Arquivo para a categoria 'libidinosamente'

Updike (de novo) Sexo e História

Terminei o último livro do Updike. Até poderia fazer algumas considerações, mas não, melhor não. Dia desses eu falei por aqui na vantagem de ler esse autor. Ele capta, como Phillip Roth, a essência da alma nos EUA. Ler romances desses autores é também aprender história da América. Agora volto ao Francis concordando com ele: Upidike é juquinha. Praticamente em todos os seus livros o foco da ação é sempre a vida sexual dos personagens. À cada personagem que vai aparecendo na trama, você diz: “E?” E lá vem. Uma vez descrito mais ou menos – deixando de lado a composição psicológica e filosófica – vamos diretos para a sexualidade: quem trepa com quem, em que posições, quantas vezes por semana, etc, etc.

Tá, você pode me perguntar se eu não acho isso relevante e é claro que acho sim. Não falar da sexualidade é abortar um lado fundamental do ser humano (e personagem). Mas acho sim que essa abordagem deve ser feita ao lado de uma composição mais completa do personagem (qualquer um deles – e não apenas do principal).

Aparecem mulheres junto ao personagem central que entram apenas para trepar em situações tais e tais, com frequência (saudade do trema) tal e por aí vai… se é no capim, no motel, no muro ao lado da casa da moça etc. Mas se eu sei tão pouco da moça! De qualquer forma a literatura tem isso de bom também: faz a gente criar personagens juntamente com o autor (talvez nossa construção seja até mais elaborada!), Chega a dar calafrio pensar que nenhum personagem de nenhum autor é absolutamente percebido pelo leitor com a mesma intensidade (pode ser maior). Igualmente nenhum personagem é nem física nem moralmente como imaginou o seu criador. E nas artes, só a literatura é tão livre, só a literatura é refeita por cada leitor (imaginem quando vira filme: o que os diretores não fazem com as personagens dos livros..rs.

Afora isso, Updike é realmente um craque. Repito: um dos mestres da literatura do século XX.

Prazer e orgasmo no trabalho

Apesar da chuva fina, vou andando pela rua em busca de um lugar para comer (evidentemente que num raio de cem metros de onde me encontro). Penso em tomar uma cerveja, mas não, melhor não. Sento para comer e mastigo rapidamente, quero ir embora dali. Existem lugares que nos atraem, nos aconchegam e outros que são explícitos no baixo astral, essas coisas que derrubam a gente. E considerando a brevidade da vida, o melhor mesmo é fazer o que dá prazer. Esse prazer se traduz de inúmeras formas que vão do trabalho até a vida afetiva. Eu acho o trabalho um local que pode – e deve – gerar muito prazer porque trabalhar é legal, a vida sem trabalho é monótona. O trabalho dá uma certa dignidade interior à cada um, independente do que o outro ache. Nada desse papo de que “o trabalho dignifica o homem”. Isso é uma retórica idiotinha, jequinha demais para meu gosto. Pouco importa se nos acham dignos ou não, essa dignidade, se vamos chamar assim, deve  ser percebida em nós e não, necessariamente, na comunidade. Exatamente por ser trabalho é que nossa ocupação e relacionamento deve ser fonte de prazer (um prazer quase eufórico). O trabalho deveria ter alguma relação com o prazer do orgasmo

A passarinha de Balza K.

As meninas quando fazem trinta anos deveriam estar comprando o primeiro sutiã ou o primeiro salto alto ou abandonando a última mousse de chocolate… Meninas são estranhas porque se assustam rapidamente (hormônios, hormônios….)… Essas moças de hoje (que não andaram no bonde da Praça Tiradentes e só conheceram a Av. Atlântica com duas pistas), que adoram nosso glorioso Noll, mas não têm paciência para ler “O Paraíso Perdido”, de Milton, não têm paciência para se casarem e menos ainda para filhos… Sampa. Meninas independentes, olheiras profundas por excesso de trabalho, de emoção pelo que foi, pelo que vem e pelo que virá, estressadas pelo que viveram e pelo que viverão, o que é e o que será… São Francisquinho de Assis, deixa um pouco de lado os passarinhos e olha para tudo aquilo que brota no meu solo varonil ou melhor, meu puro santinho…: Olha apenas para ela, se não todos, pelo menos para a passarinha (a ave, meu santinho) que revoa hoje nessa agitação de seus trinta aninhos como quem goza o nascimento de mais uma mulher plena, dessas que, cansadinhas de serem meninas brincando de senhoras, serão agora mulheres que sabem ser meninas para sempre. Existe umazinha apenas que inverteu, reverteu, reinverteu tudo e agora não sabe mais onde está. É hora de mostrar, definitivamente, a cidade iluminada, mesmo com fumaça, mas antes, acena e mostra pra ela primeiro São Salvador e, lá não ficando, acena ainda com o calçadão de Copacabana, a Lagoa e, igualmente, a Lapa dos malandros de antes e dos, igualmente, de agora. É hora de amansar essa passarinha (a ave, meu santinho, pô!) não para o cativeiro. Ao contrário: para a vida, longa vida . . . (vida longa, vida breve, né? .. yéh! rs)

De novo, a jovem K.

O blog mais sério e mais bem escrito que eu conheço é o Incompletudes, ainda que a autora, a misteriosa e surpreendente K.(astor), tenha toda a suvidade do mundo, escreva quase como uma dolescente prodígio. Não é ainda uma erudita, mas está a caminho de tornar-se. Porque a vida é assim…. para quem pode, é claro… a gente vai, passa a passo, perseverando e conhecendo o mundo (amplamente).

Esse prefácio meloso não é o motivo deste post. Há pouco tempo, a doce donzela fez um “ensaio” sobre a insônia (que eu, particularmente, chamei de ensaio sobre a loucura). Não a loucura dela, mas a que provocou em seus inúmeros leitores. A Dona K. sabe exatamente o domínio que exerce sobre tudo e todos e faz bom uso do que conhece da espécie humana. Recebi uma correspondência inclusive dizendo que, após esse ensaio, o missivista não deitava mais na cama, domia (e babava) em frente ao monitor mesmo sabendo que dona das fotos deveria estar dormindo à sono solto. Ou seja, ela consegue transferir a insônia dela para os outros. Coisas de K. Mas não foi somente essa correspondência que recebi, vieram outras e mais outras. Antes, eu havia prometido a mim mesmo que não tocaria no assunto, mas, cheio de e.mails, resolvi falar: embora seja a pessoa mais sincera que eu conheço, K. é, igualmente, a mais maluca. Uma (das) Helenas pós moderna, incendeia São Paulo com citações, narrações eróticas (ou não|), comentários sobre livros, sobre histórias, lendas e o que mais for aparecendo. Se o ensaio me causou furor? Não. Acho que ela deveria fazer um (ensaio) por dia para tornar São Paulo, definitivamente, insone. Até porque, ainda que, telepaticamente em nossas insônias, fiquemos tomando vinho, discutindo a existência verdadeira de Homero ou não e se Vinícius poderia ter musicado “O Paraíso Perdido” de Milton ou não. Tudo: ou não… Dia desses o sol nasceu (no Rio, é claro porque o astro não conhece São Paulo) por causa de uma frase de Sêneca. Eu dizia que Borges a havia plagiado e ela insistia que não, que fora Bioy Casares. Ou seja, se K. não quer me deixar dormir, quer me enlouquecer com a insônia dela (já não basta a minha??), acho que todos os seus leitores devem participar. Pois é. São esses os delírios o que provocam os ensaios da jovem K.(astor)

Maracatú atômico

Ontem encontrei um espaço fantástico e uma pessoa mais ainda. E ainda me surpreendo quando acontecem as explosões dos encontros. São coisas que ultrapassam o previsto e destroem o conceito de destino. São situações de BIG BANG, flores que despontam no jardim (e já aparecem abertas e com néctar). E eu tenho muito a falar sobre essa história (que já me surpreende – sim, eu me surpreendo sempre!). Mas é nada disso o mais importante. Como sempre digo sou um amador muito sujeito à explosões de paixão por coisas e pessoas. Essas coisas nos mantém vivos, não fosse isso, haveria um suicídio coletivo. E também vivo das coisas que descubro e mantenho segredo, coisas que, por um período de maturação, são exclusivamente minhas. Se sou possessivo? De certa forma sim… e quem não é? Até Sartre era! Portanto, permito-me silenciar de certa forma. Porque o prazer do encontro, da descoberta e da “descoberta do encontro” merece um pouco de gozo do segredo (na minha opinião). Pessoas, pessoas, pessoas… quantas pessoas existem para cada pessoa? Uma, duas, dez, mil?

Mas é claro que se existem comentários nada é escondido… o ato de esconder é um exercício meu – por mais que esteja divulgado… coisas de um neurótico existencial..rs… Há muito há dizer, muito a sentir, muito o que explicar (para mim mesmo), muito o que exercitar no encontro de átomos… não se deve invadir os domínios da natureza, li em algum lugar

Betty Blue… delírios do Ricardo

Dessa vez em não agüentei e roubei descaradamente essa foto de Beatriice Dalle do blog do Ricardo. Quem aí não delirou com Betty Blue?

Ainda sobre ela

K. é a mulher da minha vida. Não nesse sentido bundinha que vocês estão pensando, de um chopinho aqui ou uma trepadinha ali. Nada disso. K. é ancestral. Nasceu antes de mim embora eu tenha vinte e quatro anos a mais do que ela. É quase pedofilia. Hoje mesmo, enquanto conversávamos ao telefone (ISSO…MORRAM DE INVEJA, NOS FALAMOS AO TELEFONE), eu falava disso. K….. sou um pedófilo de você. As pessoas que não nos conhecem e não imaginam o que conversarmos por e.mail e por MSN, não têm idéia do quanto nos amamos e do quanto brigamos. Realmente as pessoas fantasiam, mas não fazem idéia do que fazemos ou, por outro lado lado, deixamos de fazer. Teve até uma proposta de me delatar a uma Delegacia de Mulheres mas, como sou uma pessoa muito bem relacionada, (sou amigo até do Ricardo.)…fiquei amigo do comandante-em chefe- das delegacias de mulheres de São Paulo. Ou seja, K. ficou absolutamente minha refém…. a polícia jamais dará ouvidos às chorumelas dela contra meus ataques (quase fatais). O que eu ganho com isso? O que sempre quis, o controle absoluto sobre K. O que perco? Nada porque sou uma pessoa que, nessa altura, não tem mais nada a perder. Vejo no blog dessa menina (que é a menina dos meus olhos (?)) umas senhoras que se preocupam com ela sem saberem exatamente o que ela gosta de fazer comigo  (De quantas barbaridades ela é capaz!). Essa menina faz, senhoras e senhores, barbaridades comigo, muitas vezes sem fazer algo real, palpável. Sou um escravo, um sem-razão. Não me queixo de maneira nenhuma. Temos um pacto abençoado pelo demônio, vermelho como ele só! O que faço daqui pra frente? Nada. Perguntem a ela se tiverem coragem. Como realmente não têm, ignorem, comodamente, esse post e deixem a pedófila K. abusar desse menino que eu sou. À propósito…. você conhece a teoria do duplo? (Leiam Operação Shylok do Philip Roth) Se a teoria for correta, alguém existe em algum canto do mundo exatamente como nós. Se for incorreta, existe uma divisão mental em nós mesmos que faz com que criemos outro eu… Ou seja: quem é quem?

Revisitando mais ao norte

Essa mulher ao norte que altera minha percepção do lado de cá, que invade meus sentidos conscientes e inconscientes, minha percepção e me empurra no despenhadeiro do desequilíbrio. Que me acorda no meio da madrugada, que acalanta as tantas voltas que dou na cama em torno de mim mesmo como se pudesse fugir do meu próprio corpo, que ela machuca por não fazer, que provoca por prazer (mútuo), que toca e se afasta que sussurra e emudece para depois voltar a dizer as coisas da ‘Canção do Amor demais’ como se fosse a própria Elizeth. Penso de longe em Amaralina e imagino o Abaeté hoje, já. Mas o redudo é o visor de uma câmera… essa maneira de ver o mundo enquadrado do meu ponto de vista que, por ser único, mostra coisas, insinua outras tantas que não consigo explicar, prisioneiro que sou de mim mesmo, das percepções inimagináveis da visão recortada e libidinosa que mora em mim.

O meu DUPLO

Grandes confusões por causa de um convite que fiz a K. Na verdade tratava-se apenas de um degrau para ela tornar-se a maior estrela de cinema de todos os tempos. O talento e a beleza da menina (vejam seu template novo!) são inegáveis. Mas já mudei de idéia. Ela nem precisa de nenhum “degrau”. Tenho certeza de que produtores gigantes do mundo inteiro devem estar de olho, aguardando a hora certa.

Agora é verdade que meu OUTRO/DUPLO (porque todos nós temos um duplo em algum lugar, certo?) em São Paulo fica de artimanhas maldosas para demover a bela. O motivo é simples: ele vai ficar em São Paulo e tem pavor que a K. venha para o Rio.  Fica, pois, a dúvida, o mistério, o silêncio dos inocentes…mas tem gente que vai para o Pantanal e quando o caditado a gato sai, o rato faz a festa, ditado conhecido por todos…rs

DELETEI UM PARÁGRAFO QUE PODIA INSINUAR O QUE NÃO É. MINHAS MADRUGADAS COM K. SÃO EXCLUSIVAMENTE PARA DEBATES LITERÁRIOS.

As voltas que a cabeça dá

Feriado prolongado e mouse quebrado, que situação! A livraria não entregou os livros que solicitei, livros que deveria ter lido há vinte anos atrás. Agora, por acasos da vida, sei que eram importantes e não os conheci na época apropriada. Em contrapartida, conheci outros e os que falam comigo sobre aqueles também não leram os que eu li. O velho dilema de que a vida é muito breve para lermos tudo o que desejamos (e o que não desejamos também). Fazer o quê? Tentar recuperar tempos perdidos ou utilizar melhor esse tempo. Talvez escrever (retomar a escrita) de projetos maiores do que um blog. Talvez comentar mais no espaço de K. já que ela me pede para ser levada (não, não levada assim – que isso ela já é, ser levada por mim). Ou talvez não comentar nada e mandar algumas cartas diretas para ela e impublicáveis - não necessariamente pelo que possam estar pensando.

O mercado editoral brasileiro vai de vento em popa apesar dos preços extorsivos praticados, deixando a maior parte de população sem acesso à leitura. Parte do meu minguado salário fica em livrarias mensalmente. Todo mundo que lê separa um considerável montante de dinheiro para as livrarias. Os sebos no Brasil são muito fracos (um dos melhores, no edificio Central, fechou). Sim, já percebi que estou colocando frases soltas, reflexo de uma cabeça desconcentrada. A concentração é uma forma de “efeito colateral” da paz de espírito e meu espírito nunca esteve em paz (creio que jamais estará). A véspera de feriado também me leva a madrugadas em bares da Lapa, a delírios mais ou menos etílicos diante do paradoxo do saudosismo. Entenderam?

 

Novamente K(astor)

Curioso como as pessoas fazem perguntas a Kastor sobre eu e ela, se fazemos isso e aquilo e outras cositas más. Ela brinca com as respostas, ri muito e termina dizendo que é “brincadeirinha” rsrsr. Será mesmo? K. é um Beuvoir pós moderna, ou meta-Beuvoir. Não posso dizer que tenho um caso com ela – principalmente dependendo do que chamamos “caso”. Mas não posso negar que estamos muito próximos, um de olho sempre atento ao outro. Imagino que saibam porque ela é “minha Castor”. A verdade é que nossas vidas e nossas histórias misturam-se com biografias outras e novelas outras num mosaico, num paradoxo entre o Ser e o Nada. Nesse momento, ambos estamos trabalhando muito, sem tempo para nada, o que não impede de trocarmos rápidas correspondências. Mais ou menos sabemos o que está rolando com o outro. Verdade também que ela me adotou, é minha mãe total, mas ela igualmente sabe o quanto sou incestuoso. O único fato concreto é que não somos equilibrados, nunca fomos e jamais seremos. São Paulo e Rio: Lua e Sol. Vamos nos revezando em encontros e desencontros. Mas que tem alguma coisa nessa história, ah, isso tem.

Me perdi de mim – mas com tesão

Dia longo, poucas palavras. Sinto-me estranhamente esvaziado. Respondo a 300 perguntas em média por dia. Nem de um terço eu tenho certeza (e quem disse que eu tenho certeza de alguma coisa?) Dia a dia eu descubro que não tenho certeza de nada, que ninguém tem, que a vida é uma inspiração sem a garantia da expiração ou vice e versa. E no final eu faço o quê? Não sei, não sei e não sei. E quer saber? Nem quero saber. Sei que não existe o sempre nem o nunca, sei que a vida me leva e pessoas pontuais me gostam ou acreditam. Outras tantas desgostam e desacreditam. Normal.Um dia pretendi ser Super-Homem, dia de quase 50 anos atrás. Agora quero ser super flit… brasileiro… essa coisa jeka atávica que o Francis falava, essa coisa Macunaíma (detesto Macunaíma). Esse jeito babalaô que ora me encanta e ora me desespera de ódio. Rita Lee cantou “Sou amor da cabeça aos pés”. Cantei com ela. Talvez hoje nem cante tanto, mas queria ser, queria deixar alguma coisa que olhassem e falassem: ‘gozado, olha o que esse maluco fez… devia ser internado num manicômio’. Mas nem isso.. Quem fez isso foi o Raul Seixas. Então tá, eu imito ele naquilo que me pretendo, que tenho a ousadia de dizer que mais ou menos sei fazer. Sei? Sei nada! Eu já disse que não sei nada e não é brincadeira, eu gosto só de experimentar, de ver o que pode dar de uma coisinha que eu penso, imagino (nunca consegui realizar exatamente o que gostaria, mas quem conseguiu ?) Enfim, vou fazendo, experimentando, dando minhas cabeçadas – que não são absolutamente poucas – me amparando aqui e ali como cego em tiroteio. Mas com tesão.

Mais Tête-a-Tête

A leitura de Tête-a-Tête, se vista criticamente e sem partidarismos mostra que, apesar do lado bom das relações abertas, o casal ao abrir mão de uma certa fidelidade está, ao mesmo tempo, abrindo mão da felicidade. Talvez o ser humano realmente não seja monogâmico, mas a bigamia consentida e discutida, com certeza, também não traz felicidade. O exemplo de Sartre e Beuvoir é um exemplo clássico do sofrimento pela relação aberta e não o contrário como tentam nos provar os praticantes da mesma.

Existe uma tendência em todos nós em percebermos aquilo que acreditamos nos livros que estamos lendo. Então, por exemplo, se eu acredito em relações abertas, vejo em Tête-a-Tête um libelo a relações abertas. Evidentemente não se dá assim. Embora o livro descreva e analise a relação aberta de Sartre e Simone, por outro lado, mostra claramente a carga de sofrimento que essa relação causou em ambos influenciando suas obras e o fim (quase trágico) do casal. E eu me pergunto: isso é positivo? Valeu à pena? Não seria mais óbvio, mais cômodo não se assumirem como casal (embora não tenham casado de fato)? Aliás, A Idade da Razão (meu livro de cabeceira durante a juventude) e A convidada não se transformam quase em livros infanto juvenis? Já eram dois filósofos quando os escreveram! Ainda assim precisaram descarregar nos romances suas angústias existenciais não pelo existencialismo em si, mas pelo sofrimento que os relacionamentos extras do outro causava em cada um deles! Não cheguei ainda nessa parte do Tête-a-Tête, mas Sartre faz de A Náusea sua obra-prima do existencialismo, certo? Certo. Mas o que há por trás daquela náusea sufocante do mundo? Simplesmente o mundo? Não! Existe também uma náusea interior, náusea não apenas do que vê e pressente, mas do que vivencia! Sim, o mundo pode (e é) nauseante, mas conta nesse mundo também o eu, a própria forma de existir e se relacionar. E o sofrimento em nós mesmos conta bem mais do que a percepção de náusea e sofrimento no mundo em teoria.

Por fim, não sei qual o melhor modo de relacionamento. Talvez exista um meio para cada pessoa e o segredo esteja exatamente em encontrarmos pessoas que pensem como nós. Parece-me razoável, mas não como regra isso ou aquilo. Tirando as taras (que são doenças mentais), acredito que toda opção deve sempre ser considerada possivel e mesmo boa para o praticante. Somente para ele.

Precisa?

Querida

(Tom Jobim)

Longa é a tarde, longa é a vida
De tristes flores, longa ferida
Longa é a dor do pecador, querida

Breve é o dia, breve é a vida
De breves flores na despedida
Longa é a dor do pecador, querida
Breve é a dor do trovador, querida

Longa é a praia, longa restinga
Da Marambaia à Joatinga
Grande é a fé do pescador, querida
E a longa espera do caçador, perdida

O dia passa e eu nessa lida
Longa é a arte, tão breve a vida
Louco é o desejo do amador, querida, querida
Longo é o beijo do amador, bandida
Belo é o jovem mergulhador, na ida
Vasto é o mar, espelho do céu, querida, querida
Querida

Você tão linda nesse vestido
Você provoca minha libido
Chega mais perto meu amor bandido
Bandida, fingido, fingida, querido, querida

*precisa dizer mais alguma coisa?

Por outro lado

Por outro lado, é preciso olhar com atenção o caminho. Caminho não é uma estrada, caminho são pessoas. Nosso percurso não é feito de chão, mas feito, sobretudo, de pessoas. E essa é a mágica da vida: entender que seguimos adiante através de gente, gente como nós, uma espécie de trança substativa, gentil, às vezes raivosa e outras libidinosa. Trança de humores, tatos, cheiros, olhares (mesmo os de soslaio), percepções, necessidades de trocas… Trança de paixões, uma explosão infindável de sentimentos, atitudes e conseqüências humanamente deliciosas. Vida é a metafísica opção de dar-se e trocar com gente.

Encontros

O que pode ser tão interno em mim que não traduzo em palavras? O que acontece nessa espécie de adormecimento matinal quando meus sentidos estão todos à flor da pele? Onde está a pessoa que busquei pradarias afora? Onde estou eu mesmo que não reconheço esse lugar, essas palavras, esses sentimentos. A busca incessante continua porque vibro inteiro só em pensar, recordar, reviver. Pessoas e sentimentos sublimes ficam, grudam como tatuagem, são a ponte para meu exercício libidinosamente escancarado com a pessoa. Sempre, a pessoa. O entendimento fatal que a vida é o encontro permanente. Eu sinto assim. Ela, como deveria, é o mistério. É antes,a vida, a que me faz sentir. 

Bilhetes

Minha caixa de bilhetes:

Que lindo…
 
eu não mereço tantas palavras bonitas…

o que nós merecemos?

não tenho mais argumentos..rs..

argumento para…?

O sumo, o sumo

Posso trazer todo o traço indistindo, não falado, deixado de lado numa tarde de delicioso tormento.
 Se ela, entretanto, experimenta meu tormento,
minhas labaredas e meus espasmos…
se é dada a vivenciar todas as coisas
como quem visita asteróides invisíveis a olho nú…
Não, ela não será a mesma outra vez.
Será outra, será a próxima,
haverá dado um salto indistindo,
num mar de signos bissexuais…
entenderá o que é fundir-se completamente
ao corpo dele e ser usada,
violenta e ternamente usada
bem como fará uso dele como se ele fosse nada,
fosse um substantivo objeto de desejo e nada mais,
um escravo-patrão, um homem-mulher,
uma mistura de impressões, cheiros,
tensões e líquidos que brotam em profusão
até não se saber mais qual vem de quem…
ainda não, ainda não é a hora do canto da cotovia,
se estavam no tapete, voltem aos lençóis,
suguem o fruto que se oferece,
façam da seiva insistente – e reincidente -
a alegria (lacrimejante) máxima,
como se fosse a derradeira,
como se o sumo fosse o orvalho último

Como me afogo em você

Vim para dormir à tarde, para descontar a noite em claro, mas agora que bem poderia, o sono não me vem como a acusar-me de ser ainda de tarde. Não. Não necessitava realmente dormir, mas embalar-me num estado sonolento que me provocasse, quem sabe, o sonho. Sim, tenho dessas coisas, dessas vontades de sonhar sonhos bons, sonhos desses que nem propriamente sonhos são e sim planos, os mais marotos que já tive desde a infância. Hoje, fios brancos a cobrir-me o rosto, sonho muito mais atrevido e maroroto do que quando menino. Tenho para mim que meninos sonham pouco porque a própria vida que vem é matéria de sonho e mais: de sonho que vai realizar-se de verdade. Hoje tenho apenas o período fudidio de uma madrugada, um fiapo de vontade realizada como se meu desejo tivesse diminuído com a idade! Não! Continua igual! Não morri e não tenho sintomas de que vou por agora! Por que não realizar meu sonho num tempo bom, gostoso, duradouro como deve ser a realização de todos os desejos!?

Não importa muito. É verdade que eu poderia fazer igualmente ginástica de forma a manter, não o corpo em forma, mas a mente mais ou menos controlada. Impossível. Minha mente não se aquieta, diz para si mesma que estão querendo iludí-la ( e estão!) e não aceita nada como troca para seus anseios. Desejos… Um dia, há muito tempo atrás, acreditei que conseguiria controlar todos, que deixaria vir à tona apenas aqueles mais comedidos, de mais fácil realização. Desconsiderei a parte mais importante da história da vida: o outro. Sua imprevisibilidade, seu jeito manso de chegar e se instalar naquele canto do espírito em que não alcançamos. Pelo menos, não facilmente. Esqueci do óbvio, da coisa mais certa e inexperada: a incomensurável liberdade da outra pessoa. Agora tudo já aconteceu e não posso mais mudar as regras do jogo no meio do caminho. Resta-me seguir, perseguir, conquistar fragmentos. Foi o rumo que escolhi irresponsavelmente ao desconsiderar que nem tudo depende de mim. Tarde demais! Agora silencio reverente e libidinosamente.

Tem dias que é verdade: eu seria capaz de escrever um livro inteiro e dedicá-lo a outra pessoa. E não poderia ser menos, não poderia ser diferente ou nenhuma das coisas teria a lógica da atração

Os dias são passagens. Das lembranças do que foi e expectativas do que será

Ele senta na cadeira confortável, acende um cigarro e olha para o teto, hábito recorrente e inexplicável. O que existe é só lembrança. A noite, a madrugada, hora em que algumas crianças dormem e outras, mais velhas, relutam, é a morada do que há, do que pode haver, de quantos sentimentos, impressões e sensações rolam durante os dias. Ele pensa no que são os dias, passagens do tempo, período de aproximação, de mostrar-se, de compreender. Ele insiste sim, muito (por desejar e acreditar que é mútuo), mas não pode chamar de conquista. A conquista não existe como se imagina. O que acontece é uma troca, uma entrega, uma mistura de desejos, pernas, fluídos e sons (contidos). Ela – ele ainda recorda – se dá como se deu a seu filho. São os instantes em que tudo se mistura, quando a lógica cede espaço ao ser. Percebe que não é, não pode ser eventual nem racionalizado. Uma possibilidade de PLENITUDE pode desnudar a entrega mútua constante, o abandonar-se e o vivenciar tudo, dia após dia. Por quê? É o que há.

Existem momentos que não são descritíveis (nem deveriam), não são estudados nem analisados. São coisas além, mais profundas. Coisas de pessoas entre pessoas, o repouso na chegada ao porto seguro. A morada.

De uma simples e complexa história do que não é e é além de, eventualmente, relembrar Cervantes

 

Ela se exibe de todas as formas e maneiras dentro de um limite de total recato. Nela, nada há de exagero ou (possível) vulgaridade. Ser mulher é contar uma história (que é a do mundo), mas que mostra, antes, pura emoção. É um tentar, um avançar e retroceder, um ‘diz que diz que’ de pele e de contrações (internas), um roçar ora suave, ora aflitivo, um sumo que se insinua até quase transbordar, mas se recolhe sem domínio de si… É ter e ser o resultado de sua história e ainda assim ouvir a insanidade que essa história ainda não começou TOTALMENTE, ser substantiva e adjetiva, saber até que, entre outras tantas coisas e situações, é lembrada também (Sempre, numa deliciosa recorrência) numa fantasia insana de gozo no quintal (de uma frase dita um dia e jamais esquecida*)… Não é só… é ser desejada por mais de uma pessoa e, nem por isso, perder a docilidade, a suavidade e saber quem é quem, o quê é o quê e porquê… Essa mulher que não dorme e me acompanha na madrugada, que sussurra em meu ouvido e envolve minhas pernas nas suas libidinosamente cândida… religiosamente devassa. É uma moça (como se anuncia) que mexe, altera toda a história, desequilibra toda a ordem do universo, subvertendo diligentemente  o que era, transformando o que poderia ser no que será ou o contrário (não sei bem)… porque as coisas podem se fazer de frases inocentes, maternais como “Ai, como eu te amo…” – E ISSO PODE ALTERAR TODO O SENTIDO DA VIDA (Sim, porque sempre pode ser alterado além da “vida ser a arte do encontro” como ELE disse). E tudo, sempre, sob o signo do devaneio.

Mas todas essas coisas retiradas de desvãos de espírito e coração são também parte da convicção (nossa) de que a vida, mesmo substantiva é, essencialmente sublime, sempre e que dar-se com vontade, [como amador] é receber e que o paradoxo nem é tão importante, nem deveria ter esse nome e, por fim, o que parecia não ter substância, surpreende-nos, a ambos

Como preparar-se nos finais de tarde

Agora, quando o dia começa a se transformar em noite, quando os tons do céu mudam devagar, imperceptívelmente, sou aquele que lê algumas páginas de um livro, mas não as apreende, precisa voltar atrás. A cabeça está oca e fixa. O corpo, em guarda. O espírito, desalinhado, mas firme e tranqüilo. Esse meu conjunto acampa na expectativa da noite. Simplesmente.

(do G.I.*)

Um pensamento perigoso porque, por trás de uma simplicidade quanse óbvia, esconde em si uma quantidade enorme de signos de devaneio

As formas de dizer

O tempo, os dias… todas as coisas me reafirmam o que eu disse antes: os comentários sempre podem ser sussurrados ao meu ouvido

E esta forma inclui todas as possibilidades. Inclusive, a de uma timidez deliciosa, que fica mais à vontade, por hora, em me escrever ao invés de falar… Sim, com toda a certeza, tudo pode.

Anotações dispersas ao longo das madrugadas em que o frio se obstina em mim como tatuagem.

Eventualmente carrego toda a tristeza do mundo. O tempo, senhor da razão, tem uma renitente assincronia comigo. Aposto no improvável e depois, de forma um tanto histriônica, pantomima, vivencio o que não era para ser, o que foi avisado. Eu tenho a sorte de conhecer pessoas que me dizem a verdade de maneira meiga, mas firme. Concordo com todas as propostas, sinceramente desejo correr todos os riscos. E isso é uma verdade absoluta. Ao mesmo tempo, esquizofrenicamente, um outro lado meu sussurra em meu ouvido que não, que não vai acontecer o acordado, que as coisas vão se inverter e não sentirei frio. Sem dúvida, incoerente, ilógico, ilegal e indecente. Não sou incoerente (repito a palavra?) nem desdigo minha proposta de risco. Ela é sincera, tangível, está claro. Minha inconstância é comigo apenas. De noite, madrugada adentro, o sono insiste em escapulir de forma insidiosa, quase libidinosa. Tomo inúmeras doses de uísque puro buscando não a insensatez (que essa trago em mim naturalmente, sem necessidade do álcool), mas buscando o acalanto ou, por fim, um pouco menos de frio. Viro de um lado para o outro. Reafirmo meu compromisso em aceitar o pacto da imprevisibilidade, da incerteza e da dúvida. Antes, do “improvável” anunciado. Sim! Apago o abajur e, no escuro, observo o teto à procura das estrelas (que vejo concretamente). Apenas é estranho esse frio que me chega aos ossos da alma e uma solidão que, imprópria, me agrada ao imaginar que ela esteja feliz, plena. Em meio às cobertas, libidinosamente, escancaro para mim mesmo que sou paradoxal, disrítmico, eventualmente frágil, mas certamente um incorrigível amador. Amador como uma tatuagem que me queima deliciosamente.

(retirado do Geraldo Iglesias*)

E o que tudo quer dizer? Por que transcrevo um pensamento da madrugada e do frio que me vai? Por nada e por tudo. Porque reafirmo e insisto em que o clímax é o beijo. Imagino que ele aconteça intensamente neste exato momento e, ousado, me imagino imaginado. 


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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

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