Arquivo para a categoria 'Idéias e ideais'

Alternativas fatais

Tempo que passa, tempo parado, dúvidas sobre o tempo tempo, essa opção pouco séria da existência. Quando o jipe de rodas enormes rodou pelas areias ferventes do imaginário de outra dimensão, me dei conta de que não estava mais aqui pelo simples motivo de que sentía-me vitimado: a perda de contato com minhas três pessoas, aquelas que entendiam um pouco melhor o processo em que ingressei no raiar dos tempos e até hoje é pouco compreendido. No dia em que decidi não explicar mais nada nessa terra malemolente (demais, às vezes) para as mesmas pessoas que reiteradamente insistem em não perceber esse meu óbvio que escorre daqui e dali, dessa gosma-vida refrigerada que empurra os ponteiros dos meu relógio desordenadamenete, sistólicamente, digamos. E nada mais aconteceu. Minha opção pelo silêncio ou pela filosofia do silêncio encontrou os ecos nos ouvidos moucos que partiram para outras plagas. Se me importo? Sim e não.

Se ou não ser

Existe uma forma de pensamento (com fumaças de cartesiano) que pode nos enviar para caminhos muitas vezes obscuros. Mas por quê? Isso aplicado à Teologia e à religião de uma forma geral ocasiona determinados “engarrafamentos emntais”, via de regra quando a dicussão cai para a crença metafísica ( se podemos chamar assim ) e um certo ateísmo atávico do ser humano (embora em 99% dos casos esteja presente de uma forma totalmente inconsciente). Freud escreveu muito sobre o seu ateísmo e Jung escreveu outro tanto pela sua fé inabalável em Deus. Diante dessa herança miscigenada apareceram mundo a fora várias concepções “filosóficas” – uns puxando para cá e outros, para lá. A solução individual é simplesmente uma profunda auto-análise e o livre arbítreo de cada um.

Sempre Hannah ou Simone?

Entre 4 Paredes” e “A Náusea” são (peça e livro) o lado light de Jean Paul Sartre. Você só perde o chão e todos os referenciais e percebe-se  olhando sua própria imagem num espelho rachado de rodoviária do interior… quando encara os tijolaços “O Ser e o Nada” e “Crítica da Razão Dialética” livros básicos da construção do conceitos filosóficos do Existencialismo. Me falam coisas sobre Camus que eu discordo diametralmente e repilo como verdades absolutas… até porque o mundo não possui verdades absolutas e, muito menos, verdades. Quem lê o Mito de Sísifo de Camus e acha que está lendo filosofia pura é burro, não está entendendo. Existe um conceito linear, uma trama que chegaria ao novelesco não fosse a carga pesada de simbolismo contextualizada no livro.

Nesse aspecto acho que Hannah Arendt foi mais coerente e, por outro lado, menos abrangente no ato de escrever algum filosofia à luz da literatura. Não acho que exista nenhum ‘pecado do lado de cima do Equador’ (rs). A questão é outra, é apenas se desejamos entender ou não o nosso próprio eu, nosso racionalismo que nem sempre é tão barato como parece ao desatento doidivanas, ao leitor que não vau além da literatura sul americana. Tenho a impressão que só conseguimos pensar e agir “racionalmente” exatamente quando ultrapassamos nossas barreiras e nos debruçamos na proposta do outro. Como fez Simone de Beauvoir, por exemplo.

Responsabilidade total de ser

Ao contrário das “previsões” de Domenico de Masi (italiano meio golpista que fica entre cientista social e escritor de livros de ‘auto-ajuda’ (O Futuro do Trabalho e A sociedade pós-industrial – quem não leu?), a modernidade com todas as parafernálias digitais que nos vendem dias e noites não são nem minimamente parecidas com “O Ócio Criativo” – também de Domenico. Entretanto não vai uma crítica direta, absolutamente, porque ele escreveu e descreveu inúmeras situações possíveis. O problema é que ele fala em tese, à partir do avanço das novas tecnologias (e aí ele acerta). O fracasso da sua proposta é que ele não se dá conta que deveria ser um processo completo, quero dizer. homens e tecnologias. E isso não acontece. Quanto mais lançam produtos que podem nos dar conforto, mas ficamos ansiosos, trabalhamos mais, nos desesperamos mais. Os exemplos podem até ser simplistas: quanto tempo levávamos para descobrir um verbete numa enciclopédia? E a mais atualizada enciclopédia falava de fatos importantes que ocorreram no dia anterior? Tudo não, não e não, certo? Mais ou menos. Temos algumas (e boas) enciclopédias virtuais (Wikipédia e o próprio Google). A pesquisa que há 15 ou 20 anos levaria minutos e mais minutos (e nada estava atualizado!) hoje temos a resposta em 5, dez segundos.

E o que acontece então? Usamos esse tempo para o ócio criativo? De maneira nenhuma: primeiro ficamos estressados com a demora das páginas abrirem nos computadores (sim, achamos tudo lento demais!) E então? Bom, abrimos outras páginas para ir adiantando o serviço (que levará intermináveis dez segundos). Escrevemos textos no word e disparamos vinte e.mails – PORQUE NÃO PODEMOS PERDER TEMPO!

Claro que Domenico de Masi merece todas as criticas por prever um futuro completamente irreal (e impossível). Ele errou gravemente ao levar em conta o futuro em relação aos avanços tecnológicos, deixando de lado o homem. E, lembremos, o homem é bicho do homem ou:

O inferno são os outros (de J.P. Sartre)

Para entender melhor, transcrevo trecho pequeno da Wikipédia – enciclopédia virtual – sobre Sartre

O Outro

As outras pessoas são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se sobrepõem. Mas Sartre não defende, como muitos pensam, o solipsismo. O homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Só através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo. Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro. “O ser Para-si só é Para-si através do outro”, idéia que Sartre herdou de Hegel. Cada pessoa, embora não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode reconhecer neles o que têm de igual. E cada um precisa desse reconhecimento. Por mim mesmo não tenho acesso à minha essência, sou um eterno “tornar-me”, um “vir-a-ser” que nunca se completa. Só através dos olhos dos outros posso ter acesso à minha própria essência, ainda que temporária. Só a convivência é capaz de me dar a certeza de que estou fazendo as escolhas que desejo. Daí vem a idéia de que “o inferno são os outros”, ou seja, embora sejam eles que impossibilitem a concretização de meus projetos, colocando-se sempre no meu caminho, não posso evitar sua convivência. Sem eles o próprio projeto fundamental não faria sentido.

A insuportável insegurança da política nas artes

Reciclar cinema e teatro bem como programas em televisão é uma tarefa árdua e. principalmente, necessita verdadeiramente de criatividade, estética e conteúdo. Porque quando você conclui um documentário ou um programa desses de “linha”, semanais ou diários, precisa entender bem o que está fazendo e o porquê está fazendo. Essa história de usar programas como instrumento de aparelhamento político, erc! – a coisa não sai. Ou melhor, os “homens das artes” rodam, rodam, se desfazem dos desafetos, mas continuam incapazes de dar um passo è frente em termos objetivos de mudanças criativas. Isso ocorre muito em televisões geridas por governos estaduais ou pelo governo federal. Como não existe a quem dar satisfações sobre como a verba foi gasta (ou pior: como não foi gasta), fica um samba do crioulo doido, equipes inteiras de televisão e cinema, elencos de teatro, etc. boiando de lá para cá sempre na expectativa dos novos políticos que vão mandar. Porque à cada gestão, cada novo ‘diretor’ ou “supervisor” que entra rola sempre a preocupação de nessecitarem mostrar do que são capazes (à priori esses gestores políticos – “da boquinha” - acham que sabem um pouco (ou muito – que vira caos)  “se acham” os únicos na Terra com capacidade e criatividade. O resto é o resto é o resto . Não muda nada, são as cartas marcadas. Um desses casos, por exemplo, pode ser a nossa Jandira, do Partido Comunista, agora Secretária de Cultura. Já tivemos a república de Alagoas e mais algumas. Agora temos a outro estado “da boca” – na área federal e a da Barra da Tijuca no Rio para a gestão dos teatros municipais. Tudo com o seu, o meu o nosso…

Prazer e orgasmo no trabalho

Apesar da chuva fina, vou andando pela rua em busca de um lugar para comer (evidentemente que num raio de cem metros de onde me encontro). Penso em tomar uma cerveja, mas não, melhor não. Sento para comer e mastigo rapidamente, quero ir embora dali. Existem lugares que nos atraem, nos aconchegam e outros que são explícitos no baixo astral, essas coisas que derrubam a gente. E considerando a brevidade da vida, o melhor mesmo é fazer o que dá prazer. Esse prazer se traduz de inúmeras formas que vão do trabalho até a vida afetiva. Eu acho o trabalho um local que pode – e deve – gerar muito prazer porque trabalhar é legal, a vida sem trabalho é monótona. O trabalho dá uma certa dignidade interior à cada um, independente do que o outro ache. Nada desse papo de que “o trabalho dignifica o homem”. Isso é uma retórica idiotinha, jequinha demais para meu gosto. Pouco importa se nos acham dignos ou não, essa dignidade, se vamos chamar assim, deve  ser percebida em nós e não, necessariamente, na comunidade. Exatamente por ser trabalho é que nossa ocupação e relacionamento deve ser fonte de prazer (um prazer quase eufórico). O trabalho deveria ter alguma relação com o prazer do orgasmo

O Clube da Luta

Uma discussão sobre temas ligados à filosofia, mostra o quanto é difícil fazer uma avaliação de pessoas de forma filosófica e não psicológica (como falei num desses posts abaixo). Porque quando discutimos formas de viver, formas de encarar, dar visibilidade às nossas atitudes ocorre uma certa falta de agilidade mental no outro. E por quê? Porque as pessoas estão  viciadas em perceber a atitude dos outros somente à luz da psicologia. Particularmente acho psicologia um blefe, uma espécie de “golpe do baú” inventado por Freud, um carnê da felicidade idêntico ao do Silvio Santos (acho até esse último mais criativo). Isso vem por causa da importante discussão de temas de ontem à noite. E o que me chamou atenção é que sim, existe já um grupo (principalmente de médicos psiquiatras) percebendo essa mudança… menos psicologia e mais filosofia. Verdade que no princípio rola uma resistência natural (afinal esses profissionais são submetidos quando estudantes a uma cantilena, um mantra para dizer o mínimo.

E chegar a outras conclusão sozinhos… arriscar- se à crítica virulenta dos seus pares… Enfim, é tudo muito difícil para os profissionais dessa área. Mas… à exemplo do filme “O Clube da Luta”, podemos ir aumentando essa percepção de uma outra forma.

Sobre minha barba e o Natal

Para mim, o Natal sempre foi uma festa chata, uma comemoração meio sem sentido. Quando minhas tias eram vivas, sempre rolava um almoço (delicioso) na casa da minha tia Lourdes Mayer e era o momento da família toda se ver, aquelas coisas… Depois, sem ela e eu mais velho, fui me afastando dessas coisas. Afinal, nunca fui mesmo de confraternizações, entrega de presentes, etc. Minha mãe ficava preocupada por eu passar esse período sozinho e, para amenizar preocupações, eu sempre inventava grandes festas, churrascos em sítios de amigos e passada a data, descrevia essas comemorações nos mínimos detalhes. Com isso, acalmava todo mundo e mantinha minha privacidade.

Portanto seria uma mentira ridícula, dizer que passei o Natal sozinho por encontrar-me de luto. Não. Fiquei sozinho como sempre, como eu gosto. Mantenho o costume de quase todo o dia de comer um miojo, um ovo cozido ou uma sardinha em lata. Pode parecer estranho a alguns, mas para mim é normal. Como presente natalino, telefonei para a livraria e me mandaram três livros (que ainda não abri).

Artur, meu gato, é uma companhia e tanto! Claro que não desprezo a companhia de ninguém (minto, de algumas pessoas desprezo sim, mas são muito poucas). Nem sei bem porquê, depois da juventude comecei a me afastar de comemorações oficiais, de todas elas como Natal, Ano Novo, Carnaval (e outras). Realmente acho tudo isso muuuuuito chato! E a verdade é que as pessoas me acham no mínimo, excêntrico, mas a grande maioria me acha doido de pedra mesmo, antipático e arrogante. Vá lá… que seja!

Prefiro muito mais fazer uma caminhada no entorno da minha casa, falar um pouco com os miseráveis, com os donos de botecos de quinta categoria (o que é um boteco de primeira categoria??? rs), pagar uma pinga para um mendigo, desejar felicidades aos porteiros e seguir chutando pedrinhas e essa coisas desimportantes que faço sempre. Dou também um telefonema ou mando um e.mail para os conhecidos e amigos que me lembro, mas certamente esqueço gente e acabo sendo injusto. Não fico triste porque essa história de ser ou não injusto é muito subjetiva.

Sim, tomo minhas pingas e cervejas, penso em muita coisa e rasgo papéis velhos que deixo acumular durante o ano. Não cultivo nenhuma expectativa de melhora ou piora para o novo ano que está chegando. Calendário não deixa de ser uma coisificação do tempo que, a meu ver, como sabem, eu não acredito. Como, igualmente, não creio em destino nem em nada metafísico. Existem inúmeras pesquisas apontando pessoas solitárias e descrentes muito mais infelizes e passíveis de doenças. Talvez seja verdade, talvez não. Não me interessa também.

Em suma, a verdade é que estou bem, estou igual, como sempre fui… Para variar, tirei a barba (certamente por pouco tempo). Tem pessoas que me preferem de barba, outras sem barba. O que acabo achando engraçado.

Destino

Se não houver amanhã. Todos os dias, à cada segundo, essa frase está presente na cabeça de todos os homens e mulheres, crianças e velhos. Presente, mas inconsciente porque antes é preciso saber se acreditamos em destino ou não. Dizer que o destino traz sempre o fim não é um raciocínio lógico, é óbvio. Mas os que acreditam no destino a pergunta muda, deixa de ser pergunta, mas uma impressão suave de que não se pode saber, que o destino está traçado. Uma bala traçante pode ser interpretada como um “destino”. Ou um automóvel na contra mão. Imaginar o destino é imaginar a imobilidade da vida, a falta de razão para existir. Afinal, um espermatozóide não alcançou seu objetivo por destino: ELE CORREU MAIS. Assim, a vida seria uma corrida em busca de emoções (baratas). Todas as emoções são baratas porque todas elas estão catalogadas e diferenciam pouco de pessoa para pessoa. De uma forma geral, os desejos são os mesmos. Nesse aspecto, desconsiderando o destino, tornando-o uma crendice popular, é possível que a frase “Se houver um amanhã” afaste-se um pouco do inconsciente (zona morta e metafísica). Porque o conceito de destino rivaliza com a possibilidade de tempo. Se há destino, não existe tempo. É uma vida acompanhada de uma bula. Um trem agarrado em seus trilhos. Sem possibilidade de encruzilhadas. Ao contrário. A vida é uma sucessão de encruzilhadas, de setas, de caminhos claros ou obscuros, de aventuras que se emendam umas nas outras como no livro de Calvino “Se um Viajante numa Noite de Inverno”. A busca dos cadernos que, por fim, se tornarão um livro é constante….um frenesi. Frenesi de segundos, horas, meses, anos. Jamais o conceito de Matrix e sim da velha gincana de antigamente. É a possibilidade concreta de sair do carrossel e buscar a montanha russa. Não adiantaria fazer nada nem buscar qualquer coisa se os dados fossem marcados.

Criticar para quê?

A necessidade de escrever, de uma maneira geral, deve vir de dois fatores: toda a aventura humana não cabe em um só espírito, numa única mente. O segundo é que o escrevinhador normalmente é leitor e lendo percebe a possibilidade, o alívio do autor. Claro que nem todos escrevem bem, cada um tem sua carga de cultura e criatividade (uns muito mais, outros muito menos).

Quando eu leio as coisas por essa ‘blogosfera’ (palavrinha imbecil!) em momento nenhum faço julgamento de valor, fico avaliando quem escreve bem e quem escreve mal. Não. Esse julgamento eu faço com os livros. Aqui eu leio sem nenhuma crítica. Fico apenas feliz ao perceber que as pessoas estão dividindo seus pensamentos, suas críticas. suas tristezas e alegrias, firmezas e fraquezas…. que, enfim, ao final de cada post ficaram mais aliviadas, saíram mais felizes.

Novas tecnologias

Apesar do monte de besteiradas que rolam, há muito mais vida inteligente na internet do que na TV, no Rádio e, muitas vezes no teatro. O motivo é muito simples: a internet trabalha com produtos individuais e a televisão com grupos, equipes, diretores e todo esse blá-blá-blá. Como o ser humano é uno, ao formar equipe, criam-se atritos (ainda que sejam equipes unidas em torno de um objetivo comum). Televisão é assembleísmo, é opinião de mais de um, é julgamento, ibope e toda essa tralha. Só no escritor, no romancista, no erudito ou o escrevinhador da internet existe possibilidade de expressão única verdadeira (apesar de todos os equívocos que possam ocorrer). E não há dúvida (não para a nossa geração) que as novas tecnologias vão proporcionar o indivíduo pleno, capaz de pensar, agir, opinar… sem nenhuma repressão.

O caos previsível

O dia enfarruscado e chuvoso, as ruas cinzentas e a chuva ácida que persiste em cair de forma constante, uniforme, sísifica. pessoas caminham apressadas sem saberem exatamente para onde vão, sabem que vão para o que chamam de destino – ainda que não façam idéia do que é esse “destino”. parece que todas as pessoas estão buscando o fio, a ponta de suas vidas, numa ânsia contida pelo preconceito de suas formações. sabem que a formação está errada, sabem que o “planejado”, o “idealizado” não é verdadeiro, que o caminho é outro e tantas são as encruzilhadas que por fim, no auge do existencialismo, concluí-se que “O INFERNO SÃO OS OUTROS”. verdade ou mentira? às vezes verdade e às vezes mentira. são inúmeras as opções quando se buscam frases exatas no desvão da vida que, por fim, instala-se uma espécie de caos programado e revisto

GABEIRA!

Ao ultrapassar a vitória quase certa de Crivella no Rio indo para o segundo turno (e com possibilidades de vitória) deve ser um alerta importante para os que tentaram condenar Gabeira por esse ou aquele ato. Talvez seja necessário um pouco de cautela ao julgarmos equívocos políticos do candidato ao longo do caminho porque sujeitos a equívocos estamos todos nós, muito mais os políticos que, por sua própria atuação estão cercados por várias armadilhas todo o tempo. Sim, talvez Gabeira não fosse o nome ideal para Alcaide do Rio, mas entre o que se oferece no menu, ele, sem dúvida será a melhor opção.

Carpeaux dos Trópicos, tristes Trópicos

arte de não dizer. de trancar-se em quarto escuro. em não temer aranhas nem outros bichos. nem um negro gato. possibilidade remota é fazer o homem dizer a verdade frontamentalmente. vejo mais subterfúgios, vejo mais caminhos escorregadios na lama do caráter claudicante. vejo pessoas que se aproveitam, canibais que comem uns aos outros. mas tudo isso é lá, é para além da minha janela. se me encarcerei do mundo? jamais! encarcerei o mundo do lado de fora, o que é completamente diferente. escrever à mão com Carpeaux? com certeza. não me interessam os modos nem os meios, nem o que dizem ou acham. busco alguma coisa mais distanciada, o encontro com determinada pessoa – quase encatada – que não se mostra não por excêntrica, mas por modéstia apesar de todo o seu gigantismo. o que ganho com essa perseguição aparentemente absurda? a chance de liberdade.

a reviravolta binária

determinados desencontros na vida, muitas vezes, são mais comuns do que encontros. como se pudéssemos entender tal fenômeno, viro-me em todas as direções te buscando. não vejo nada, não encontro nada a não ser essa imagem pálida que vai se apagando no meu retrato de vida. peço ajuda a um e outro, mas pessoas nunca podem fazer nada completamente. sigo mais um ou dois quarteirões do que se chama rua (eu chamo de outra coisa), certo de que pode existir um beco. uma aternativa. mas não. são avenidas largas, tudo muito clean apesar das chuvas e mau tempo generalizado. até esse ‘mau tempo’ parece programado, parece ter sido criado em pixels. não existe entendimento que não seja binário. cada um de nós está muito envolvido com todas as nossas (poucas) coisas para nos atermos a qualquer outra alternativa. dor não existe porque admitir dor é admitir fracasso e ninguém presta-se a isso, porque o mundo é de meia dúzia de bem sucedidos inteligentes e trabalhadores e se não estamos entre eles, parece que não existimos, parece que somos uma proposta incompleta e mesmo nossa momentânea confiança se esvai como areia numa ampulheta mal projetada. pessoas deve fazer projetos, segui-los, concluí-los para depois receberem as benesses relativas a seus méritos. um mundo mais generoso com não-pessoas, com simulações, com holografias. percebe-se apenas o que deseja-se perceber. uma espécie de ordem natural das coisas. imutável para que a vida continue em ordem.

Camus e os signos da vida

em forma de sonho, vivencio todo o temor do dia. nem mais nem menos. no sonho a situação está consumada, estou buscando alternativas para viver, na fila da carne racionada. fora do sonho a única diferença é que a situação não está consumada, embora eu perceba tudo muito claramente. no fundo, não há diferença entre as situações. pensar na possibilidade de… ou viver a possibilidade são dois lados de uma mesma moeda, essa moeda da realidade imposta, do controle externo que observa atentamente os movimentos do meu pincel. a tela está à minha frente, devidamente repousada no cavalete como se fosse uma situação normal. mas não é porque posso pintar a maçã, mas estou morto se pintar um pássaro voando. recebo meus cubos de açúcar apenas se correr na raia e da maneira esperada. e se desconheço o traçado da raia deixo de estar numa pista, estou diante de uma roleta girando. é necessário que a bola caia no número e na cor “certos”. não acontecendo, sairei do jogo. assim, não sou plenamente nem um cavalo nem um jogador. sou um figurante que fica claudicando entre o sim e o não. o erro e o acerto. a vida dispõe a que acertemos ou erremos. ou seja: a vida é um hiato cósmico-stanilista e foi exatamente isso que Camus não percebeu. foi por isso igualmente que ele se impressionou tanto com o Mito de Sísifo. não entendeu que o estrangeiro era ele na vida pré-delineada. quis fazer filosofia sobre azulejos e fez sucesso não pelo acerto, mas por dizer as coisas que nem ele nem os leitores tinham noção de não estarem vendo. não ver é cachaça, é deus, é a paz de espírito induzida por um inconsciente coletivo ralo, pobre. essa paz barata, essa existência possível, calma, distante do atrito interior é oferecida a todos sob os mais variados signos. as pessoas interpretam signos sem saber exatamente o que significam, apenas que terão paz e pão. e, por esse instinto, abraçam o signo. porque, não pensam, mas intuem, a morfina é sempre melhor do que a dor. e lutar contra verdades práticas e indiscutíveis num primeiro olhar é impossível ao homem de bem.

erros e acertos

afronto a mim mesmo quando o terror se instala. o terror é viver na corda bamba, é olhar para os lados, para trás. estar certo, em princípio, é tentar sempre e mais, de peito aberto, expor-se à todas as vicissitudes da vida com o intuito de escrever ou dizer ou produzir alguma coisa que interesse. diz-me um artista plástico que a arte sobrevive apenas na liberdade, fora dela definha, se acua, repensa, imagina o que os outros vão achar. não sei se é assim, acho que de uma maneira ou de outra, imaginamos o que o outro vai achar, mesmo que inconscientemente. quando um livro acabado termina na livraria, olhamos pra ele, para as pessoas que o observam (e os que pegam!). nossas mãos suam frio. o mesmo acontece para qualquer obra que se faça, qualquer tentativa de dizer algo a “alguéns”, qualquer experimentação – e tudo para ser honesto – tem que ser experimentação. (continua)

Somos escravos como sempre fomos

não, não abandonei este espaço. e muito menos me faltam assuntos que gostaria de colocar: questionamentos, dúvidas, citações etc. o problema é tempo. na grande maioria das vezes são somos donos do nosso tempo (o que não deixa de ser um absurdo), mas trata-se uma realidade brutal para a maioria das pessoas. o trabalho absorve praticamente todo o nosso tempo e isso, olhando de outro ângulo, é escravidão (certo, a escravidão não acabou). aliás, esse conceito de escravidão é muito interessante porque o escravo que se sabia escravo tinha consciência da sua situação e criava outras formas de relação com a vida (religiosos – no sincretismo – e nos próprios folguedos). o mundo moderno (principalmente posteriormente à revolução industrial) é mais canalha: a forma de subsistir agora (e cada vez mais) está alicerçada no trabalho, no ganho do capital (ou não se come!). como ainda nos damos ao luxo de desejar comer (“a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”) tem um preço: o trabalho árduo. Domenico de Masi errou totalmente quando disse que o mundo moderno e suas novas tecnologias iriam permitir um tempo maior de ócio (ainda que criativo) à humanidade: besteira! quanto mais “de ponta” ficam as novas tecnologias, mais nos envolvemos com elas e trabalhamos, mais e mais e mais.

Caminhar

Muitas e muitas vezes me pergunto porquê esse caminho e não o outro. Me pergunto coisas demais e as respostas, escorregadias, se esvaem entre meus dedos por mais que eu aperte a mão. A vida parece querer me mostrar, por caminhos transversos, que não entendo nada o que rola à minha volta. Parece mesmo. Parece ainda que minhas forças vão sendo minadas, dia a dia, hora a hora. Vejo uma série de olhares nos passantes, olhares onde boiam dúvidas, incertezas – como uma falta de ar. Claudicante, olho à frente e vejo somente o vazio. E me assusto. Muito.

Governo Lula cria leis para “os outros”

“Presidente afirma que decreto que proíbe fumo no Planalto não vale em sua sala. Fumando cigarrilha durante a entrevista concedida no Palácio do Planalto, Lula afirma que “na minha [sala], sou eu que mando”. “Eu defendo, na verdade, o uso do fumo em qualquer lugar. Só fuma quem é viciado.” Essa foi a resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ser indagado qual a sua opinião sobre o projeto federal que proíbe o fumo em lugares fechados, a exemplo do que foi proposto pelo governador José Serra (PSDB), na semana passada.” (retirado ex-blog Cesar Maia)

Pois então. Dia desses li um artigo interessante no jornal O Globo mostrando como os governos vão paulatinamente e à sorrelfa criando regras inconstitucionais e cerceando os direitos individuais das pessoas. A proibição do uso do cigarro em restaurantes dá bem a medida de como estamos sendo tutelados. Está evidente que não tenho o direito de fumar ao lado de quem não fume, ainda mais se considerarmos que estando próximo ao fumante, a outra pessoa torna-se igualmente fumante passiva. Mas a lei talvez fosse mais correta obrigando a que esses estabelecimentos criassem áreas distintas para o gosto de cada um. Ou uma outra possibilidade: determinado comerciante tem uma clientela de 80% de fumantes de 20% de não fumantes. Por que esse mesmo comerciante não tem o direito de abdicar dos 20% dos clientes fumantes e preferir ficar com os 80% fumantes? Por que? A proibição de área para fumódromos nas empresas ocasionam o quê? Menor produtividade, visto que a pessoa viciada, larga o trabalho, espera um elevador, vai fumar na rua e volta. Isso várias vezes ao dia!

O mesmo se dá com essa draconiana lei que proíbe que o motorista beba um gole de cerveja: “Os índices de acidentes caíram brutalmente” – gritarão os afoitos. Não é verdade. O índice de acidentes diminuiu porque a fiscalização aumentou! Se a fiscalização continuasse pífia como antes, não diminuiriam em nada os acidentes automobilísticos. E, se já existia lei regulamentando o uso de bebidas alcoólicas anteriormente, porque a fiscalização severa de hoje não era exercida anteriormente?

O comerciante de beira de estrada proibido de vender bebidas alcoólicas foi ele próprio o único prejudicado porque muitas pessoas já entram na estrada após beberem e, se o desejarem mesmo, entram em qualquer lugarejo de beira de estrada e bebem o que bem entenderem.

Proibem anúncios de cigarros e bebidas (esta, até determinado horário) como se isso, de fato, mudasse alguma coisa. Está provado que não muda! Quem quer, começa a fumar sim, começa e a beber sim, etc. Mas o governo se intromete no setor de propagandas, causa prejuízos e tutela cidadãos como se fossem todos débeis mentais que não pudessem fazer suas escolhas.

Uma pessoa portando pequena quantidade de droga ilícita para uso próprio é severamente castigada, vai para a cadeia, é humilhada e, certamente, espancada (por agentes ou outros presidiários). Os criminosos de colarinho branco (apesar do show das algemas) ficam algumas horas ou poucos dias detidos e são liberados depois (e ainda cria-se lei proibindo que sejam algemados(!) – algema só para negro favelado!)

Mas não devemos nos enganar. O Brasil (e outros países) continuam macaquitos dos Estados Unidos reafirmando que o que é bom para eles é bom para nós. Interessante lembrar que continuam fumando nos EUA como sempre fumaram, bebendo como sempre beberam. Por um motivo simples: O cidadão escolhe seu caminho, seus hábitos, seus vícios. É humano – isso nunca mudou ou mudará.

Em contrapartida o governo é completamente incapaz (nem de longe) de, minimamente, disponibilizar à população (que paga altíssimos impostos – os maiores do mundo!) o direito à Saúde, Educação, Segurança, Saneamento e outros!)

Como esse blog é insuportávelmente chato!!!

Eu tava lendo uns blogs por aí (essa coisa que a gente faz sempre e nem sempre assume) e fui ficando deprimido. Como esse Sobretudo é chato! Nossa mãe! escrevi durante oito ou nove anos nesse modelo midiático que já foi novo e não aprendi nada. Ou se aprendi, aprendi com os chatos, com os que não sabem escrever, com os que insistem numa coisa tolinha que é babaca porque pretende filosofar qualquer coisa, porque pretende dar uma ar de seriedade ao que não é sério. Depois li alguns posts daqui aleatoriamente e fiquei apavorado! Como essa gente (ainda que poucos!) insistem em vir nesse sítio?? Só pode ser um gesto de carinho ou alguma espécie de penitência. Tem laudas e mais laudas que falam de assuntos que, absolutamente, não domino, que falo de orelhada e, assim, falo besteira em cima de besteira! O blog, de certa maneira, pode ser um “espelho da alma” do autor e justamente isso me apavora. Se minha alma é esse lixo, quem sou eu? O que estou pensando e esperando, quem disse que eu posso escrever uma linha e publicar (ainda que para duas pessoas lerem)? Não sei como resisti tanto tempo, como todo mundo resistiu. Pergunto-me agora se devo deletar esse espaço para sempre, se devo dexá-lo boiando por aí ou se devo aprender a fazer alguma coisa para fazer minimamente suportável. Todas as opções me doem, incomodam. Na verdade só resta vergonha e decepção por ter me prestado a esse papelão. É verdade que visito outros lugares que são igualmente chatos e nada a ver, mas aí não é problema meu, não está sendo escrito por mim. Minhas elocubrações sobre espaço, tempo, dimensões… tudo está arredo, tudo está mal construído. Escrevi durante nove anos uma obra que não serve para absolutamente nada, nem para embrulhar peixe. Falei, falei e falei, muitas vezes mentindo, para criar impactos que são falsos, não acontecem de fato, são mentiras bobinhas, jekinhas, que as pessoas nem se dão ao trabalho de comentar – com certeza por educação.. Sim, é verdade que muitas mulheres só conseguem escrever sobre sexo, outras só conseguem escrever sobre Clarice Lispector e outras sobre não sei o quê. E agora entendo todas elas porque essa ferramenta (de publicação fácil e instantânea) amortiza, detona, enterra a crítica de deveríamos fazer de nós, do que dizemos, do que estamos querendo passar (sem conseguir). Das falas complicadas, das maneiras metidas a eruditas (que não são!), de tudo. Resta-me pedir desculpas!

Fim de Jogo

Pessoas perdem seu precioso tempinho, escrevendo e.mails para reclamar, discordar de uma opinião simples que emiti sobre Sartre. Falam de outras posições do filósofo, misturam tudo para justificar uma frase injustificável. Idolatrar Sartre era bacana nos anos 60.

Agora… daí a você insistir em não racionalizar uma teoria ou mesmo uma frase… aí é demais. E tem mais: não é preciso ser filósofo para discordar de um. Pelo contrário: o filósofo trabalha suas teses para serem absorvidas (ou não) pelo povo. Esse povo precisa ter voz ou o trabalho árduo do filósofo se perde em círculos acadêmicos e deixa de ter função.

O desbunde entre o Universo e Nós

O tempo não caminha numa linha reta (de A a B). Não, dá voltas sobre si mesmo de uma forma estranha onde, muitas vezes, nos perbemos no mesmo lugar apesar da passagem do tempo. Dizer que o tempo não volta é dizer que o rio não corre. Invariavelmente percebo-me no mesmo ponto em que estive há um ano atrás. É mais um defeito dessa invenção patética; tempo. Há quem diga que tempo não existe no espaço baseado em não sei quantas experiências. Não sou um homem de experiências, simplesmente procuro surfar pela vida mantendo-me em pé sobre a prancha ou caindo e sendo engolfado por ondas que me trituram. Tanto faz. Observo o nascer do sol através da minha janela e me pergunto quantas outras pessoas estarão igualmente vendo a repetição de dias e noites – demostração que Terra e universo desconhecem a vida, que seguem um caminho frio, independente e circular. Sigo como um filme em exibição que, embora possa causar alguma emoção na platéia, não está preocupado com isso…. é apenas película em movimento que se repetirá em várias sessões. E tudo mais é assim na vida, só nós não somos assim e buscamos surpresa, emoção e diversidade  – que nos torna os únicos responsáveis por esses sentimentos. Ou seja, são movimentos antagônicos: o nosso e o da existência. Ainda assim, insistimos em lutar, em amar, em vivenciar amores e ódios – de encontro à simetria absoluta universal. E assim, meu gato pode se dar conta que estou descontente, mas não uma pedra nem uma estrela porque não me reconhecem. Da mesma forma ocorre com nossos deslocamentos entre cidades e continentes – que para nós podem representar surpresas boas ou más – embora ilógicos num planeta redondo e infinito onde sempre voltaremos ao mesmo lugar após uma volta completa (como um relógio - a ampulheta é uma caso à parte). Diante desse novo alvorecer desejaria ter uma garrafa de absinto do meu lado, desejaria não ter que falar com ninguém e, sobretudo, desejo ser esquecido. Mas não existem tais soluções: enquanto estamos vivos somos levados em conta, amados ou odiados. E, como humanos – e não pedras – sofremos ou nos alegramos sem nos darmos conta que estamos sozinhos e com prazo de validade.

Arriaga

“É estranho, mas parece que nos seres humanos o ato de mais profunda consciência aparece precisamente no momento de maior inconsciência: o sonho”

“A sensação que nos sobrevém quando algo é perdido é uma das mais fortes às que é submetido o ser humano, e isso porque tal sensação tem um forte parentesco com a morte. É, por assim dizer, sua manifestação cotidiana (…) quando morre em ente querido, nos dá tristeza, nos sentimos impotentes.. (…) Não há, no entanto, sentimento mais trágico, em toda a extensão da palavra que perder o destino ao qual se crê estar destinado (…)”

guilhermo arriaga em O ESQUADRÃO GUILHOTINA

“A gente mal nasce, começa a morrer”

escrever e reescrever a vida….é o que tenho feito… diante da morte me encolho exatamente por não ser a minha morte. minha morte não me assusta, mas tenho pavor da morte alheia, principalmente de quem eu amo. não tenho um deus para pedir nem implorar (não, eu não seria tão calhorda assim)… portanto, sinto-me frágil e sem opção. busco algumas alternativas me que me relaxem, mas todas mostram-se frágeis. tudo é frágil no espaço vida. vida vivida, vida que não é essa nem aquela, não é a do filme nem da literatura clássica. a vida é mais dura, mais comezinha, mais simplezinha, mais nojenta. a vida é insuportável não exatamente por sua insuportabilidade, mas pelo paradoxo do descontrole. adoro a vida e, ao mesmo tempo desprezo-a pela sua insustentabilidade. ao contrário do que imaginava o tolo freud, quem se mata não está matando toda a existência que o incomoda… não… quem se mata simplesmente diz não a uma incoerência… diz não a uma opção que não foi a sua, a uma proposta equivocada desde a fecundação. o suicida nem é herói nem covarde – é, simplesmente, quem toma uma atitude coerente com sua visão de si e da vida… não, em tese não sou um suicida. sou apenas quem questiona as regras da vida. que não aceita barato. e muita gente não aceita barato. verdadeiro suicídio é calar-se, é não avaliar, não pensar sobre, aceitar ser simplesmente mais um.

Ninguém em nenhum lugar e em qualquer tempo teve a clareza de Vinícius: “A gente mal nasce, começa a morrer”

Para lembrar

Daltonismo espiritual

Sobre deus e a vida (nossa)

A outra pessoa é aquela que perdemos nos confins da Criação. não temos contra o que lutar porque as situações foram criadas de uma forma meio inocente… fazemos escolhas sem conhecer tudo… um drible de Deus nessa história toda… como posso casar com uma mulher perfeita para mim – e eu para ela – que nasceu e vive no Nepal e – se eu não encontrá-la… – ela não saberá de mim? mais ou menos por isso eu desdenho deus e creio no escritor que cria seus personagens dando chances iguais a todos… um mundo, uma vida em que, de certa maneira, não temos muitas opções… não pode ser exatamente chamada de vida (nem boa nem ruim)… Afinal… que oportunidades temos realmente? E, sendo a vida, à priori, uma falta de oportunidade generalizada, deixa de ter o conceito literal de vida, mas sim de uma vivência deslocada dentro de uma grande confusão que não entendemos, não participamos. Sim… deus não sabe jogar dados… e se, de fato, somos à sua imagem e semelhança, não sabemos nós igualmente…. quer dizer? a quem pertence a vida que, tolinhos, acreditamos viver? onde termina o quebra-cabeças? Se me incomodo? não exatamente, pelo menos nesse aspecto mais popularesco… busco a alternativa de uma vida de certa maneira metafísica que me proporcione – não nada de fácil -mas a oportunidade de ser minimamente responsável pelo que me acontece, pelo que se me apresenta… enfim, por tudo… já que houve a corrida de espermatozóides em direção ao útero – que é uma outra história…

(retirado de Geraldo Iglesias*)

Dúvidas

Ainda estou incapacitado de falar mais dos livros que estou lendo. Tenho feito uma anotação aqui e outra ali, na maioria das vezes em cadernos esparsos que vão me aparecendo (e, muitas vezes, vou perdendo). Continuo muito envolvido na realização do programa Revista Brasil (exibido pela TV Brasil aos domingos às 17 h) além de outras atividades profissionais. Então é pra dizer que não estou aqui e que estou aqui – desequilíbrio mental de nascença – que me faz ser múltiplo nem tanto externa, mas interiormente. Imagino que meu corpo abrigue vários espíritos e, cada um deles, tenha projetos, desejos, metas. Mas o que proporciona a realização é esse corpo uno, o que me deixa sempre em dívida com os outros e, muito principalmente, comigo mesmo. O que eu não tenho certeza é se sou apenas um ou vários (como surgiu há pouco essa dúvida entre leitores e a própria K. do Incompletudes). Ela vem sonhando muito que não é ela mesma que, na verdade, sou eu como sonha também que eu não existo, sou uma brincadeira dela com os outros e com ela mesma porque esse processo esquizofrênico – possibilidade de várias pesonalidades – nem sempre é uma doença psiquiátrica, muitas vezes é um desvio filosófico. E como sempre repito aqui que sou um personagem de mim (como todos somos), existem vácuos de tempo ou buracos negros inconscientes que aconselham a que nos afastemos de vez em quando dos personagens da literatura (muito embora eu ache que eu não sou eu, eu sou uma idéia de um escritor), que eu mesmo sou literatura e não gente.

Bom, eu ia falar o porquê não estou comentando muito os livros que estou lendo. Mas como, pra explicar isso, acabo desconfiando que eu próprio sou um livro, a coisa toda muda de figura. (continua)

órgão de prazer: um mar de caracteres

o ato solitário de escrever pode ser uma aventura sem volta. sem volta porque escrevendo você brinca de semi-deus, mas sem a contrapartida dos poderes. você invariavelmente escreve muitas coisas que não eram para serem escritas, porque eram coisas suas – muitas vezes inconscientes! – que o leitor ou não compreende ou não está disposto a aceitar. eu sou mestre em fazer esse tipo de coisa. acho até que não sou ofensivo no sentido mais rasteiro da palavra, mas, de uma forma ou de outra, o que foi escrito não tem retorno. mesmo num ambiente virtual onde coisas são “apagadas”, deletadas, não adianta. escreveu, escreveu, está ali, alguém viu que você disse uma estupidez. escrever é uma prerrogativa libertária que os homens (quase sempre) não estão preparados para perceber. o ato de escrever ainda inebria falsamente parecendo que dá uma noção de “poder”, o poder de dizer coisas e dizer de uma forma que fiquem gravadas. nada mais falso.  sábio é o homem que silencia, que observa, que entende o outro, as diferenças múltiplas, as opções de cada um sem jamais emitir julgamento, sem jamais ousar interferir no que o outro faz, diz ou escreve. porque é uma equação simples, digna de um menino de um ano de idade: cada ser tem seu próprio mecanismo de raciocínio, de lógica e ele está absolutamente certo daquilo que faz como nós , igualmente, estamos. o que para mim pode ser natural, pode não ser para o outro e vice e versa. simplesmente porque a verdade não existe, é um conceito abstrato e, principalmente, extremamente frágil. e…. se nada é nada, como podemos opinar sobre o nada de um outro à partir da impressão de um “nada” nosso? as guerras, as grandes guerras tem suas origens em bilhetes rascunhados em guardanapos!

o que fazemos então? refreamos o desejo de escrever? se fosse assim, não haveria a literatura, por exemplo. não haveria pedra sobre pedra, não haveria História, nada. ou seja: não há receita. poderia dizer que deve haver menos emoção, mas isso, igualmente, não é verdade. poetas e tantos e tantos autores não escrevem num mar de emoção? o importante é percebermos que escrever é uma arma. uma arma que pode se voltar contra nós. e a escrita é o paradoxo de agregar, de nos unirmos a um mundo inteiramente escrito. caracteres têm a mesma carga de humanidade que pessoas. caracter é vida, é produto de sentimento humano, é órgão de prazer.

Outra Breve Explicação

Não adianta. Continuo completamente esquizofrênico também nos templates. Alguns deixam uma barra horizontal embaixo de forma que não se tem uma visão completa da página. Outros são isso, outros são aquilo. Para sumir com a maldita barra (eu, boçal, que não sei mexer em HTML) fico mudando a cara toda hora desse espaço. Ninguém nunca sabe se entrou no lugar certo ou errado (entrar onde rabisco é sempre uma opção erreda, a meu ver).

Porque pessoas escrevem ou Por que pessoas escrevem?

Determinados dias, diminuo minha leitura de livros e dedico-me aos blogs. Muitos são interessantes e outros tantos, chatérrimos. Minha opinião. Tem gente que deve adorar os que acho chatos e vice e versa. Não tem padrão. O que tem é um monte de gente escrevendo quase diariamente (ou mais um uma vez ao dia) aquilo que está pensando ou aquilo que gostaria estar pensando. Tanto faz. Fala-se muito, teoriza-se sobre pessoas que simplesmente estão disponibilizando emoções (ou a falta de).

Quero estar bem distante dessa turma, dessa gente que fica filosofando sobre o porquê pessoas gostam de contar coisas, de escrever por necessidade ou simplesmente por escrever. Esses detalhes não me interessam em nada. E nem deveriam interessar a ninguém. O blog, assim como a literatura e outras manifestações, não deveria se prestar a análises acadêmicas, devíamos apenas saboreá-los ou os deixarmos de lado. Não interessa a análise que fazem do que escrevo. Escrevo por escrever, simplesmente. Escrevo em blog, em blocos, em cadernos (muitos)… enfim, gosto de contar o que estou vivenciando e sentindo (ainda que muitas vezes não seja politicamente correto). Nada disso me interessa. Se soubesse, talvez em desenhasse ao invés de escrever… ou preferisse fazer uma sopa, sei lá. Ou dormir, quem sabe? Tudo o que é colocado aqui tem uma importância enorme e, ao mesmo tempo, não tem importância nenhuma! Não sou um escritor, sou um escrevinhador. Em momento nenhum busco cadência nas palavras, nas frases. Em momento nenhum acho que há qualquer erudição por aqui (nem por ali). O que existe de fato (em mim e nas pessoas que escrevem) é um “transbordamento” de emoções, de impressões colhidas nas coisas do dia a dia. Nada mais do que isso. Simples assim.

Em busca do Tempo

Num mundo de verdades e de sonhos onde não sei o que é mais verdade ou mais sonho, até porque não passam de conceitos, vou me perdendo daquilo em que fui adestrado para ser. Não sou mais, portanto. Sou outro, de certa forma leviano culturalmente, que se entrega a textos “baixos”, que se permite adornar com letras que não dizem mais nada, que expressaram num tempo outro, uma verdade que se provou mentira e num momento que, de fato, nunca existiu, um momento que faz muito mais parte de uma história própria “inventada” do que aquilo que os outros chamam realidade. Faço-o propositalmente, exatamente na busca de uma aventura que se dispersa, se esfarela com o tempo, com o passar dos dias, meses e anos. Não sei onde tudo isso vai dar, onde essa perspectiva meio assanhada de um intelecto já meio carcomido entrega os pontos para o que pode ser inventado. Sou muito mais inventado (por mim e pelos outros) do que um espermatozóide crescido. Os fios brancos que nascem em meu corpo alertam não exatamente para o convencional passar do tempo, mas para a possibilidade outra de reinventar alguma coisa – não sei o quê – que seja menos caricata como tudo o que há na vida. Se a vida é um amontoado de máscaras caricatas, dessas que se compram em lojas de produtos carnavalescos, busco então a máscara de Gênova e arrabaldes, berço de um carnaval bem comportado que, certamente, me agrada mais. Percebo, com espanto, que sou o contrário de um Macunaíma, que me encontro prisioneiro da “Crônica da Casa Assassinada” de Lúcio Cardoso – que releio sempre em busca de uma redenção perdida porque não somos personagens exatos de uma obra fechada, mas de uma obra em construção, em movimento. Mesmo sabendo que essa “possível obra” terá um final do qual não escaparei, ainda assim vou de um lado ao outro, percorrendo meu corpo e minha rua, teu corpo e tua rua admitindo que não finalizamos ainda, que esse ou aquele autor poderão alterar sentimentos e situações que se refletiram em mim ou nas coisas que observo ou que me observam.

Os bares, na verdade, não me dizem nada, como, de certa maneira, nada exatamente me diz nada e tudo me diz tudo como a mostrar que não há um porto seguro, não há uma situação de calmaria onde eu possa “ancorar” meu barco cansado. Não. O que há é um oceano à minha frente que clama para ser atravessado, para que eu veja as bordas do mundo, se a água por lá escorre para o espaço ou não. Essa é a maneira encontrada por aquilo que chamam destino de fazer eu me aventurar mais e mais em caminhos e descaminhos que deixam marcas profundas no meu espírito (Sísifico), forma de fazer com que eu me enamore por objetos marinhos (como se marinhos não fôssemos todos nós). Prefiro terra firme ao mar e ao ar, e nem por isso deixo de navegar e voar. Um vôo que não é só meu, que é de um grupo, de uma classe, de um gênero. Vou me diluindo nessa multidão, nessa massa amorfa que me dizem povo, humanidade ou sei lá o quê. Sei que não é bem assim, mas, como não tenho a definição exata, aceito o que me dizem enquanto ainda estou nesse quarto de formas inexatas, com perspectivas vãs em busca de uma redanção que não virá, bem sei.

Deuses e Personagens

Sem dúvida existe o momento em que paramos e olhamos para nós mesmos. A visão nem sempre é agradável, nem sempre desperta carinho. Em nenhum momento deixamos de ser caçadores, em nenhum momento deixamos de correr porque, igualmente, somos caça. A única forma de reinvertar-se, de reinventar a vida é através da arte, da literatura. Não por causa de uma certa erudição tolinha, jeka, mas pela possibilidade de conviver com situações e personagens iguais a nós mesmos, mas que não somos nós, que foram pensados por outras pessoas. Uma das dificuldades da vivência plena é a culpa de pensarmos a vida, dela ser conseqüência dos nossos atos. Personagens nos retratam, mas são personagens (o que alivia a culpa metafísica, a persistência atávica no erro cotidiano). Nem todos os personagens são interessantes da mesma forma que nem todos nós somos interessantes. De qualquer maneira temos a opção de perseguir reações de personagens e fazer a vida imitar a arte. É o paradoxo da arte existir porque existe vida e a vida existir porque reflete a arte.

Já tentei mais de uma vez fugir de ambas as possibilidades e criar uma vida minha, exclusiva, completamente solitária (e, portanto, mais realista), uma vida em que os valores e equívocos são observados apenas por mim, onde o tempo não existe e não faz falta, onde valores são revistos e novos conceitos entram em jogo como numa brincadeira com espelhos. É uma opção interessante (Thoreau já provou isso no magnífico Walden), mas que raramente dá certo porque o homem, ser humano, se agrega, se integra não consegue conviver muito tempo consigo próprio.

Esse tipo de dilema não é novo. Mas o que parece que são os autores, ao escreverem suas obras, que encontram um meio termo: conseguem sair da vida comum, de uma suposta ‘realidade’, conseguem igualmente afastar-se de um EU que não interessa em nada na medida em que está idealizando EUS outros, que nem ele é capaz de ser. Claro que é louco você idealizar alguém que você mesmo, criador, não consegue ser. Por isso sempre acreditei que os deuses devem ter inveja dos humanos e de todas as formas de vida porque somos o que eles não conseguiram ser.

K. em Hollywood

EU QUIS TORNAR A K. UMA FAMOSA ESTRELA DE HOLLYWOOD, MAS ELA (SEMPRE TÃO MODESTA) SE ESQUIVOU.

O Susto

Pensar diferente da maioria pode ser uma opção perigosa, pode nos encaminhar para o abismo social de uma solidão estranha, não programada. Ler e escrever de forma diferente também. Apesar de todos os avanços, a sociedade ainda cria, disponibiliza e só admite as pessoas que estão devidamente formatadas, ainda que numa pintura abstrata. O comportamento social caminha com pensamento único, o que equivale, na verdade, a não pensar. A ousadia é perniciosa porque assusta a média das pessoas que, comodamente, se enquadram. Não, ao contrário do que parece, não chego a ser um anarquista – acredito numa sociedade coerente e, dentro do possível ordeira – para que sobreviva a paz.

Mas se o tempo passa, as situações se alteram, paradigmas se quebram (e surgem em outros lugares), se pessoas nascem e outras morrem, evidente que nada continua exatamente igual, que é necessária a tal salutar desconstrução individual freqüente que provoca a discussão, a mudança pontual, o susto, a revisão do atavismo. Reencontro em mim mesmo o menino de cinco anos que fui um dia e dele sugo o que há de bom (e há em todos nós!) com a mesma certeza de que avanço no futuro, no que me resta de vida e encontro nesse homem-eu mais velho, ponderações (e até mesmo safadezas) que resgato para meu presente, que indefinidamente escorre entre meus dedos, perdendo-se nessa maratona “sísifica” de não se definir como presente e, muito menos, ser um pleno futuro.

Fuentes

Carlos Fuentes, no seu “Em 68″ traça uma excelente visão daquele ano em Paris, Praga e México (México é o melhor). A visão latina de um movimento prioritariamente europeu ajuda a compreender como, ainda distante da globalização esse movimento tornou-se universal pela necessidade – à partir da consciência dos estudantes – de rever conceitos, de melhorar padrões de vida, de perceber o mundo de forma mais humana. À partir de um tipo de “guerrilha do amor” foi lançada a pedra fundamental para um mundo democrático, que, se ainda não alcançamos, é por incapacidade nossa e não dos jovens que lutaram para isso.

Resistência

Um movimento inteiro deixado de lado. Essa a realidade que me dói, constrange diante do inevitável passar desse tempo de nuvens carregadas, dessa impossibilidade frugal, enfrentamento e tentativa de destruição ao quiosque coberto de palha seca numa ilha paradisíaca. Por outra, uma certa visão do mal, do desastre que não se anunciou, da mudança radical tomada emprestada de uma visão deformada e deformante da filosofia barata. Aparente fim de jogo, aparente tentativa de desmobilizar o que é, o que construímos em tão poucas gerações… Sou esses pensamentos insanos que tomam corações e mentes frente às nuvens negras que prenunciam um tipo de morte não anunciada.

Caminho por ruas conhecidas, eu mesmo com uma visão desconhecida, de estranhamento diante de um certo lamaçal orgânico que destruí já na minha juventude e agora reaparece como um fantasma que se pretende assustador, mas é apenas uma pálida tentativa de retornar ao anteriormente restabelecido que todos nós, ainda muito jovens, atiramos na lixeira da História.

O que se busca então é a retomada das conquistas e a manutenção do lixo nos aterros. O que buscamos é a revolta diante de tantos políticos corruptos, da polícia corrupta e assassina, da fome, da falta da Educação e da Saúde para esse povo pobre e sofrido. Somos o que restou da guerra suja, somos a Resistência última, a tentativa matuta de reinventar um passado de lutas já inventadas. Deveríamos ser as sentinelas atentas contra tudo o que de execrável insiste em reaparecer, retomar. Somos a semente da mostarda, o filho pródigo que se recusa a crescer numa sociedade fútil e vagabunda.

A projeção de um fim escorregadio, falso

Tenho a impressão de que esse é meu último fim de semana em casa. Nos outros estarei trabalhando, me desesperando, chorando pelos cantos como um bebê chato. Bebês são chatos. Homens são chatos em sua eterna burrice. Muitas vezes sinto-me obrigado a falar com pessoas que não me conhecem, que não conhecem o que eu conheço e conhecem coisas que não conheço. Essa divisão mal versada de gostos e conhecimentos afasta mais do que aproxima. Por engano ou inocência, achei que na velhice encontraria algum tipo de paz, algo como um porto seguro (o que não quer dizer necessariamente uma mulher), algo que me fizesse diminuir o número de pílulas, de garrafas de uísque ou seja lá que cabeçadas vou dando por aí. Não aconteceu, nada mudou e isso me preocupa porque, se nada muda realmente, continuo com o amargor na boca, com a ansiedade, a pressão no peito. Pessoas passam e eu, com jeito para não parecer mais maluco do que sou, afasto-as, digo que estou no meio de uma tarefa inadiável mesmo sabendo que é mentira. Quando mentimos para nós mesmos essa idéia de mentira se minimiza porque não estamos sendo maquiavélicos, não estamos aprontando para o outros… Não? Claro sim! Quando mentimos para nós mesmos institucionalizamos a mentira, banalizamo-as, fazemos dela uma verdade num universo de ponta cabeça. Não tenho esperanças de escapar dessa roda viva, não tenho esperanças de que nada se altere até porque não sei como eu me sairia num mundo diferentes, diverso desse que abomino. Os filósofos, por sua vez, me parecem muito fracos, frágeis, inocentes. Os medicamentos são sempre muito fracos e deus, coitado, precisa ser inventado e reinventado por cabecinhas tolas. Entrego-me a um sono (induzido), busco vivenciar os personagens que leio, começo a perder a esperança em me desconstruir sempre porque a argamassa é a mesma.

Marlboro Azul

Como num aviso ancestral, o dia hoje nasceu com tons mais avermelhados do que de costume. Sinal? De quê? Bem verdade que não estou com muita paciência, tenho andado meio de saco cheio. Algumas pessoas ficam esperando que você pisque um olho e te abocanham e a idéia de viver minimamente feliz sem piscar me soa estranha e desagradável. Portanto, deixo esses assuntos para lá porque sou mesmo um sobrevivente da Coréia e não serão peidinhos rastaqüeras que conseguirão me desequilibrar.

O que tenho de bom é que nesse fim de semana terminei a leitura de “O Despenhadeiro” de Fernando Vallejo e me aventurei em iniciar “A gente se acostuma com o fim do mundo” de Martin Page apesar de uma crítica não muito favorável de K. De toda sorte, parece-me um livrinho leve e agradável e seu (anti?) herói passa por situações semelhantes às minhas. Ainda é muito cedo para falar.

Diante disso, desse cursor irritante que se recusa a parar de piscar, penso na máquina de escrever e da folha em branco que me cobrava antigamente, mas não havia o maldito cursor. Resta-me apenas mais uma caneca (das grandes) de café preto e uma infinidade de cigarros Marlboro Azul. Azul ou cinza deve ser igualmente a tonalidade dos meus pulmões carcomidos. Observo o dia azul, mas preservo muitas trovoadas sob a luz fria e branca dos escritórios, das reuniões vãs, das pessoas que lutam sem entenderem, da tola disputa de poder.

Volto ao meu livro como Sartre voltou a Colomba naquele bar na França deixando a garçonete sem saber se a sua taça estava meio cheia ou meio vazia de vinho doce. Nesse momento meu espírito voa longe, para uma certa juventude emocional que insisto em não perder para não cair no esgoto das pessoas vis. Essas crises de tosse alertam apenas que estou fumando, fumando muito, além do razoável e que o sofrimento, os estertores podem estar vindo à galope.

Observo então a vida sob novo ângulo, deixando de lado idiossincrasias, batalhas e personagens literários. Estou nu naquele sofá diante de um analista que se esforçar para salvar minha alma carregada, pesada, sufocada por tantos senões. Isso que chamam vida, eu chamo purgatório. Não há nenhuma depressão, nada patológico e sim, como já disse aqui, o que existe é alguma coisa filosófica como a mão (verme) descrita em A Náusea de Sartre. Percebo que meu desentendimento não é exatamente comigo, como parece, mas com o mundo a as situações escrotas desse mundo. Como num jogo de tênis quando dou uma raquetada numa bola normal e recebo – da raquetada do outro – uma bola de gosma. E assim termino não sabendo se quem sofre é meu cérebro ou o meu estômago – com essa quase eterna vontade de vomitar. Ou ainda se é tristeza pura por todos os outros mendigos esfarrapados que se arrastam em roupas caras e corredores assépticos. Não sei a verdade. Se soubesse tentaria mudá-la, sei apenas que existe um descompasso e eu entre uma determinada forma de vida.

Pequeno Príncipe

A preocupação com as coisas que não acontecem, na maioria das vezes, é maior do que com as que, de fato, acontecem. Porque não acontecer é tiro n’água, é expetiva vã, frustração não pelo erro, mas pela impossibilidade de se-lo. Singrar mares, ainda que seja um mar de lama é o que nos dispomos, somos marcados à ferro e fogo desde o nascimento. Cada homem é um barquinho de papel desse que os meninos deixam no escorrer nas águas junto ao meio fio que correm soberbas nos dias de chuva. Barquinhos que dão em esgotos, que desmbocam em rios, que chegam ao mar. Mar que despenca no espaço nas bordas da plana Terra. Sim, eu acho muito mais interessante acreditar numa Terra plana que, vez por outra, deixe seus mares ultrapassarem os limites e derramarem-se no espaço. Prefiro ainda a simplicidade dos planetinhas de O Pequeno Príncipe.

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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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