Arquivo para a categoria 'Lenda Urbana'

de Garfield

Essa história toda corre demais, estressa demais, goza demais e, por fim, mata demais. Não dá tempo de estar atento à todas as coisas e falar e escrever sobre elas. Eu, pelo menos, não consigo. Bem verdade que (infelizmente) já uso filtros naturais que me afastam do que não é importante (será?)

= = = = = = = =>> A levar em consideração mínima razoável todas as coisas que me chegam, eu seria obrigado a, pelo menos, parar com os livros e com o blog. Depois, se ainda assim, o tempo não for compatível…  cortar essa ou aquela coisa das poucas que (já) faço. A televisão, por exemplo, não é mais um meio de educação ou lazer. Nenhum canal trás nada de útil ou novo (nenhuma delas! Mesmo as que têm obrigação de produzir). Televisão só presta pra gente ver filme, nada mais.

Revistas como a Rolling Stone se apresentam como “jovens”, o que torna a publicação ridícula, “apatetada”. A revista Piauí sem dúvida é a melhor, mas erra na mão, exagera numa cultura exacerbada que parece mais almanaque de farmácia.

Enquanto isso ficamos em casa com medo das ruas podres, dos tiroteios, dos assaltos e (até) dos proxenetas. Com isso somos rotulados de excêntricos ou de loucos (depende da conta bancária de cada um..). Isso aumenta o consumo da memória do computador e a quantidade de resmas ou cadernos que manuscrevemos. Sim, porque, de uma maneira ou de outra, sempre damos vazão à angustia de Garfield, a angústia existencial

Book Crossing

Ontem novamente encontrei o mendigo-intelectual que aparece sempre na rua com um caudaloso livro e escrevendo ele mesmo sobre o que está impresso. Sei de muitas pessoas que fazem anotações no rodapé ou nos espaços laterais respeitando sempre o que o autor publicou. Esse homem (cada dia ele me diz um nome) é muito mais ousado (e, acredito, muito mais criativo). Ele reescreve os livros, “dá uma força para o autor“. Sentei-me a seu lado e procurei ler o que ele escrevia e, para minha surpresa, era uma redação lógica – ainda que louca – mas que poderia estar impressa igualmente. Diz ele que não concorda com alguns livros – que eu saiba, não concorda com nenhum – e, pacientemente, vai reescrevendo-o em partes ou no todo. Não pede dinheiro nem anda embriagado, sua droga é esse tipo de literatura que ele absorve e, simultaneamente, produz. Verdade que ele não fala muito, absorto em seu trabalho. O que me pergunto sempre é como (ele) escreve tanto e os jovens – grande parte deles – não conseguem fazer uma mísera e simples redação escolar!

Vez por outra esse homem me conta histórias, diz que não é do Rio de Janeiro (e outras vezes diz que não é do Brasil) e não gosta muito de conversar, mas que sente simpatia por mim, pela minha atenção com seu “trabalho”. Já perguntei porque ele não escreve num caderno com folhas em branco onde poderia criar o que bem entendesse, mas ele argumenta que não, que sua missão é corrigir informações imprecisas ou “sem criatividade” já impressas anteriormente. Para maior surpresa ainda, revela que, ao terminar suas anotações, deixa o livro em qualquer lugar para que outros o encontrem e leiam o que ele escreveu. Ou seja, diante dessa aparente loucura, ele participa do Book Crossing - movimento internacional em que pessoas deixam livros em locais públicos para que outros encontrem e a cultura e informação circulem mais democraticamente!

E isso acontece aqui, no Centro do Rio, próximo à Lapa. Ou seja, creio que a sociedade deveria dar mais voz à população das ruas, aos que vivem à margem, porque muitos deles (a maioria) cria métodos de sobrevivência e de ocupação de seu tempo que não seja, necessariamente, esmolar.

Encontros

Eu o reconheci ontem na porta de um bar de esquina. Estava muito mais velho do que me lembrava dele – mais mal vestido também. Não me pareceu drogado. Tinha um olhar distante, apagado. Me aproximei e puxei algum assunto relembrando o tempo que trabalhamos juntos. Ele sorriu um sorriso triste, sombrio como se não se lembrasse de nada ou, pior, lembrasse mas nada importasse. Troquei algumas vezes de assunto, mas ele não reagia. Perguntei porque estava assim, triste e solitário e ele não me respondeu. Pessoas que se apagam em vida, que morrem sem deitar, que perdem a identidade a força, a coragem de continuar lutando. Seria uma doença fatal? Um grande desgosto amoroso? Um baque financeiro? Não me disse. Ao fim de alguns minutos percebi que ele realmente não diria uma só palavra, não diria nada a mim nem a ninguém porque estava numa espécie de outra dimensão. E trata-se de uma pessoa pública. Comprei, por fim, meu cigarro e voltei para casa, vazio, sem nem me despedir.

As explicações

Não sei se foram os derrames de Sartre ou seu alcoolismo o que mais me impressionaram. Creio que foram os derrames. Essa doença que chega de repente e nos joga no chão da vida parece-me uma prova contundente da não existência de Deus. A menos, como me disse D., não seja razoável que, existindo, Deus seja bom. Sim, pode até existir Deus, mas ele nem é bom nem justo. Mas ora! Seres humanos não são bons nem justos. De que serve então um Deus igualmente insano? Melhor lidar com as insanidades terrenas. Ou não é nada disso? Se não é nada disso, devemos deixar de lado um pouco Deus (que ouve oito bilhões de súplicas – atendendo aqui e ali) e partirmos para uma fé um pouco mais rasa, essa que apregoa que, à princípio, somos todos culpados e pecadores e o que nos acontece é apenas o castigo pelo que fizemos. E se não fizemos nada? Bom, pelo que fizemos em outra vida e não lembramos. Ou seja: de uma maneira ou de outra estamos condenados ao sofrimento, à dor, à desgraça terrena em nome de uma justiça divina. E é com isso que querem me convencer… (continua)

Velhos equilibristas

Tempos silenciosos. Tempos em que não nos comunicamos, preferimos não dizer, não questionar nem afirmar. E já não sei se esse tempo é bom ou ruim. Mas há silêncio, sem dúvida. Estamos demasiadamente envolvidos conosco, observando nossos pensamentos (sempre escusos). Porque, na verdade, existem outros eus, uma outra personalidade que habita meu corpo, o seu, o dela. E conversamos – e damos ouvidos – a essa outra personalidade. Virgínia Wolf escutou tantas e tantas vozes que preferiu o fundo do rio. Nós não escutamos vozes. Nós criamos vozes, personagens que somos de nós mesmos e que se rebelam provocando nossas discussões internas e, portanto, nossos silêncios externos. Não existe esse homem só que Camus pretendeu. Existe o homem como grupo. Interno e externo. Existe sim a possibilidade da paixão devoradora ou do ócio emocional. Uma ponte arcaica de madeiras e cipós que atravessamos pé ante pé, atentos a que o desequilíbrio pode ser fatal. Gal Fatal. Buscamos horizontes além das nuvens não porque necessitemos sonhar, mas, antes, porque AQUI não basta. Não me basta esse aqui, nem aquele ali. Preciso (precisamos) de mais, de muito mais, de mochila nas costas da alma para viagens longas, para terras e pessoas desconhecidas. Nossos passos são de anos-luz. Nossa curiosidade não finda com o ponto último do romance. Seria simplista demais. Ontem vi um homem velho e, aparentemente, embriagado equilibrando-se no meio da rua à noite, numa encruzilhada com os carros passando à sua volta, passando pertinho e fiquei ali olhando, sem conseguir me mexer, esperando um carro atingir mortalmente o velho. Por que não fui salvá-lo? Por quê? Mas a vida independe de mim e o homem chegou à calçada salvo como um justo, mais salvo do que eu. Vi um velho em perigo, pronto para morrer e fiquei paralisado. E ele me mostrou que, sim, a vida independe das minhas ações e talvez hoje ele esteja novamente cambaleando numa encruzilhada e vá morrer apenas quando chegar à calçada, morrer de morte morrida, dessas sem história para contar, sem colorido vermelho. Na verdade estamos todos nas encruzilhadas da vida e da morte, estamos todos nos equilibrando em qualquer coisa, todos sendo observados, todos definitivamente sós.

Sem festa no arraiá

Jornais falam da epidemia da dengue, dos “tribunais” de execução nos morros e do dossiê de D. Dilma. Esses assuntos são recorrentes há mais de quinze dias. Não se fala em mais nada e, muito menos, resolvem-se essas questões. O Brasil é mais ou menos assim: sem solução. Não adianta nem a denúncia da imprensa, não adianta nada! É triste viver num lugar assim, nessa desordem, balbúrdia, irresponsabilidade. O povo é bovino, não vai para as ruas, não cria situações de fato. O tempo da passeata dos cem mil acabou, não volta mais. Simplesmente todo mundo acovardado, quieto em casa, sussurrando em botequins. Quer dizer, falar dessas coisas aqui, igualmente resultará em NADA!

Os dias de chuva são mais ou menos depressivos (ou deprimentes, como queiram) e, por outro lado estimulam o exercício pródigo da leitura e da escrita. E como os jornais são repetição da repetição restam os livros que nos trazem situações novas, empolgantes e emocionantes. Mais do que o cinema, a internet e a televisão, o livro ainda é o modo ideal de ocupação não formal (como carregar pedras, por exemplo). E repito que ainda estou muito atrasado em minhas leituras (finalizando agora “A elegância do ouriço” – indicação perfeita da mais que perfeita K.) Claro que isso não diminui minha angústia porque a pilha de livros à espera continua ali, olhando-me de soslaio. E repito que existem épocas em que damos uma certa emburrecida sim. Existem fases de desinteresse pelos livros, uma preguiça ancestral, atávica, uma distração que impossibilita avançar duas páginas… Ainda mais quando você olha seu saldo bancário negativo (rs). Estive assim e passou (o saldo continua igual). Voltando ao livro, muito interessante a passagem da menina que tenta fingir que é esquizofrênica. De certa maneira, acho que todo mundo é ou gostaria de ser um pouquinho esquizofrênico (mas não temos esse diagnóstico e isso frustra).

O resultado é que nos entregamos à Filosofia e ao estudo da Estética. Porque ambas as matérias são primas da loucura, dessa loucura básica que precisamos conquistar. Uma pessoa sem um mínimo de loucura nem chega a poder se classificar como pessoa. Temos todos a necessidade de falar e fazer coisas diferentes, nem que seja um pouquinho por dia. Quem não consegue, quem se impõe uma rotina draconiana embarca num processo regressivo até virar um macaco. Por isso vejo tantos macacos pelas ruas e todos eles chamam a atenção não por serem macacos, mas por serem macacos aloprados (palavra da moda). No momento, talvez eu seja um aloprado que ainda não chegou a macaco.

Se eu busco a fantasia? Sim, quem não busca? Como viver sem fantasia? Viver a vida à seco é nada, é não viver, é tornar-se o espermatozóide que não chegou lá. Até porque a fantasia é muito mais real do que algumas ‘realidades’ impostas e aceitas por um grupo. A realidade nada mais é do que um tipo de fantasia criada em cartório, com firma reconhecida. Eles dizem: “isso é a realidade” e colocam um carimbo. Ora, que bobagem: realidade e fantasia se entrelaçam e bailam juntas na geléia geral do dia a dia profano. Esperar alguma coisa muito diferente disso é esperar o que chamam de milagre e aí começa aquela história toda novamente sobre quem faz e quem é beneficiário dos milagres (e porquê). E como não espero milagre algum prefiro promover a grande festa, a grande bacanal, a urdidura do salto no escuro não me interessando se estou na senzala ou não.

Lapa….post 387

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Passeio por ruas estreitas de casarios antigos, quase estilo rococó. Percebo que o Poder Público deveria cuidar melhor desses lugares, fazer uma obra de revitalização como foi feita no Pelourinho (BA), por exemplo. Não entendo porque as pessoas têm preconceitos e não curtem o belo. Realmente o mar é belo e aqui não tem mar. Ouro Preto, em Minas também não tem mar e é bela. Encontro pessoas na rua com o rostos tranqüilos, com expressão de ‘cidade do interior’. Crianças brincam sem medo da violência urbana… Casais e turmas vêm de todos os pontos da cidade à noite para freqüentar as melhores casas noturnas.

O artista compra a casa para ser sua residência e seu atelier, pequenas produtoras de vídeo e de áudio se estabalecem aqui. O comércio é próspero. Sim, é verdade que há quarenta anos atrás aqui era o lugar dos malandros e travestis, dos batedores de carteira e tal. Hoje isso não acontece mais, essa turma foi toda para Copacabana (bairro em que realmente me sinto inseguro). Não sei, eu acho preconceito com esse lugar tão belo. Mas talvez seja uma visão meio ufanista da minha parte. Por hora, fico aqui.

Homenagem ao malandro

Chico Buarque

Eu fui fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais

Eu fui à Lapa e perdi a viagem
Que aquela tal malandragem
Não existe mais

Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal

Mas o malandro pra valer
- não espalha
Aposentou a navalha
Tem mulher e filho e tralha e tal

Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central

Tolice

Oscarito era de família européia, espanhola.

Eu fico impressionado como as pessoas ficam futucando os blogues e achando que estou citando-as. Tem gente que não consegue ser objetiva e, tolinhos, acham que eu uso os mesmos expedientes. Ou seja, estou sendo patrulhado.

O que eu não entendo é como, tendo tanta coisa pra ler, tanta coisa boa, uma pessoa fica vindo aqui para ver o que digo e monitorar terceiras. O que eu acho grave é me provocar, sabendo que eu não tenho muita paciência…

Tampouco sou porta voz nem moleque de recados. Portanto, espero realmente ser deixado em paz.

Animal

“Até cinqüenta anos atrás, a ciência ainda achava que o homem era o único animal com inteligência para usar e fabricar ferramentas. Imaginava-se também que somente nós éramos capazes de autoconhecimento e de antecipar situações. Ou ainda de nos comunicar com os demais da espécie por meio de símbolos. Todas essas proposições foram condenadas ao ocaso graças ao estudo aprofundado dos primatas. Há diferenças, é óbvio, entre o homem e seus parentes. Mas elas são muito menores do que se pensava e só foram impressas ao nosso comportamento de forma lenta e gradual. Para ter uma compreensão completa sobre nossa espécie, é preciso analisá-la dentro de um panorama de evolução biológica que precede sua existência. A observação científica demonstra que, para além das semelhanças anatômicas, também comungamos nossos traços comportamentais com outros primatas. Conhecê-los é também um exercício de autodescoberta. ” 

Frans de Waal

Viva Lula!

“da Folha Online

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o fechamento da RCTV pelo presidente venezuelano Hugo Chávez foi um ato tão democrático quanto seria a possível renovação da concessão da emissora.”

Lula goza com o pau do Chavez. O sonho dele era estatizar tudo por aqui (e ele consegue um bocado). Mas a ditadura não se faz completa enquanto não se empastela um meio de comunicação. No Brasil, Lula teria orgasmos múltiplos se tivesse cacife pra fechar a TV Globo. Não tem. A globo é que “fecha” ele.
Mas não tem problema: se Chavez fechou um canal (o maior) de televisão privada, abriu um outro, estatal, para ser seu instrumento de propaganda. Deve ser uma espécie de TV Pública de lá.
Pois o Lula faz o mesmo aqui, não fecha a Rede Globo porque não pode, mas destina 350 milhões do orçamento (nosso dinheiro) para uma TV Pública que nenhum participante do governo (nem o Franklin Marins – MR-8) consegue explicar a finalidade.
O Chavez chamou o Congresso brasileiro de papagaio de pirata dos EUA, esculhambou a democracia brasileira e o que leva em troca? Afagos do companheiro Lula.

Que dizer, é uma história que não tem mais jeito mesmo, não merece mais um linha num blog sequer. Lula é mais filhote de Chavez do que o Congresso brasileiro é papagaio dos EUA. Lula tem uma veneração por Chavéz que só uma relação homossexual explicaria. E se não é essa a relação, então é o ideário comunista mesmo, aquelas coisas que o mundo inteiro conclui que não dão certo, mas que sobrevivem como lenda abaixo do Equador. Enquanto isso, faço feito o Mainardi: assisto a novela das 8 e compro tudo o que anunciam nos intervalos comerciais. Só pra irritar o Lula.

Mico

Sou visto como uma espécie de Mico-leão-dourado ou Ararinha Azul… Interessante

Aqui

Já imaginei uma vida pacata, sensata, nos campos, com filhos, discos e nada mais. Não é verdade, não é bem assim, dá uma vontade tremenda de mandar colocar concreto em cima de qualquer coisa verde. A gente tem apenas a emoção da ida e depois a realização da volta. O resto é mentira. É preciso estar bem certo de que lá fora tem essas pessoas anormais que eu falei ainda há pouco, esses loucos e cruzam pra lá e pra cá como num apocalipse mambembe. Pior é ouvir bois e vacas. 

Não quero ter botijão de gás nem chuveiro elétrico, não quero que falte energia nunca e que defeito em telefone não leve mais de cinco minutos para ser consertado. Quero saber que a ambulância do Pró-Cardíaco existe e que hábeis são seus motoristas. Quer ainda a padaria diversificada e o McDonald sempre presente numa esquine porque ele redime minha alma. 

A televisão deve ter cem canais porque ainda assim existem momentos monótonos em que não encontramos nenhum filme que nos interesse. Eu, por exemplo, que não sei falar inglês tenho problemas em assistir filmes legendados quando estou deitado porque a legenda aparece em pé e não sou japonês. Tenho vontade de colocar a televisão de lado para que a legenda fique na posição correta dos meus olhos. Embora raramente use, quero que meu celular tenha sempre sinal e que o jornal chegue fresquinho na minha porta em todas as manhãs. 

Como sou fumante, não tenho nada contra poluição, muito ao contrário. Acho os ecologistas uns chatos e não estou nem um pouco assustado com as mudanças climáticas. Pra mim isso tudo é absolutamente irrelevante até porque os países em desenvolvimento ainda vão ter que queimar muito petróleo para alcançarem os outros e essa história de fim do mundo é pra boi dormir. 

Preciso ainda saber que numa emergência, num engarrafamento enorme sempre teremos a opção dos helicópteros (mesmo que precisem ser blindados, não faz mal) e que temos frio e calor e que as notícias não param de saltar da internet me informando tanto e tanto que não dou absolutamente conta de tanta informação e no fim nem lembro mais o que eu sei nem onde li escutei. Quero ainda minha psi recebendo sempre propagandistas de laboratórios, sempre com um remedinho novo, mais eficaz que o de ontem.

Por fim, colchão de molas, desses não recomendados pelos ortopedistas e muita, mas muita Coca Cola.

Gente xangai

Olha, uma coisa muito xangai, que eu não aguento é ficar explicando coisas. Realmente nunca tive e agora então não tenho a menor paciência. Porque as pessoas acabam te usando, você passa a vida inteira ali, assistindo isso e aquilo, lendo isso mais aquilo e as pessoas vão chegando assim e, na conversa, querem que você fale tudo, desembuche em meia hora o que levou 40 anos pra aprender… Qual é?

A mesma coisa aqui. Isso aqui é um espaço que a gente tem pra publicar coisas, pra falar do que anda sentindo e de uma impressão ou outra sobre determinados assuntos. Sem querer um pensamento puxa outro e acabamos citando algo ou alguém como referência porque o mundo é feito de referências não é não?
Aí te escrevem esses pela sacos perguntando isso e aquilo, querendo saber se você conhece aquilo outro e sei mais o quê. Eu não conheço nada, não sei nada e nem quero saber. Explicar então… Detesto!

Depois que inventaram o Google, a Wikipédia, etc. acabou a burrice do mundo. Basta ir lá que sempre tem uma orelha, um verbete, alguma coisa que possibilite você a não fazer feio na hora de pedir a mão da moça. Allen fala disso em match point. O camarada lia uma edição de bolso de crime e castigo se não me engano e passou por erudito com o pai da moça. Outra coisa é esse negócio de pegar um nome qualquer que eu citei e me escrever enormes e.mails (chatíssimos) discorrendo sobre aquele autor, outros livros, personagens , etc. Ficar querendo cagar regra. Que falta do que fazer….

Plataforma

Estou numa estação de trens, já na plataforma. O lugar é numa cidade pequena da Alemanha ou de algum país do leste Europeu. Ambiente pequeno, certamente uma cidade de interior. Duas malas medianas no chão. Eu e a mulher usamos óculos escuros e trazemos casacos pendurados nos braços. Falamos muito e fumamos descontrolodamente. Há uma agonia no ar, uma impressão de perda, de fim de linha. Ela usa uma boina cor de vinho que realça seus cabelos dourados. Não há nenhum trem ainda na plataforma e as poucas pessoas que circulam por ali não nos prestam atenção. O tempo não pára, mas também não passa.

Um menino, com caixa de engraxate, lustra os enormes sapatos marrons de um homem que usa piteira e pulseira de ouro. É um dia nublado embora não lembre de frio excessivo. Ela protesta com lágrimas nos olhos que os óculos escuros não escondem. De vez em quando eu ando de um lado para o outro, como a procurar argumentos. Não há. Ali é o fim de linha. Fim de história, de uma longa história. Parece que nenhum dos dois deseja esse final, mas ele já está decidido. Já estão na estação e o trem chegará à qualquer momento.

O que não consigo identificar de jeito algum é qual de nós dois vai embarcar. Por outro lado, reconheço que não vai somente quem entrar no trem porque ficar também é ir. Todos os momentos que precedem embarques são ilusórios quando apenas um entra no veículo. É uma tolice, uma diabrura de anjos sacanas. Sempre vão os dois, a distância aumenta, é final da mesma maneira. Sempre há uma esperança: o marido de Virgínia Woolf conseguiu demovê-la da partida para Londres quando ambos estavam na plataforma de embarque.

A partida é tão certa quanto a morte. Talvez por sso chamem a morte de partida. Em todo lugar e a qualquer tempo, sempre há a partida. A ida de um e conseqüente afastamento do outro que, parado, afasta-se na mesma velocidade de quem vai é a angústia de quem vive. E não adianta tentar impedir esse movimento porque a vida já faz assim: para cada encontro, há sempre uma partida tornando o homem incompleto e infeliz. É marca da condição humana. Ela me entraga o livro cheio de orelhas, muito manuseado, quase sujo. Não me surpreendo nada ao folheá-lo e constatar que suas páginas estão em branco, nada impresso. Faz parte.

Guardo o pequeno volume no bolso do sobretudo e, nesse momento, o contato de minha mão com uma papel encorpado como cartolina me faz uma revelção. Tiro. É um bilhete de embarque, uma passagem. Sou eu então quem vai embarcar, o viajante. Com certeza, durante toda a pantomima eu estava buscando argumentos para explicar minha partida e as lágrimas em seus olhos eram de pedido para que eu não cedesse uma vez mais. Capitulei. Mais um vez eu vou. Com minha pequena bagagem, meus poucos pertences. Para a próxima estação, próxima parada, prócima cidade. Sempre assim. Indo.

Menino

Faz de mim tua vontade mesmo que não seja verdade. Desiste, rapaz, de acreditar nessa força de vontade, nessa imposição de um mundo vão. Acalanta a canção que lembra da avó porque desta só mesmo lembrança de ciranda. Esconde na fresta, reentrância de parede, o bilhetinho da moça da rua porque ela pode não voltar [moças fazem isto, menino, às vezes não voltam nem ao cair da tarde].
Por certo há o cais, limite de nosso espaço. O cais lembra-me sempre a possibilidade de partida, de outras terras, outras gentes. Nada disso me agrada não. Sou pessegueiro enraizado que verga ao peso das frutas e assusta crianças na noite.
Não perde tempo meu rapaz, vai célere em busca de uma outra coisa porque as coisas que estão aqui já não são como as de lá. Sempre assim, ciclos, até o fim. Anda, rapazola de cambitos compridos, rosto espinhento e boné de gomos coloridos. Te espraia nesse mundão enquanto seu padre não chega, enquanto não é hora de colheita, enquanto o feijão tá no fogo e o presente embrulhado não vem.
Aproveita essa terra sem medo porque ela é cidade pequena onde todos nós nascemos, mas um dia vai chegar que o tempo vai trazer e o trilho vai mostrar o que vai acontecer. Tempo de grandeza, roupa de homem, relógio de bolso e bacuris de calça curta. Apressa que o tempo vem atrás de ti.

Dente

Extrair um dente, mesmo que seja lá atrás, o último, é uma mutilação enorme. Eu acho. Temos uma relação muito próxima com a boca. Ela está intimamente ligada a psicologia, a um certo auto-retrato que temos e fazemos de nós. Portanto, ter um dente à menos na boca é sinal de desgraça (talvez um pouco menos). Nunca esqueci o filme o Inquilino, de Polansky onde o personagem arranca um dente e o guarda num buraco na parede. Não lembro exatamente qual era o caráter da situação exatamente, mas lembro muito bem que ele depois pula do terceito andar, se machuca muito, sobre outra vez e pula novamente, aí sim para a morte. Dente é parte de nós, imutável, não nascerá outro, como um órgão estirpado. Não sei não, a mim me deprime.

É a Vida

Não tenho lá muita certeza nessas coisas humanas porque as pessoas misturam-se num primeiro momento – tornam massa como já disse – e tendemos a esperar da massa o que vem de um. O que é, evidentemente, uma tremenda estupidez já que cada pessoa é uma pessoa. O que isso representa no final das contas é o tal desencanto e conseqüente desencontro que todo mundo vive. Temos uma tendência natural à surpresa quando essas coisas acontecem porque não acreditamos muito que aconteça com a gente, embora existam milhões de provas ao contrário o tempo todo. A relação homem-homem e eu-tu são fadadas a um fracasso existencial (ainda que não haja ruptura das situações sociais).
Um Pensador alemão descreve com muita clareza nos jogos humanos a relação eu-tu em que um dos participantes é um vampiro. Usando o linguajar do século 19 ele trata das situações onde um homem é vampirizado pelo outro. Hoje esse termo é comum, mas a teoria dele, primeira, parece dar conta, como um descobridor, de uma espécie muito mais comum do que imaginamos.

O que temos e não gostamos de falar nem de pensar e muito menos de assumir é uma sociedade composta de muito mais vampiros do que se supõe. Muitas vezes nós mesmos, sem nos darmos conta, assumimos esse papel, o que é diferente, ocasional, deslize. Existe um grupo que é assumidamente, que perde a individualidade, necessitando do outro para viver, buscando no outro a substância mágica que o alimenta. Os verdadeiros vampiros sociais têm seus próprios códigos e referências e nomeiam seu vampirismo de outra coisa, na maioria das vezes cândida. Porque os verdadeiros vampiros são mortais e sofrem. Não pelo que o resto do grupo sofre e sim pela falta da matéria objeto de sua própria sustentação sugada do outro.

Torna-se eventualmente confuso, porque ao encontrarmos essa espécie, ele tem várias reações metódicas, articuladas que têm mesmo esse propósito enganador. Uma pessoa aproxima-se da outra, afeiçoa-se e, pouco a pouco, vai lançando propostas diversas, uma rede de possibilidades grande que, num primeiro momento, encanta ao invés de assustar. A coisa funciona muito bem porque somos todos indivíduos carentes e nada pode cativar mais do que ter um outro que nos deseje. Quando toda a relação está instalada pode-se até achar que alguma coisa está errada, mas atribuimos esse ‘erro’ a nós mesmos que, afinal, ‘nunca estamos satisfeitos com nada’. Estabelecida a relação, acreditamos estar vivenciando o momento eu-tu, falsa impressão. É um processo tu-tu ou ele-ele. Perdemos a condição de humanos, trocando-a pelo de hospedeiros.

Com o tempo, restam apenas duas opções: ou vivenciamos aquilo tudo e seremos deixados quando estivermos secos, sem substância mais para fornecer a quem se alimentou de nós ou refugamos antes. A segunda alternativa é igualmente dolorosa porque o vampiro (que não se chama assm), rejeitado tem uma atitude violenta, agressiva. Ainda que se afaste, o faz com ódio, virulência, desprezo. Sao essas situações em que não entendemos porque, no afastamento o outro torna-se um inimigo. O que antes parecia um sentimento de amor e afeto, negado, transforma-se em ódio e o outro, em ambas as possibilidades, fica atônito perguntando-se o que fêz e onde errou.

Diante disso, de uma história longa, relatada num bar aprazível num belo fim de tarde, olho a mulher nos olhos com profundas olheiras e fico sem ter o que dizer. São situações que não há o que aconselhar, muito menos recriminar, apenas ouvir. O caminho de volta, no carro, é silencioso. Estou absorto em meus pensamentos. Fico pensando que sou um camarada de muita sorte. Comigo, isso nunca aconteceu. Fui abençoado porque todas, sem excessão, as pessoas com que me envolvi foram bacanas, relaciono-me dentro do possível com todas, não ficou nenhuma história mal resolvida, não há ressentimentos verdadeiros. Minha amiga ali ao meu lado, dirigindo o automóvel não teve sorte e não percebeu esse jogo, essa possibilidade de início. Não posso censurá-la, não posso nada. É a vida. Em casa novamente, com meus discos, livros, meu gato, escuto as mensagens gravadas na secretária e procuro responder a todas. No fundo estou triste por ela, penso um pouco, mas sei que não há nada realmente a fazer. É a vida.

Paulo Barreto ou não?

O apócrifo “no primeiro crime o maior bandido é sempre a vítima” poderia ser a primeira frase das Memórias de Um Rato de Hotel (Dantes Editora), de Maciel Arthur Antunes, o Dr. Antonio, ladrão gaúcho que atuou no Rio de Janeiro no início do século. Mas ela somente aparece no quarto conjunto de fólios, após um preâmbulo do narrador, de um artigo de João do Rio e de um prefácio de Plínio Doyle. E se não bastasse, há um posfácio, assinado por João Carlos Rodrigues, cujo encerramento outorga ao leitor o benefício da dúvida, quanto ao verdadeiro autor.”

Uma discussão de pauta, uma pessoa tentando me vender uma idéia e eu, cético, querendo entender até que ponto tudo aquilo tem alguma verdade.
E quando me vejo, estou enredado numa discussão sobre João do Rio. Retorno para casa, releio os livros de João e volto. No dia seguinte (nova reunião) a discussão continua. A coisa avança, vêm as suspeitas que Plinio Doyle sentiu em relação ao livro. Fica uma coisa puxando a outra, a conversa vai perdendo o foco (porque nessa altura termina a reunião e fica todo mundo parado assistindo a discussão) e vou me irritando. Peço um minuto, saio, telefono a um poeta amigo e pergunto sobre a história: ele confirma que há dúvidas sim. Merda! Imponho então a minha vontade de que seja outro livro, um de Lígia Fagundes Telles. A produção entra em ação e, azar, azar, ela está adoentada e não pode falar.
Não me interessa o que Plinio Doyle acreditou, foda-se ele, eu quero acreditar…. ou não.

Inconformado, percorro inúmeras livrarias e a porcaria do livro Memórias de um Rato de Hotel não está à venda em nenhuma. Biblioteca Nacional… livros digitalizados: NADA. Faço uma busca enorme na internet. Todas as resenhas, referências, tudo. Todo mundo fala, comenta, especula e outros não fazem nada, apenas mostram a resenha do livro. (ATENÇÃO: No prefácio de ‘A Alma Encantadora das Ruas’ – 1908 – MINHA EDIÇÃO É MAIS RECENTE E ESSE FATO, NÃO DEVE CONSTAR NA PRIMEIRA EDIÇÃO  – há uma referência a que ele, João, em 21 de Junho de 1911, começara, no Jornal A NOITE, a editar – sem assinar – ‘Memórias de um Rato de Hotel’. Editar? Mas, ao mesmo tempo, ele editava no mesmo jornal “O Retrato de Dorian Gray” e nem por isso é autor desse livro. Agora a questão mudou. Não me interessa mais se esse livro vai ou não no programa, pode ir, o tema é mais do que adequado, o que eu quero é tentar descobrir, poder eu mesmo avaliar se é ou não uma obra do cronista.

Encontro finalmente o livro numa livraria virtual e imediatamente faço a compra. Deve chegar em 3, 4 dias. É muito tempo. Torno novamente aos livros de João do Rio. Leio, releio, estudo. Ele deixou alguma pista que tinha escrito um romance tão insólito? Algumas coisas batem como o período descrito, as referências à pontos do Rio daquela época, uma certa filosofia travestida de humor…
Sim, João do Rio pode muito bem ter escrito aquele livrinho. Deixo de lado minhas leituras do momento e me dedico ao cronista. Sua biografia, sua obra, suas circunstâncias. Um alter-ego? Pode ser. Levando em consideração esse levantamento, concluo que ‘certamente’ João é o autor do livro. “Certamente“. Hipótese.

Meados de 1911. Ora, o jornalismo fervilhava. Ainda que sem chance de publicar em jornal ou fama, quantos cronistas não existiram naquela época aqui no Rio, capital federal? Quantos trabalhavam como repórteres e, no abrigo de suas casas, escreviam crônicas sobre a cidade? Até mesmo a postura de flâneur não era exclusiva de João do Rio. Ou seja: qualquer desses profissionais poderiam muito bem ter escrito o livro. João é uma das possibilidades.
Doyle relata que encontrou esse livro num sebo, livrinho de capa horrorosa, autor desconhecido. Folheando, encontrou um pedaço de papel que dizia: ‘Este livro foi escrito por João do Rio’. Quem escreveu e por que deixou lá? Não era mais fácil procurar um jornal levantar a polêmica? Ter para si o mérito da ‘descoberta’. Posso entrar num sebo, procurar um volume antigo da Divina Comédia e colocar um bilhete dizendo que aquela obra foi escrita por Carpeux. E daí?
Resta-me ler e ler João do Rio e aguardar o livro encomendado.
Tudo porque resolvi fazer um programa com a pauta Rato.

Sol

Os dias chuvosos predispõem à uma certa melancolia. Pelo que li, acontece em todos os países, inclusive naqueles em que o tempo está sempre nublado e envolto
em brumas. Creio que nesses lugares, nascidas ali, as pessoas estejam mais acostumadas, sofrendo menos essas intempéries, divertindo-se mesmo com a neve e essas coisas todas. Existe  uma teoria de que os países frios são mais evoluídos que os solares. Não vem ao caso. O Rio é uma cidade solar, linda, de céu sempre azul, na maioria das vezes calor forte que faz o carioca ter uma alma festeira e reunir-se amiúde em bares com amigos para tomar cerveja, por exemplo. É uma característica do Brasil, país que parece estar sempre em ‘férias’, um dos motivos da forte atração turística. Dizem que é um país abençoado por Deus e eu compreendo muito bem essa crendice. É mesmo necessário a um povo sofrido sentir-se eleito pela benção de Deus. Como outros povos acreditam que existe uma Terra Prometida e assim vai. No fundo, os povos, se equilibram em sua relações com o Divino. Acho forte a frase atribuída a Marx de que “A religião é o ópio do povo”. Percebendo com outro olhar, é praticamente inimaginável um povo levar a vida sem uma expectativa metafísica. Até no suicida, a possibilidade de um Deus está presente.

Pesadelo

 

Há um homem grande, comprido e alto em frente à minha cama. Coloca-se numa posição que não me deixa espaço para escapar. ao mesmo tempo, não tenho mesmo forças. não tenho certeza se é uma ou são duas criaturas. estão encobertas por sombras embora todo o ambiente esteja escuro. vi uma cena assim num filme sobre ETs. como não creio nem em ETs, prefiro imaginar que estou alucinando.

a febre alta, por vezes, provoca uma certa alucinação, o que não acho de todo mal. a vida vivida rotineiramente pede eventualmente uns sustos, por isso assistimos filmes de terror ou colocamo-nos em situações perigosas. situações em que nos expomos mesmo. a alucinação, nesse caso, é mais cômoda porque não sabemos nem se é alucinação de verdade ou um simplório pesadelo. o excesso, por outro lado, é igualmente desinteressante, porque a banalização do susto diminui seu impacto.

Bom lembrar que, na maioria das vezes, um pesadelo ou alucinação não trazem seres estranhos ou disformes… Não! Trazem exatamente pessoas tais como as conhecemos no dia a dia, dessas que aturamos por obrigação, mas que não passam de ‘pesadelos vivos’, ‘acordados’ da nossa vã existência

De Repente (Vinícius de Morais)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

As meninas

 

o sol nasce trazendo à reboque o jornal, a farmácia, a padaria. traz sentimentos. leio o que escreveram por aí. algumas coisas me chamam a atenção. verdade que tudo me chama a atenção, quero participar de tudo ao mesmo tempo, conhecer todas as coisas de uma só vez. verdade também que acabo não fazendo nada.

eu não fazer nada, além de ser um estorvo para algumas pessoas, sirvo também como um espelho assustador, fazendo com que elas façam mais e mais, corram (como Lola). imagino que seja interessante correr tanto de um lado para o outro, conhecer tudo o que está sendo feito, estar atualizado. a mim, parece maratona, mas não é. contento-me com velhos filmes na televisão e notícias de ontem no jornal de hoje. a internet perde um pouco a graça. verdade que aqui leio coisas que me deixam curioso, mas são distantes. se estou inserido nesse mundo? Não sei. Creio que não.

O jornal diz que a polícia vai reprimir prostitutas de copacabana em busca de menores de idade? Uma mulher de 17 anos é menor de idade? E todas as garotas que não são prostitutas (nesse sentido) e dão sem parar desde os 13, 14 anos? Quem mora com os pais deve poder, só pode ser isso. Elas começam muito cedo porque estão liberadas, embora só gozem pra valer à partir dos 35. Gozar não é matéria para iniciante. Fazer gozar também não. Mas isso é outra história…

Mundo cão…

Ontem o cachorro do vizinho teve febre. Puxa… foi um pandemônio… Trata-se de um cão que sempre vejo pimposo, caminhando com a dona. Usa inclusive aquelas roupinhas (acho desinteressantes). É muito querido no prédio e redondezas. Eu achava que era manso ( e é). É curioso que as pessoas não prestem atenção a isso na vida: esses cãezinhos, eventualmente, têm febre.

Sonho?

Sonho recorrentemente com uma parece branca. Mais de uma parede. Sem janelas nem portas. Parede caiada de branco, áspera ao toque. Dou alguns passos e vejo outra parede. Mudo o rumo percebendo que são corredores na verdade. Olho para mim mesmo: há um enorme espelho num ponto no lugar da parede. Minha imagem está deformada como num espelho de circo mambembe. Normal. Entro e saio em corredores de paredes brancas. Não exatamente limpas.

Fio de Ariadne? Não preciso. Acho que sei onde é a saída. Melhor caminhar um pouco mais. Labirinto? Talvez, mas o que não é um labirinto? A vida vivida e não sonhada é lambiríntica, racionalizo no sono. Com um pouco mais de atenção, ouço vozes baixas ou ao longe. Existem outras pessoas nesse lugar. Não as vejo, mas estão lá. E, para falarem, devem estar juntas. Uma família, um grupo no labirinto? Mas não é essa a matéria da vida? Grupos em labirintos? O que é uma cidade afinal? um grupo num labirinto. Sabe-se onde quer ir. Chega-se a um ponto. De um ponto a outro e a outro e a outro. Mas sempre entre corredores.
Sinto fome e frito dois ovos. Sacio-me. Comer um ovo é engolir um projeto de.
A televisão, num canto, repete programas desinteressantes. desligo. Caminho um pouco mais por esses corredores que acabam por não serem tão desagradáveis.

O chão é de um ocre desbotado. Procuro por outros espelhos e não encontro. Nem mesmo aquele por que passei há pouco. Não ligo, não gosto mesmo de espelhos. Uma poltrona, uma mesinha e uma luminária. Sobre a mesinha, “Do sentimento Trágico da Vida” de Miguel de Unamuno, filósofo luterano. Livro que devorei há muitos anos atrás, embora jamais tenha me convencido. Na falta de outro, sento-me confortavelmente e releio trechos, folheando a meu gosto. Quem me indicou esse livro já morreu.
O ruído de chamada me alerta de que há um telefone preso à parede. Atendo. É uma amiga que quer conversar.

E assim passa o tempo. Me levanto e faço um café preto, leio o jornal, um pouco mais de um livro, rascunho pensamentos esparsos e preparo textos e relatórios para o trabalho. Banho. Medicamentos. Lavar os óculos. O céu muito azul, sempre lindo (como me agradam os dias!). Deixo de prestar atenção nas paredes caiadas de branco. Outras coisas me ocupam. Respondo a correspondência. Meu gato exige comida e água frescas. Mais uma vez, tenho preguiça – muita.

Lá em cima eu disse que “sonho”? Sou exagerado. Não sei mesmo o que é sonho ou realidade. Acho que as duas coisas são uma só. Não?

Será?

Engraçado…. nada contra, mas proliferam assustadoramente blogs de mulheres contando suas aventuras sexuais. As posições são dignas de torcicolos, trepam todo dia e à cada vez, gozam 8, 9 vezes… Invariavelmente com pessoas diferentes. Pode ser…
Quando eu era menino, a revista Ele e Ela trazia uma seção chamada fórum, onde os leitores contavam suas inúmeras e fantásticas aventuras sexuais. A seção ficou tão famosa que virou uma nova revista, encartada na primeira. Eu ficava realmente impressionado com tanta gente encontrando tanta gente e a elasticidade corporal para as acrobacias… Duas décadas depois conheci um jornalista que trabalhara na revista e era o redator das “cartas” Ha Ha.

Árvore

 

Sempre vi furacões, vendavais e toda a sorte de manifestações violentas na natureza… no cinema.
às vezes, também em telejornais tinha visto imagens de maremotos e vendavais que destelhavam casas e derrubavam árvores imensas. Sempre em lugares longínquos, coisa do ‘outro mundo’. Pois não é que ontem à noite rolou um desses vendavais por aqui?! Eu tava tomando uma Coca e comendo uma pizza no bar da esquina; Começou um vendaval forte, de repente. As folhas caídas das árvores e poeira do chão giravam no ar, pedaços de plástico e papéis vinham voando. Imaginei que ia cair uma chuva daquelas. Fui para o estúdio, sabendo que, no final no programa, enfrentaria muita água… Pois não é que de repente a equipe veio desesperada querendo saber de quem era um carro estacionado em frente porque uma árvore caíra em cima? Todos foram para a rua ver. Imaginei um galho maior ou uma coisa assim, dessas normais que eu sempre vi. Pois não. Pela primeira vez na minha vida vi uma árvore enorme, arrancada do chão (quebrou todas as pedrinhas da calçada, deixando uma cratera!). Uma árvore imensa caiu em cima de um carro fazendo um estrago danado. Tão grande que seu tronco fechou a rua, indo a copa espatifar-se na outra calçada e, na base, suas enormes raízes assim, expostas. Fiquei impressionado. Nunca tinha visto nada parecido. Vivendo e aprendendo…

Cara de árvore

Os dias amanhecem mostrando pra gente o que virá em seguida [só não avisam a morte]. no mais, baseado no passado recente, nas coisas que rolaram nos dias anteriores, a gente sabe exatamente quais os desdobramentos que virão. - impressionante – sou um bom lutador [ainda sou], mas confesso que sinto uma enorme preguiça quando sei que vou discutir com as mesmas pessoas as mesmas coisas óbvias, que o assunto vai rolar, vai pintar opinião daqui e dali e nada muda. os problemas que vi no programa que foi ao ar serão novamente discutidos, todos falarão, sabe-se quem é o responsável, mas criam-se soluções mágicas para que não voltem a acontecer e isso é um movimento eterno, que se arrasta por anos, décadas. faz parte de uma certa cultura idiota das produções identificar problemas, discutir e pensar soluções para evitá-los no futuro, sempre sem solução… mais ou menos como nos grandes desastres de avião.

Isso me provoca Náusea e Tédio. Quando as pessoas falham muito, comprovadamente são desatentas, não estão nem aí pra nada… é uma situação em que fico naturalmente impotente porque nem tenho vontade de esganar nem nada, tenho um certo nojo, uma certa repulsa – preguiça de apontar caminhos certos e tal – porque a relação corporativa é muito chata, muito inconseqüente. Você tem que que escrever para uns e outros mostrando o óbvio e eles não têm jamais a resposta/ação pronta. Tudo isso faz parte de um certo jogo político inter-pessoal que – embora ainda saiba fazer - não tenho mais a menor paciência.

Aliás, eu penso um pouco nessa história e reconheço que não tenho muita paciência com as coisas. Mentira: não tenho nenhuma. ESSE É UM PROBLEMA SÉRIO – QUE SÓ ATINGE A MIM MESMO! - Não ter paciência com os outros implica quase que em uma prisão. Porque não são os incapazes que se incomodam nem que se afastam e sim, nós mesmos. É preciso então exercitar a aceitação, a capadidade de escutar [uma asneira maior do que a outra!] e fazer cara de árvore. Na maioria das minhas relações diárias eu já faço cara de árvore. É uma daquelas máscaras que eu falei aí pra trás, muito útil porque ela não representa nada e as pessoas gostam porque entendem na cara de árvore uma certa aceitação de si mesmas, entendem que o outro está compreendendo. Bah!

Pra mim, o duro é estar no meio do caminho. Ter que assumir a geléia geral, bater palmas pra maluco dançar (não bastasse eu!)… Eu, definitivamente, não quero assumir essa porra toda, tô cansado e de saco super cheio. Além da decepção!  Complica mesmo quando não dá mais vontade de escrever, quando vejo que tudo o que está escrito não é lido . Saco!!!

Lapa

Tenho caminhando mais pela Lapa em três meses do que fiz em quinze anos em Copacabana. não tem um porquê muito específico não. deve ser uma certa curiosidade por um lugar que era tabu na minha infância, ou a falta da motocicleta que permitiu tantas descobertas de locais sórdidos pelo Sobretudo de Lona em 2001 mais ou menos.
Mas a Lapa não é sórdida como eu imaginei. Em toda esquina tem alguém fazendo churrasquinho de gato e tomando cerveja nesses bares que colocam cadeiras e mesas de plástico nas calçadas. Nem falo dessa área mais nobre, tão falada da “revitalização da Lapa”. Não falo desses lugares. Falo de uma outra tribo, a minha.
as casas norturnas da tal “revitalização” cobram preços tão abusivos quantos os bares de Ipanema há dez anos atrás (e hoje).

Falo mesmo de coisas e lugares e personagens que me chamam a atenção. os travestis e prostitutas daqui são mais interessantes do que os de Copacabana, por exemplo. são mais pobres, então “inventam” coisas, têm um jeito próprio de se vestirem. as pessoas que andam pelas calçadas fora da noite, são pessoas muito simples, todos moradores daqui, em bermudas e camisetas simples, que se reúnem em torno das mesas com cerveja e bebem tranqüilamente, como se fosse uma outra cidade. Nunca vi um corre-corre, uma pega-ladrão ou uma pessoa morta. os despossuídos daqui são muito mais ligados à loucura e ao abandono do que a mendicância organizada da zona sul. não é uma apologia da lapa, claro que não. Aqui não tem praia nem lagoa, por exemplo. A vista é sempre de casarios e mais casarios que se misturam com edifícios humildes de apartamentos.

Ruelas

Até os automóveis que trafegam por aqui são mais velhos e feios, acredite! Não tem livraria! quer coisa pior? Os malandros – porque existem – estão num meio de caminho: nem são aqueles do morro, nem os estilizados da zona sul. são malandros pobres, que têm sim uma hostilidadezinha no olhar, mas, talvez por não andarem em bandos, seguram a onda. Os supermercados são ruins, vendem produtos de terceira categoria – porque ninguém sai da Cobal do Leblon pra fazer compras aqui! rs. Bancas de jornais também quase não existem e são todas paupérrimas. Nenhuma charutaria (só no Arco do Teles na Praça XV). Ou seja: não tem nenhum glamour morar na Lapa. Pra mim serve. Eu gosto.

A Lapa

No livro que li recentemente de Updike, o personagem judeu Jack Levy, sessenta e poucos anos, descrente, quase ateu, orientador educacional, cansado de tudo, daqueles alunos que não querem nada, levante-se às 4:30 h. da manhã com cuidado para não acordar sua mulher. Fica ali sentado um pouco, toma café e vai ler para esperar o dia amanhecer.
Pois hoje, levanto-me às 4,10 e me levanto para tomar café. O jornal ainda não chegou.
A insônia tem vários motivos, mas digamos que simplesmente durmo pouco mesmo (o que me lembra o meu saudoso – muito – Josué Montello). Fico sentado na saleta com o Artur no colo. Ele ronrona e me abraça (é verdade!). Pede comida e água fresca que providencio. É noite fechada ainda. Silêncio absoluto, quebrado eventualmente por um carro ou motocicleta que passam.


A Lapa, já disse, é um lugar muito silencioso. pelo menos esses trecho onde moro, rua pequena, nenhuma agitação. como eu gosto. Eu vivia no bairro peixoto em copacabana que era muito quieto, tive muito medo quando me mudei para cá, mas dei sorte.
Gosto daqui. Estou aprendendo a gostar mais.
Já contei que ontem, quando o calor diminuiu eu saí e andei um bocado pelas redondezas. Casarios, ruas estreitas, pessoas humildes e pacatas, comércio insipiente (farmácia, padaria, loja de doces, muitos restaurantes).

aqui eu sinto falta de livrarias, lojas de discos, Mc Donald e outras coisas. O número de bares e restaurantes deve-se ao fato das pessoas virem para cá apenas para trabalhar. Quase não há cachorros nas ruas, é raro. a população é de gente idosa. com certeza os mais novos, os filhos dessas famílias migraram cedo para a zona sul ou norte, dependendo de cada um. como em copacabana, ficaram aqui os velhos. os que, como eu, não se importam de dizerem que moram na lapa ou no centro. nem de dia nem de longe vejo os tais malandros, os rufiões e a prostitutas tão cantados e descritos na literatura. nada. travestis? sim, mas muito menos do que em copacabana. os automóveis trafegam à baixa velocidade e as ruas, infelizmente, não são limpas.
como o lugar abriga a secretaria de segurança pública, tem muita polícia, o que não é bom nem mau, apenas uma constatação. o domingo por aqui lembra o de uma vila de subúrbio. os marginais ainda são batedores de carteira porque não existem morros perto (e nem boca de fumo e nem disputas por esses locais). é mais ou menos assim esse lugar. não é uma apologia. com certeza, se eu pudesse, moraria na lagoa, no leblon ou na urca. mas acho aqui bom também.

o desencontro

vez por outra (ou quase sempre) eu cometo gafes ou, por outra, faço cagadas imperdoáveis. hoje fiz ao ligar para B. de madrugada, por uma confusão demente: como ela iria sair, achei que talvez não tivesse chegado ou estivesse chegando. na verdade, ela estava dormindo e eu acho repgunante a idéia de despertar uma pessoa em meio ao seu descanso. e pra isso, não há mesmo explicação nem possibilidade de auto-perdão. verdade, sem drama.
mas B. certamente não vai me demonizar, vai dizer que entende e todas aquelas coisas que me deixarão mais culpado. então, é pra ela que eu escrevo.
a verdade é que não consigo passar muito tempo sem ouvir sua voz, sem estar ‘perto’, nesse meu jeito obtuso de ser. e com certeza, por ela estar domindo, não dormirei eu do lado de cá.

procuro então ver, em retrospecto, o que aconteceu… os meninos que trabalham comigo (assistente e estagiária) dão tudo de si, mas dão pra mim, não caminham por suas próprias pernas. melhor: me assistem perfeitamente e com cuidado e carinho, mas ainda não me substituem. ou seja: cuidam de todos os detalhes que enumerei didaticamente, mas refugam quando é a hora de criar e assumir a responsabilidade pelo todo. normal. resta-me o timão consciente de que terei que repassá-lo o quanto antes. mas enquanto não acontece, me sobra enfrentar as ondas….

trato a equipe e as atrizes, tranqüilo como o cirurgião prestes a se aposentar, como quem opera um períneo pela milésima vez. percebo ao meu redor uma certa admiração pelo que faço e pergunto a mim mesmo qual seria a postura a tomar se eu fosse realmente aquele e não esse, que repete e reproduz o que se fantasia de arte, mas é, na verdade, o eterno repetir de operações que, sabidamente, resultam no sucesso momentâneo, não por si, mas antes, pela certeza de que, como o mágico suburbano, cria a falsa sensação de um sucesso verdadeiramente imerecido.

findo o pretenso espetáculo, L. e L., parceiras em profissão e inimidas renhidas nas suas verdades, me arrastam para um uísque sabiamente arquitetado dentro da geografia da minha limitação. e como não tenho nada, sucumbo ao frescor das suas peles e ao olhar pretensamente cobiçoso em mim, inverdade absoluta, desde a raiz, porque me não percebem jamais, nunca, em hipótese alguma c0mo eu sou, mas, antes, como um criador de criaturas que elas pretendem ser. No final é uma decepção generalizada: nem têm o frescor, nem são criaturas nem sou criador. é um nada de nada, afogado em cachaça. cansado e desiludido, encontro em casa o aconhego sincero do artur, esse gato que percebe em mim, antes de um possível, um ser desprovido de nada, como sou na verdade, percebe em mim a possibilidade de me abraçar e dormir, sem um rótulo sequer. e há mais a dizer, mas a embriguês me derrota….


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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

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