Terminei o último livro do Updike. Até poderia fazer algumas considerações, mas não, melhor não. Dia desses eu falei por aqui na vantagem de ler esse autor. Ele capta, como Phillip Roth, a essência da alma nos EUA. Ler romances desses autores é também aprender história da América. Agora volto ao Francis concordando com ele: Upidike é juquinha. Praticamente em todos os seus livros o foco da ação é sempre a vida sexual dos personagens. À cada personagem que vai aparecendo na trama, você diz: “E?” E lá vem. Uma vez descrito mais ou menos – deixando de lado a composição psicológica e filosófica – vamos diretos para a sexualidade: quem trepa com quem, em que posições, quantas vezes por semana, etc, etc.
Tá, você pode me perguntar se eu não acho isso relevante e é claro que acho sim. Não falar da sexualidade é abortar um lado fundamental do ser humano (e personagem). Mas acho sim que essa abordagem deve ser feita ao lado de uma composição mais completa do personagem (qualquer um deles – e não apenas do principal).
Aparecem mulheres junto ao personagem central que entram apenas para trepar em situações tais e tais, com frequência (saudade do trema) tal e por aí vai… se é no capim, no motel, no muro ao lado da casa da moça etc. Mas se eu sei tão pouco da moça! De qualquer forma a literatura tem isso de bom também: faz a gente criar personagens juntamente com o autor (talvez nossa construção seja até mais elaborada!), Chega a dar calafrio pensar que nenhum personagem de nenhum autor é absolutamente percebido pelo leitor com a mesma intensidade (pode ser maior). Igualmente nenhum personagem é nem física nem moralmente como imaginou o seu criador. E nas artes, só a literatura é tão livre, só a literatura é refeita por cada leitor (imaginem quando vira filme: o que os diretores não fazem com as personagens dos livros..rs.

Ele senta na cadeira confortável, acende um cigarro e olha para o teto, hábito recorrente e inexplicável. O que existe é só lembrança. A noite, a madrugada, hora em que algumas crianças dormem e outras, mais velhas, relutam, é a morada do que há, do que pode haver, de quantos sentimentos, impressões e sensações rolam durante os dias. Ele pensa no que são os dias, passagens do tempo, período de aproximação, de mostrar-se, de compreender. Ele insiste sim, muito (por desejar e acreditar que é mútuo), mas não pode chamar de conquista. A conquista não existe como se imagina. O que acontece é uma troca, uma entrega, uma mistura de desejos, pernas, fluídos e sons (contidos). Ela – ele ainda recorda – se dá como se deu a seu filho. São os instantes em que tudo se mistura, quando a lógica cede espaço ao ser. Percebe que não é, não pode ser eventual nem racionalizado. Uma possibilidade de PLENITUDE pode desnudar a entrega mútua constante, o abandonar-se e o vivenciar tudo, dia após dia. Por quê? É o que há.

Disseram