério. E acho bom não sermos levados todo o tempo à sério. Porque a vida nem as coisas da vida são tão sérias assim. Nada é tão importante. Existe uma desimportância crônica em todas as coisas, desimportância forte e coerente (que algumas pessoas fingem não perceber). Porque perceber a falta de importância do mundo é negar esse mesmo mundo, é negar tudo o que fazemos e o que deixamos ( com culpa) de fazer. Esses dias, quieto, perguntei-me várias vezes o que fazer, que atitude tomar diante da displicência das coisas. De todas as coisas. Não vejo nada à frente, nada ao redor, nada de nada. O anjo me fala da Grande Mentira Encantada que nos seduz. Ouço como quem escuta o canto do rouxinol, como se desses houvessem por aqui. O grande anjo vem regularmente e fala das coisas, mostra os caminhos através do sono. Sono sempre induzido. Os filmes são todos reprises e os livros… ah, os livros… Vejo a alegria com que K. fala dos livros e fico feliz por ela e não digo nada exatamente para que ela continue descobrindo os sonhos dos livros. Como os sonhos de tudo o mais. Porque temos a idade em que podemos – e devemos – sonhar e vivenciar muito. Tudo! Insisto em me olhar do espelho e lembro-me d’O Inquilino de Polansky. Cartas para lá e para cá. Jornais não impressos, folhas em branco que leio atentamente e que me proporcionam surpresas aqui e ali. Ventiladores de teto eternos. Eternas esperanças em pílulas fracassadas.
Os projetos não são todos deixados de lado, apenas alguns. Essa ideologia de estudar e fazer e propor e provocar incendeia a platéia que poderá estar por aqui no dia seguinte ou não. Na maioria das vezes, os que desistem são os que mais se envolveram com idéias diferentes das suas e não, necessariamente, que discordem delas. Conheço algumas pessoas que discordam sempre de tudo. Tem gente que acha engraçadinho. Eu acho chato. É mais uma das coisas que acho chatas e credito esse sentimento à minha idade, uma uma certa irritação com a futilidade. É bem verdade que não consigo muito bem administrar egos e tentativas tolinhas de desestabilizar alguma coisa quando estou à frente de um projeto. Ou estou em meio a esse projeto, não importa. É preciso realmente um grau de informação grande e de cultura para que nos apeguemos às coisas com o intuito de “desmontá-las”. Não vejo ninguém assim no meu horizonte (o último foi Paulo Francis). Da minha parte, enquanto é possível, mantenho-me num recolhimento que aparenta distração ou inação. Volto-me para livros, para anotações aqui e ali de alguma coisa que me seja útil nesse futuro incerto. Gaston Bachelard, se absorvermos bem suas idéias, trata de algo semelhante (em essência). Não tenho muito o que discutir. Detesto falar. Tenho preguiça. Detesto de me expor e ser questionado. Não porque não tenha convicção do que faço, mas porque perdi a paciência mesmo. Não é com ninguém em particular, é com a humanidade que parece-me (salvo exceções) demasiadamente rasa. De uma certa maneira eu acabo perdendo muito com essas atitudes, visto o afastamento das pessoas que não entendem e percebem uma certa “agressividade não manifestada verbalmente” em mim. Talvez seja isso, mas tudo tem mesmo um preço. Fim de semana com grupo de discussão de literatura. Mais questionamentos, mais gente inquirindo sem estar entendendo o todo.
Todos sabem que a mais terrível arma das ditaduras são os meios de comunicação. Países em que o governo controla jornais, rádios e televisões são ditaduras sem sombra de dúvida. Sem imprensa livre não há democracia, estamos cansados, todos, de saber. Mas como a sociedade reage? Como se posicionam os intelectuais de cada região ameaçada? Que atitudes a classe média toma? E os outros meios de comunicação? Como se dirigem ao povo? Os que têm o poder da escrita e da publicação, da divulgação de idéias… o que fazem? Até mesmo um blog fomenta idéias! O que todos nós estamos fazendo com o poder de divulgação de opiniões que as novas (nem tão novas) tecnologias nos oferecem?
Realmente não tenho audiência. Mentira, os números de visitas são altos, mas os comentários, pífios (em quantidade). Ninguém tem responsabilidade sobre isso, apenas eu. Falo de coisas “incomentáveis“. Trato de sentimentos, experiências e vivências metafísicas e ninguém (com toda a razão quer se meter nessa história complicada e chata)! – Até mesmo minha fiel K. sumiu! De uma certa forma eu estaria ardendo no mármore do inferno se a tiragem fosse essencial. Não é. Estou completamente absorvido no trabalho da construção de um novo modelo de televisão. No futuro poderei ser reconhecido ou galhardamente defenestrado. Por incrível que possa parecer, não me importo muito. Creio que não tenho mais nada a mostrar a ninguém, tenho apenas que realizar as coisas que acredito (o conceito de ‘bem feito’ ou ‘mal feito’ é absolutamente relativo e, de certa forma, me soa irrelevante). Muitas noites em claro, Nenhuma leitura, pouquíssima escrita, apenas uma preocupação estética e de conteúdo com o que produzo. Pode ser o canto da cotovia que Romeo anunciou (ou foi Julieta? Não lembro). Em algum momento estaremos empreendendo o último voo, não é verdade? Pode ser agora e pode não ser (torço para que não seja). Aprendi, depois de bem velho, a gostar da vida. Eu não gostava da vida na minha juventude… Agora, num provável ocaso, gosto. Como sempre digo, eu mudo de opinião rs. Mas nesse momento não são essas coisas que ocupam essa mente claudicante… É a necessidade de colocar no ar um produto digno. Nada mais. Persigo essa proposta febrilmente. Conseguirei ou não. Impossível imaginar agora se conseguirei. Por outro lado, sinto imensa falta dos personagens dos livros que costumo (costumava) ler. Sinto-me mais ou menos órfão. Igualmente sei que as pessoas no meu trabalho ainda não me conhecem nem reconhecem (normal). Imagino que hoje eu esteja num dia “não”, talvez um pouco fragilizado por uma série de coisas. Mas sei que é assim mesmo, “faz parte do meu show”. Cigarros, bules e bules de café. Um tosse seca me persegue e relembro “A Montanha Mágica” de T. M. Claro que sou um ator de quinta que pretende, sem sucesso, provocar lágrimas numa platéia de esqueletos. Bem sei que o momento seria de aposentadoria, de abrir espaço para os meninos de talento que estão aparecendo. Ainda não tenho a resposta exata para continuar em cena, farsa da farsa. Tédio e Náusea. Sei que, no mínimo, não “sou mais o cara”. Sou um insistente, remanescente, sobrevivente. O mundo mudou e eu não acompanhei. Novamente a farsa: sou um “amador” e “fazedor” chorão.
Não ser bem compreendido não é uma especificidade minha. A maioria das pessoas não são compreendidas em sua totalidade e acho isso muito bom. Falar e fazer coisas que o outro não entende à princípio gera o “motor” da discussão (principalmente ideológica). E, sem discussão não há solução. Não me incomoda em nada exercitar a defesa de minhas opiniões e teorias mesmo quando, ao fim, sou “convencido” de que estava errado. Filosoficamente para mim é indiferente se estou certo ou errado porque é isso mesmo, eu sou um aprendiz. Estou na vida para aprender e bem sei que minha luz se apagará muito antes que eu “aprenda tudo” (se isso fosse possível). Ao contrário do Chacrinha, eu não “vim para confundir” e sim para questionar tudo e todos, principalmente a mim mesmo. Agora, se essa ânsia de aprender e, eventualmente, criar “verdades” não é aceita pelas pessoas do meu entorno, aí é outra história (que também não me interessa em nada). Claro que eu desagrado e muito – simplesmente porque penso. Penso, digo e faço. Acertando algumas vezes e, igualmente, errando em outras. Acho curiosa a vida porque é nessa vida que aprendemos e experimentamos muito embora depois voltemos ao pó. Ou seja: independentemente de se ” a terra me será pesada” ou não, serei um adubo que leu três livros e viu três filmes. Talvez o adubo ao meu lado não tenha passado por essa experiência. Mas, afinal, algum espermatozóide precisava ganhar a corrida, não é verdade? Já repeti aqui milhares de vezes que escrevo o script do meu personagem no palco da vida - que se mistura com o meu EU – e, igualmente, reescrevo esse mesmo roteiro – ou um outro completamente diverso – quantas vezes achar necessárias. E será assim até o final do meu tempo. Sucesso, fracasso, sorte, azar? Simples parte do jogo. Não escolhi especificamente esse jogo – ele é uma espécie de herança que recebi. Então eu jogo. Louco, certo, inseguro, errado, excêntrico ou lá o adjetivo que me preguem às costas… Fazer o quê? Talvez eu seja tudo isso e talvez não. Quem sabe sou apenas uma parte disso? Realmente eu não sei. Mudo de opinião? Mudo. Invento histórias para mim mesmo? Invento. Desisto dessas histórias de vez em quando e reescrevo outras? Sim! Com toda a certeza. Como diz o Lobão, não sou “assepticamente correto”. Nem quero ser e detesto quem é. Idolatro pessoas e desprezo outras. Gosto de macarrão e detesto verduras. E daí? Sim, é verdade que não creio em homeopatia e acredito em alopatia. Sou ateu, mas continuarei sendo nas dores lancinantes, cruciantes do câncer? Talvez sim, talvez não. No fundo eu acho que não existo, eu aconteço.
Massacrado pelos meus recém 53 anos dou uma volta pelas ruelas. Aquele mendigo intelectual que escreve sobre um livro já impresso está de volta (Já relatei meu encontro com ele). Sento-me a seu lado. Ele me explica que está fazendo correções no livro, que o autor era muito “desligado”. Contei a ele que eu também faço isso, também remendo histórias contadas por outros e edito filmes com o sentido de torná-los mais ágeis. O mendigo diz então que eu sou igual a ele e concordo. Como ele não me parece sujo, trago-o à minha casa (para surpresa do porteiro) e conversamos tomando Coca Cola. Ele é muito mais consciente do que eu imaginava. Me conta coisas da sua infância em Vitória do Espírito Santo, em como a vida era difícil, a pobreza absoluta e um ambiente familiar desagregado. Fugiu no início da adolescência e trabalhou em pequenos ofícios informais até que as vozes o dominaram de vez. Essas vozes, conta ele, vinham desde a infância, mas ninguém dava atenção. Agora, com sua barba esbranquiçada ele “administra ” as vozes, mas nem sempre foi assim. Conta ainda que esteve preso em hospitais durante anos e levou muitos “choques” para ver se melhorava. Não melhorou. Começou a ler romances no hospital e as vozes vinham e davam idéias sobre personagens que não estavam contemplados e sobre finais de histórias pífios. Então, prossegue, resolveu escrever à caneta por cima do material impresso suas observações, a retirar alguns e acrescentar outros personagens.
Preparei sanduíches para nós dois. Ele permitiu que eu lesse algumas coisas, fragmentos do que ele estava lendo com suas anotações. Não, ele não escreve nas bordas nem em pés de página, escreve tranquilamente por cima do que está escrito, certo de que não há nenhuma agressão nesse ato. Ao contrário: o autor havia de lhe ser grato. Ele tinha uma velha edição vagabunda de “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”. Confesso que achei as observações dele pertinentes e interessantes, mas não disse nada antes que ele tentasse me convencer a morar na rua e “reescrever” romances como ele. Ficou mais um pouco, perguntou se eu tinha cachaça em casa e, ante a negativa, resolveu partir para tomar uma “branquinha por aí”. Eram sete horas da noite. Resolvi então continuar minha leitura de Molloy (atrasada, eu sei) e, de repente me percebi com uma caneta na mão, prestes a fazer anotações no livro. Passado o susto, guardei a caneta. Não, ainda me falta ouvir as vozes.
Algumas pessoas não entendem bem as modificações que a vida impõe (sejam para pior ou para melhor). Rola preconceito, não aceitação de novas propostas – mesmo que sejam para despertar nossa agilidade intelectual. É preconceito mesmo, puro, da gema. É uma pré-antipatia, uma reação anterior ao fato, anterior mesmo à idéia ou proposta que virão. Tenho vivenciado muito essa experiência o que, confesso, causa um certo enfado porque você explica uma, duas vezes e a resistência continua, aumenta. Isso faz pensar um pouco no longínquo (nem tanto) período em que as máquinas de escrever foram, gradulmanete, trocadas pelo computador. Lembro-me de situações patéticas e outras engraçadas de pessoas que entravam em desespero porque iriam separar-se de suas máquinas. Essas mesmas pessoas hoje não vivem sem o computador. E comprovo que tudo continua igual, pessoas, antes de qualquer coisa, reagentes. Talvez na minha idade eu devesse estar assim, com medo, mas ainda não estou, ainda estou procurando um pouco de luz, de lucidez… uma certa abertura para apostar, ainda que depois eu mude de idéia.
A expectativa exagerada pode alterar o julgamento de uma obra. Ou seja: não se faz uma obra-prima todos os dias. A difícil tarefa de compor uma grade de programação diária num veículo veloz como a televisão expõe-nos à toda a sorte de agruras, de pequenos fracassos, de um sentimento constante de auto-crítica. Acho que é necessário ter em mente que televisão não é teatro nem cinema, em que os tempos são outros, que a exigência de metas cumpridas é completamente distinda de outros veículos. De uma certa forma, faz-se cinema na televisão (no sentido do audiovisual) sem as prerrogativas autorais, sem a pré produção do produto cinematográfico. Televisão é informação, provocação, é mexer com o indivíduo tornando-o parte ativa do processo e o produtor tem muito pouco tempo para elaborar tudo isso e agregar qualidade. Mas não se pode realizar nada sem qualidade e esse é o desafio de quem se aventura nesse meio.
Eu desisto de ler jornais (já sei que diariamente afirmo a mesma coisa e, no dia seguinte volto atrás). É violência demais é (falta de) política demais, tudo muito over. Talvez de uma forma egoísta retorno ao meu mundinho, busco na minha insegurança um caminho a trilhar, uma marca a deixar, uma expectativa para os outros e para mim mesmo. Faço uma pausa nas atividades rotineiras e permito-me responder aos e.mais acumulados. Muita gente dizendo que não tenho sido objetivo (o que é uma verdade) e a todos respondo que apenas uma parte de mim escreve aqui, pelo menos, no momento. Concordo ainda que me deixei contaminar demais nas questões de trabalho e ando alheio a tudo o mais. Entretanto, no momento, é necessário.
Nesse domingo tirei um tempo pela manhã para me reunir com meus meninos do grupo de discussão literária. Reclamaram da minha ausência mas não claudicaram. Estão seguindo em frente com os trabalhos e leituras propostas anteriormente. Isso é muito bom. Adoro ver pessoas caminhando por si sós, sem aguardarem uma sinal de aprovação ou desaprovação. Não me surpreendi ao ver que o trabalho deles está caminhando “à todo pano” sem minhas interferências pontuais. Fazem, nesse estágio, uma série de comparações entre Mário de Andrade e Gilberto Freyre. Pode parecer estranho porque são vertentes diversas, mas os meninos estão seguindo um caminho interessante, por vezes metafísico. Essas “pontes” me agradam muito, acho que estimulam a todos. São propostas que eles bravamente “compraram” e dão conta de forma surpreendente. Hoje propus que eles escrevam aqui, neste espaço, suas visões das nossas experiências passadas, das nossas discussões proveitosas. À conferir.
Eu piloto uma “naveloca” ou nave enlouquecida que, nem sempre é percebida pelos canhestros (aliás não me interessa ser percebido por eles). Isso revela um não entendimento do movimento antropofágico nem os desdosbramentos posteriores, até os Parangolés de Oiticica. A impressão que fica é que há duas gerações absorveu-se apenas a MPB e o Tropicalismo – que não se percebeu o “antes” para caminharmos no “pós”. Ou seja, temos uma geração predominantemente de viúvas do que foi ( e ainda é), mas sem uma proposta revolucionária no bom sentido. Ou seja: há uma lacuna, um silêncio intelectual assustador. O que está acontecendo, por que as pessoas não mostram a cara e o que pensam (se pensam)? O que acontece? Parou tudo? Vamos ter um hiato, um período de trevas? Ora, se o governo não interfere, se a Igreja está quieta, se a ditadura acabou (faz tempo)… o que falta? A criatividade só brota na opressão? Não é possível! Para onde está caminhando a literatura e o audiovisual, por exemplo? o BBB é o final de tudo??? Se for…. triste fim! Está chegando uma nova geração, a geração Google que não conhece nada, que tem informações esparsas, fragmentadas e, muitas vezes equivocadas e mesmo erradas. O que esperamos desses milhares de jovens com 22 anos que as faculdades formam e que, na maioria, são umas bestas? Qual a nossa responsabilidade nessa história? Qual o nosso papel? Que a educação formal é uma merda está claro, ok. Sim, e daí? Esses meninos (na maioria) despreparados vão fazer o quê quando, nós, mais velhos, estivermos mortos? Quem lê James Joyce, Florbela Espanca e Mário de Andrade? Onde estão as referências? São milhares de jovens “despejados” no mercado de trabalho que não conhecem nada. É razoável nossa geração (mais velha) não acrescentar, não propor nem estimular nada? Qual é o nosso papel?
Os balões de ensaio e os balões definitivamente dirigíveis
Publicado 13/03/2008 Os dias... 2 ComentáriosExistem propostas interessantes. Outras não. Nem sempre minhas propostas são interessantes e eu mesmo as aborto. As mudanças de rumo, as equipes que se revezam que entram e saem da minha vida terminam por ser um experiência importante apesar de encontrar gente que me aceite e não aceite. Com certeza devo ser também uma pedra no sapato de alguém. Não se pode aglutinar apenas qualidades (ver Unamuno) e, tampouco, somente defeitos. Projetos novos (grandes ou pequenos demandam suor porque, como todo mundo sabe, arte é noventa por cento de suor e dez de criação – ou talvez 20% de criação o que tornaria um improvável 110%. Mas isso não me interessa. Minha única meta (nessa área) na vida é produzir produtos informativos, leves, entretenimento sem baixaria. Às vezes temos essas oportunidades, mas nem sempre. Sim, porque transmitir informação e cultura não depende exclusivamente de cada um e sim de um conjunto de circunstâncias que permitam que os projetos se desenvolvam. Não adianta ter várias gavetas cheias de idéias sem realização. Existe demanda, existe necessidade de criar situações e produtos porque existe público ávido de coisas sérias e bem feitas. (continua)
Noites insones. Red Bull na veia (direita). Um caldeirão em ebulição, estou próximo a isso e, ao mesmo tempo tranqüilo. Ainda encontro tempo (imaginem!) para ler Oswald de Andrade e Beckett. Sim, reconheço que faço tudo isso aos pedaços, meio esquizofrenicamente. (Só não sei quem não tem um lado esquizofrênico!). Hoje, na rua descobri que tinha vestido a camisa do lado do avesso e só fui consertar esse lance muitas horas depois. As pessoas à minha voltam andam desesperadas, andam jogando contra, torcendo para que novos projetos e idéias não se realizem. Não consigo entender porquê a resistência ao novo (não, não votei no Lula, mas a maioria do povo votou!). Sinto-me impedido de parar num barzinho e tomar um chope relaxante porque a turma do contra me cerca. Então, adoto a posição de não parar mais em nenhum lugar perto dos “negativistas”. Mas é claro que eu posso estar entrando numa canoa furada, é claro que estou sendo avaliado, mas estou avaliando também. A diferença entre isso é que eu não sou traíra, eu aposto numa proposta e vou fundo, pago pra ver (ainda que no fim eu seja queimado). A Tv Pública, TV Brasil, foi aprovada no Senado. Fato. Hoje, mais do que nunca, morreu definitivamente a TVE. Esse detalhe pra mim é absolutamente irrelevante porque não vivo de siglas nem de passado, quero propostas novas, quero desafios grandes (ainda que eu não consiga realizar). Gosto do desafio, gosto da confiança que pessoas que, praticamente sem me conhecer, depositam em mim. Pode mudar amanhã? Claro que pode! Tudo pode mudar amanhã, inclusive o fato de estar vivo. Só não agüento estar num bar onde as viúvas insistem em resistir às novas propostas e macabramente torcem pelo fracasso. Tô fora!

Disseram