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Talese

Hoje mais ou menos entusiasmado com os livros de Gay Talese como em priscas eras me entusiasmei com outros jornalistas (começando por Capote, claro). Verdade quando dizem que me entusiasmo ora por esse, ora por aquele, que sou dado a “paixonites” literárias independente do calibre dos escritores. Sim, tudo verdade. Sou assim desde muito jovem, desde os primeiros livrinhos de aventuras escritas pobremente e, depois por Meigret. Coisas do tempo, coisas que todos nós temos (ou tivemos) bem antes de entrarmos no modernismo. Coisas de antes de Euclydes, de antes, muito antes… Por falar em jornalistas, não esqueçamos Wolf... Mas não importa: agora é Talese. É bom conhecer um pouco do submundo que habitam esses homens que transformam fatos às vezes corriqueiros em grandes histórias.

Crítica Literária

Editado em 1961, só agora me chega as mãos esse precioso volume de “UM EXPERIMENTO NA CRÍTICA LITERÁRIA” de C.S. Lewis. Ainda nas primeiras páginas, percebo um livro interessante e importante…. principalmente para certas pessoas. (continua)

Livros, corações e mentes

Lendo ” Outro” de Bernhard Schlink. Best seller? Dizem que sim e daí? Desde quando um livro que agrada multidões, tem enormes tiragens e vira filme é necessariamente ruim? Boabagens. Criancices. Essa literatura que nos cativa, prende, que minusturamos à nossa própria existência… que recoloca mais uma vez que vida e a literatura se entrelaçam, que num momento dominamos o livro e, em seguida, somos nós, antes personagens que o autor deixou de nos escrever.

O estudo da filosofia continua, não é nada simples (embora o seja). De qualquer forma, por preservação, deve manter-se guardada em mim. Acredito que o anonimato seja importante. Muito importante pelo menos num primeiro momento. No mais, é sorrir quando for possível

Frenesi (Hornby) Polissilábico

Puxa…. Na Páscoa ninguém quase passa por aqui…. Recebi uma dezena de e.mais, bem verdade, a maioria dos meus três leitores. Mas realmente num evento da magnitude de uma sexta feira santa e uma Páscoa, isso parece mesmo normal: NINGUÉM TÁ NEM AÍ PRA NADA, apenas para o feriadão, para as viagens, farra e bebedeiras… rs.. Orações? Ninguém nem lembrou (no que fazem muito bem).

Bom, dia desses eu falei por aqui que estava na área um novo Nicky Hornby (esse autor inglês com seus romances simplesmente d-e-l-i-c-i-o-s-o-s!) Dessa feita, no recém lançado “FRENESI POLISSILÁBICO”, Hornby nos leva ao universo de suas crônicas literárias para uma revista inglesa. E não se trata de sucessão de resenhas. Ele? Mas é claro que não! Ele relaciona, mês a mês quantos livros comprou, quantos ganhou e quantos efetivamente leu e o porquê. E o que tem isso de interessante? E em quantos momentos a gente se identifica com essa história de não ler o que comprou ou de ler quatro vezes um mesmo livro ou…ou… Nesse volume, Hornby nos transporta para um mundo de títulos que deixa a gente suando frio de inveja

Depende exatamente do que cada um dos latininhos aqui conhecem de Hornby. A maioria nem conhece esse cara. Um outro grupo (muito erudito eh eh eh) considera-o um autor menor, de menos importância porque “seus romances seriam demasiadamente leves” ou “incapazes de penetrar num mundo de de seriedade).

Sim, tem gente mesmo que pensa isso.  Muita gente que me disse exatamente isso. Porque o brasileiro, claudicante ferrenho, de visão de mundo ou percepção do que é legal ou com o eterno problema de cognição dividi-se em 3 categorias: Quem só lê Paulo Coelho (eu gosto do Paulo Coelho e o que dizem da literatura dele é apenas despeito), quem só lê clássicos ou famosos e…….. os comunistas viúvos de Stálin que buscam nos títulos latinos algum resquício de ideologia.

Hornby não é nada disso. Nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário. Ele é um camarada , culto e descolado… uma cara normal, mas um cara que gosta de ler e de escrever, um ser humano de bem com a vida. O pessoal daqui, “no lado de baixo do Equador” não gosta disso. Ou gosta? Eu sei de uma pessoa que ama, Marina W.

E vocês?

Atenção para o refrão

Atenção galera !

Tem Nick Hornby novo no pedaço!

Sempre Hannah ou Simone?

Entre 4 Paredes” e “A Náusea” são (peça e livro) o lado light de Jean Paul Sartre. Você só perde o chão e todos os referenciais e percebe-se  olhando sua própria imagem num espelho rachado de rodoviária do interior… quando encara os tijolaços “O Ser e o Nada” e “Crítica da Razão Dialética” livros básicos da construção do conceitos filosóficos do Existencialismo. Me falam coisas sobre Camus que eu discordo diametralmente e repilo como verdades absolutas… até porque o mundo não possui verdades absolutas e, muito menos, verdades. Quem lê o Mito de Sísifo de Camus e acha que está lendo filosofia pura é burro, não está entendendo. Existe um conceito linear, uma trama que chegaria ao novelesco não fosse a carga pesada de simbolismo contextualizada no livro.

Nesse aspecto acho que Hannah Arendt foi mais coerente e, por outro lado, menos abrangente no ato de escrever algum filosofia à luz da literatura. Não acho que exista nenhum ‘pecado do lado de cima do Equador’ (rs). A questão é outra, é apenas se desejamos entender ou não o nosso próprio eu, nosso racionalismo que nem sempre é tão barato como parece ao desatento doidivanas, ao leitor que não vau além da literatura sul americana. Tenho a impressão que só conseguimos pensar e agir “racionalmente” exatamente quando ultrapassamos nossas barreiras e nos debruçamos na proposta do outro. Como fez Simone de Beauvoir, por exemplo.

Orham Pamuk

A dona da livraria Leonardo da Vinci é uma dessas estrangeiras que fez fortuna no Brasil ao longo de muitos anos e nem se preocupou em perder o sotaque (sabe-se lá de onde veio a mulher). Essa livraria, fundada 1952, no centro do Rio, sempre foi uma referência literária, sempre foi o único lugar onde se encontravam livros mais raros, etc. etc. E sendo assim, tornou-se ponto de encontro de intelectuais de todas as cores, principalmente literatos. Autores famosos desfilaram (e trocaram um dedinho de prosa) por aquelas bandas. E, a dona da livraria - sem dúvida – participava de tudo isso, orgulhosa de si mesma e com toda a razão. Os anos se passaram, os intelectuais morreram ou se enclausuraram e, mais na frente, encontraram outros lugares maiores e melhores – Saraiva (para livros comuns), Travessa e Fnac para livros especializados, raros e importados. A velha “Leonardo” tornou-se frequentada apenas por quem está no centro da cidade e passa por ali. Mais: vamos e venhamos… os intelectuais moram fora do Rio ou em Ipanema/Leblon.

Já umas duas ou três vezes liguei para essa livraria Leonardo e fui muito mal atendido pela tal senhora de sotaque. Ela atende e fala com uma aspereza incomum. A impressão que eu tenho é que ela se irrita quando alguém não pede um livro estrangeiro esgotado no mundo todo. Como se comprar um livro atual ou bastante vendido fosse um pecado, próprio de leitores ignorantes e boçais.

Dia desses ela atendeu e eu perguntei se havia “O Livro Negro”. Nem acabei de falar e fui interrompido: Como o livro negro? Você não sabe que existe o livro negro do comunismo, o livro negro do capitalismo, o livro negro de são Cypriano????

 

Quando consegui falar, expliquei que não era nenhum desses e sim “O Livro Negro” romance de Orhan Pamuk…E tudo isso por quê? Porque eu estava interessado nesse livro que saiu agora, de um autor magistral (o mesmo de NEVE e de MEU NOME É VERMELHO, por exemplo), um autor que já ganhou o Nobel de Literatura. E o que é que tem isso? O fato do autor ser agraciado com o Nobel nem sempre me chama demais a atenção. O que tem Nobel chato por aí… sai de baixo! É o terceiro livro que eu leio desse cara (nascido em Istambul), um autor mais que recomendado. Apesar dos livros caudalosos -  quase sempre ntre 500 e 600 páginas –  encontramos perfeita descrição de locais e personagens. Aliás personagens com uma complexidade psicológica e intelectual que tiram nosso fôlego. Tudo isso para dizer que, em um dos livros de maior sucesso – NEVE – é justamente John Updike quem faz as honras da casa, quem avaliza Orhan Pamuk. Então, daí – apesar da minha crítica pontual – Updike - falecido anteontem foi e será eternamente uma referência literária (e sem Nobel!)

Updike (de novo) Sexo e História

Terminei o último livro do Updike. Até poderia fazer algumas considerações, mas não, melhor não. Dia desses eu falei por aqui na vantagem de ler esse autor. Ele capta, como Phillip Roth, a essência da alma nos EUA. Ler romances desses autores é também aprender história da América. Agora volto ao Francis concordando com ele: Upidike é juquinha. Praticamente em todos os seus livros o foco da ação é sempre a vida sexual dos personagens. À cada personagem que vai aparecendo na trama, você diz: “E?” E lá vem. Uma vez descrito mais ou menos – deixando de lado a composição psicológica e filosófica – vamos diretos para a sexualidade: quem trepa com quem, em que posições, quantas vezes por semana, etc, etc.

Tá, você pode me perguntar se eu não acho isso relevante e é claro que acho sim. Não falar da sexualidade é abortar um lado fundamental do ser humano (e personagem). Mas acho sim que essa abordagem deve ser feita ao lado de uma composição mais completa do personagem (qualquer um deles – e não apenas do principal).

Aparecem mulheres junto ao personagem central que entram apenas para trepar em situações tais e tais, com frequência (saudade do trema) tal e por aí vai… se é no capim, no motel, no muro ao lado da casa da moça etc. Mas se eu sei tão pouco da moça! De qualquer forma a literatura tem isso de bom também: faz a gente criar personagens juntamente com o autor (talvez nossa construção seja até mais elaborada!), Chega a dar calafrio pensar que nenhum personagem de nenhum autor é absolutamente percebido pelo leitor com a mesma intensidade (pode ser maior). Igualmente nenhum personagem é nem física nem moralmente como imaginou o seu criador. E nas artes, só a literatura é tão livre, só a literatura é refeita por cada leitor (imaginem quando vira filme: o que os diretores não fazem com as personagens dos livros..rs.

Afora isso, Updike é realmente um craque. Repito: um dos mestres da literatura do século XX.

Insônia

Quando se está lendo três livros simultaneamente dá a impressão que temos a atenção dividida em três partes (e, por que não dizer, a alma e o cérebro também?). Parece propaganda (auto) fazer um comentário sobre ler 3 livros ao mesmo tempo, mas não é. Ao contrário da maioria das pessoas, não tenho um hábito regrado de ler: às vezes passo dois, três meses sem tocar num livro ou, se tento, não absorvo nada e nunca passo da terceira página. Em outros momentos, a vontade é tamanha que não consigo ler um livro de cada vez, deixando os outros em “modo de espera”. Não, não imagine que posso fazer alguma confusão entre histórias e personagens. Não. Trata-se exclusivamente da capacidade, comum a todos nós, de nos dividirmos, para a atenção na leitura como fazemos em várias situações na vida: um perfil no trabalho, outro em casa e ainda outro no lazer. E não é só isso.

Quando vamos a um museu (fora do Brasil que não possui museus dignos desse nome), quando vamos a um museu não somos plenamente capazes de absorver a arte de vários quadros ou várias esculturas? A mim, na questão da leitura, parece igual. E eu leio mais do que os outros? Absolutamente não! Apenas a forma é diferente de relacionamento com a obra em questão. Possuo sei lá quantos livros e me lembro de mais 70% do enredo de cada um deles. Possuo ainda uns outros tantos livros que estão na fila de espera muito embora eu saiba que muitos deles eu jamais vou ler. Às vezes fico com vontade que comprar livros, mais do que o tempo que disponho para ler, é um vício como outro qualquer. Talvez pior porque atravanca a sua casa com pilhas de papéis encadernados e você ainda tem que ouvir aquela perguntinha idiota: “Nossa! Você já leu tudo isso?” – da mesma forma que sou obrigado a me segurar quando vem aquela outra perguntinha imbecil: “Puxa, você é parente do cantor?”

 Porque a vida é composta de maioria humana completamente jeka, completamente ordinária intelectualmente falando. Porque isso é ser ordinário: é ser burro, é caminhar com a horda, repetir modelos – normalmente os mais vis. Se eu tenho paciência? Claro que não! Simplesmente fui aprendendo a me conter, a fazer cara de árvore da frente de qualquer obtuso, da ignara em geral. E que fique bem claro, ignara não tem nada a ver com status financeiro, com pobreza. Conheço meia centena de pessoas cheias da grana que são de uma boçalidade inacreditável. Inclusive “os leitores” que se acreditam eruditos. Homens e mulheres que estão lendo um livro por semana ou por quinzena, palpitando em tudo sobre literatura, “se achando”.

Para mim, além de ensinamentos e conhecimento sobre outros lugares, outros hábitos, a literatura é motivo de relaxamento, de prazerosa distração. Até porque (eu já repeti isso por aqui, o escritor é um pára-raios do mundo, das pessoas, do ser humano. Esse artista apenas traduz o que recebe (e percebe) embrulhando para nós. NESSA CATEGORIA, OS POETAS SÃO IMBATÍVEIS.

No fundo, não era nada disso que eu queria escrever. Queria falar de noites insones e a gente agarrado com um livro, como se ele fosse fugir (o que não deixa de ser realidade também: alguns livros meus têm uma capacidade brutal de se esconderem de mim).

Updike

Vira e mexe a gente quebra a cara um pouco com os grandes autores americanos. De certa forma (um dos três mais importantes) como Philip Roth, Jonh Updike ou Paul Auster, esses três vira e mexe fazem romances históricos, sempre falando do judaísmo e da formação nos últimos cem anos do Estados Unidos. O mais famoso, Updike, relata tantos e tantos detalhes, explica tanto o porquê de cada atitude dos seus personagens – todos auto biográficos – bom, é claro, que a gente vai cansando. É assim:… você um romance e se encanta… E o mesmo com dois, três, quatro… depois começa a cansar aquela repetição das localidades, as roupas e perfis de cada personagem (sempre com a infância de cada um deles)… Isso lembra o nosso Euclydes da Cunha ou, mal comparando, Guimarães Rosa. Claro que o autor tem que situar muito bem situado para leitor para que ele ’se veja’ no ambiente da narração, ok. Mas não é isso, falo dos excessos… do momento mágico da literatura que é justamente não o de narrar localidades (quem aguentou – de verdade ! – ler ‘Os Serões’? É tênue – se é que existe – a linha entre literatura e realidade. Uma persegue a  outra, deixando o leitor sem chão, sem norte porque as histórias que autores criam são, na verdade, recriações da nossa vida. Talvez por isso P. Francis tenha dito que Updike é ‘juquinha’ (não creio que ele achasse isso de verdade, pode ter sido uma das suas intermináveis brincadeiras

Sem assunto…

Para me livrar da peregrinação nas filas de bancos no início do ano, resolvi adiantar hoje o que era possível. Até porque dia 1° é feriado e imagino a sanha desesperada dos “sacadores” e “pagadores” de contas, títulos e não sei mais o quê. E uma coisa que eu tenho pavor na vida (além de ir ao dentista) é enfrentar tumulto e fila em banco. Se eu pudesse ter uma só mordomia na vida gostaria de ter um boy que cuidasse dessas coisas de papéis, documentos, bancos e o diabo. Isso aqui é o país da “Firma Reconhecida”, da Estampilhas e toda essa burocracia insuportável. Soube que, não sei como, meu pai ia herdar um cartório o que acabou não acontecendo. Pena.. hoje eu seria riquíssimo…rs

Está chegando o dia da virada para um novo ano e o serviço de meteorologia prevê chuvas torrenciais no sudeste. Eu não me importo porque não saio de casa mesmo, mas tenho pena dos dois milhões de pessoas que acompanham a queima de fogos em Copacabana, por exemplo.

Aliás meus poucos amigos e conhecidos, nessa época do ano sumiram completamente. Não encontro ninguém. Até os acessos ao blog diminuíram consideravelmente. Mas nada disso me importa muito. Estou mais preocupado porque está sendo um processo complicado me desfazer do apartamento que mamãe ocupava (tem gente demais palpitando!), mas falta pouco. Quando isso acontecer, posso considerar este ciclo encerrado na minha vida. Não sei explicar muito bem o porquê, mas sinto muita necessidade de ver tudo isso terminado.

Tá…. a verdade é que não tenho nenhum assunto interessante, eu reconheço. Posso acrescentar que estou lendo dois livros: “As Mulheres do Meu Pai” do angolano José Eduardo Agualusa e, ao mesmo tempo, “Cidadezinhas” do John Updike. Na fila para posterior leitura tenho:; “Três Vidas” de G. Stein e “Gomorra” de Roberto Saviano. Não creio que durem até o final de Janeiro de 2009, mas já é alguma coisa. No mais… Passem bem!

Realidades

Marçal Aquino me proporcionou horas de profundo bem estar. Seu livro é desses “simples”, mas insquecíveis. “Predadores”, de Pepetela não é surpreendente: é perfeito. Mostra o que somos em essência.

A individualidade também é plural

Estou lendo “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” de Marçal Aquino. Já passei da metade. Ela tinha razão: é um livro delicioso de se ler. Aquino escreve de maneira parcimoniosa, mas quase todas as frases têm enorme simbolismo e nos remetem para coisas nossas, quase inconscientes. Mais ou menos como se fôssemos um ou mais personagens do livro ou como se ele fosse uma poção de alquimia do que vivemos. Existem autores e livros muito raros. De vez em quando me dou conta de dezenas de livros que eu não deveria ter lido, que não eram necessários (ou todos são, à sua maneira, de uma forma ou de outra?). É essa angústia de estar sempre desejando conhecer que nos move nesse sentido. Como que para apreender o sentido das coisas. Essa miscelânia de sentimentos, experiências, sensações que nos atropelam precisam de alguma explicação ou do conforto de sabermos que aconteceu algo igual em outros espíritos. E buscamos a cabeça dos autores. Necessidade de entender que os sentimentos, dúvidas, amores não são uma experiência nossa, individual. A individualidade também é plural. Talvez sempre tenhamos sabido disso, mas só nos convencemos quando encontramos essa vivência no outro. Somos incapazes de suportar sensações só nossas… buscamos no outro o complemento, a cumplicidade de viver.

Perceber através da leitura

Me dizem que escrevemos o que não é dito. Escrevemos o nosso silêncio, alguma coisa mais profunda, que não está em nós, alguma coisa que faz parte do nosso todo, mas não é verbalizado nem demonstrado pelo simples motivo de não poder ser. Limites despóticos que a própria vida vai nos colocando, impressões falsas, enganos, avaliações equivocadas. Dezenas e dezenas de situações-limite em que, muitas vezes, duvidamos de nós mesmos, em que acabamos acreditando no que é dito… não, não acreditamos. Aceitamos simplesmente. Muitas vezes entramos numa espécie de vácuo catatônico buscando ”onde se soltaram nossas amarras”. Dizem ainda que nosso silêncio pode ser covarde ou preventivo, mas acho que, na maioria das vezes, é covarde. É simplesmente a falta de impulso de buscarmos novos caminhos. É a Filosofia embaralhando-se com a Psicologia. É, principalmente, quando nas livrarias, pegamos esse e esse livro, mas não mudamos o estilo literário. Dizem, por fim que, através do que um homem está lendo, percebemos em que estágio ele se encontra.

Um livro

Buscas sem fim. Dunas de areia intransponíveis, formas plasmáticas que resistem aos espíritos bravios. Tudo isso num livro que ainda fala do desencontro das pessoas, mais especificamente, de duas pessoas que “não poderiam ter ser perdido”. Pessoas que correm de um lado para o outro, pessoas que esqueceram há muito porque correm tanto, que não sabem mais onde querem chegar de verdade. Desencontro de mundos, de sentimentos, de valores como se uma nova sociedade estivesse sendo criada sem que ninguém soubesse. Um homem refugia-se numa casa distante, no meio do mato, e observa essa mudança radical e drástica e sofre com tudo o que presencia.

Fazes-me Falta

“Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio – nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência”

Inês Pedrosa, em FAZES-ME FALTA

Livros Trocados

Terminei de ler NAS TUAS MÃOS de Inês Pedrosa. Como sempre indicação de K. muitas vezes ela não chega propriamente a indicar, faz uma referência ou outra ao que está lendo e eu corro na livraria. acho que ela sabe muito bem o que lê (bem informada apenas ou indicações privilegiadas? rs). não vem ao caso. temos lido coisas iguais e só me decepcionei (razoavelmente) com um livro (Paraíso Perdido – não, não o de Milton), mas essas coisas acontecem e ela mesma disse que também não tinha achado lá essas coisas. isso me faz pensar em outra coisa: semanalmente os jornais têm cadernos literários, eventualmente programas de TV sobre literatura (como o do Ricardo Soares em SP). todos são interessantes, todos, de uma forma ou de outra, acrescentam. mas devíamos reparar mais como o “boca a boca” (eba!!) funciona. muitas vezes não compro um livro indicado nos cadernos literários, mas vou correndo comprar algum que a Ane ou K. ou Ricardo comentaram. na maioria das vezes, nos interessa muito mais o que pessoas com quem temos afinidades estão lendo do que resenhas frias porque obrigatórias. e esse trocar de informações funciona de forma perfeita na internet, esse mundo paralelo onde vivemos esquizofrenicamente.

Ainda Inês

“O que me interessa é a diferença. Interessa-me a voz das margens, a poesia dos rebeldes, dos bêbados, dos discriminados, tipos que não encontram quem os ouça e que têm a verdadeira experiência dos abismos!”

Inês Pedrosa

O medo como representação

Sigo fielmente as indicações de K. sobre livros (menos os clássicos porque já li a maioria e não ando com saco. Acho que agora é a vez dela…(rs). Ela diz que Ricardo é o mentor literário dela e, já que ele se nega a ser o meu (rs – transtorno de homofobia…rs), transferi esse conceito de guru para ela.

Isso para contar

que estou começando a ler “Nas tuas mãos” de Inês Pedrosa e, pelas primeiras trinta páginas, parece-me uma obra de arte, um exercício literário desses que todos nós deveríamos fazer sem nos preocuparmos em que ano ou século o livro foi escrito. Desses livros que a gente vai lendo com vagar, prestando atenção a nuances que a autora vai mostrando e escondendo, dando a perceber e não dando outras vezes. Em alguns momentos, em meio à leitura, percebo que “tinha alguma coisa ali atrás”, no meio da página passada e não me dei conta. E volto lá para constatar que sim, havia uma ou mais frases dessas que nos tiram o ar, nos emocionam, nos fazem repensar toda a vida. Principalmente (se algo pode ser ‘principalmente’) o Diário de Jennifer – é nele que estou e já acho quase impossível um relato mais chocante e impressionante. Os mistérios das nossas almas, dos nossos gostares, das nossas opções. Quantas opções temos cada um de nós e não as praticamos porque estão apagadas, completamente apagadas no fundo do nosso cérebro, uma inconsciência terrível que impossibilita a plenitude de viver.

A força das mulheres é tão maior e mais profunda que a dos homens que compará-las é covardia.

Assim vou passando meu tempo enquanto chove tanto lá fora e sinto-me tão, mas tão só, como se fosse o único vivente desse mundo. O pânico (que falei abaixo) senta-se ao meu lado e fica tamborilando o teclado junto comigo, coloca o braço sobre meu ombro como se fôssemos já, inseparáveis. E justamente, ao lado desse pânico

vou reaprendendo a viver

vou percebendo que tudo o que mais considerei até o momento não era de fato o mais importante. Porque o momento é o agora e a forma como o futuro começa a levantar as cortinas para mim, muito suavemente, de forma a que eu vá tomando ciência, que vá percebendo pouco a pouco e a me ensinar principalmente que, ao contrário do que eu sempre acreditei e gritei, EXISTE futuro. Sim. E esse futuro é sempre pior do que o presente, as coisas podem melhorar sim, mas podem piorar igualmente… não… em tudo e por tudo, as coisas pioram sempre.

“RENEGO A PRIORIDADE DE IMAGINAR QUE ALGUMA COISA ESTEJA PREPARADA PARA LOGO APÓS AQUELA ESQUINA” E AGORA RENDO-ME À IGNORÂNCIA QUE TAL PENSAMENTO POSSA ESBOÇAR.

Então o que faço em meio à borrasca, em meio à chuva que açoita e ao meu espírito QUE vira um nada, não um “oceano de cachaça” como cantou meu amigo Geraldinho Carneiro, mas um respingo, uma pequena poça de uísque de quinta misturado com anti-depressivos e outras drogas baratas, drogas que não drogam, que fazem não um grande efeito, mas cócegas nas grandes angústias. Sim, essas grandes angústias conseguem te jogar no chão, cara, ainda que ao lado possa existir uma angústia mil vezes maior (e se não sinto, posso entender, mas não percebo). Somos egoístas? Não sei, não creio que seja uma avaliação muito correta como a querer que apenas as pessoas mais desgraçadas do mundo, em todos os sentidos, tenham algum direito a sofrer. Volto à “NAS TUAS MÃOS”. volto a torcer de K. me apareça, volto a torcer para que os sábados não terminem porque eles, minhas gripes e as chuvas são o álibi que uso tão à vontade nesse meu mundo de mentiras, de escamoteações constantes, de fugas atrapalhadas, de tremores durante o entrecortado sono.

A revolta do niilismo – O equívoco de Sartre: O inferno somos nós

O sorriso fácil pode mostrar o equívoco que provocamos no outro quando este pensa que estamos felizes ou tranqüilos. Nada mais errado. O sorriso fácil é mais uma das mil e uma máscaras que utilizamos no dia a dia para tornar possível nossa relação com o mundo. Esta relação se traduz numa enorme quantidade de signos que vamos usando (muitas vezes criando) de forma a buscar uma compreensão mínima do que esperamos uns dos outros. O que é outra mentira. Não esperamos nada uns dos outros, não esperamos nada de nenhuma pessoa e quando esperamos (muitas vezes) algo, trata-se de uma explosão emocional descontrolada onde busca-se o céu ou o inferno no próximo ( ver “O inferno são os outros” – Sartre).

Essa fragilidade ontológica em Jean-Paul traduz o limite do pensamento humano mesmo na área filosófica onde ainda conseguimos fazer vôos um pouco mais altos.  Não adianta a filosofia de per-si não havendo uma perceção bem mais “rasteira” que é a aplicação pura e simples de conclusões que contaram com recursos intelectauis que fogem à nós mortais.

Relações de trabalho, de companheirismo, coleguismo, amizade e amor são tão somente a representação de uma idealização inconsciente de uma espécie de mundo melhor (se me entendem), um mundo onde sofreríamos menor violência, agressividade e dor. Ou seja: uma fantasia, uma inverdade. Da mesma forma buscamos conforto espiritual numa série de crendices tolas que convencionamos chamar de religiões. A religião também é mais ou menos isso, mais ou menos uma forma de garantirmos algum apoio, alguma promessa metafísica que nos garanta o que não conquistarmos na existência terrena. Pois não temos nem garantias na existência terrena nem (muito menos!) na metafísica. Sartre se equivoca quando diz “O inferno são os outros”… deveria ter esperado mais e percebido que é mais correto afirmar sem medo de errar que “o inferno é a vida” o que podemos traduzir como “O inferno somos nós”.

 

Arriaga

“É estranho, mas parece que nos seres humanos o ato de mais profunda consciência aparece precisamente no momento de maior inconsciência: o sonho”

“A sensação que nos sobrevém quando algo é perdido é uma das mais fortes às que é submetido o ser humano, e isso porque tal sensação tem um forte parentesco com a morte. É, por assim dizer, sua manifestação cotidiana (…) quando morre em ente querido, nos dá tristeza, nos sentimos impotentes.. (…) Não há, no entanto, sentimento mais trágico, em toda a extensão da palavra que perder o destino ao qual se crê estar destinado (…)”

guilhermo arriaga em O ESQUADRÃO GUILHOTINA

Eu, K. e os autores

K. faz um comentário sobre o livro de Cees Nooteboom, o Paraíso Perdido. Ela diz que se apaixonou pelo autor, por suas posições, visão de mundo etc. Não posso dizer nada porque não vi nenhuma declaração de Cees. Realmente li o livro porque vi um comentário de K. Ela fala para eu comentar, mas tenho muito pouco a dizer. Se é um livro interessante? Pode ser, talvez uma tentativa de sair do lugar comum. Pessoas que rodam o mundo, que são cultas e que vêm anjos. Seria alguma coisa próximo a um certo realismo fantástico se fosse de Borges, de Calvino ou mesmo de um Dias Gomes. Então eu não sei… é um livro que promete e não cumpre. Que faz um voo rasante sobre propostas interessantes, mas não pousa de fato em nenhuma delas. Faz uma mistura de locais e situações (como o estupro em São Paulo) que não acrescentam nada, que estão colocados ali por estarem. Um teatro do Absurdo ou do Oprimido? Não chega a nenhum dos dois. Pra mim, valeu a experiência de ler esse volume. Outros, aí já é demais. Não tenho todo o tempo do mundo para ver se um autor se acerta em outro livro. Não mesmo. O autor deve ser pleno em cada um dos seus romances (ainda que existam melhores e piores)

Uma proposta levemente parecida, mas concretizada é a de Paul Auster em seu último livro “Homem no Escuro”. Já disse aqui várias vezes que Auster junto a Philip Roth são os autores americanos e modernos mais importantes. Acompanho Auster desde sempre, desde sua “Trilogia de Nova York”, passando por inúmeros romances, situações e personagens (e seus personagens e situações, muitas vezes, também aproximam-se de um certo realismo-fantástico, mas de um outra forme, de uma forma real – o que acaba nos angustiando mais). Auster não é para ser lido, é para ser aplicado na veia. Paul Auster vicia como qualquer droga. Neste último livro, um homem, escritor insone, um velho, passa as noites no escuro olhando para o teto e criando histórias que jamais serão escritas. Ele cria histórias para fazer o tempo passar. Numa dessas histórias ( com urdidura tão perfeita) percebemos que o personagem criado pelo escritor, de repente, tem a missão de assassinar esse mesmo escritor, esse velho que olha o escuro. E assim vamos nos embrenhando por situações-limites e surpresas não imaginadas – e podemos questionar em uma história dentro da outra, qual será a verdadeira - enquanto esse mesmo escritor velho vai relatando e se envolvendo com dramas pessoais e de sua própria família. Ao terminar, na última página, tenho certeza de que lerei novamente esse texto em breve, como faço com todos os livros de Paul. Entre leitura e releitura, me aguarda um volume ansioso: “O Esquadrão Guilhotina” de Guilhermo Arriaga, um dos maiores contadores de histórias de língua espanhola (escreveu, entre muitas outras coisas, os roteiros dos filmes: Amores Brutos, 21 Gramas, Babel e muitos outros). Pelas credenciais do autor, com certeza esse romance deve ser mais um soco no estômago. Como disse, não tenho mais tempo de dar duas ou três chances a um autor que claudica fortemente em um dos seus livros.

Enquanto isso uma tosse estranha, forte, convulsivante não me deixa dormir (meu corpo por dentro está completamente doído de tanto fazer força) e cuido em não investigá-la porque não quero ter notícias ruins. Mais notícias ruins.

Auster novamente

quando percebo, me vejo colocado numa espécie de fôrma, de talha, de molde. sigo adiante, mas carregando comigo, todos os rótulos que se inventam por aí… e me desfaço deles… dia desses eu falei que dalton trevisan é fundamental, hoje retiro o que disse e afirmo que, muitas vezes ele pode ser um chato repetitivo. enquanto isso, K vai postando frases do Paraíso Perdido (o romance)… nesse caso (já terminei de ler), mas preferi fazer todas as minhas anotações numa caderneta que está ao lado do romance, na estante. este é um livro para ser lido mais de uma vez, como o são os de kundera, calvino e casares, para ficar em poucos. releio muitos livros por motivos diversos (alguns merecem ser aprofundados, outros devem ter suas histórias melhor fixadas em nosso espírito e outros motivos mais). por sinal, saiu um novo do paul auster, estão sabendo? não entendo como pessoas que gostam de ler não têm auster entre seus favoritos… muitas coisas são difíceis de compreender no universo dos leitores assíduos.

Dalton

Bicho…. Não ler Dalton Trevisan é tentar desconhecer o inferno (nosso)!

Oceano Mar

K. me instiga a falar sobre o livro OCEANO MAR (do italiano Alessandro Barrico). Como não sou resenhista, não posso fazê-lo. Existem várias maneiras de interpretá-lo. Li de duas formas: como um poema em prosa e como um romance de suspense. Não consegui largá-lo desde a primeira linha. Existem livros, creio, que foram escritos para nós. Eu acredito nisso. Livros que acreditamos que apenas nós iremos percebê-los e não é verdade, claro. Este é um caso assim. Poucos personagens (todos míticos), uma estalagem gerenciada por uma menina de dez anos, um pintor que leva sua vida a pintar… o mar. Um professor que escreve uma obra sensacional, uma enciclopédia infinita, os tormentos em uma jangada, o ser humano em sua brutalidade e em seu afeto maiores, desses que não temos consciência. Não, menina, não sei o que dizer o livro. Realismo fantástico? De certa forma sim, de certa forma, não. Leia e conversaremos

Book Crossing

Ontem novamente encontrei o mendigo-intelectual que aparece sempre na rua com um caudaloso livro e escrevendo ele mesmo sobre o que está impresso. Sei de muitas pessoas que fazem anotações no rodapé ou nos espaços laterais respeitando sempre o que o autor publicou. Esse homem (cada dia ele me diz um nome) é muito mais ousado (e, acredito, muito mais criativo). Ele reescreve os livros, “dá uma força para o autor“. Sentei-me a seu lado e procurei ler o que ele escrevia e, para minha surpresa, era uma redação lógica – ainda que louca – mas que poderia estar impressa igualmente. Diz ele que não concorda com alguns livros – que eu saiba, não concorda com nenhum – e, pacientemente, vai reescrevendo-o em partes ou no todo. Não pede dinheiro nem anda embriagado, sua droga é esse tipo de literatura que ele absorve e, simultaneamente, produz. Verdade que ele não fala muito, absorto em seu trabalho. O que me pergunto sempre é como (ele) escreve tanto e os jovens – grande parte deles – não conseguem fazer uma mísera e simples redação escolar!

Vez por outra esse homem me conta histórias, diz que não é do Rio de Janeiro (e outras vezes diz que não é do Brasil) e não gosta muito de conversar, mas que sente simpatia por mim, pela minha atenção com seu “trabalho”. Já perguntei porque ele não escreve num caderno com folhas em branco onde poderia criar o que bem entendesse, mas ele argumenta que não, que sua missão é corrigir informações imprecisas ou “sem criatividade” já impressas anteriormente. Para maior surpresa ainda, revela que, ao terminar suas anotações, deixa o livro em qualquer lugar para que outros o encontrem e leiam o que ele escreveu. Ou seja, diante dessa aparente loucura, ele participa do Book Crossing - movimento internacional em que pessoas deixam livros em locais públicos para que outros encontrem e a cultura e informação circulem mais democraticamente!

E isso acontece aqui, no Centro do Rio, próximo à Lapa. Ou seja, creio que a sociedade deveria dar mais voz à população das ruas, aos que vivem à margem, porque muitos deles (a maioria) cria métodos de sobrevivência e de ocupação de seu tempo que não seja, necessariamente, esmolar.

Revisitando nossos Autores

Não pretendo fazer resenha de livros por vários motivos – o principal deles: não ter competência para tal. Mas sinto-me obrigado ainda a falar rapidamente da “Crônica da Casa Assassinada” de Lúcio Cardoso, que releio, como disse, com alguma freqüência. E por quê? Porque esse caudaloso romance se passa numa fazenda em Minas Gerais, um lugar mágico onde parecem reunir-se todas as tragédias humanas. O tom de todo o livro é claustrofóbico, personagens doentes, arrogantes, loucos – e desses loucos que contaminam tudo. A fazenda e as pessoas em questão me remetem a “O Castelo” de Kafka, a ‘Fim de Jogo’ de Beckett ou a ‘Crime a Castigo’ de Dostoiévski com pitadas do mais sórdido de Nélson Rodrigues. Pode parecer um certo exagero, mas quem conhece o romance sabe do que eu falo.

A verdade é que, em geral, conhecemos pouco nossa literatura, conhecemos pouco a genialidade de autores que passam ao largo de Guimarães Rosa, Jorge Amado, Veríssimo e esses outros igualmente famosos (e igualmente geniais). Lúcio Cardoso se insere nessa galeria de autores que souberam criar um universo doentiamente mágico, ainda que decadente, da sociedade. A abrangência com que pontua, a profundidade emocional de seus personagens não fica a dever nada a ninguém. Seus livros não estão entre os mais vendidos, não se fala dele nem nas faculdades de Letras e os blogs que se referem eventualmente a livros igualmente o descartam. Mas não é por falta de genialidade em seu trabalho, por falta de persistência em buscar o que há de mais fundo (e secreto) nos homens. É falta de conhecimento.

Temos uma cultura errada, chinfrim, que “ensina” a cultuar autores de hoje ou clássicos (muitas e muitas vezes bolorentos!). É preciso revisitar a galeria de autores nacionais, deixar um pouco de lado o modismo de Clarice Lispector e afins e ir fundo no que existe de importante, de sério (não que os outros não sejam) em nossa literatura. É preciso menos odes a Machado de Assis e uma releitura maior de Lima Barreto, por exemplo. É preciso, por fim, olharmos para dentro, para o Brasil, para o nosso umbigo e percebermos o que há de importante, de impactante, não só na literatura, mas na cultura nacional.

Francis melhor nos jornais

Sim, “Carne Viva” de Paulo Francis é bom. Apenas isso: bom. Francis é muito melhor em todas as suas crônicas, nas opiniões certeiras que nos deixou, na sua irritação diante da burrice generalizada. Portanto, ter um livro (ou alguns livros – romances ‘bons’ é muito pouco). Claro que todo mundo tem direito de escrever seus romances, todos podemos nos aventurar nos caminhos tortuosos da literatura. Mas nem sempre vencemos. Nem o Francis.

Deuses e Personagens

Sem dúvida existe o momento em que paramos e olhamos para nós mesmos. A visão nem sempre é agradável, nem sempre desperta carinho. Em nenhum momento deixamos de ser caçadores, em nenhum momento deixamos de correr porque, igualmente, somos caça. A única forma de reinvertar-se, de reinventar a vida é através da arte, da literatura. Não por causa de uma certa erudição tolinha, jeka, mas pela possibilidade de conviver com situações e personagens iguais a nós mesmos, mas que não somos nós, que foram pensados por outras pessoas. Uma das dificuldades da vivência plena é a culpa de pensarmos a vida, dela ser conseqüência dos nossos atos. Personagens nos retratam, mas são personagens (o que alivia a culpa metafísica, a persistência atávica no erro cotidiano). Nem todos os personagens são interessantes da mesma forma que nem todos nós somos interessantes. De qualquer maneira temos a opção de perseguir reações de personagens e fazer a vida imitar a arte. É o paradoxo da arte existir porque existe vida e a vida existir porque reflete a arte.

Já tentei mais de uma vez fugir de ambas as possibilidades e criar uma vida minha, exclusiva, completamente solitária (e, portanto, mais realista), uma vida em que os valores e equívocos são observados apenas por mim, onde o tempo não existe e não faz falta, onde valores são revistos e novos conceitos entram em jogo como numa brincadeira com espelhos. É uma opção interessante (Thoreau já provou isso no magnífico Walden), mas que raramente dá certo porque o homem, ser humano, se agrega, se integra não consegue conviver muito tempo consigo próprio.

Esse tipo de dilema não é novo. Mas o que parece que são os autores, ao escreverem suas obras, que encontram um meio termo: conseguem sair da vida comum, de uma suposta ‘realidade’, conseguem igualmente afastar-se de um EU que não interessa em nada na medida em que está idealizando EUS outros, que nem ele é capaz de ser. Claro que é louco você idealizar alguém que você mesmo, criador, não consegue ser. Por isso sempre acreditei que os deuses devem ter inveja dos humanos e de todas as formas de vida porque somos o que eles não conseguiram ser.

Carne Viva – Paulo Francis

Chega enfim o último romance escrito por Paulo Francis (estou nas primeiras linhas) - (1930/1997) – Carne Viva - Li todos os romances de Francis, todas as biografias, todos os “dicionários”, todas as reportagens em livro, todas as memórias. Francis, sem dúvida, é um divisor de águas no jornalismo do Brasil. Um homem à frente do seu tempo, ainda que contraditório. Francis representa toda a cultura, informação e impaciência que um homem pode ter. E um homem só pode ser importante ou mesmo genial, à partir da sua impaciência. Um homem só pode pensar quando solta as amarras de toda a cultura ocidental, imposta por meia dúzia de “salta-pocinhas”…. quando caem por terra “teorias”, quando afloram a falência dos eruditos, da “inteligência”. Dá pra entender? Não? Ok. A contradição de Francis é tão somente a contradição humana, a revolta contra a ignorância, contra essa coisa que chamamos de “cultura”, mas é tudo mentira de todos esses “leitores de orelha de livros”, de todos esses que apresentam títulos conquistados em faculdades de quinta categoria. Volto a falar do último romance do Francis mais na frente (ou não digo nada).

Sétimo Selo

Algumas dúvidas me assolam imediatamente após a última linha do último livro de Roth. São as mesmas dúvidas de sempre, embaladas com a qualidade de um bom texto literário. É um existencialismo despojado de filosofia e transformado subitamente em arte maior, em narrativa vivenciada na imaginação do autor maior quando seu alter ego envelhece com as agruras de quem retirou uma próstata cancerosa e reencontra amigos todos eles muito doentes ou mortos. Como se estivesse num outro mundo, como se todos os caminhos indicassem que ele, igualmente, deveria “sair de cena”. E, à medida que avançamos o romance, avançamos em idade, no dissabor da velhice e toda a sua desgraceira que nos aguarda sempre em cada esquina. Esquinas que não podemos evitar, espaços-tempo que não deixam atalhos ou encruzilhadas. Olhamos fixamente em frente e nossas pernas têm um caminhar autônomo que foge e ri da nossa tentativa de parar. Seguimos como quem segue preso a trilhos de uma montanha russa controlada por um deus sacana, velho, feio e doente, prisioneiro de uma psicose que ele mesmo criou. O homem segue embalado não mais por cantigas de ninar, mas pelo som indescritível soprado com hálito podre pelas bruxas ancestrais como que fugidas do Sétimo Selo com toda a sua peste e pestilência. O homem continua escorregando, buscando agarrar-se a alguma coisa que o salve, que diminua a velocidade da queda e percebe que não há nada em volta. Pessoas são apenas fantasmas que riem impregnados por suas condições do que “não são”, passaporte para a salvação de suas almas que nos deixam escorregar sem pena, olhando nossos olhos arregalados de pavor. O mundo é um pavor, é fruto de todos os pavores de nossas mentes que não tiveram oportunidade de optar desde o início do tempo.

De novo….Roth

Sai mais um romance de Philip Roth, “O Fantasma sai de Cena”. É muito difícil falar de Roth porque ele é o melhor autor americano moderno e seus livros surpreendem e se superam sempre. Um Flaubert da nossa era. Um Dostoiévsky mais contido… Mas dessa vez Roth vai longe demais: seu alter ego Nathan Zuckerman, um escritor judeu (como Roth) está velho… está impotente e com incontinência urinária desde que retirou a próstata com câncer… E esse homem que estava escondido há onze anos no campo retorna à cidade por uma motivação tola e encontra uma sociedade que ele praticamente esquecera. E encontra escritores jovens e impetuosos como ele fora, encontra uma mulher por quem se apaixona (apesar da impotência)…. Enfim, certamente no final do livro (que ainda não cheguei) ele morrerá… e com ele morrerá uma parte de Roth. Vale à pena

Confesso

Eu vou contar depois porque está uma barafunda minha cabeça com a quantidade de livros que estou lendo ao mesmo tempo já que não me resta espaço na agenda para ler um de cada vez. Mas é delicioso o “Verdes vales do fim do mundo” de Antonio Bivar (que li há tanto tempo atrás que praticamente não o reconheço).

Igualmente, mas agora novidade mesmo pra mim é esse do colombiano Fernando Vallejo com seu “O despenhadeiro” Punk. Desses livros que a gente não larga, que a gente se sente meio dentro dele, personagem do personagem, não levando, mas dando socos em estômagos fúteis. Imitação de uma espécie de percepção coletiva niilista latina (que é diferente das outras). A poesia da dor e da Aids que não existe, porque a Aids, como ele diz, é o passar dos anos da vida. Ah, Colômbia, ah, minha América tresloucada, travestida de região onde moramos todos nós, índios e descendentes de europeus da pior espécie. Por que não nos deixaram índios, porque não nos aproximaram da África de maneira diferente de forma a que aprendêssemos ao invés de escravizarmos?! Êta continente inconseqüente que pariu essa nação partida de loucos, de covers, de maiorias que sentem-se minorias, gente louca, com pimenta, mas sem destino, sem radar, gente que se reproduz e esses meninos de onze anos nos assaltam e nos matam em troca de um celular… Afinal, quem sabe da verdade, quem distingue a loucura, quem são os médicos e quem são os pacientes, ma fala meu Deus, mesmo a mim, esse ateu confesso que é justo contigo, que não te engana.

As voltas que a cabeça dá

Feriado prolongado e mouse quebrado, que situação! A livraria não entregou os livros que solicitei, livros que deveria ter lido há vinte anos atrás. Agora, por acasos da vida, sei que eram importantes e não os conheci na época apropriada. Em contrapartida, conheci outros e os que falam comigo sobre aqueles também não leram os que eu li. O velho dilema de que a vida é muito breve para lermos tudo o que desejamos (e o que não desejamos também). Fazer o quê? Tentar recuperar tempos perdidos ou utilizar melhor esse tempo. Talvez escrever (retomar a escrita) de projetos maiores do que um blog. Talvez comentar mais no espaço de K. já que ela me pede para ser levada (não, não levada assim – que isso ela já é, ser levada por mim). Ou talvez não comentar nada e mandar algumas cartas diretas para ela e impublicáveis - não necessariamente pelo que possam estar pensando.

O mercado editoral brasileiro vai de vento em popa apesar dos preços extorsivos praticados, deixando a maior parte de população sem acesso à leitura. Parte do meu minguado salário fica em livrarias mensalmente. Todo mundo que lê separa um considerável montante de dinheiro para as livrarias. Os sebos no Brasil são muito fracos (um dos melhores, no edificio Central, fechou). Sim, já percebi que estou colocando frases soltas, reflexo de uma cabeça desconcentrada. A concentração é uma forma de “efeito colateral” da paz de espírito e meu espírito nunca esteve em paz (creio que jamais estará). A véspera de feriado também me leva a madrugadas em bares da Lapa, a delírios mais ou menos etílicos diante do paradoxo do saudosismo. Entenderam?

 

Pessoa

Pela manhã estive com o grupo dos meninos de discussão de literatura. O entusiasmo é grande com os novos textos encontrados no baú de Fernando Pessoa (que morreu inédito). Parece que nunca termina a descoberta de textos do autor. Juntando tudo (do material conhecido) vai nascendo a certeza de que Pessoa levou toda a sua vida num processo de criação feérico, devotado dia e noite à produção dessa caudalosa (e maravilhosa) obra literária. Se reler Fernando Pessoa é um deleite, imagine saber que sempre estão aparecendo mais inéditos do autor! Estranhamente, parece que os eruditos não se dão conta de que o conjunto da obra do autor português faz parte (sim!) dos clássicos universais. E nossa discussão de hoje foi justamente em torno dessa questão: o que é um clássico e porquê Pessoa não é um clássico? Ou é e não se dá o crédito devido? Existe um tendência tolinha de achar que a produção literária moderna é distanciada do que se convencionou chamar cultura universal. Isso é tolo demais, é não perceber o amplo movimento intelectual moderno. É fechar os olhos para o presente.

Jota Efegê

Existe um momento. Existe um momento em que estou nas encruzilhadas da vida. Das muitas vidas. Do sonho que se parece vida e da vida que parece sonho. De lá pra cá e de cá pra lá. Nesse momento, estimulado por um amigo, estou na placenta de um Brasil miscigenado e malemolente, de cores e sons, aromas e gostos. Um Brasil plural. E reconheço que não tenho olhado as coisas por esse prisma, tenho focado elementos estanques que me agradam ou me desagradam. Talvez, em busca de uma cultura num sentido mais amplo tenha me internacionalizado demais. Por outro lado, é necessário. Se não me atenho a esse Brasil multifacetado é porque a globalização está presente em cada passo, em cada pensamento ou informação. E o clássico não se resume a Machado de Assis. Ganhei de presente dois livros de uma amiga. Livros que já tive, li e adorei, mas que, nas minhas várias mudanças se perderam. Pois bem, os tenho novamente: “Figuras e coisas do Carnaval Carioca” e “Meninos, eu vi” de Jota Efegê. Trata-se de um sábio genial porque consegue ser simples em sua narrativa, visão, em suas observações. “Meninos, eu vi” é uma aula de crônica, de jornalismo, de emoção. Trata desde o cinema americano até as festas da Penha. Com sua gravata borboleta, Jota Efegê, corajosamente, abriu caminhos (como o fizeram João do Rio, Antonio Maria, Paulo Mendes Campos e tantos outros) árduos, caminhos não aventurados. Hermínio Belo de Carvalho me mostrou orgulhoso, em seu acervo particular os óculos de Jota, do Mestre. Eu era meio ‘criança’ ainda e talvez não tenha dado àquilo seu real valor. Aliás, eu conheci muita gente, passei por muitas pessoas e situações sem ter ainda a noção da importância de cada momento, de cada coisa que me foi revelada. Sempre sonho e me imagino retornando a momentos da minha adolescência com a visão de mundo que tenho hoje, sonho fugaz e impossível. O tempo é meu devedor. Por isso minha eterna angústia com a aridez “pós moderna”, com os dias de hoje, com a falta de coragem dos que não colocam suas caras à tapa em erros e acertos, mas sempre em produção. Acho mesmo que é chegada a hora. Se não queremos viajar para os clássicos da Humanidade, que nos debrucemos sobre nossas velhas repúblicas, nossa História, nossos movimentos, nossos parangolés, mistura nativa e influências de tantos povos, tantas culturas. E acrescente Jota Efegê.

A estética dos livros, a burrice humana e o repúdio

Às vezes coisas se misturam, se fundem, se atravessam de uma forma bacana porque dessa fusão resultam obras interessantes tanto ética como esteticamente legais ou mellhor: fundamentais como oxigênio. Eu tava discutindo determinados livros com um grupo e rolou uma certa resistência, discordância do que eu estava dizendo. As pessoas entendem a questão estética somente no que é visível, na composição de elementos em todas as artes. Não é verdade. A carpintaria da literatura talvez seja exatamente a que agrega a maior necessidade da composição estética e é bom que se reflita bem sobre isso antes de negar. Entendo que todos os grandes livros, os autores legais (ou sabidamente importantes) têm uma visão estética na composição da obra igual ou maior do que a de um produto de cinema ou de televisão por exemplo. Claro que cinema e televisão – teatro – são arte, obra de artistas. Óbvio. Mas imagino que o diretor de qualquer tipo de produto audiovisual esteja automaticamente preocupado com a estética – ou deveria estar, né? – enquanto o escritor parte do nada, de uma folha em branco. Não conta com bons atores, equipamentos ou efeitos visuais. O escritor carrega o mundo nas costas. À partir do nada absoluto – nada absoluto! – ele cria ambiências, personagens, tramas, lógica (nem sempre percebida pelo leitor). O escritor e o poeta são os únicos que procuram descrever o amor, o ódio, a morte, a culpa… Não existe sociedade sem livros. Pessoas não crescem sem livros. É na literatura que encontramos a base do existir, a possibilidade de entender-se, recriar-se até - se for o caso. E querem me dizer que o escritor não tem responsabilidade estética? Não só a estética como tudo nasce de um livro. Inclusive Deus.

P.S. Repudio o Dia da Mulher, do Índio, do Negro etc. Isso é discriminação! Mulheres, negros e índios não diferem em nada. Todos são seres humanos iguais! (Particularmente acho as mulheres mais inteligentes, capazes e aptas… melhores no todo…)

A pior invenção humana: O Tempo

Acho que sou meio ganancioso porque tenho tantas e tantas expectativas na vida que, ao mesmo tempo, sei que o próprio tempo não me permitirá realizá-las. Tenho 52 anos e se eu morrer hoje, vou morrer danado porque não fiz isso e aquilo, mas se eu morrer com cem anos, igualmente, irei desta (para qual?) reclamando e blasfemando contra Deus por não ter me dado mais tempo. Ok, vão me lembrar que sou ateu, mas não interessa porque na hora da morte só se pensa em Deus (estou apenas me adiantando, sem alterar minhas convicções de hoje – a formação sartriana e existencialista adquirida na minha juventude não me deixa – principalmente A Naúsea). Sim, sim e sim, não precisam dizer das minhas idiossincrasias nem muito menos na minha ansiedade (trato de tomar calmantes ou um chope pra relaxar) Pelo menos procuro ser claro e objetivo (mesmo quando essa objetividade se perde em elocubrações onde até eu mesmo me perco). Não interessa no momento. No momento é assim, pensarei em amanhã, amanhã. Aliás, voltando, sempre travei uma surda discussão com o tempo simplesmente porque não acredito nele, foi invenção de um demente qualquer pra angustiar a humanidade. O tempo existe por um lado, mas não existe por outro, quando estamos tratando de coisas outras, quando estamos voltados para nós ou quando trabalhamos intelectualmente ou quando nos divertimos. Tempo? Bah! Tento apenas fazer (e não estou falando do trabalho formal) estou tratando do “fazer” para mim, para minha realização metafísica. Ok, sou metafísico porque não estou simplesmente nessa dimensão, estou em várias, como nesse momento estou na virtual e em outras situações me enfio no Aleph. E é por isso também que vivo atracado com Calvino principalmente nas Cosmicômicas e no ‘Se um viajante numa noite de inverno’. Mas acho que são coisas difíceis de explicar aqui, principalmente agora. Agora eu tenho na minha frente a pior invenção do homem: um relógio! Há muitos anos atrás escrevi uma história que virou mini série para o Flávio Migliaccio quando ele fazia o Tio Maneco na extinta TVE, que era exatamente sobre um velho de barbas brancas que encarnava o tempo e se metia em tremendas confusões… Enfim…

O engodo da internet

Enfrento graves problemas nos grupos de discussão por causa da internet, do Google. Percebo um número maior de pessoas deixando os livros de lado e caçando resumos vários no Google. Essa ferramenta sem dúvida auxilia as pessoas em determinados momentos expecionais onde a velocidade da informação de faz presente. Mas reparem que não é isso o que acontece. De alguma maneira é mais do que óbvio que a internet agrega valor e conteúdo numa vasta população de usuários. O problema é outro: é que fica tudo nivelado por baixo, o usuário passa a conhecer coisas e obras, mas de forma telegráfica. Até porque quando a pessoa que colocou aquela informção ali fez por um motivo específico que, naquele momento, poderia ser bastante. Isso difere muito “daquela informção” tornar-se referência para milhares de pessoas dando-lhes a falsa impressão que “conhecem” a obra ou o assunto. Sempre repito que a cultura é muito cara e fica evidente que a massificação de cultura via internet não dá certo, engana, ilude. Creio então que o uso de computadores para estudantes, sem dúvida, é mais do que necessário, mas é idiota achar que, de alguma forma a internet, substitui os livros, os professores e mesmo a convivência acadêmica.

Diários, Carnaval e cama

Para minha enorme surpresa, ontem à tardinha três pessoas que estudam literatura e fazem parte do grupo de discussão me telefonaram perguntando se podiam dar uma passada rápida na minha casa. Sim, eles combinaram entre eles e me ligaram depois. Lembrei-os que era segunda feira de carnaval, que a chuva tinha parado. Dois deles apenas iam a uma festa carnavalesca, mas queriam passar aqui. Ok, vieram. O motivo foi surpreendente: viram no blog que estou lendo os diários de Sylvia Plath e cada um dos três comprou um volume para que pudéssemos discutir. Por fim chegaram e nos acomodamos tomando um pouco de vinho branco (que ganhei semana passada). Eles foram diretor ao assunto: Sylvia tinha depressão crônica, cada página de seu diário é uma tristeza, uma depressão só. Bom… comprei antes e estou mais adiantado na leitura, mas tive que concordar. Sim. Depressão do início ao fim do dia. Não foi o marido dela que a ’sufocou’ com seu sucesso, foi ela que não suportou o que ela mesma chamava de seu fracasso. Claro que tem muita coisa pra ler ainda, um livro de letras miúdas e oitocentas páginas. Mas você pode abrir em qualquer página, qualquer época que ela está lá reclamando do “nariz entupido”, da falta de ânimo, falta de vontade de dar aulas, angústia com os alunos, angústia com as revistas que não aceitam sua poesia, angústia com o tempo. Um dos meninos objetou que sempre lera que ela não resistiu à forma agressiva-literária do marido, mas não é o que ela revela no diário. Se ele foi agressivo (e foi), muito e muito antes, ela já estava completamente deprimida. É uma depressão tão forte que contamina enquanto estamos lendo. Ela sofreu muito nos seus trinta anos de vida e, por falta de tratamento adequado, seu suicídio deve ter sido uma benção. Um outro menino me perguntou se eu não achava que a paixão de Ana C. por Sylvia não era mais pelo seu modo de ser (uma espécie de estranho ‘glamour’ da depressão) do que propriamente por sua poesia. Fiquei muito inclinado a concordar com ele, mas achei imprudente e respondi com um ‘Talvez’. Um terceiro me disse que a obra de Ana C. é melhor e maior que a de Plath e devolvi-lhe a pergunta : o que poderia, de que forma, uma poesia poderia ser melhor do que outra? Sabia que minha resposta era ridícula. Muito poucos jovens gostam de estudar pra valer, mas o que gostam, nossa, sai de baixo. Procuro tomar cuidado com esses meninos, muito embora eu não seja professor (quem sou eu?). Eles querem me mostrar as coisas, me mostrar que estão interessados pelas coisas, que estão lendo e estudando (e é tudo verdade). O problema é que eles não sabem exatamente por onde começar, quais autores escolherem por vez e essas coisas muito comuns da juventude. Nisso talvez eu ainda tenha alguma coisa a acrescentar, mas tenho consciência que será por pouco tempo, que se eu tivesse bastante tempo de vida, em breve, eles estariam me orientando tranqüilamente. Acho isso muito bom, reconfortante. Às vezes a juventude (com suas características de juventude) me irritam muito – e aí é culpa minha de não saber compreender, claro – mas, como disse, existem grupos que botam pra quebrar e fico feliz por eles, por entender que, de certa forma ele irão muito mais longe do que outras pessoas: eu, por exemplo.

De toda a forma não chegou a ser uma discussão séria, conversamos um bocado e, findo o vinho, dois deles disseram que iam curtir o carnaval e o terceiro disse que ia ao cinema. Logo, eu estava sozinho (com o Artur, é claro) e, meio indisposto, fui assistir uma comédia água com açúcar na televisão… Depois começou um outro filme, mas não consegui, peguei no sono.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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