Escrever a gente escreve qualquer coisa. Ler também. Difícil é perceber o que se está querendo dizer verdadeiramente. Principalmente quando escrevemos uma coisa querendo dizer outra. Acontece muito por aqui. Aliás, sempre aconteceu. Mas não ocorre apenas nas coisas escritas mas também nas faladas. A maior dificuldade do ser humano é fazer-se compreender. Existe uma espécie de “pé atrás” em quem lê e escuta, meio que esperando sempre um deslize, um exagero, um falha qualquer para renegar todo o conceito que foi passado. Incongruências humanas…
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Parece que existe uma busca imponderável do que é. Ou do que deveria ser. Ou do que imaginamos que seja. Mas é como andar numa floresta à noite. Vem a frustração de quem anda em círculos (porque ainda não se deu a verdadeira importância ao “andar em círculos”). Não nos damos conta, muitas vezes, dos ritos de passagem, de como estamos mudando, como o universo muda à nossa volta e como o que nos “parece novo”, chega. Não existe “novo”, no máximo o novo “para nós”. Mas tem mesmo essa doce e inocente expectativa do novo. É como canja, não faz mal a ninguém. Vivenciar o que conquistamos ou o que chega de surpresa. Isso. Ia falar de outra coisa e me perdi. Outra hora, talvez. As horas… as horas…
O dia enfarruscado faz-me lembrar de ti, do campo de pasto ao gado, das nuvens muito baixas ao amanhecer, dos cães brincando pelos quintais, do orvalho ainda presente em todas as flores. Na roseira com as rosas abrindo-se e (para meu espanto), enormes. Tudo era novo para mim naquela época em que acreditei ser possível mudar, alterar tudo, rever todos os conceitos até ali. O dinheiro não era farto (nunca foi), mas não me faltava e comíamos um queijo tipo Minas feito na fazendola ao lado. Achei que tudo era possível.
O mundo tinha outro cheiro e outra cor, os achaques da cidade tinham me abandonado todos, como encanto, a telefonia e as antenas eram um luxo que não me faziam falta porque meu mundo era outro, havia a lareira, o crepitar da madeira queimando nas noites frias onde preferíamos dormir na sala bem perto ao fogo. Nunca pensei se tudo era possível ou não porque o presente me bastava de sobra e eu buscava não olhar o futuro como se, não olhando, ele não chegasse.
Não, não havia má fé, em nenhum momento pensei em ser mais ou menos esperto em nada e tratava de cumprir com minhas obrigações de maneira firme, mas extremamente calma. No lugar de álcool, preferia o chocolate quente que preparavas para mim e que tomávamos rindo com a brincadeira dos gatos que se tornaram tão amigos. Não podia mesmo haver amanhã. Esse amanhã era apenas um novo céu vermelho e minha contemplação silenciosa de como dormias nos cobertores.
Quando chegou o dia em que me levantei (bem cedo, como de costume) e lá estavas sentada na varanda, quase escuro ainda, a névoa ainda longe de dissipar-se e teus cigarros ansiosos (que acendias um no outro), me dei conta de que havia chegado o momento que eu sabia que viria, mas que sempre guardei numa gaveta do inconsciente.
Foi nesse momento, após essa conversa, que algo partiu-se em mim, algo tão violento e profundo que, na hora, não me dei conta. Mas sim, foi à partir daquele momento, à partir daquele fim de sonho que acordei definitivamente para o que chamam limbo. Verdade que, assustado, demorei a me dar conta de tudo o que estava acontecendo e das conseqüências futuras que foram um eterno mergulho numa noite estranha, sem sonhos nem esperanças – simplesmente expectativa do pânico.
buscar as possibilidades da longevidade (e esse conceito de longevidade é tão fugaz…) ===> falamos com pessoas, procuramos entender todas as coisas disponíveis e as indisponíveis. faço-me entender mais pelo não dito do que pelo explicado minuciosamente. a chuva cai eternamente, não parando um segundo. imagino então a chuva caindo no meio do mar, durante a noite. água sobre água, nenhuma visão, apenas uma sensação de desconforto do próprio planeta, alguma coisa indistinta para os que não optaram por serem marujos. o marujo é um ser mítico, meio homem meio peixe, meio valente, meio suicida.
olho o mar aberto quando olho para dentro de mim, quando estou nesse estado de contemplação não do que é a vida e sim do que sou eu na vida, nas possibilidades que criei e nas que afastei, na explosão do momento cego, na virtude que não é, na percepção fragilmente humana, na dor da saudade antes da hora, saudade de antemão. e surpreendo-me ao ver que essa saudade não é exclusivamente minha, que é uma saudade de um todo humano, que a humanidade já sente falta do que ainda não deixou de acontecer, de estar presente. alguma coisa como a angústia não por despertar, mas pelo que poderia ter sido um sonho.
está em tudo e em todos uma percepção das coisas que poderiam ter sido – e não foram, impressão que seria igualmente percebida ainda que tudo fosse o contrário do que é/foi. os ônibus avançam bravamente sobre as poças d’água e fico admirando o tamanho das rodas dos veículos coletivos, como se elas fossem capazes de explicar um pouco a questão do paradoxo da supremacia.
Preciso escrever alguma coisa. todos nós, em algum momento, precisamos escrever alguma coisa. sento-me à escrivaninha e deito a deixar impressões em meus cadernos de rascunho, meus diários de bordo. escrevo um pouquinho sobre a vida, sobre os equívocos, sobre o que acho justo e injusto. mas é assim mesmo, muitos becos sem saída. existe algo errado nessa história toda que se desenrola na minha cabeça. muito errada mesmo. por enquanto, procuro me analisar o máximo possível para entender o que há de errado. de certa forma, “alguma coisa acontece no meu coração”. mas as coisas não acontecem todo o tempo no coração das pessoas? então, qual a novidade, qual a estranheza? não sei dizer. não sei se saberei.
“a gente mal nasce, começa a morrer…” só os poetas (e grandes poetas) dizem verdades. por mais óbvias que pareçam, por mais que que não nos demos conta, um livro de poesia é uma enciclopédia mais completa que a mais completa das enciclopédias. pedras que rolam, vida que rola independente da minha vontade (e da de todos)… rolam porque sim, por têm que rolar… mas não é bem isso….isso é só uma introdução fraca e frágil, nada inspirada
Num mundo de verdades e de sonhos onde não sei o que é mais verdade ou mais sonho, até porque não passam de conceitos, vou me perdendo daquilo em que fui adestrado para ser. Não sou mais, portanto. Sou outro, de certa forma leviano culturalmente, que se entrega a textos “baixos”, que se permite adornar com letras que não dizem mais nada, que expressaram num tempo outro, uma verdade que se provou mentira e num momento que, de fato, nunca existiu, um momento que faz muito mais parte de uma história própria “inventada” do que aquilo que os outros chamam realidade. Faço-o propositalmente, exatamente na busca de uma aventura que se dispersa, se esfarela com o tempo, com o passar dos dias, meses e anos. Não sei onde tudo isso vai dar, onde essa perspectiva meio assanhada de um intelecto já meio carcomido entrega os pontos para o que pode ser inventado. Sou muito mais inventado (por mim e pelos outros) do que um espermatozóide crescido. Os fios brancos que nascem em meu corpo alertam não exatamente para o convencional passar do tempo, mas para a possibilidade outra de reinventar alguma coisa – não sei o quê – que seja menos caricata como tudo o que há na vida. Se a vida é um amontoado de máscaras caricatas, dessas que se compram em lojas de produtos carnavalescos, busco então a máscara de Gênova e arrabaldes, berço de um carnaval bem comportado que, certamente, me agrada mais. Percebo, com espanto, que sou o contrário de um Macunaíma, que me encontro prisioneiro da “Crônica da Casa Assassinada” de Lúcio Cardoso – que releio sempre em busca de uma redenção perdida porque não somos personagens exatos de uma obra fechada, mas de uma obra em construção, em movimento. Mesmo sabendo que essa “possível obra” terá um final do qual não escaparei, ainda assim vou de um lado ao outro, percorrendo meu corpo e minha rua, teu corpo e tua rua admitindo que não finalizamos ainda, que esse ou aquele autor poderão alterar sentimentos e situações que se refletiram em mim ou nas coisas que observo ou que me observam.
Os bares, na verdade, não me dizem nada, como, de certa maneira, nada exatamente me diz nada e tudo me diz tudo como a mostrar que não há um porto seguro, não há uma situação de calmaria onde eu possa “ancorar” meu barco cansado. Não. O que há é um oceano à minha frente que clama para ser atravessado, para que eu veja as bordas do mundo, se a água por lá escorre para o espaço ou não. Essa é a maneira encontrada por aquilo que chamam destino de fazer eu me aventurar mais e mais em caminhos e descaminhos que deixam marcas profundas no meu espírito (Sísifico), forma de fazer com que eu me enamore por objetos marinhos (como se marinhos não fôssemos todos nós). Prefiro terra firme ao mar e ao ar, e nem por isso deixo de navegar e voar. Um vôo que não é só meu, que é de um grupo, de uma classe, de um gênero. Vou me diluindo nessa multidão, nessa massa amorfa que me dizem povo, humanidade ou sei lá o quê. Sei que não é bem assim, mas, como não tenho a definição exata, aceito o que me dizem enquanto ainda estou nesse quarto de formas inexatas, com perspectivas vãs em busca de uma redanção que não virá, bem sei.
Todos nós seguimos caminhos tortuosos em nossas relações de bem querer. Nem sempre as coisas rolam de cara como esperamos. Nem sempre nada é como deveria ser (ou achávamos que deveria ser). Mas, como a água, o sentimento escorre, procura pequenos canais, pequenas oportunidades de nascer e explodir. Essas explosões são a prova final de que sim, estamos certos quando percebemos alguma coisa em nós e no outro, alguma coisa não realizada e, aparentemente, impossível. Sim, há vida, desejo, carinho.
No meio do bobó de Camarão eu desbundei. Desbundei e fui pra Pasárgada porque lá (também) sou amigo do Rei. Segui caminhos, trilhas, atravessei desertos e aprendi que os oásis são realmente miragens. Me desfiz num vatapá que minha nega Teresa me preparou com o carinho de quem dá comidinha na boca de um senil e louco. A loucura se me avantajou ou me cresceu ou me diminuiu e eu não entendi o final da história. Fiquei, como Capote, refém de vícios e tantos e tantos babados que a vida me ofereceu. Desci ao Inferno de Dante e não encontrei o inferno, encontrei o raso, o cotidiano. E me desesperei ao perceber que Dante se enganou e morreu acreditando que entendera Antígona. Não. Nada. Passei pelo céu róseo de um amanhecer distante, de uma terra outra que não era esse meu Brasil, esse minha terrinha onde tomo uma pinga em meio aos enjeitados, às tribos que se confraternizam no fim da madrugada num delírio etílico-cultural. Fui e voltei. Fui nequinha porque o Caetano assim o disse e não se discute com poetas (e filosofar só em alemão). Saí na contra-mão de uma história que eu não escrevi, sequer imaginei – era apenas ferrugem no espelho do meu banheiro com suas goteiras indefectíveis. Me envieso por outro caminho, esse mais ‘encruzilhada’ do que antes, esse mais à esquerda (ou será à direita? Não sei). Toalha de plástico grosso e azul escuro, dessas que passamos sempre um pano duvidoso e parecem novamente limpas. Som de carnaval fora de época, gente que requebra e se rende a uma orgia que o tempo já levou há muito.
As voltas que a cabeça dá
Publicado 22/05/2008 Líquido , libidinosamente , livros & livros Deixar um ComentárioFeriado prolongado e mouse quebrado, que situação! A livraria não entregou os livros que solicitei, livros que deveria ter lido há vinte anos atrás. Agora, por acasos da vida, sei que eram importantes e não os conheci na época apropriada. Em contrapartida, conheci outros e os que falam comigo sobre aqueles também não leram os que eu li. O velho dilema de que a vida é muito breve para lermos tudo o que desejamos (e o que não desejamos também). Fazer o quê? Tentar recuperar tempos perdidos ou utilizar melhor esse tempo. Talvez escrever (retomar a escrita) de projetos maiores do que um blog. Talvez comentar mais no espaço de K. já que ela me pede para ser levada (não, não levada assim – que isso ela já é, ser levada por mim). Ou talvez não comentar nada e mandar algumas cartas diretas para ela e impublicáveis - não necessariamente pelo que possam estar pensando.
O mercado editoral brasileiro vai de vento em popa apesar dos preços extorsivos praticados, deixando a maior parte de população sem acesso à leitura. Parte do meu minguado salário fica em livrarias mensalmente. Todo mundo que lê separa um considerável montante de dinheiro para as livrarias. Os sebos no Brasil são muito fracos (um dos melhores, no edificio Central, fechou). Sim, já percebi que estou colocando frases soltas, reflexo de uma cabeça desconcentrada. A concentração é uma forma de “efeito colateral” da paz de espírito e meu espírito nunca esteve em paz (creio que jamais estará). A véspera de feriado também me leva a madrugadas em bares da Lapa, a delírios mais ou menos etílicos diante do paradoxo do saudosismo. Entenderam?
Olho a minha sala. As paredes, objetos, coisas. Minhas coisas. Esse monte de cacarecos que colecionei em meio século de vida. Eventualmente foram mesmo sonho de consumo. Hoje não são nada, estão ali, imprestáveis. Pilhas de folhas de papéis manuscritos, uma caneca azul, um telefone sem fio que não funciona mais, uma quantidade de canetas muito maior do que a minha real necessidade. Uma cafeteira e maços de cigarro Marlboro espalhados aqui e ali. Uma rã de pano que a faxineira me deu de presente (e já contei aqui essa história: essa mulher não é apenas uma faxineira, é a pessoa que organiza e cuida de tudo para mim). Uma imagem de São Francisco (sim, estilizada porque sou ateu). Tenho simpatia pela imagem de São Francisco, não por sua história, mas realmente por sua imagem embora me desagradem aqueles passarinhos todos que deveriam cagar toda a sua roupa. Desagrada-me imaginar um São Francisco com vestimentas cagadas por pássaros. Deve ser uma tolice minha: pássaros não podem cagar em santos. Minha sala. Parede azul e parede branca. Chão de ladrilhos. Livros lidos e livros aguardando. Queijo ralado, leite e cerveja na geladeira. Observo atentamente e acho tudo tão sem importância… Coisas não são importantes. Pessoas são importantes, mas pessoas morrem. Quando eu morrer a vida vai continuar aí para os jovens, os sortudos, os saudáveis, os que nascerão? Não sei. Porque a vida é minha. Fui eu que juntei a tralha na minha sala é esse meu pulmão baleado que respira e, através de lentes corretoras, são meus olhos que observam a beleza e a tragédia dos homens. Se eu não existo, não posso ver e vivenciar a vida. E se não sou, não existe vida. Entretanto, não me convenço com uma filosofia tão barata. Outros, antes de mim viveram essa mesma vida: morreram e a vida continuou para mim. Ou seja, a vida não é minha, embora seja a minha vida. Talvez eu seja um passageiro numa espécie de rio e quando este chegar ao mar eu não estarei presente porque estar vivo representa “descer o rio”. Simplesmente. Por outra: talvez eu seja um peixe vivente num enorme cardume que um dia, sem mais nem menos, serei pescado pelo anzol de um menino de doze anos. Um peixe de águas rasas porque um peixe de regiões abissais seria alguém muito saudável que morreria de velhice. Se eu estou delirando? Certamente… e quem não delira? Resta-me então nadar, observar plantinhas e ver as pedras que rolam no fundo do rio, rolam tanto que terminam achatadas (mas continuam pedras)
Isso aqui devia se chamar Incompletudes
Publicado 03/03/2008 Líquido , Os dias... , liberdade 2 ComentáriosO terreno espacial é de trovoadas e chuvas ácidas. Chove canivete, mas ando de capacete (frágil). Me refugio nas tentativas de ter idéias e escrever alguma coisa que fale algo de mim e dos outros. Confesso que não tenho conseguido diante da minha desordem espiritual, do bloqueio súbito dos meus dois neurônios. Quero seguir em frente, num caminho ou estrada, mas rendo-me ao metafísico (que sou). Minha parede mágica me diz que devo perseverar e me preservar (como?). Minha parede mágica gosta de me pregar peças, é um oráculo chinfrim que me orienta por metáforas. – E eu detesto metáforas – Portanto, alguma coisa me impulsiona (não sei realmente para que lado) e vou deixando as coisas me levarem. Se é proveitoso ou não? O tempo dirá (maldito tempo! Abri guerra com o tempo.). Resta-me entender os silêncios, os que me abandonaram no meio do caminho e concordar que, se o fizeram está bem feito. Nenhum rancor. Afinal, quem não me tem apenas está perdendo (calma, é brincadeira). O coração bate em descompasso, as idéias se misturam criando uma forma incompreensível e eu deixo tudo de lado e trato de olhar apenas para dentro de mim (e não para meu próprio umbigo), trato de buscar em mim as respostas que procuro no éter. Possivelmente, eu sou o éter. Sou fluído, sinapses seriamente comprometidas e olho para trás e vejo uma estrada longa, a perder de vista. Para a frente não vejo nada, vejo minhas emoções e meus sentimentos baratos e folhetinescos. Talvez seja isso mesmo, eu seja um barato folhetim. Muito provavelmente a discussão que travo comigo mesmo me ocupe e desvie a atenção do que está fora, do que é passageiro, do que é pleno em idiossincrasias muito embora eu sofra das mesmas. Tenho a impressão de que sou mais velho, que existe um colapso no calendário. Aliás, também tenho pavor de calendários. Passei numa pastelaria e vi um chinês risonho fritando pastéis e fiquei pensando: Por que eu cismo de querer ousar? Por que eu não sou um ‘fritador’ de pastéis que deliciam as pessoas? Por outra: o que estou fazendo de verdade? Qual é a minha real proposta e o quanto ela pode ser viabilizada? Porque de boas intenções o inferno… vocês sabem. E ter a pele curtida de um vendedor na praia de mate Leão? O que me diferencia dele? Quem disse que eu sou o que acho que sou? Quem? Falta-me objetividade e consciência de minhas metas (e eu tenho metas definidas? Não!) O céu azul me olha e aguarda que eu saia à rua, receba seu calor, sua energia, sua demonstração de poder através do calor (e mesmo o sol sabe que vai se apagar tal e qual como eu…) E o intelecto, onde fica? Se o corpo e a estrutura emocional não seguram mais, resta-me tentar o intelecto (para ver se ainda sobrou algo dele ou se alguma vez existiu). Sou náufrago e sobrevivente, sim e não, dia e noite, proposta e decepção. Sou o Ermitão num tarot pós moderno, estraçalhado, carcomido. Sou, como ela, a incompletude.
Parece que minhas dificuldades são propositais para criar uma confusão que eu não quero. Não é nada disso. Espero um mundo onde eu possa raciocinar em paz, liberto das amarras da vida mediana. Não quero ser mediano, portanto. Acho bem melhor uma vida não contemplativa, a vida numa ação contínua, rápida e exuberante.
Ontem, depois da chuva, saí a passear por meu bairro bonitinho. Como não haviam latas, chutei pedrinhas e segui caminhando com a cabeça na lua, pensando nas coisas boas da vida. Houve um tempo em que eu não via tantas coisas boas assim… Hoje em dia vejo tudo de bom. Claro que algumas coisas me incomodam, mas todas essas coisas são relacionadas a pessoas, ao comportamento, caráter e tal. Coisas que estão distantes da minha ação. Não tenho o que fazer. Mas eu não reclamo dessas pessoas não. Sinceramente. Se você tem um mundo com seis ou oito bilhões de habitantes, é natural que haja a diversidade, que hajam santos e demônios. Além do mais, é a minha visão e nada garante que eu esteja certo. Aliás, ao que se opõe a mim, eu estou errado, sou péssimo, devo ser um monstro. Que visão, por exemplo, uma formiga pode ter de mim? Ou uma pulga? Então eu fico pensando em todas as coisas, em todas as grandes paixões (várias), em todos os momentos excelentes da vida e tal. Claro que penso também na mediocridade humana, nas pessoas vis, na imbecilidade reinante e, claro, todas essas coisas me incomodam, me doem, me irritam, mas é o que eu digo: é a diversidade humana e dessa eu não tenho como escapar. Em contrapartida, se eu não tenho como escapar dos outros, eles, igualmente, não tem como escapar de mim (até que minha luz se apague). Sei que haverão muitos brindes e rodadas de chope quando eu me for, que me desejarão bastante que a terra me seja pesada e essas brincadeiras todas. Nada disso me importa. Também brindo a vários falecimentos. Esse é o movimento natural da vida. Acho que os espermatozóides deveriam fazer um estudo acurado da Terra, uma pesquisa profunda antes de lançarem-se naquela desabalada carreira. São uns tolos. Espermatozóide devia fazer um contrato de gestão antes de se aventurar nessa vida de cá “assinado Deus! E com firma reconhecida!” (V.M.).
A noite (e a madruagada) são uma boca negra, desdentada que nos suga, atrai, como uma garganta escorregadia e catarrenta que nos faz escorregar, cair num poço de podridão, um poço inenarrável. E se não posso narrar nada além do negror e da gosma, calo-me, me sentencio ao silêncio equivocado dos que temem, dos que têm medo, dos que viram a tragédia, a desgraça bem de perto e preferem não dizer nada (sabe-se lá por quê – medo??) Não vou falar o que sinto como não vou falar da experiência, da bruxaria, da maldade humana, do terror de uma garganta. Alguém já se deteve a olhar uma garganta? Não o façam! É como o túnel da morte, como o instante em que somos engolidos, quando somos o momento de orgasmo de Pantugruel. Deixamos de ser. Tornamo-nos alimento do outro e de nós mesmos como uma espécie de retro-antropofagia. Mário e Oswald de Andrade só escreveram em paz e ludicamente porque não conheceram o terror, não perceberam a psicose humana no seu garu mais sórdido. Não conheceram a boca negra que assedia meu sonho!
Cultura: São paulo X Rio
Publicado 11/01/2008 Líquido , Mundo Tropical , Papéis esparsos Deixar um ComentárioA leitura continuada de Oswald de Andrade revela muitas coisas a um olhar curioso. Principalmente a fragilidade cultural de São Paulo frenre ao Rio de Janeiro, apesar da Semana de Arte Moderna em 22 em SP (Com Mário de Andrade). Não é exatamente bairrismo, mas a constatação de quem era realmente a capital cultural do país. E a verdade é que SP não tem nada a mais do que o Rio (a não ser dinheiro). E realmente, com dinheiro traz-se tudo, produz-se tudo. Mas insisto em dizer que a capital cultural é o Rio. É bem verdade que nossos intelectuais vão muito à São Paulo, estréiam peças de teatro lá, lançam livros e filmes lá. Sem dúvida é lá que está o dinheiro.
Se eu fosse prefeito ou governador de São Paulo, faria ofertas irrecusáveis e colocoria toda a inteligência brasileira lá. O que o paulista mediano não percebe é que o intelectual vai lá para dar o grande salto, que ele não é realmente de lá. Enfim, devem existir políticas nesse sentido e não vou aqui, reinventar a roda. Mas é complicado entender a Semana de Arte Moderna em 22 em São Paulo e não no Rio. Existe um desencontro de idéias e de políticas culturais nos dois Estados.
Existe uma possibilidade real de mudar as coisas? Não, nenhuma. Eu sempre me faço essa pergunta. Muitas vezes acaba rolando uma frustração nesse processo de me reinventar porque fico eu mudando, mas o entorno permanece o mesmo. Então, à cada ano que passa, à cada festa da virada no ano, mais eu me convenço de que é tudo a mesma coisa, uma mesmice que vai de encontro à minha ansiedade de produzir. Nem sei porque escrevi isso.
Vou percorrendo meu caminho contra as adversidades normais de viver. Adoro a vida, o “viver”, “mas a vida não é mole não, irmão” (V.M.) e como não é mole, eventualmente preciso endurecer sem perder a ternura jamais (frase daquele terrorista). Odeio comunistas e terroristas, mas reconheço suas boas frases como quando Marx diz que a religião é o ópio do povo.
Minha cabeça dá voltas e, cheio de prazer, recebo e.mails dessa menina paulista que eu adoro. Não se iluda não. Eu sei que, muitas vezes, as pessoas têm que dar cambalhotas para manterem a amizade com meus inimigos (podres) e estarem do meu lado. E isso não me incomoda em nada, eu sei como funciona. Também sou amigo de pessoas inimigas entre elas. Essas pessoas reconhecem a situação difícil em que eu fico ao tentar manter inimigos que são meus amigos. Portanto, não tenho problemas com amigos na net que se dão com gente que não presta (a meu ver).
O que eu sinto no Natal? Tédio. Acho a data mais entediante do ano. Vários motivos. Primeiro que, ateu, não creio que seja a data que o “menino-deus” nasceu para nos salvar. A obrigação em estar perto da família é nojenta, falsa, tudo de ruim. Presentes? Detesto e não tenho dinheiro. As “comidas de Natal” são próprias de Europa, do frio e, aqui, só fazem mal. Acontece que a gente dá uma solução miscigenada, cabocla e troca o vinho por cerveja. No mais, só me interessa a embriaguez.
Aliás, a embriaguez não é exatamente o que muitas pessoas acham. Claro que não vou defender um certo alcoolismo, mas a embriguez (conhecida desde que o homem aprendeu a fazer alguma coisa como o fogo e o pão) é um estado próximo a um certo ‘anestesiamento’ (rs) necessário, eventualmente, para que possamos manter o equilíbrio no restante do tempo. Portanto, uísque e cerveja são fundamentais. Lembrando sempre Vinícius: “O uísque é um cão engarrafado, o melhor amigo do homem”.
Dou uma volta pelas ruas que hoje, estranhamente, estão muito limpas e não há latas para eu chutar. Pretendo recolher latas nas ruas quando encontrar e guardar comigo e passar a levar minhas próprias latas para chutar enquanto ando e penso na vida. Existe um Deleuze no meu campo de visão que me olha e me cobra porquê não estou lendo suas opiniões filosóficas sobre cinema. Amanhã, sempre amanhã. Hoje é Natal, dia de me recolher ainda um pouco mais, de beber ainda um pouco mais de me dedicar então mais a Caio Fernando Abreu que tem um espírito um pouco mais parecido comigo. E ouvir as meninas inocentes que estão cheias de novidades para me contar. E dar sardinhas (de verdade) ao meu Artur que é tão espartano nas refeições durante o ano inteiro. Não troco um Artur por um amarrado de seis pessoas duvidosas. Não troco meu bairro da Lapa por Ipanema. Não troco um uísque oito anos (minhas posses) por um doze anos, não troco um eu por um amarrado de seis homens como meu pai. Uma hora conto a história.
O calor no Rio de Janeiro não passa. É úmido e constante mesmo quando chove. Não troco um Rio por um amarrado de seis “São Paulo”. No fim, acabo concluindo que não troco quase nada. Está tudo bem assim, só vejo uma certa injustiça na morte e mais ainda no sofrimento antes da morte. E não tenho para quem rezar. Pergunto-me se, doente, aparecerá uma viva alma para me ver nem que seja um pouquinho. O que se pode fazer perto de uma pessoa em putrefação? Não são pensamentos próprios a um dia de Natal? Se quiser, leia outro dia. Ou não volte mais. Me é absolutamente indiferente. Por que faço? Não sei. E me diga: por que não faria? Estou simplesmente dizendo o que me passa, não estou inventando nada. Minha família? Nos damos em nossa justa medida. Escárnio? Ok, riam à vontade. Também não me interessa. Veja como são as coisas: hoje tentaram me imputar a responsabilidade pelo fechamento de um blog. Muito descaramento, né? Pra mim, se abre ou fecha um blog é indiferente como tão é indiferente quanto se nasce ou não uma criança, se morre ou não um velho. As coisas acontecem, a vida segue seu caminho e eu não me interesso nada.
Eu me interesso em procurar primeiramente ser honesto comigo e depois com aqueles que valem à pena. Os que não valem podem morrer à míngua que não me despertam piedade ou qualquer outro sentimentozinho falso desses que existem por aí. Eu quero mesmo é rosetar embora esse “rosetar” para mim tenha uma característica muito importante e diferente da forma que é usado normalmente (nem sei se ainda se usa esse adjetivo).
Depois falo mais. (Ou não)
Deixa eu explicar uma coisa embora não seja importante: eu sei que vem muito chumbo grosso por aí, mas, amigos, fiquem tranqüilos porque estarei imune, estarei lendo o Paraíso Perdido de Milton, estarei buscando um tipo de conhecimento que não se encontram (salvo raridades) nos piores países dos continentes. Por sinal: qual é o melhor e o pior país da África, por exemplo?
Vem chegando nem tão lentamente o movimento que dá início ao fim. O que entendo por fim é apenas conclusão (às vezes precipitada) de um processo. E, na verdade, estamos todos, sempre ‘em processo’. Vejo uma certa poesia estranha, talvez suja ou não, sonetos cantados com expectativa excludente dessa poesia. No final, vira um rascunho meu porque não questiono a atividade do poeta, daquele que escolhe dispor, anunciar o sentimento do povo. Não guardo más impressões de livros inconclusos (basta lembrar a genialidade de Kafka em O Processo – inconcluso). Talvez todo mundo, eventualmente, sofra de um “síndrome de Kafka”. Percebo minha imagem refletida no espelho e questiono a mim que o está mais inconcluso: eu ou a imagem refletida. Não obtenho a resposta substantiva que me agradaria. Pior: não existem respostas substantivas porque nosso reino ou mundo é fuído, escapa entre os dedos da mão. Sou uma ampulheta, imagino, que, ao invés de acondicionar areia em seu interior, tem água no lugar. Uma ampulheta que mede o tempo pela descida da água. Ou será o contrário? Posso imaginar que, na verdade, todas as ampulhetas sejam usadas com água como medidor e tão somente umas poucas, com areia, nos sejam mostradas para que tenhamos uma visão equivocada do universo. Tudo no universo implica numa visão errada, equivocada mesmo. Não posso admitir que nada seja como é, aliás, como parece ser. Os anéis de Saturno não me dizem nada mais do que apresentam: Saturno tem anéis. Espelhos, como num parque de diversões, deformam a visão que temos das coisas. Tenho a impressão que existem espelhos etéreos, que eles colocam-se eventualmente à nossa frente e deturpam o que vemos e sentimos. Ou sou apenas eu? Quando caminhos nessa rua chutando latas, esse hábito vagabundo, imagino que meu mundo seja refratário de um outro, que posso vivenciar reais irrealidades em outra perspectiva. Não sou o que sou e menos ainda o que aparento ser. Sou um projeto (inacabado) de uma terceira coisa, algo que imagino que poderia ser se eu mesmo escrevesse. Um dia, se eu tiver tempo, vou escrever um script para mim mesmo, comprar roupas e máscaras, maquiagens, etc. para entrar em cena. Eu ainda não entrei em cena em 52 anos na coxia dos palcos. E olha que nasci num camarim. Meu pensamento foi tomando outro rumo…. Na verdade eu falava dos poetas e de interpretá-los e entender que eles são para- raios das pessoas e representantes da sociedade. Essa falta de encadeamento nos rascunhos parece um erro ou uma disritmia aos menos atentos, mas eu não me importo. Sigo em frente, chutando latas, escrevinhando quadrinhas em paredes sujas…. Pode ser ainda a influências dos vários e pequenos quadros nos teatros de revista, esses mesmos com que ando tão envolvido….Pode ser, mais provável, que não seja exatamente eu quem está aqui. Vou jogar tarô.
Minha morada é o botequim. O fundo de um bar. Exatamente onde escondo lágrimas, onde rabisco guardanapos, onde faço todos os projetos que jamais realizo. Onde imagino a vida tal como deveria ser (para mim) ou tal como a percebo (diferentemente de outras pessoas). É lá que observo o passar das pessoas, fico atento a quem entra, se está feliz ou triste, calmo ou ansioso. É um recorte da vida ou um aquário onde vejo ínfima projeção do oceano. As pessoas estão sempre atribuladas com suas coisas e não me percebem, não vêem que posso observá-las e tirar conclusões certas ou erradas. Contento-me nessa observação silenciosa. Esse mundinho pequeno do qual descubro uma brecha transforma-se mais tarde no manancial de personagens que me ocupam o espírito.
Meus ciclos se alteram como as marés. Muitas vezes num tempo maior ou menor… não importa porque a medida de tempo é irrelevante. Quando proponho coisas aos meus eus, sou um menino inventando brincadeiras novas, jogos e signos que me levem a outras pradarias… Preciso cuidar bem das minhas asas…
Quando eu era mergulhador – há muitos e muitos anos atrás – passava dias embarcado numa traineira. Éramos cinco: três rapazes e duas meninas. Mergulhar é entrar em um novo universo. Quando percebíamos que vinha tempestade, não mergulhávamos profundamente, apenas nos jogávamos na água pra tomar banho de mar. Éramos felizes. Eu não imaginava que, trinta anos depois, ainda seria obrigado a mergulhar….
Busco a mim mesmo numa busca frenética, busca que corre, que tem velocidade e pressa, que voa contra o tempo (ingrato e irracional), que pensa na morte, na injustiça da morte que chega sorrateira. Sei de mim apenas dos pedaços que encontro no caminho, de uma meia realidade indizível e lembro de um projeto substantivo que acabou por não realizar-se talvez por incompetência minha ou da própria vida que altera a seu bel prazer os planos de pessoas inocentes. Só a inocência atávica nos faz seguir e insistir e dizer e repetir e brigar por um pouco de sol. Todo o resto é uma toada coberta de redondilhas a que nos apegamos para tentar sobreviver e contar aquilo que realmente estamos sentindo – e muitas vezes não quer ser ouvido.
Sou latente por uma questão de sobrevivência, porque, de alguma maneira necessito colocar a cabeça fora da água para dizer o que tenho. E reparando, temos muito mais a dar do que a subtrair, muito mais a oferecer do que a pedir, somos compostos de matéria sublime (possivelmente amor), de matéria que absorve os dias de sol e de chuva, as pessoas que passam distantes e transformamos tudo isso numa outra coisa. Numa energia. Sei lá. Como posso querer dizer o que sou?
Desejar mais do que sou. Tendência das pessoas. Expectativas. Imaginar que posso doar de mim algo que não possuo. Minha presença e meu amor estão aqui. Quem quer um avatar? Ninguém. Essencialmente sou um poço sem fundo de desejos. E quero te dar tudo. Na prática sou o menino de pés no chão, mouro que trabalha incansável no repetitivo ato de jogar o balde no poço e içá-lo cheio. Um Sísifo sem mito. Agora…. mais? Não sei não…
Talidomida
Oh, semi-lua -
Semicérebro, luminosidade -
Negro, mascarado de branco,
Suas escuras
Amputações rastejam e assustam -
Aranhiças, inseguras.
Que luva
Que espécie de couro
Me protegeu
Daquela sombra -
Os botões indeléveis,
Nós nas omoplatas, os
Rostos que
Empurram para ser, arrastando
O podado
Âmnio sangrento das ausências.
Toda noite eu teço
Um espaço para o que me é dado,
Um amor
De dois olhos úmidos e um grito.
Branca secreção
Da indiferença!
Os frutos escuros giram e caem.
O vidro se espatifa,
A imagem
Foge e aborta como gotas de mercúrio
Sylvia Plath
Entre tantos, temos o caminho da descoberta do amor. Sim, o amor é e será eternamente matéria de descoberta porque, embora seja descrito de forma parecida, é completamente diferente em cada uma das pessoas e, ainda variadamente, ao longo do tempo nas pessoas. Não se aprende amor, se vive, se experiencia, entra-se a alma ao ponto de ebulição onde almas perdem suas características adjetivas e metafísicas e fundem-se (após o mercúrio) numa matéria distinta: amor.
Não, não sei dizer se é melhor ou pior porque esse conceito só se aplica a coisas que dominamos, que conhecemos minimamente. Esse amor que eu falo é desconhecido sempre. É falado, cantado, estudado, mas sempre completamente desconhecido, completamente eqüidistante de nossas objetividades, de nossas propostas de prazer e de futuro. O amor não é esse prazer comezinho que relatamos em almanaques nem o desbunde que os apaixonados descrevem porque estão sob suspeição, estão em outra, perderam o contato com o mundo. Falam de forma banalíssima.
Exatamente o que não se pode dizer do amor. Não há nenhuma banalidade, não há nenhuma comparação, não há nenhum exemplo ou transcrição verídica do amor porque ele é mais ou menos como um deus menino, que nasce e se instala com a força e o poder inenarráveis próprios a deuses meninos. Quer dizer, nunca podemos explicar – da mesma forma que morremos, voltamos e não encontramos palavras para descrever a morte. Amor não se conquista, se aguarda.
Existem as pessoas que nunca foram visitadas, nunca estiveram nessa espécie de estado de graça e, reparem bem nelas: andam curvadas, têm a pele macilenta, não compreendem as coisas que se dizem, parecem ser de outro mundo. E são. Se ele virá um dia? É dúvida. Há os que afirmam que somos visitados pelo menos uma vez na vida e há os que acreditam que algumas pessoas não têm uma espécie de “perfil holístico” para percebê-lo e, portanto, recebê-lo. Como não entendendo do sobrenatural (só o de Almeida – N.R.), passo ao largo dessa discussão.
O simples ato de existir traz embutida em si a possibilidade. Não me interessa exatamente o que há, o que acontece ou se passou. Vivo a possibilidade. É exatamente essa possibilidade, essa forma que engana, mas é substantiva porque é inerente a ser – porque traz em si o mundo, a vida, o que vem. Sou uma pessoa razoavelmente segura nos passos dados, firme da conjugação existencial. Tenho uma linha, um trilho, um só desejo, ao contrário do que possa parecer. Sou um para um. Acho que me passou o tempo do experimentalismo. Sei exatamente o que quero, exatamente como as coisas devem ficar, onde devo ancorar.
Onde devo ancorar? Ora, com certeza num porto seguro que seja, igualmente aprazível. Quero pensar, quero raciocinar sobre todas as coisas que ricocheteiam no meu espírito, mas desejo também a mão amiga, a mão que eu segure nos momentos de amor ou de angústia. Fiz um caminho de muitas idas e vindas, um caminho com tantas esquinas e encruzilhadas que, muitas vezes, me perdi. Achei que estava qual um minotauro, preso num labirinto. Mas saí. Não acho isso nada demais, não acho isso especial. Especial é viver, observar as pessoas, ver principalmente o que elas têm de melhor.
Quantas chances eu tenho?
Uma, duas? Dez?
Quantas oportunidades os deuses dão aos homens?
Eu preciso mostrar meu caderno,
meus apontamentos,
minhas coisas mais guardadas,
essas letrinhas que eu chamo de meus segredos?
E se eu ainda tiver mais uma chance?
Quem vai cuidar?
Onde vou beber?
Onde?
Onde?
Na hora de mudar de template peço ajuda a quem eu confio. Me sinto mais seguro assim. Parece bobagem ( e é), mas é assim mesmo. Vou ver como funciona a história por aqui. Já quanto ao banner houve discordância. Nesse ponto não estou bem certo. Preciso pensar um tempo. Usarei para ler poesia (que é como canja de galinha – nunca faz mal).
Recebi muitos e.mails tratando do assunto sobre o Futuro que escrevi aqui. Grande parte dessas pessoas pretendem discordar do que eu digo, mas tão têm argumentação sólida: discordam porque discordam e pronto. Assim não vale. Eu compreendo que tenhamos uma profunda angústia ao ver nossos conceitos arraigados caírem por terra. Comprovar que futuro, presente e passado não existem, tal como se imaginam leva a uma idéia mais ousada (e apavorante!): o tempo, então, não existe. E se o tempo não existe, como mensurar a espécie humana? Se toda a atividade dos homens é baseada num conceito falso, de um tempo que não existe, como ratificar a existência na humanidade? Não há dúvida de que existe vida, estamos vivos. Mas em que circunstância? Sem a medida de tempo, como podemos entender a existência em moldes novos? Uma vida de 80 anos não poderia trancorrer num átimo de segundo numa fórmula de contagem que desconhecemos? E que liberdade buscamos? O que esperamos conquistar com esse conceito de liberdade, já que ela TAMBÉM não se dá nos moldes pensados corriqueiramente?
A liberdade de pensamento, por exemplo, pode nos levar a concluir pela inexistência de tempo, da própria liberdade nesse molde e, por fim, questionaremos o que é realmente a existência humana.
Continuo pensando que esse tempo aqui está se esgotando, não por aqui nem pelo tempo, mas porque esas coisas se esgotam. Não me agrada manter um cartão de visita desse tamanho. Não me agrada ser incompreendido e ter que estar sempre voltando atrás para explicar isso ou aquilo. Tenho Tédio. Um enorme tédio do mundo com todas as suas coisas, todas as suas pessoas que passam pela vida montadas num foguete e não olham para nada, não escutam nada que está sendo dito. Não que eu tenha alguma coisa especial a relevar, aliás eu não tenho absolutamente nada a acrescentar à nada, estou aqui nesse espaço muito de passagem e olho as estradas quase desertas com uma inveja profunda, sempre lembrando quando eu fazia roncarem os motores e partia em alta velocidade. Hoje eu entendo melhor que somente essa alta velocidade, esse vento de encontro ao meu rosto me traz paz e tranqüilidade, me reafirma que estou muito vivo, que estou no centro do mundo e ninguém me alcança. Essa é a história. Ninguém me alcança e para não ficar esnobe acelero a motocicleta em seu giro mais alto deixando carros e outras motocicletas muito lá para atrás. Se eu disser que, parado aqui, sentado em minha poltrona também ninguém me alcança darei uma falsa impressão de me considerar mais, diferente ou qualquer dessas besteiras que as pessoas menores ficam esperando eu escrever pra virem desancar em mim. Por isso concluo que meu caminho não é esse, minha estrada não é essa, minha roupa não é essa, minha proposta então! Não é essa. Sim, eu não falo muito nem conto sempre mas eu tenho proposta. Muito mais do que uma. Propostas. Tanto propostas que posso colocar em prática sozinho como outras tantas que preciso estar acompanhado. Plano B, sabe como? Tem uma hora que a gente vê tanta coisa, tem tanta surpresa que monta um plano B para tudo. Sei que nesse momento tudo lembra paralisia, tudo parece uma coisa meio sem ação, uma coisa onde a gente vai sendo levado e tal. Não é assim, na verdade. Aprendi a ficar parado, imóvel como um cágado ou um jacaré pegando sol sem estar, necessariamente desatento. A gente percebe ao longo do tempo que as coisas tem uma hora certa para acontecerem, não adianta a gente pensar e colocar em prática se todos os elementos envolvidos não estão preparados, se o mundo está girando em assiconcronia. Quem não lembra das aventuras da Apollo, aquelas cápsulas espaciais que precisavam esperar a Terra proporcionar o “corredor” certo para a entrada ou explodiriam em contato com a atmofesra? é mais ou menos isso.
Uma das grandes agonias é essa coisa de um dia após o outro, essa coisa imutável que parece nos aprisionar, parece estar sinalizando que é assim mesmo, que não vai mudar nada, que é um império da rotina.
Tem pessoas que se relacionam muito facilmente porque têm uma determinada expectativa em relação a pessoas. Outras, com expectativas diferentes, sentem diferente, comportam-se de maneira completamente inversa. Minha expectativa é grande e minha aposta, muito alta. E, claro, se apostamos alto vem aquela história toda ligada ao risco. Uma espécie de viver perigosamente, sabe como é? Muitas vezes não nos damos conta, mas cada coisa que fazemos, por pequena que seja, é uma tomada de atitude e isso é sério. Atitudes equivocadas têm preço alto. Muita gente prefere não se arriscar, não se expor. Eu fico num meio de caminho: tomo as atitudes e me exponho de uma certa maneira, mas fico atento também às respostas, ao que me chega e fico sentido se esse retorno é frágil. Entendo que pessoas, todas, são frágeis, mas não entendo “meios de caminho”, não entendo como se consegue ficar em cima do muro. E assim tem sido (certamente continuará sendo)
Essas vivências todas, tenho certeza absoluta, estão muito mais ligadas à Filosofia do que a Psicologia. Acho psicologias coisas muito reles, muto superficiais, muito oba-oba. Quando fazemos e dizemos (e agimos) estamos tomando atitudes filosóficas em relação à vida e às pessoas. Negar isso, é minimizar tudo, tirar o peso das decisões, como se não fossem decisões de fato e sim experimentos. Não fosse o tempo, eu não teria nada muito contra essa postura, mas para mim a vida é breve, o tempo é curto. Sim, as coisas podem e devem ser leves, mas não consigo tirar de cima de tudo o empenho da palavra, da responsabilidade sobre todos.
Escrevendo essas coisas pueris vou me dando conta de que pode não ser nada disso, do quanto pueril posso estar sendo. Posso estar sendo tolo e imaturo e reconheço que essas possibilidades são aplicadas em gente de carne e osso, que estou situado dentro dessa dança de afastamento e aproximação de tudo.
Estive catalogando vários momentos meus, várias situações em que me senti em perigo (o que não é difícil). Sentir-se em perigo é não ter certeza das coisas, ter que fazer opções, ter que trocar alguma coisa. E tenho que mudar coisas na vida o tempo todo: maneiras, conceitos, expectativas. Não me importo exatamente com o que vai ser, como vai ser, a atitude. A questão é a reação. Como virá a reação àquilo que eu me dispuzer a fazer? Que conseqüências? Viver é tão arriscado quando pular de para-quedas ou asa delta. Talvez mais já que a própria vida nos dá essa alternativa. Digo para mim mesmo pensar bem nas coisas, mas não acontece, não é verdade, não penso. Sou puro instinto e tudo o que vem de mim é instintivo, é perceber o que rola na hora, naquele segundo. Faço uma peregrinação por outros sítios vendo o que as pessoas estão pensando, não para seguir-lhes o caminho, mas para estar inteirado. Não adianta. Psicologismos menos ainda e a metafísica não existe em mim. Busco então o que existe.
Aí começa meu dilema porque às vezes tenho a impressão de que existe tudo e nada em mim, parece que conheci todas as coisas e vivi todas as experiências, ou o contrário, que sou virgem na vida, que ela me é totalmente nova e irreconhecível à cada manhã, como se renascessemos diariamente (essa tese tem andado mais forte ultimamente). Como fazer? É verdade também que não me agüento mais me questionar esse tal “como fazer”. Então, simplesmente, faço. Se está dando certo? Não sei. Tenho uma implicância ancestral com o futuro, como se ele fosse um bispo de pedra negra, impávido, sem sequer me dirigir o olhar. O futuro deveria olhar pra gente, deveria dar dicas, ajudar, o futuro deveria ser um “presente” com super poderes. Um presente super-herói, um pai. Taí, o futuro poderia ser nosso verdadeiro deus, nossa esperança, nossa certeza de que estamos trilhando o caminho certo. Mas não é assim. O futuro é besta, esnobe, ao contrário do passado que nos é tão prestimoso mesmo quando as recordações não são das melhores.
Optar por fazer seu caminho é uma tarefa árdua demais, carregada de responsabilidades insuportáveis. Claro que terminamos não nos furtando, mas é como andar na corda bamba. Por isso talvez possamos dizer que estamos todo o tempo na corda bamba (de sombrinha) e, como cantaram John Neschiling e Geraldo Carneiro, “nos afogando num oceano de cachaça”. O vício de viver domina completamente a cena. Não vivevemos só por prazer, mas por víci0 na vida, não abrirmos mão, não percebermos o que rola, o que estamos fazendo em nome desse vício. Somos petulância de espermatozóide vencedor, petulância do mais forte e rápido. Acho que vivemos numa euforia pré-uterina na expectativa de chegar lá. Nós chegamos! Mas o mundo também é expectativa pós-uterina, expectativa de degenerescência, de embarque para o comboio final. Não sei.
Tava conversando sobre a possibilidade em aceitar o DESTINO numa pessoa que não crê. Invariavelmente somos colocados cara a cara com fatos e situações que atribuimos ao destino. Não pode ser verdade. Reconhecer que qualquer coisa ocorra porque ‘era o destino’ significa dar a essa palavra um conceito metafísico, místico, tolo. Para que isso fosse verdade, teríamos que aceitar que vivemos num mundo de magias, fadas e bruxas e que todas as coisas estivessem planejadas anteriormente por um ser superior que nos controlasse como marionetes. Em contraponto, me perguntam como se pode admitir, por exemplo, que uma criança esteja dentro de uma sala de aula e seja atingida fatalmente por uma bala perdida. Ou porque duas pessoas trocam suas passagens minutos antes de o avião decolar e explodir, salvando quem era para estar lá (ou ainda, explodindo o avião, que esse caia na cabeça do cara que iria se salvar). A primeira reação é dizer: era o destino dessas pessoas. NÃO ERA. Insistir nisso é insistir que tudo já está resolvido e, de certa maneira, não vivemos, apenas cumprimos um script. Podemos até cumprir scripts desde que escritos po nós.
No mais, o que acontece com mudanças súbitas na vida, ao contrário desse ‘destino mágico e implacável’ são outros fatores, talvez igualmente estranhos, mas lógicos. Em primeiro lugar existe a probabilidade (você morrer atropelado ao não prestar atenção da pista) e segundo existe a COINCIDÊNCIA, fatos, ações e resultados que acontecem porque houve um momento em que situações não previstas, relacionem-se, trazendo um resultado inesperado (uma bala perdida, por exemplo). Se estamos todos num mesmo mundo e praticando coisas variadas é óbvio que essas coisas poderão se cruzar independemente da nossa vontade, do no nosso projeto inicial e, JAMAIS, ser ação de um destino (que, por ilógico, satanizaria um “estado divino”)
Escrevi didaticamente. Não entender isso é prova de burrice ou, no mínimo, de um apagão cognitivo temporário. Pode ser também uma incapacidade cognitiva constante e mórbida. Isso talvez seja destino…rs
Quando eu penso em mim e imagino apenas o grande cantil, desses de pele de carneiro, de bocal abundante
Publicado 26/07/2007 Líquido Deixar um Comentário
É viável que eu tenha em mim toda a possibilidade do mundo. Sou muito afeito a não perceber as coisas mesmo quando elas estão muito próximas a mim. Não é um defeito desses que a gente possui conscientemente e insiste em não arredar pé. Acho que é outra história: imagino que eu tenha muita sede e beba no gargalo, que necessite de um gargalo desses largos, plenos, desses que o líquido vem, constante, em grande quantidade, que quase nos afoga.
Essa é apenas uma das possibilidades, dessas pensadas quando a mente ainda está meio entorpecida por outras coisas, quando está ainda deliciosamente afogada pelo temporal, doce maremoto.
O tempo não pára e as coisas também não voltarão atrás
Publicado 25/07/2007 Líquido Deixar um ComentárioTem uma história que é mais ou menos assim: blogs não são adequados para falarem de blogs. Blogs são uma espécie de farsa (no sentido italiano) onde se contam aventuras ou, com poucas palavras, se insinuam coisas. Ou ainda onde se publicam fotos que podem, momentaneamente, chocar. Quando eu comecei a escrever um blog em 2000 não era assim, existia uma carga de alegria na galera por conta da novidade onde todo mundo dizia tudo, era legal ler porque as pessoas mostravam a alma e tiravam as calças. Era inocente porque não tinha ‘politicamente correto’, não tinha o medo de ferir suscetibilidades tolinhas do outro, porque existiam poucos outros e todos se convenciam que estavam numa mesma tribo. Uma tribo que se abria sem medo, que contava coisas engraçadas misturadas com coisas picantes, que falava muito mal e muito bem de todo mundo e esse mesmo todo mundo tava ali também participando, interagindo. Foi a era dos blogs hippies onde valia apenas sexo, drogas e amor. Hoje é uma coisa feia, perigosa, escorregadia, carregada de palavras e imagens dúbias, onde todos se comentam e espionam e patrulham e criticam. Onde a crítica é contumaz, onde se atiça o outro a repreender o que é irrepreensível. Enfim, é uma boa droga, uma boa merda isso tudo aqui. Me dá muito mais desânimo que outra coisa, muito mais vontade de chutar latas ou catar conchas. Bah!
Quanto à isso também não há nada a fazer. Não vai mudar, as pessoas estão aí mesmo e as coisas se impuseram dessa maneira. É ficar ou ir embora, não sei. Por que continuo? Porque gosto. Mas pode mudar, pode não dar mais certo, posso o excluído ser eu. Quem vai saber?
Nelson Rodrigues dizia que “Toda mulher deveria ter 14 anos”. Eu acho essa frase mais que perfeita ainda que tenha um conteúdo erótico que beira a pedofilia. Sei que Nélson falava brincando, frase de efeito. Acho legais frases de efeito.
Mas não é isso: hoje me deparo com uma menina, numa conversa amena, dessas de fim de tarde e início de noite, esse território de ninguém, que vai me dizendo uma coisa ou outra e, subitamente, percebe-se agindo como uma menina de 16 anos. Claro que todos nós, eventualmente, agimos como uma menina de 16 anos*, mas as coisas não se contentam na minha cabeça e me pergunto: “Por que não como uma menina de 14 anos”??
Olha, eu até ia questionar isso, fazer essas analogias e tal, contar a história do Nélson e as coisas que se misturaram em mim, mas terminei por desistir. Antes que eu enlouqueça alguém ou leve com uma torta na cara! rs. E olha que fiz bem porque depois falamos em Leila Diniz e eu disse da dificuldade da Leila em relação às coisas quando essa ‘menina de 16 anos’ falava de outra coisa, mais light, de um simples jeito de ser. Impressionante a minha capacidade de tentar confundir miolos. Sou um forte candidato a frigideirada na cara! rs
Sim, isso acontece mesmo: a gente pensa em alguém ou fala ou qualquer coisa e acaba não mais cabendo em nós e transborda num rascunho desses sem importância, mero registro do que foi ou poderia ter sido
É importante compreender que a maneira que usamos de nos expressar aqui é, na maioria por escrito. O que é excelente, porque é escrevendo, com certeza, que expressamos as coisas mais importantes da alma. Quem lê e escreve sabe. Interessante ainda perceber que as letras e as frases dizem muito mais do que o conjunto, a idéia que elas passam na leitura desatenta de um texto.
Não devíamos nunca deixar de lado essa percepção mágica que a escrita proporciona extamente por ser grafada e esse grafismo vir carregado de simbologias (ainda que não direcionadas). Então, pequenos símbolos como :) ou ;) podem trazer em si, toda a diferença do mundo.
E não importa somente o que o outro quis dizer ou mesmo se não teve intenção nenhuma, mas também como isso se reflete em quem lê. Não é auto-ilusão, é permitir-se ir à fundo nas coisas.
Pode ser desses pequenos pensamentos, observações, que a gente consiga se dar conta da importância de tudo, de tudo o que nem percebemos, e não pretendemos externar..rs
Meu gatinho (na verdade um gatão) me sussurra que não é nada disso, que eu me estresso com muita facilidade. E é tudo verdade. Artur me sussurra sempre verdades. Claro que é uma bobagem, mas acho que um comentário em outro lugar me deixou assim, meio indisposto. No fundo uma bobagem. Escrever muito é um erro sempre. Publicar sempre, erro dobrado ou elevado à quinta potência. Sei disso por experiência própria além do incansável aviso do Francis.
Escrever muito é a mesma coisa que conviver.
Mas também não acho bom não escrever muito. Em mim, frases eventuais não caem bem porque não sou assim em essência e tentar forçar uma barra comigo mesmo estraga tudo. Latas vazias? Trinta e nove (rs). Passo ao word entre um comentário aqui e outro. Lá, digito desenfreadamente, página, atrás de página, em letra pequena (sem revisar, sem olhar pra trás). Quando meu computador der um pau ou eu morrer vai tudo pro espaço. Não salvo nada em nenhum lugar da mesma forma que anualmente queimo inúmeros cadernos manuscritos e leio Dom Quixote. São as minhas manias. Todo mundo deve ter as suas, imagino.
Na verdade, interesso-me por manias alheias também, coleciono-as embora não me tenham a menor serventia. Como colecionar conchas. Coleciono cascalhos de conchas. De vez em quando jogo tudo fora. Jogo também pedaços de mim fora. Muitos. Hoje eu não saberia mais me descrever, tantos os pedaços de que já me desfiz. Não por incômodo ou raiva, mas um certo prazer, tenaz, substantivo como se a me colocar à prova, ver se realmente me reescrevo ou penso e digo isso não sendo verdade.
às vezes me olho nesse espelho pequeno, com essa rachadura de uma ponta à outra, meio enferrujado e vejo que sim, ainda estou ali
Passa por minha lembrança toda a aventura de Walden, livro que se perdeu (ou se escondeu) em minha estante. Como eu estaria se ainda morasse no campo? O que teria sido de Patrícia se não tivesse trabalhado no Crepúsculo de Cubatão? O que eu pensaria se tivesse desde cedo desdenhado Clarice, Pessoa, Saramago, Eco, Espanca, Ana C. e outros? Não sei, teria que renascer para saber. E gostaria. Rs.

Disseram