Há um tempo atrás, num momento em que eu estava profundamente irritado postei uma reclamação contra uma senhora de idade de uma forma nada elegante. Hoje, muito tempo depois, recebo correspondência (justíssima) da filha da octogenária livreira. Ei-la:
prezado Geraldo,
Somente hoje, dia 12 de maio, tive conhecimento sobre seus comentários,
feitos em 29 de janeiro último, a respeito da “mulher com sotaque” que
lhe atendeu por telefone aqui na livraria.
Esta “mulher” é uma senhora de mais de 80 anos, italiana de nascimento,
e por acaso, minha mãe.
Como já dizia o saudoso Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra, não
se pode agradar a todos, todo o tempo.
Minha mãe não é “dessas estrangeiras que fizeram fortuna no Brasil”,
senão não moraria num apartamento mediano em Copacabana, não andaria num
Peugeot fabricado em 2000, nem continuaria a trabalhar passados os 80.
Não se deita em louros passados, não fica se vangloriando nos jornais,
continua trabalhando duro.
Me pareceu sentir no tom de seu blog um rancor contra estrangeiros, como
se os únicos habitantes realmente autóctones de nossa terra não fossem
apenas os índios. (Aliás, me parece que Iglésias deve ser espanhol, não
é mesmo?). Ser “mulher” e ainda por cima “gringa” não é defeito, é
condição contra a qual nada se pode fazer, assim como ser “negro” ou
“japonês”.
Também estranho sua opinião a respeito do suposto local de moradia dos
“intelectuais”, apenas “fora do Rio”, ou “Ipanema-Leblon”. Saiba que há
vida inteligente em vários outros bairros do Grande Rio, muito além do
perímetro Arpoador-Dois Irmãos, não apenas em Copacabana, Flamengo,
Botafogo, Laranjeiras, mas também na Tijuca, no Méier, na Ilha do
Governador, em Olaria, Campo Grande, Niterói, ou seja, em todos os
lugares do Estado do Rio de Janeiro!!Talvez você tenha querido se
referir às recentes “celebridades globais”, que não ultrapassam as
fronteiras do Jardim Botânico, mas que, infelizmente, com raras e
honrosas exceções, pouco ou nada lêem…
Fnac ( na Barra) e Saraiva (em vários bairros), ambas grandes empresas
do tipo SA, podem ter várias qualidades, mas certamente não são
especializadas em livros importados ou raros, nem pretendem sê-lo, pois
fundamentam sua estratégia de marketing na venda em altos volumes de
best-sellers, e também de outros produtos que não livros.
Perguntar qual era exatamente o “livro Negro” que você procurava não foi
“deboche” nem “crítica”, ninguém consegue acompanhar o número nem a
velocidade dos lançamentos que jorram diariamente das editoras.
Ninguém é perfeito, e isto nos permite melhorar sempre, ao reconhecer
nossos defeitos, mas me parece que seu objetivo não era realmente fazer
uma queixa (poderia ter enviado uma mensagem via internet, reclamando),
e sim apenas extravasar seu aborrecimento, jogando-o na rede. Você pode
não ter gostado do “jeito” com o qual minha mãe respondeu ao telefone,
mas lhe garanto que não havia qualquer intenção de ofendê-lo.
Quando tiver tempo, venha passear no centro da cidade, verá que há
muitas atrações por aqui, teremos prazer em lhe oferecer um café e uma
água !
Até breve,
Milena Piraccini Duchiade
(filha de pai romeno e mãe italiana, nascida no Rio de Janeiro,
brasileira com muita honra)”
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Ao que respondi:
Milena
Há dois anos e meio, resido no centro do Rio, próximo à Lapa.
Não pretendi denegrir sua mãe (que conheço pessoalmente). E sua livraria é
sem dúvida importante na formação cultural da nossa cidade.
Realmente meus avós são espanhóis com muita honra. Eu não disse que só havia
vida inteligente na zona sul. Disse que eles (eruditos) se “mudam para lá”.
Apenas uma coisa eu reafirmo: sua mãe (talvez em função da idade – o que é
plenamente justificável) nem sempre é muito gentil num primeiro momento de
atendimento. Não é possível que você jamais tenha percebido isso ou ninguém
tenha falado.
O blog são minhas memórias e não procuro nenhuma fama ou sensacionalismo.
De toda forma se, contra minha vontade, fui agressivo, se ofendi, quero
reparar meu equívoco e pedir sinceras desculpas.
obrigado
Geraldo Iglesias”
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E ela a mim para finalizar:
Prezado Geraldo,
Fico feliz por sua resposta, tão rápida e gentil !
Concordo que minha mãe, às vezes, é ríspida e impaciente (aliás,
estes também saõ defeitos que tenho, e dos quais tento me policiar, nem
sempre com muito sucesso). Eu mesma lhe digo com frequencia que é
preciso ter mais calma, mas saiba que não é fácil, a idade tende a nos
tornar mais ranzinas e rabugentos…Desculpas feitas, desculpas aceitas,
de parte a parte, seguimos em frente…
Será de todo modo um prazer conhecê-lo pessoalmente. Não se preocupe em
divulgar minha mensagem, faça como achar melhor.
Enquanto isso, aqui ficamos, insistindo, persistindo e resistindo às
lojas da internet, às grandes redes, aos camelôs, às feiras de livros,
etc e tal.
Até breve,
um abraço,
Milena”

Nessa madrugada morreu Fábio Sabag, um grande homem. Um grande ator, um grande homem de teatro e televisão… um grande diretor, uma pessoa extremamente sensível e brincalhona. Foi imensamente amigo da minha tia Zilka Sallaberry (muito mais do que as pessoas podem imaginar!). Foi para mim também um grande amigo. Aprendi muito (quase tudo) com ele. São tantas pessoas que me deixam que nem sei mais o que dizer. Muito obrigado meu amigo. Tenho certeza de que está em paz.
Disseram