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Revista Brasil

Falta ao brasileiro o conceito, a sensação de brasilidade. Ser brasileiro, de certa forma, é ser especial, melhor em umas coisas, pior em outras, mas a média é excelente. O que não existe ainda é um meio de comunicação que integre os “Brasis”, que mostre a realidade, o lado ‘abandonado’ pela mídia, um monte de gente, de agrupamentos, de associações que fazem muito, às vezes até mais que os governos. Nada disso é mostrado. Pois é nessa mistura cadenciada, nessa miscigenação belíssima (e malemolente) que estou envolvido para o próximo produto da TV Brasil, A Revista Brasil. Nós queremos gente do país inteiro escrevendo, mandando idéias, gravando com aparelhos celulares ou o que for… podem ser cartas mandadas pelo Correio, podem ser comentários num blog que em breve estará no ar… Queremos o seringueiro, o pescador e sua jangada, o herói dos Pampas, o homem da britadeira, o cientista e o intelectual… TODOS envolvidos num projeto ousado, numa Revista não recheada de efeitos especiais, mas num canal público de informação franca e de interatividade absoluta.

Se menor deveria ser cult

Em duas caixas de sapatos, guardei ontem toda a papelada que venho juntando há anos. Ou melhor: toda não, mas as coisas que me interessavam. Surpreso, entendi que minha vida se resume a duas caixas e meu corpo cremado se resumirá a uma pequena urna. Isso absolutamente – jamais! - me deprimiu, ao contrário, percebi que podemos fazer muito em pouquíssimo espaço. Por essa visão a humanidade é perfeita porque só é “espaçosa” se assim desejarem egos enormes. Muita coisa pode estar num rolo de filme, num livro, numa fita de vídeo tape, numa pequena escultura. Células e átomos nos demonstram isso diariamente e não nos damos conta. Mas é isso. O mundo é pequeno, as pessoas são pequenas (ou deveriam) ser e, se houvesse realmente vontade política dos governantes, não existiria tamanha distância entre as classes. Os homens é que são naturalmente cruéis.

Miscelânias novamente (talvez eternamente)

Dia desses me perguntaram por que “Pós Sobretudo de Lona”, se eu era outro depois de “um outro” Sobretudo de Lona. NÃO. Sou eu mesmo. Creio que o Sobretudo nasceu em 2000 ou 2001, não tenho certeza. Quando não estava trabalhando, eu vagava pelas madrugadas urbanas (ou não) com uma enorme motocicleta negra. Nesse período vi e vivi muitas coisas. Procurei narrar tudo ou quase tudo. O tempo passou e mudou. Eu fui envelhecendo e, igualmente, mudando. Experimentei fazer uns outros blogs com nomes diversos (alguns estão ativos) e, apesar de me reescrever e me redesenhar acabei percebendo que algumas coisas ficam, são atávicas e não deixei o espírito do Sobretudo. Por isso, sete anos depois (uma vida!) percebi que, se por um lado eu não era mais aquele, por outro, era. Então eu sou um pós eu. E como o tempo (e a vida) mudam mais rapidamente agora, quem sabe uma hora eu não serei o Pós-Pós Sobretudo? Não sei e não quero nem pensar nisso por enquanto. Bom, aí está a resposta – espero que tenha sido clara.

Por outro lado, sei que não tenho escrito legal, que as coisas vêm meio como desabafo, de forma não linear e as pessoas não entendem muito o que estou ou do que estou falando. SEI DISSO. Talvez uma hora eu tenha tempo de contar essas histórias que estou vivenciando de forma compreensível. Talvez também não tenha esse tempo. Dia desses um amigo comentou neste espaço que os textos de K são fluidos, dão para ler enquanto os meus são densos e exigem muita concentração do leitor. Sinceramente não creio que seja isso, simplesmente Kastor escreve melhor do que eu. Quando sento aqui e escrevo, não tenho a capacidade de narrar, de ser linear, de ser uma leitura agradável. Minha cabeça pula de um lado para o outro, os pensamentos e sentimentos se misturam, os espíritos guerreiam e a vida – como já disse – não é uma só… Ainda talvez o embasamento filosófico (se existe algum) se embaralhe porque eu me embaralho comigo, tenho, muitas vezes, a impressão de que sou um monstro com um corpo e várias cabeças que, evidentemente, não se entendem. Lógico. Juro que tento ordenar as coisas, mas confesso minha incapacidade (quem sabe, momentânea). Igualmente ocorre com minhas incursões na literatura e, quando me dou contra, estou lendo quatro livros ao mesmo tempo e seus conteúdos também me invadem já misturados. Não tenho pastas nem gavetas na alma, tudo me cai num enorme saco de gatos ou num poço sem fim (que eu perceba). Coisas da vida, coisas de quem, irracionalmente, inventou de ter, simultaneamente, muitas vidas, muitos eus. Portanto, meus amigos não devem se preocupar com o conteúdo, devo ser leitura breve e barata. Almanaque vagabundo de farmácia de cidade do interior (para quem ainda lembra que existiam esses almanaques).

Ainda não contei, mas adoro livros policiais, de mistérios e etc. Adoro literatura barata, quando não tenho que prestar muita atenção nem me concentrar demais. Adoro igualmente não fazer nada, olhar para tetos e paredes e deixar que as coisas me venham e, se não vierem, que eu possa inventar uma história qualquer, uma coisa rascunhada em guardanapo de bar enquanto tomo uma cerveja. Adoro saber que meus amigos e queridos estão bem e aos meus inimigos, as batatas. Me satisfaço igualmente jogando conversa fora no MSN ou revendo aquelas séries antigas como Os Monstros e tal. Sabe? Já repeti que sou espartano, que adoro miojo, que me interessam os azulejos do chão da minha casa, que observo as janelas do hotel em frente e fico pensando no que estará acontecendo naqueles apartamentos, que pessoas estarão por trás das cortinas, porquê se hospedaram ali e tal. Sorrio das pessoas não saberem o que sou, quem sou nem como tudo levou à esse personagem de si mesmo (que muda constantemente) que vos fala.

Queria saber escrever sonetos – isso me frustra um pouco, mas faz parte do jogo de sonhos versus realizações. Acho que é isso…

Vai passar

Surpresas

Observo o céu. Curiosamente, vejo dois fiapos de nuvens que correm certas e retas de um lado ao outro. Paralelos. Como se tivessem passado dois aviões da esquadrilha da fumaça. Aliás, nem os tais aviões e suas fumaças teriam sido tão perfeitamente milimétricos. A natureza apronta cada uma…

Omissão no blog

É muito curiosa a relação entre a vinda de pessoas ao nossos espaços e a dos estados que passamos ali. Uma pessoa, por exemplo, vem aqui lê, lê e lê. Dessa leitura ela apreende alguma coisa, tira conclusões e acaba por me traçar um perfil. Certo? Errado. Escrevemos de duas maneiras: pensando em publicar e com a certeza de que não vamos publicar. Se não mudamos de idéia, aquilo que escrevemos para não ser publicado não corre o menor risco (ou quase nenhum) de ser lido por outras pessoas e, portanto, interpretado.

Já o que escrevemos pretendendo publicar - por mais que não tenhamos essa idéia no ato – sofre uma espécie de auto censura. Só escrevemos o que temos argumentação para discussão (por mais tola que seja). Então na verdade, não escremos sinceramente nos sites nem nos blogues. Escrevemos aquilo que achamos conveniente os outros lerem. E o que achamos conveniente dar a saber ao outro, muito poucas vezes é totalmente verdadeiro. Então essa escrita aqui que eu chamo de mais ou menos memorialista pode não perder esse apelido, mas não é despojada de qualquer falta de sinceridade, isso não. E somos todos assim? Todos. É bem verdade que existe gente que além de omitir, inventa coisas, títulos, cursos, inventa que já morreu, inventa que é um galã de cinema e tudo o mais. Aqui as pessoas inventam tudo porque dão asas às suas fantasias, porque precisam de avatares, precisam criar personalidades sonhadas e jamais alcançadas (e que jamais serão). Por que, afinal, quem é poeta ou escritor nesse grupo? Quem publicou um livro ou dois, desses de editores medíocres que a gente paga para editar? Isso é ser escritor. Tem um blogues que eu entro e a primeira coisa que encontro no topo da página é com o livro do autor. Ora, ora, minha senhora.

Terapias, Afrodites, Megs e províncias

A insônia matutina não me incomoda. Gosto de acordar cedo porque é justamente durante a manhã que consigo tornar meu dia mais produtivo. Acho que a noite me oprime um pouco, eu fico meio sem ação. Despertar antes do dia clarear me deixa bem disposto, sinto mais vontade de ler e escrever, por exemplo. E isso é bom na minha vida que de ordeira e rotineira não tem nada. Porque, muitas vezes, não nos damos conta que cada dia é uma vida diferente, é pontual na medida em que acordamos e vamos dormir. É isso. Quando vou dormir é exatamente como se estivesse morrendo, quando as coisas se encerram, quando saio de mim. Quando acordo é como estar nascendo adulto e um mundo de coisas, oportunidades e opções me são oferecidos. É durante o dia que temos que lidar com os outros e, muitas vezes, perceber mais uma vez que a vida imita a arte que não escrevo sobre o comportamento das pessoas, por exemplo, e sim que as pessoas se comportam da maneira que escrevo. Muito engraçado isso, né? Quer dizer: eu descrevo situações muitas vezes irreais ou utópicas e algumas pessoas passam a vivenciar daquela maneira (e o louco sou eu! rs) Essa e outras, são coisas que observo durante os dias. Idéias (realizáveis ou não) me ocorrem muito mais durante o dia e lembranças também. Lembro por exemplo que recebi um convite para participar de uma espécie de oficina, aula (ou coisa do gênero), promovido por dois ou três blogs. A proposta era você escrever determinadas coisas e aquilo entrar numa espécie de ciranda que seria revista, receberia opiniões, algo tipo aulas e alguma análise. Isso feito por pessoas sem a menor formação nem a menor capacitação profissional para tanto – e você ainda tinha que pagar um bom dinheiro pelo “curso”. Claro que eu não caí nessa arapuca e ainda avisei por e.mail a todos os meus amigos que não entrassem, que era furada, golpe, mas, ainda assim alguns entraram e quebraram a cara. Essas coisas são rapidamente esquecidas na vida e as pessoas continuam circulando por aí, impunes, como se não tivessem feito nada, como se fossem apenas “amigas” da turma. Ah, ah! Que turma, cara pálida? São resquícios, filhotes da Meg (lembram que ela morreu e agora tá aí, escrevendo tranqüilamente? Pois é, tá aí cheia de fanzocas idiotas que “esqueceram” que ela um dia disse que morreu. No meio dos blogues, parece que as pessoas têm uma memória mais curta, que não lembram do passado recente. E olhe que estou falando de três blogues chinfrins, jekinhas, desses que não valem nada, que não merecem que a gente perca dez segundos lendo umas linhas. Mas não, as pessoas estão lá. Fico só esperando para ver qual vai ser a próxima arapuca que vão inventar. Porque a picaretagem deixa um gostinho de ‘quero mais’ na boca.

Tudo isso acontece de dia porque, por suas características escuras, meio secretas e estranhas, a net precisa do dia, é invisível à noite. Precisa da interatividade, das pessoas acordadas, ela, em si, já é um sonho sonhado de olhos abertos, o monitor é uma caixa preta caleidoscópica, viciante como o ópio (cujas casas funcionam de dia). Sei que tem gente que deseja ardentemente que eu morra ou qualquer outra coisa assim, desde que meu blog desapareça e a esses eu recomendo calma porque uma hora, como tudo, evidentemente, meu blog irá desaparecer. Por outro lado, não deviam dar atenção ao que escrevo aqui, Para quê? Bobagem! Quem sabe não é tudo fantasia minha? Quem sabe nunca aconteceu da Meg dizer que morreu e nunca houve o conluio de dois blogues para dar um golpe nos desatentos? Pode muito bem ser tudo fantasia minha. Pode ser que as pessoas não mudem de comportamento e ajam como eu falo aqui, pode ser tudo um enorme e delicioso delírio. Uma coisa é certa: embora todas, no fundo tenham restrições a todas, tratam-se como amigas e, se lerem estas linhas, os MSNs vão fumegar, vão perder preciosos minutos de suas vidinhas vazias metendo o malho nesse humilde escriba. Até quem pagou e caiu no golpe das ’senhoras de respeito’ ficará com raiva de mim porque estou dizendo que caíram numa arapuca. Eu, como o personagem de Lima Barreto, pretendo dar aulas de javanês via internet. Aguardem abrirem as inscrições.

Homem-Polaroide

Depois de muito folhear Casa Grande & Senzala concluo que gosto de aprisionar instantes como se eu fosse um homem-polaroide. Afasto-me do digital, vou a Apicucos e grossas lágrimas borram a tinta de minhas anotações no caderno costurado e de capa dura. Mas nada, é apenas o demônio que trago aprisionado em mim, esse coisa ruim chifrudo e com patas de bode. Ou o bode sou eu?

Carta a K (II)

Minha menina

Coisas muito interessantes estão acontecendo. Não posso ter certeza de todas, mas de algumas sim. Coisas que conversamos ontem e que foram intermediadas por outras pessoas, igualmente. O dia hoje nasce diferente, sob um signo estranho como se eu estivesse no País de Alice. Quem ontem era meu amigo hoje me vira o rosto e quem ontem era meu inimigo, continua chato, pentelho (rs). Ou seja: as máscaras (como sempre) começam a cair. Os covis estão fervilhando, parece que existe uma alegria repentina, uma ‘verdadeira tomada de posição’. Mas o que me impressiona mais é exatamente nada disso me impressionar. Parece que meu distanciamento do homem como modelo de retidão está me servindo agora de proteção contra sustos, contra decepções. Se há uma coisa nessa história toda que me deixa tranqüilo e mesmo feliz é exatamente não estar me surpreendendo nem me chocando com nada. Vai para minha galeria de aprendizagens: as pessoas nem sempre são o que dizem nem o que tentam parecer. De qualquer forma, as coisas podem demorar um pouquinho, mas aparecem. E mais: não sinto raiva também. Não sinto nada…. talvez um pouco de pena, mas não por mim. Observo o tabuleiro e vejo que houve uma rearrumação completa: não ficou pedra sobre pedra e eu não precisei mover um dedo, o que corrobora minha impressão ferrenha de que a vida imita a arte. Os personagens surpreendem o leitor distraído. E mais: pretendo continuar sendo distraído, cuidando apenas para não ser leviano. Entrei num local, veja você, que me pareceu com alguns versos do limbo (rs), do Purgatório, de Dante. Veja bem a sensibilidade da coisa: do Purgatório e não do Inferno. Nesses versos observe-se que as pessoas não sofrem nem se arrependem. Ao contrário, festejam como quem está num paraíso infernal. Sei que você me entende. Elas é que não entendem.

Ah, uma amiga me procurou para falar daquele post-baixaria. O nome do rato, Pedro Leitão, (ou porco), corre como rastilho na internet: fim de mistério! (rs) Essa amiga ficou chocada, disse que nunca viu tanta babaquice na vida dela e acabamos rindo muito. É como na cruxificação de Cristo: hilário é o mau ladrão. Observo essa coisa toda com o olhar profissional de quem examina um roteiro, um script. E, mais uma vez, percebo melhor o ditado que diz: ‘Deus não dá asas a cobras’.

Bom, assunto momentaneamente morto e enterrado. Continuo a leitura frenética daquele livro, embora tenha que fazer pausas por causa de Mário de Andrade e meu compromisso com meus meninos, como os chamo carinhosamente. Minha vista anda cansada de ler e tenho que voltar ao oftalmologista em breve. Não sei não, mas Borges dizia que a cegueira, sob um ponto de vista, era benéfica por dos dispensar de ler asneiras rs. Talvez ele tivesse mesmo razão. Encontrei um livro muito antigo de crônicas de Nelson Rodrigues (A cabra vadia). Esses livros continuam brincando de se esconderem de mim. (Só agora entendo porque se diz que pérolas atrem porcos. Acaba de chegar um comentário em nossas cartas e, munido de Detefon, vou até ali deletá-lo).

Beijos

As bobagens

Quando me dou ao trabalho de ler blogues e, pior, ler comentários de blogues fico arrepiado. Nos comentários encontro o que há de pior, o que há de subnitrato daquilo que poderia ser. O que acontece é que se joga fora, se destrói por ignorância a possibilidade moderna de interagir. Não interagem nada! Deixam opiniões, criam fóruns de discussão, tudo da pior qualidade, próprio de jekas ignorantões. Melhor não ter o sistema de comentários ativado. Mas as pessoas não se contentam e vão adiante, escrevem em seus próprios espaços “análises” patéticas do que leram aqui e ali e as pessoas, submissas e amedrontadas, terminam por ‘agradecer aquele texto’, acabam por sorrir a quem lhes enfia a faca por medo de uma outra carga maior e mais agressiva.

Acho tudo isso uma tolice ignara. Pouco me importa como me retratam em seus espaços, bem sei que necessitam tão somente de aplausos, de impor um certo medo. Mas por que o temor pela ignara? Não cabe! Se uma pessoa não tem um pensamento sequer, uma só teoria e precisa borboletear (sim, são libélulas cabeludas, disfarçadas) de blog em blog para encontrar assunto, para fazer chiste e caricatura do enfocado… Ora, o que há com essas pessoas? Façamos uma experiência: dê a esse ’simpático gozador’ uma caneta e folhas de papel e mande que ele escreva um texto interessante. O que acontecerá? Ora, uma pessoa ou outra que só consegue escrever diante da interatividade, diante do escrito pelos outros não escreve, derrapa. E, se não escreve, por que escreve aqui? Por que nos importuna? É hora das pessoas serem um pouco mais atentas, resguardarem um pouco mais seus espaços, pararem de fingir que se sentem homenageadas com o chiste barato, pobre, sem tino…

Espermatozóide azarão

Eu queria dizer muita coisa e não falo nada. Sempre que me preparo para dizer algo, me vem à cabeça as 1001 possibilidades de não ser entendido ou ser mal compreendido. Aí eu prefiro não falar porque detesto depois ter que ficar explicando tatibitati o que eu disse. Por outro lado, quando escrevo, parto do pressuposto que estarei sendo entendido (ainda que as pessoas discordem de mim, normal). E ainda tem mais: os meus amigos discordam de mim de uma maneira bacana, bem humorada (o que me estimula a falar mais, mandar e.mails, etc.), mas tem uma turma que puta que o pariu! Ô gente chata! O que é um chato? Chato é aquele que não gosta de você, não gosta do que você escreve, mas vem te visitar sempre, várias vezes ao dia em busca de um erro, de uma expressão equivocada, de uma palavra que possa ter duplo sentido pra te dar uma porrada na cabeça. Não era mais fácil, simplismente, não vir aqui? Não, não era ou não seria o protótipo do chato… aliás chato é aquele bichinho que gruda em pelos pubianos? Deve ser. Chato coça. Chato pode trabalhar 18 horas por dia porque sempre tem tempo demais pra chatear o outro. Chato é um espermatozóide azarão que ganhou na mega sena.

Piauí

Há tempos uma amiga (grande amiga e toda especial) me disse que sim!, ainda havia vida inteligente na Terra e que eu podia comprovar isso lendo a revista Piauí. Eu registrei, mas não fiz nada, não comprei, não me dei conta, o tempo passou e eu quase esqueci.

Agora, passados uns tempos, outra enormíssima amiga me falou de uma entrevista na revista Piauí e acabei cedendo e comprando a revista. A primeira amiga citada estava coberta de razão. É uma revsta bem escrita, inteligente e com design mais que chic. Ou seja: burro, eu perdi tempo e agora recuperei. Ando atracado com a revista lendo e relendo seus artigos. Passo a mão para perceber melhor a deliciosa textura do papel. Comprarei todas, inclusive os números atrasados. E que me sirva de lição que os toques que os amigos nos dão devem ser absorvidos mais rapidamente.

O que eu realmente quis dizer

Eu ia deletar o post abaixo porque escrevi unicamente para duas mulheres e, sem querer, generalizei causando um mais do que justo mal estar e permitindo uma interpretação errada. Mas não vou deletar para não perder os comentários. Assim, reescrevo o pensamento com mais tranqüilidade e menos açodamento:

calma – calma – calma – calma

“Tenho 52 anos de idade. Já me chamam de ‘senhor’ em todos os lugares. A velhice bate, sorrateira, à minha porta e eu a deixo entrar e tomar todos os cômodos. Se me perguntassem se eu gostaria de voltar aos 30 anos, seria categórico: não. A vida tem seu tempo e eu, ‘confesso que vivi’. Entretanto, nos últimos doze meses tive umas experiências insólitas que me deixaram meio assim. Conheci duas mulheres, uma beirando os 50 e a outra com 50. Mulheres carentes, solitárias e, pasmem, desesperadas. Mulheres de relacionamentos desfeitos e, temerosas com o avanço da idade, pularam no meu pescoço, entendendo que eu seria um ‘par’ ideal. Não sou e fiz ver às duas, com educação, que não seria ideal, que meu momento é de estar só, de estar voltado antes de tudo para mim. Normal, não é? Pois as duas (uma meio cultinha e outra analfabeta) se desesperaram e, diante da minha negativa, foram profundamente agressivas. Tomaram ódio por mim e passaram às ofensas. Um dia dou o nome das duas. Mas isso não vem ao caso agora. O que eu penso é que, quando vamos passando dos 45 anos não devemos nos desesperar, que podemos estar no melhor momento de nossas vidas. Que a história  das rugas e, eventualmente, da morrinha só se instalam mesmo na terceira idade, lá pelos 80 anos. E tem mais: isso não é uma característica de mulheres. Homens, igualmente, ao verem a idade se aproximando desesperam-se e buscam um certo elixir da juventude procurando ninfetas. E tudo isso para quê? Medo, pavor, de quê? Acho que todos os momentos da nossa vida, todas as idades podem ser boas e prazerosas, cada uma delas com suas características.

Portanto, amigas, acalmem-se. Se eu não fui um bom partido  outros virão. Evitem apenas o desvio de caráter pois esse não é aceito nem numa menina de 14 anos. 

Cultura: São paulo X Rio

A leitura continuada de Oswald de Andrade revela muitas coisas a um olhar curioso. Principalmente a fragilidade cultural de São Paulo frenre ao Rio de Janeiro, apesar da Semana de Arte Moderna em 22 em SP (Com Mário de Andrade). Não é exatamente bairrismo, mas a constatação de quem era realmente a capital cultural do país. E a verdade é que SP não tem nada a mais do que o Rio (a não ser dinheiro). E realmente, com dinheiro traz-se tudo, produz-se tudo. Mas insisto em dizer que a capital cultural é o Rio. É bem verdade que nossos intelectuais vão muito à São Paulo, estréiam peças de teatro lá, lançam livros e filmes lá. Sem dúvida é lá que está o dinheiro.

Se eu fosse prefeito ou governador de São Paulo, faria ofertas irrecusáveis e colocoria toda a inteligência brasileira lá. O que o paulista mediano não percebe é que o intelectual vai lá para dar o grande salto, que ele não é realmente de lá. Enfim, devem existir políticas nesse sentido e não vou aqui, reinventar a roda. Mas é complicado entender a Semana de Arte Moderna em 22 em São Paulo e não no Rio. Existe um desencontro de idéias e de políticas culturais nos dois Estados.

Grande Otelo

Biografia de Grande Otelo escrita por Sérgio Cabral (Editora 34 – 2007). Muito material interessante. Coisas que não conhecemos de Otelo, coisas que conhecemos, painél dos anos dourados do Rio de Janeiro, do Cassino da Urca, etc.

Esse tipo de leitura não “erudita” interessa para entender como se manifestou o Rio como capital Cultural do Brasil. E nesse panorama, assim como Oscarito, Grande Otelo contribuiu enormemente para o condicionamento exportador de cultura bem como da importância do artista negro no Brasil e iniciando um processo contra o racismo.

Imagino que conhecer o movimento artístico do início e meados do século passado nos faz optar por uma releitura do que acontece hoje em dia. Eu, por exemplo, acho que existe uma “desmontagem” da produção cultural. Não vejo nada de novo nem interessante o bastante para pensar em novos avanços, num processo de riqueza intelectual.

De uma certa forma, acho a internet responsável pelo esvaziamento de uma cultura ’séria’, de um engajamento das pessoas buscando, através da História, recriarem ou criarem novamente uma espécie do que eu chamaria de uma nova vanguarda. Não manusear enciclopédias e dicionários, trocar a leitura de livros fundamentais pela leitura de blogues vagabundos… enfim. Se pensarmos um pouco, é uma questão de tempo: não podemos ler um livro de valor e um blog ao mesmo tempo.   É importante escolher no quê vamos investir nosso tempo. Realmente a internet interessa na medida que fornece rapidamente informação e conteúdo, que disponibiliza produtos específicos… a questão é compreender e aprender a lidar com essa ferramenta, desprezando tudo o que é tolo, irrelevante, doente ou descartável em prol do que nos é verdadeiramente útil.

Trabalhei com Grande Otelo na Peça Lola Moreno (Lucélia Santos e Nei Latorraca – Teatro Ginástico, RJ). Otelo, que trabalhou com toda a minha família, era muito carinhoso comigo, me ensinou muita, mas muita coisa e, diariamente, ao final do espetáculo me dava uma carona para Copacana em em Fiat 147 azul calcinha. E ver Otelo em cena bem como conversar com ele diariamente me ensinou muito mais do que ler qualquer blog. As pessoas deveriam se tocar dessas coisas em seu dia a dia.

Vou almoçar camarões.

Eu só quero Caetanear

Dia 26, dia de festa, de comemoração. Inclusive o Natal, tudo passa “Tudo sempre passará, a vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito” (N.M.)

A história é a seguinte, a festa que eu mais detesto é esse famigerado Natal. Não conheço nada pior, de mais mal gosto, mais brega. Uma coisa meio ditatorial que te obriga a dar e receber presentes, a ficar com a família e blá blá blá. Mas passou. No ano novo a coisa me parece mais relax, as pessoas se soltam, festejam, bebem, riem… enfim, é mais divertido. Acho até que o Natal coloca caraminholas na cabeça das pessoas. Sim ou não? Não tenho certeza. Passou.

Penso nessa gente bonita e saudável que eu conheço e fico feliz, me dá uma alegria imensa saber que tem gente que já se liberou de tudo, que é livre, que passeia, que trabalha, bebe, fuma maconha, faz tudo sem culpa nem preconceito. Penso nessas pessoas e sou tomado de leveza, pureza, amor. Porque, no fundo, é isso. A gente tem muito amor pra dar. Gozando ou não. Mas amor…. puxa, todo mundo tem, transborda nas pessoas, é uma coisa inexplicável e, ao mesmo tempo, absolutamente óbvia. As mulheres, os rapazes, essa gente que se procura, se abraça, se dá… Pode um sentimento mais bacana do que esse, essa visão tipo celestial de um grupo falando besteira, brincando, rindo muito, gente que é prazer da cabeça aos pés.

De uma certa forma, me incluo nesse grupo embora não esteja presencialmente com todos (ou, pelo menos, ao mesmo tempo). Não faz mal. Saio com meus amigos, os papos rolam soltos enquanto a madrugada avança, enquanto o universo se expande, enquanto fazemos pedidos para as estrelas cadentes que não podemos ver numa cidade grande, mas sabemos que estão lá, riscando os céus. Isso é o que realmente me interessa: olhar os meus filhos que sorriem para mim, me abraçam e dizem: “Eu te amo”. Esse prazer, essa alegria são impagáveis. De vez em quando uma coisinha aqui e ali podem me deixar chateado ou triste, mas no balanço geral, o saldo é muito bom. Ter amigos e conhecer gente maneira é uma dádiva. uma coisa. Assim.

Acabo me esquecendo se está fazendo calor ou frio, chovendo ou fazendo sol. Há muitos anos, à trabalho, eu corri o Brasil de ponta à ponta. E de vez em quando penso que desejo fazer isso novamente, visitar os lugares, ver minha gente, tomar água de côco, observar as baianas, as paulistas, as capixabas, jogar sinuca com amigos. Quero rever essa terra, perceber como tudo está andando, mandar muitos cartões postais e depois retornar ao Rio de Janeiro, meu porto seguro. Cometer poesia, ler poesia. Jornaleiro. Garçon, borracheiro. Ouvir música. Muita. Cantar no chuveiro. Roberto Carlos no auge do TOC não conseguia cantar “se o bem e o mal existem”… ele dizia: “Se o bem e o bem existem”. As pessoas atribuíam à doença. Será? Por que não dizer sempre se o bem e o bem existem? Coca Cola bem gelada. Meninos mergulhando no mar. O banhista de vai. Aguardar as águas de março.

São miríades de coisas como estrelas. Todas. Tenho tudo aqui, ao alcance da minha mão e pouco me importam os sentidos figurados. Perceber todas as possibilidades que coisas e pessoas me proporcionam …  (Nós) precisamos ter uma atitude mais condescendente com a vida, com todas as coisas que nos acenam e não percebemos. Em breve virá um outro ano. Não vai mudar nada, claro. Banho de sol. Pássaros. Pantanal. Jacaré. Flor de lis. Eu. Você. Eles. Fim de tarde no Leblon (como é bom passear no Leblon!). “Gente é pra viver, não pra morrer de fome” (Caetano) No fundo é isso….eu quero apenas caetanear.

São Paulo X Rio

Eu queria escrever uma observação interessante, mas a minha cabeça está oca (não como uma melancia que não é oca), mas alguma coisa parecida. Creio que venho maltratando e matando meus neurônios amiúde além da degenerescência natural da velhice. Não importa muito. Eu tava conversardo com uma atriz paulista sobre essa coisa de teatro, de cultura e estávamos de acordo que em São Paulo existem muito mais teatros do que no Rio, que em sampa as pessoas vão ao teatro (apesar do preço) e no Rio vão muito menos. Imagino que isso se dê com cinemas, livrarias, lojas de discos, boates, etc. Então existe um capital cultural em São Paulo que não existe no Rio, ponto final. Verdade verdadeira e indiscutível.

Mas não foi sempre assim. Depois de Mario e Oswald de Andrade na semana de Arte Moderna de 1922, S. Paulo estagnou e o Rio era além da capital da República, era igualmente e decididamente a capital cultural do Brasil. Foi no Rio que viveram Pixinguina, Tom e Vinícius, Ziraldo, Millor e uma infinidade de intelectuais. Toda ou quase toda a produção intelectual saiu do Rio de Janeiro. São Paulo não tem Ipanema nem Lemblon nem Lagoa Rodrigo de Freitas. Nem teve Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos, Ana Cristina Cesar, Nelson Rodrigues nem centenas de outros. São Paulo não tinha nem a TV Globo, uma das melhores do mundo. São Paulo não tem a Estação Primeira de Mangueira como não teve Nara Leão, nem Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Ketti… O Tropicalismo veio da Bahia instalar-se no Rio de Janeiro e não foi à toa. E centenas de outros.

Mas aconteceu alguma coisa. Sim, claro que aconteceu! São Paulo se industrializou mais rapidamente, cresceu e o dinheiro passou a circular em sampa. Sampa tem bandido sim e muito, mas não tem morro. A grana circula por lá. Intelectual e artista de uma maneira geral precisa comer, precisa de dinheiro e a grana está em Sampa. Então aconteceu a migração para São Paulo. Só permaneceram no Rio uns rebeldes e resistentes, uns apaixonados pela beleza e a boemia do Rio. Millor não foi, Tom e Vinícius não foram, Albino Pinheiro, Fernando Pamplona, os grandes poetas não foram. Mas não adiantou. Os empresários estão em São Paulo, os salários estão lá e naturalmente quem quer se apresentar ao mundo vai pra lá.

Por isso eu tenho uma relação de amor e ódio com São Paulo. Mas é coisa minha, pessoal…. reconheço que “a força da grana que ergue e destrói coisas belas” estão lá. Se eu quiser ganhar dinheiro em televisão, por exemplo, sei que terei que ir pra lá. Enquanto não virar pedinte, entretanto, ficarei aqui.

Eu e meus espelhos convexos

Vem chegando nem tão lentamente o movimento que dá início ao fim. O que entendo por fim é apenas conclusão (às vezes precipitada) de um processo. E, na verdade, estamos todos, sempre ‘em processo’. Vejo uma certa poesia estranha, talvez suja ou não, sonetos cantados com expectativa excludente dessa poesia. No final, vira um rascunho meu porque não questiono a atividade do poeta, daquele que escolhe dispor, anunciar o sentimento do povo. Não guardo más impressões de livros inconclusos (basta lembrar a genialidade de Kafka em O Processo – inconcluso). Talvez todo mundo, eventualmente, sofra de um “síndrome de Kafka”. Percebo minha imagem refletida no espelho e questiono a mim que o está mais inconcluso: eu ou a imagem refletida. Não obtenho a resposta substantiva que me agradaria. Pior: não existem respostas substantivas porque nosso reino ou mundo é fuído, escapa entre os dedos da mão. Sou uma ampulheta, imagino, que, ao invés de acondicionar areia em seu interior, tem água no lugar. Uma ampulheta que mede o tempo pela descida da água. Ou será o contrário? Posso imaginar que, na verdade, todas as ampulhetas sejam usadas com água como medidor e tão somente umas poucas, com areia, nos sejam mostradas para que tenhamos uma visão equivocada do universo. Tudo no universo implica numa visão errada, equivocada mesmo. Não posso admitir que nada seja como é, aliás, como parece ser. Os anéis de Saturno não me dizem nada mais do que apresentam: Saturno tem anéis. Espelhos, como num parque de diversões, deformam a visão que temos das coisas. Tenho a impressão que existem espelhos etéreos, que eles colocam-se eventualmente à nossa frente e deturpam o que vemos e sentimos. Ou sou apenas eu? Quando caminhos nessa rua chutando latas, esse hábito vagabundo, imagino que meu mundo seja refratário de um outro, que posso vivenciar reais irrealidades em outra  perspectiva. Não sou o que sou e menos ainda o que aparento ser. Sou um projeto (inacabado) de uma terceira coisa, algo que imagino que poderia ser se eu mesmo escrevesse. Um dia, se eu tiver tempo, vou escrever um script para mim mesmo, comprar roupas e máscaras, maquiagens, etc. para entrar em cena. Eu ainda não entrei em cena em 52 anos na coxia dos palcos. E olha que nasci num camarim. Meu pensamento foi tomando outro rumo…. Na verdade eu falava dos poetas e de interpretá-los e entender que eles são para- raios das pessoas e representantes da sociedade. Essa falta de encadeamento nos rascunhos parece um erro ou uma disritmia aos menos atentos, mas eu não me importo. Sigo em frente, chutando latas, escrevinhando quadrinhas em paredes sujas…. Pode ser ainda a influências dos vários e pequenos quadros nos teatros de revista, esses mesmos com que ando tão envolvido….Pode ser, mais provável, que não seja exatamente eu quem está aqui. Vou jogar tarô.

Brechó

Eu canto o bairro que moro em verso e prosa. Mas ele tem defeitos, muitos. Por exemplo, as pessoas que aqui são de castas inferiores à minha, não deixam o lixo devidamente acondicionado à espera do lixeiro. As ruas ficam sujas. Os travestis que são obviamente invertidos, verdadeiramente doentes mentais (na medida em que perderam a noção do “eu”) são feios e pobres. De certa maneira ‘espaçosos’… Vir pra cá à passeio, na condição de elite é uma coisa e conviver com a ratataia nativa é outra. Há algo de príncipe em mim e quem me conhece bem reconhece isso. Sou um senhorzinho acampado numa senzala. Um rei nas galés, um faraó em meio a escravos.

Mas o interessante é que isso não me incomoda muito. Conto porque acho que devo contar, gosto de dizer as coisas que penso (e posso) dizer. Existem vantagens e são muitas. Primeiro que em terra de cego quem tem um olho é rei. Embora, de uma certa forma, eu seja rei também em terra de quem tem dois ou três olhos. Segundo que estou longe de todo mundo, coisa que adoro. Terceiro porque é minha opção urbana a morar no mato. O meu grande ideal é ser completamente esquecido, jamais considerado excêntrico – esse nome chinfrim que a sociedade utiliza mal – tachando uns e outros que aparentam serem diferentes… Enfim, isso é outra história.

Algumas vezes percebo ruas, coisas e pessoas disformes, exageradamente grandes, meio que sobrevoando meu céu de baunilha. Imaginei que fossem alucinações e não eram. Imaginei efeito de drogas que não consumi, imaginei um mundo mágico de Oz e não tive resposta concreta de nada…. Não ter respostas me agrada porque conjecturo sobre isso ou aquilo ou aquilo outro ou nenhuma das opções acima o que me leva a um universo paralelo, desses que acredito piamente, mas insisto em não discutir com as pessoas porque, na maioria das vezes, não compreendem a parte teórica. No fundo sou um prático que não é um prático, é um teórico. E não falo com gente burra por total incapacidade de persistir e correr atrás da cognição alheia.

Bom, eu sei que esse texto, aparentemente, não tem pé nem cabeça. Mas é uma armadilha. Falei de coisas que se interligam sim, basta você olhar o mundo mais ou menos como eu. Enfim…. tenho outras coisas pra falar, mas fica para o próximo.

Natal

Ela já chega na minha mesa com o copo de vodka transbordando. Comenta o meu uísque. Por que? Não sei. Não quero falar, não quero ouvir, não quero pensar. Amanhã. Talvez amanhã porque não sei como vou acordar. Sim, três livros para serem lidos e estudados rapidinho. O Teatro de Revista. Claro que eu tive a vida inteira para estudar, me aprofundar, mas, idiota, estava mais preocupado com Janis Joplin. Foi necessário que minha barba ficasse completamente branca para eu entender que minha veia estava aqui, do meu lado, dentro de mim. Eu, um gole de uísque…ela, um de vodka. Nos olhamos e a fumaça de nossos cigarros me dão a nítida impressão de um filme noir de terceira. Não, não é bem verdade. A verdade é que eu sou de terceira, provavelmente agrado seres de terceira e vivo nesse dilema/dicotomia entre o que desejo e me imagino e a realidade. Não tenho nada com a realidade. Sou mais irreal do que o conde Drácula, embora me reconheça sim um vampiro. (Quem não é?) Eu mesmo sou um vampiro de mim…. Ela, em preto e branco toma uma dose grande de vodka…. apenas seus lábios são vermelhos…. extremamente…. Penso que gosto mais dos lábios pálidos, como o dos cadáveres, mas não digo nada. Do outro lado da janela vejo luzes coloridas semi-frenéticas e penso que é Natal, essa época porca, desavergonhada. Deveríamos, imagino, vomitar em cima de cada Papai Noel. Barbas brancas e longas grudadas pelo vômito dos humildes.

Tudo na minha cabeça. Apenas ela na minha frente terminando o primeiro copázio de vodka e encomendando mais um. Faço o mesmo com meu uísque. Porque então a vodka é segregada e o uísque aceito? Tédio desse mundo de convenções babacas, de pessoas tolas, de gente vazia. Tédio do mundo acelerado, das propostas indecentes, dos homens de terno e gravata que usurpan a moeda dos pobres….Indisposição para levar adiante o que se apresenta como uma cena de assédio… Pra porra! Prefiro a penumbra e a leitura dos poetas malditos, a cachaça, o afago de um gato sincero, um telefonema de um filho distante. Melhor sim deixar a mulher noir com sua vodka podre e caminhar pelas ruas, sentir a chuva bater em meu rosto e pensar que sim, talvez amanhã…

Silêncio

Uma pessoa diz que minha cabeça é fervilhante. Não tenho certeza. Às vezes acho que é e às vezes acho que não é. De uma maneira ou de outra, que não se espere de mim atitudes esfuziantes, coisas mirabolantes. Sou muito econômico nas minhas ações, nas minhas falas, nas propostas que, porventura, apresente. E é preciso que se compreenda: não é que eu não tenha duzentas idéias por dia e imagine tais e tais coisas que podem ser feitas. Eu penso e tenho certeza que as coisas podem ser feitas. Só que eu não falo. Mas não falo mesmo! Porque eu fico inventando e depois fico atarantado com milhões de coisas pra fazer. Sim, estou atento aos absurdos que se escrevem, as besteiradas que se comentam, a doideira generalizada que me circunda (mas não contamina!). Apenas não falo.

A internet é realmente infinita?

Durantes as filmagens, quinta, tive uma discussão interessante com CAT, colunista de informática do GLOBO. Ele me afirmava que a net não tem início nem fim. Eu disse que ‘mais ou menos’ porque uma coisa que não tem fim é infinita e ele insistiu que sim, que a rede que compõe a internet é infinita. Conversamos um pouco, ele foi embora e, de madrugada fiquei pensando nisso: A net poderia ser infinita? Busquei ajuda nos livros de Levy, Negroponte e outros, mas não encontrei resposta específica.

Se alguns cinetistas já defendem que o universo é curvo e que essa curvatura pode ser completa, entendemos então que o universo não é infinito. Como a internet poderia ser? Passei num mercado e comprei um saco com limões. Em casa tirei um limão e passei o dedo por toda a sua superfície redonda. Realmente nunca meu dedo batia em nada, mas é porque eu fazia a curvatura completa e retornava ao mesmo lugar… assim como “se dá a volta ao mundo”. Peguei o saco em que veio o limão. Era uma trama de plástico. Coloquei o limão lá dentro e estiquei. Por toda a superfície do limão havia a trama, ela não terminava!

Claro! Se a superfície redonda não termina e um universo curvo igualmente será interminável, a trama plástica que envolve o limão não pode terminar. No ponto em que ela findaria “soldei com fogo” e a trama continuou. Ela não tinha fim! Para qualquer lugar que eu virasse o limão e deslizando o dedo por qualquer área, lá estava a malha de plástico. Em tese, não tem fim, certo? Errado. Se a Terra é infinita, se damos a volta à Terra e retornamos ao mesmo lugar, uma rede que ocupe toda a superfície da Terra tem que ser, igualmente, finita. O que pode acontecer é você, depois de muito tempo, passar novamente por um site já visitado, da mesma forma que passamos em mares e espaços aéreos já percorridos. O que me faltam agora, são elementos para defender essa questão.

Gilles Deleuze: experimentos

Finalmente concluímos ontem qual será o documentário-trabalho-experimental para esse final de ano. Serão leituras, interpretações e notas explicativas e iconográficas de uma série de entrevistas que Gilles Deleuze compilou em seu livro “CONVERSAÇÕES”. OBS: O trabalho não se furtará à uma análise eventualmente “morena” dos assuntos. Aí vai um trechinho: 

(…)”Há noções inexatas e, no entanto, absolutamente rigorosas, das quais os cientistas não podem prescindir, e que pertencem aos mesmo tempo aos cientistas, aos filósofos e aos artistas. Trata-se de dar-lhes um rigor que não é diretamente científico, e quando um cientista chega também a esse rigor, ele é também filósofo, ou artista. Não é por insuficiência que tais conceitos são indecisos, é por sua natureza ou conteúdo(…)

A história é muito importante. Mas quando você toma qualquer linha de pesquisa, ela é histórica numa parte de seu percurso, em certos lugares, mas também é a-histórica, trans-histórica… (…) Os “devires” têm muito mais importância do que a história. Não é, absolutamente a mesma coisa. Tentamos, por exemplo, construir um conceito de máquina de guerra; ele implica antes de mais nada um certo tipo de espaço, uma composição muito particular dos homens, dos elemenetos tecnológicos e afetivos (armas e jóias…) Um tal agenciamento só é histórico secundariamente, quando entra em relações muito variáveis com os aparelhos do Estado.”

Sobretudo de Lona (Pós ou não)

Como sou inconstante e acho que as coisas estão sempre em movimento, troquei o nome desse espaço por uns poucos meses, mas não adianta. Pode ter lá os ‘papéis esparsos’, pode ser ‘Pós’, mas fui marcado à brasa como Sobretudo de Lona. Até porque as pessoas (os raros amigos) não deixam sair do trilho rs. Acho que não tem volta não. É Sobretudo de Lona mesmo! E, afinal, por que deveria mudar?

Colcha de retalhos (leve)

Em outras fases da minha vida eu teria algumas respostas à altura para dar. Pessoas dizem besteiras e merecem serem chamadas a atenção. Eu até faço isso, mas não mais do que uma vez porque quando não há cognição de primeira, não haverá de segunda (seja no idioma que for). Portanto, quem não é centro, é perfiférico e só me resta imitar Ibrahim: “Sorry, periferia”.

O importante é contar que estou tendo uma espécie de crises de sonambolismo às avessas. Sonho que estou lendo livros que já li. De anteontem pra ontem foi  O Castelo, de Kafka e de ontem pra hoje foi Os Possessos, de Dostoiévski mas esse último não levantei pra ler não porque ambos são muito barra pesada. Prefiro ficar com o Castelo e já que estou meio de saco cheio da Clarice, ler as crônicas de Otto Maria Carpeaux, bem mais inteligente. Aliás, estou com uma pilha me esperando e, confesso, estou lendo devagar. Ontem preferi uma coisa leve como assistir novamente O Diabo veste Prada.

Definitivamente não ando com paciência pra esquentar minha cabeça a não ser que se trate de algo absolutamente relevante. Estou mais ou menos de férias mentais, o que todo mundo deveria fazer, principalmente em determinados períodos do mês. Como não posso obrigar os outros, tiro eu mesmo. Contente por estar em negociação com uma revista carioca para pequenas crônicas. Quem sabe?


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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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