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Natal

Ela já chega na minha mesa com o copo de vodka transbordando. Comenta o meu uísque. Por que? Não sei. Não quero falar, não quero ouvir, não quero pensar. Amanhã. Talvez amanhã porque não sei como vou acordar. Sim, três livros para serem lidos e estudados rapidinho. O Teatro de Revista. Claro que eu tive a vida inteira para estudar, me aprofundar, mas, idiota, estava mais preocupado com Janis Joplin. Foi necessário que minha barba ficasse completamente branca para eu entender que minha veia estava aqui, do meu lado, dentro de mim. Eu, um gole de uísque…ela, um de vodka. Nos olhamos e a fumaça de nossos cigarros me dão a nítida impressão de um filme noir de terceira. Não, não é bem verdade. A verdade é que eu sou de terceira, provavelmente agrado seres de terceira e vivo nesse dilema/dicotomia entre o que desejo e me imagino e a realidade. Não tenho nada com a realidade. Sou mais irreal do que o conde Drácula, embora me reconheça sim um vampiro. (Quem não é?) Eu mesmo sou um vampiro de mim…. Ela, em preto e branco toma uma dose grande de vodka…. apenas seus lábios são vermelhos…. extremamente…. Penso que gosto mais dos lábios pálidos, como o dos cadáveres, mas não digo nada. Do outro lado da janela vejo luzes coloridas semi-frenéticas e penso que é Natal, essa época porca, desavergonhada. Deveríamos, imagino, vomitar em cima de cada Papai Noel. Barbas brancas e longas grudadas pelo vômito dos humildes.

Tudo na minha cabeça. Apenas ela na minha frente terminando o primeiro copázio de vodka e encomendando mais um. Faço o mesmo com meu uísque. Porque então a vodka é segregada e o uísque aceito? Tédio desse mundo de convenções babacas, de pessoas tolas, de gente vazia. Tédio do mundo acelerado, das propostas indecentes, dos homens de terno e gravata que usurpan a moeda dos pobres….Indisposição para levar adiante o que se apresenta como uma cena de assédio… Pra porra! Prefiro a penumbra e a leitura dos poetas malditos, a cachaça, o afago de um gato sincero, um telefonema de um filho distante. Melhor sim deixar a mulher noir com sua vodka podre e caminhar pelas ruas, sentir a chuva bater em meu rosto e pensar que sim, talvez amanhã…

Sou e não sou. Será?

Preso, encastelado na tua voz e teus encantos. Você é como a estrela nômade que um dia enlouqueceu os reis. Posso, gostaria até, mas não vou me perder agora que te tenho tão próxima. Os cachos do teu cabelo são meu anel de ouro, esse anel que trago comigo tão orgulhoso. Teus olhos são as pedras preciosas que um dia darei a ti.

Vivemos num mundo à parte da podridão, do crime, da maldade, da selvageria. Sabemos que tudo isso existe, mas está longe de nós ou melhor, estamos nós longe disso porque pertencemos a uma sociedade outra, distante, diferente, uma percepção de vida e de amores nunca presenciada por nenhum mortal.

Se estou exagerando? Mas é claro que estou! Pois não foi de exagerado a primeira coisa que você me chamou? Sou sim! Tenho orgulho do meu exagero porque nele viajo de nuvem em nuvem, estrela em estrela, mar e sub-mar. Sou um viajante convicto e minha meta é a Terra do Nunca ou mais… Não posso ser ninguém menos que Peter Pan, do que Kafka, do que o mendigo que dorme agitado à minha porta. Tanto faz. Por isso não guardo meus diários manuscritos. Sei que os abutres existem, são atentos, são vorazes. Sou voraz apenas em existir. Não sou hoje o produto do que fui ontem, não! sou o anti-produto, a anti-matéria, o anti-anti!

Se vou seguir em frente com minha história? Não sei. Agora tenho corpo e alma cansados. Amanhã talvez. E ainda talvez amanhã eu repita “amanhã”. Não sei de mim mais do que o meteoro sabe de seu rumo. Sou meteoro vivo, folha que cai descansada, barba que cresce contínua sem pudor. Sou a dor ,a tristeza e a alegria desse mundo. Acho eu.

Um soneto bárbaro, genial

Quando observo que tudo quanto cresce
desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste imenso palco se obedece
À secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória
Que se ergue uma seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
Esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento

Shakespeare (Sonetos)
Tradução: Ivo Barroso

Caminhos

Me fecho em mim. Sou um buscador incansável das coisas que tragam uma espécie de lógica amorosa à vida. Desistir disso é desistir de viver, é abandonar-se a uma prostração substantiva da essência. Não ser essencial é mentir, negar-me como amador. De qualquer forma. Pouco a pouco vou desistindo da busca de explicação das coisas, vou me popularizando, mesclando-me com um grupo que, entre sístoles e diástoles, repete a simplicidade da existência. É. Um boneco anestesiado que declama poesias vãs. Enfim…

Após a chuva

A contradição está em perceber que o dia seguinte após as enchentes, dia seco, vem nos lavar a alma. Lava a alma até mesmo um sol que não aparece, até mesmo a expectativa de alguma coisa que poderá acontecer ainda que não tenha ocorrido. Pedras lisas e limo, com equilíbrio, podemos ultrapassar com cuidado ao contrário da borrasca que nos leva de roldão. E, se não há realmente sol, pelo menos a esperança da possibilidade, mesmo instável, de seguir caminho. E para bom entendedor…

Partida antropofágica

Meus poemas toscos, são todos escritos em papel higiênico. Facilito a ação social da natureza e poupo a energia (elétrica) dos cortadores de papel. Kerouac disse tudo. Ficamos repetindo com outras palavras. Faltava só o movimento feminista que, concretizado, deu no que deu, mulheres que não entenderam a trip. Bah! Uma baratinha minúscula, insiste em me incomodar aqui. Vou esmagá-la como sou esmagado freqüentemente pelas baratas grandes, essas que pensam (mal)  e agem (pior). Só penso em paz na preparação da partida (antropofágica, de uma certa maneira)

Pessoa

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida…

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!…

                                    Álvaro de Campos

Rascunhos

Tentei fazer uma anotação num caderno, mas, por motivos que não vêm ao caso agora, não consegui escrever direito. Venho então pra esse meu recanto adiantando desde já tratar-se de um rascunho para desenvolvimento posterior e não um texto completo. Aqui, eventualmente, me funciona como bloco de anotações e conto com a boa vontade dos amigos para esse entendimento mais do que necessário.

…………………………………………………

O que eu dizia era o seguinte: aqui fiz uma anotação, falando da possibilidade de não sermos “inteiros” no sentido que conhecemos da palavra, mas que talvez sejamos apenas fragmentos desse eu idealizado, que pode ser outra história. Depois, relendo, achei que podia não estar claro, mas optei por não mexer no texto e fazer um adendo. Quando eu falo em fragmento, não falo no sentido de pedaço, não! Falo de algo inteiro. Falo de homens. Explico-me mais ou menos: muitas vezes fazemos tais e tais exigências dos outros e de nós próprios que teríamos que ser um espécie de Super-Homem para atender a tantas expectativas! Se olhamos por esse viés, podemos nos acalmar e entender que não somos nada disso, que somos uma possibilidade ínfima, um fragmento desse chamado aqui super-homem. Bom lembrar que o fragmento, invariavelmente torna-se um todo (como uma primeira anotação torna-se um caudaloso e brilhante romance ou como uma célula tronco se multipla em órgão deficitários salvando vidas). Não me desagrada, por exemplo, ser um fragmento do “momento vida”, um fragmento de poeira diante do cosmos…. E, se houver um Deus, ser um fragmento da Sua chama divina (não creio que haja, porém…) Enfim…. é uma anotação, um rascunho…. Quem sabe, oportunamente, não dá em alguma coisa que valha à pena pensar e desenvolver? rs

Minha Náusea ou O Fim da Psicologia

Incomoda-me uma certa rigidez que há em todas as coisas (Clarice fala disso). Essa rigidez pode ser um bem ou um mal, depende de como a encaramos. Pra mim é um mal, mas não sei se o contrário seria um bem. As coisas me chegam de maneira nebulosa, leitosa, mostrando-me um mundo distinto e distante, de certa maneira impalpável e me vem à cabeça a idéia do verme branco que um personagem vê na ponta de uma manga de paletó, no lugar da mão (A Náusea – Sartre). Desde essa leitura na juventude vejo todas as mãos como vermes disfarçados e gigantes e hoje em dia outras partes e outras coisas como objetos me provocam náusea igualmente, chegando a um ponto que encosto-me a uma parede aterrorizado, vendo tantas coisas causadoras de náusea vindo em minha direção. Talvez por isso afasto-me dessas coisas (quase tudo), talvez por isso precise fazer anotações já que pessoas, na maioria das vezes, não são boas ouvintes. Acautelo-me. Relações sociais trazem com elas pessoas e objetos e não sei quais as reais intenções de tudo isso. Luto contra um exército invisível que expõe a minha parecências com um louco varrido embora não hajam provas disso, embora não seja impossível eu estar correto nessas minhas impressões e o mundo sim, ignorante dessas possibilidades. Como provar que luto corretamente e que meu medo não é sem fundamento e muito ao contrário? Não existem garantias nesse mundo leitoso a que eu me referia no início, esse mundo de certezas hipotéticas, de limites firmes e frágeis igualmente. A maneira de tomar as rédeas de tanta ambigüidade é apenas a precaução e caldo de galinha. Bom não esquecer que os psicólogos desse lado do hemisfério, não morenos, babalaôs com suas beberagens importadas de tribos africanas. Nada contra, mas Viena não é aqui, bom lembrar. Portanto, minha visita a esses “técnicos em mentes” é pouco freqüente e cercada de mistérios que vão do riso ao pavor, da crença ao deboche. Psicólogos caboclos e tupiniquins tornam o mundo e suas visões dele ainda mais escorregadias (e, de certa forma, assustadora). E afinal, pavor às baratas é coerente ou não? Uma conclusão a isso pode referendar minha sanidade espiritual ou não. Deveria mesmo lidar tranqüilamente com peçonhas?

Isso é para dizer de modo inquestionável que os males que nos afligem a alma devem ser percebidos à luz da filosofia e não da psicologia. A psicologia valeu-se da sociologia e da filosofia pretendendo criar alguma coisa nova, um método elucidativo e curativo das dores do espírito. Mas não deu certo, falhou, errou completamente. Não interessa nominar a náusea e a estranheza com gentes e coisas de neurose ou psicose. Aditanta tão somente encontrar as origens nessas filosofias ( a náusea é uma parte atuante do existencialismo, por exemplo) e, través dessa percepção, compreender o que se passa no espírito atormentado. Você pode dizer sem medo de errar que uma pessoa está “existencialista” ou invés de “psicótica”. Curá-lo? E, por acaso, na psicologia, há hipótese de cura?

Dama central

Dizem, os que nada mais têm a dizer, que troco por demais o banner desse espaço. Sim, faço-o excessivamente, mas porque acredito que uma pessoa deve procurar sempre o mais belo, o mais estético para a sua casa. Se vêem aqui, por que não recebê-los com o melhor quadro que conseguir (ainda que seja no lixo)? Sim, troco imagens e continuarei a trocá-las, a buscar o mais bacana, o mais natural, o mais parecido comigo! Por que estar estático num ambiente em constante mutação? Deveria escrever menos então? Deveria ter opiniões parecidas, deveria ser um só e não reconhecer a menina bonita? Sou nada, sou da vida, sou espectador e ator de uma peça multidividida num teatro de arena num beco do Rio de Janeiro. Sou a possibilidade de alguma coisa que sonhei muito lá atrás e que agora contenho-me em encenar da maneira clássica e madura que me é conveniente. Enlouqeço apenas nos intervalos e nas segundas feiras, como já recomendava minha avó, dama central de uma espetáculo que não existe mais. Infelizmente.

Precisa?

Querida

(Tom Jobim)

Longa é a tarde, longa é a vida
De tristes flores, longa ferida
Longa é a dor do pecador, querida

Breve é o dia, breve é a vida
De breves flores na despedida
Longa é a dor do pecador, querida
Breve é a dor do trovador, querida

Longa é a praia, longa restinga
Da Marambaia à Joatinga
Grande é a fé do pescador, querida
E a longa espera do caçador, perdida

O dia passa e eu nessa lida
Longa é a arte, tão breve a vida
Louco é o desejo do amador, querida, querida
Longo é o beijo do amador, bandida
Belo é o jovem mergulhador, na ida
Vasto é o mar, espelho do céu, querida, querida
Querida

Você tão linda nesse vestido
Você provoca minha libido
Chega mais perto meu amor bandido
Bandida, fingido, fingida, querido, querida

*precisa dizer mais alguma coisa?

Borges

Borges, não tem nem de longe o reconhecimento pela sua cultura e por sua obra extensa e genial. Desconhecer Borges é desconhecer o mundo, a si próprio, o sistema orbital e tudo o que possa parecer concreto e abstrato. Não se lê e muito menos se estuda Borges, pelo menos no Brasil. Somos um país ordinário, demente, sem dente. Quem desconhece Borges desconhece o amor e a fantasia. Não é humano.

Ainda Neruda sobre Whitman

Quanto a mim, que estou muito perto dos meus setenta anos, quando mal completara quinze, descobri Walt Whitman, meu maior credor. E encontro-me aqui entre vós, acompanhado por esta maravilhosa dívida que me ajudou a existir.
        Renegociar esta dívida é começar por pô-la em evidência, reconhecer-me como humilde servidor de um poeta que media a terra com passos lentos e largos, detendo-se em toda a parte para amar e examinar, aprender, ensinar e admirar. Trata-se daquele homem, aquele moralista lírico que enveredou por um caminho difícil: foi um cantor torrencial e didáctico. Estas duas qualidades parecem antagónicas. Pareceriam mais as condições do caudilho que de um escritor. O importante é que Walt Whitman não receava a cátedra, o ensino, a aprendizagem da vida e assumia a responsabilidade de ensinar com candura e eloquência. Francamente, não temia o moralismo nem o imoralismo, nem quis deslindar os campos da poesia pura ou impura. É o primeiro poeta totalitário e a sua intenção consiste não só em cantar, mas impor a sua extensa visão das relações dos homens e das nações. Nesse sentido, o seu nacionalismo evidente faz parte de um organismo universal. Considera-se devedor da alegria e da tristeza, das altas culturas e dos seres primitivos
        Há muitas formas da grandeza, mas a mim, poeta do idioma castelhano, Walt Whitman ensina mais que Cervantes: na sua obra, o ignorante não é humilhado nem a condição humana ofendida.
        Continuamos vivendo numa época whitmaniana, vemos, apesar das dores do parto, a ascenção e aparição de novos homens e novas sociedades. O bardo queixava-se da omnipoderosa influência europeia que continuava a alimentar a literatura da sua época. Na realidade, era ele, Walt Whitman, o protagonista de uma personalidade realmente geográfica que se levantava pela primeira vez na história como um nome continentalmente americano. As colónias das nações mais brilhantes deixaram séculos de silêncio. O colonialismo parece matar a fertilidade e a capacidade criadora. Bastará que vos diga que, em três séculos de dominação espanhola em toda a América, não tivemos mais de dois ou três escritores admiráveis.

Nasci para Nascer

Para deliciar-se…bombons ao licor

Saudação a Walt Whitman
por Álvaro de Campos

Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze…
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a adversidade das coisas,
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contágio a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as ações, bacanal de todos os propósitos,
Irmão gêmeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable de flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura! incubo de todos os gestos
Espasmo pra dentro de todos os objetos-força,
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares…
Quantas vezes eu beijo o teu retrato!
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá —,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito
Uma ereção abstrata e indireta no fundo da minha alma.
Nada do engageant em ti, mas ciclópico e musculoso,
Mas perante o Universo a tua atitude era de mulher,
E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo.
Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora… Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio… Há ali sentir demais…
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus ver sos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No teto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do teto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma…
Passo sem explicações…
Se for preciso meto dentro as portas…
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da… se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana… Ninguém tem nada com isso…
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo, esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstrata do corpo fazendo maelstroms na alma…
Arre! Vamos lá pra frente!
Se o próprio Deus impede, vamos lá pra frente Não faz diferença
Vamos lá pra frente sem ser para parte nenhuma
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?
(Deixa-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho .
Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço …)
Agora, sim, partamos, vá lá pra frente.
Numa grande marche aux flabeux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indústria, o comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinos!
Por isso é a ti que endereço
Meus versos saltos, meus versos pulos, meus versos espasmos
Os meus versos-ataques-histéricos,
Os meus versos que arrastam o carro dos meus nervos.
Aos trambolhões me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me de pé me exalto,
E os meus versos são eu não poder estoirar de viver.
Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!
Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doída de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos,
Só para não estar sempre aqui sentado e quieto,
Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!
Não quero intervalos no mundo!
Quero a contigüidade penetrada e material dos objetos!
Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas,
Não só dinamicamente, mas estaticamente também!
Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a… Ser levado até…
Abstrato auge no fim cie mim e de tudo!


Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!


Ponham-me grilhetas só para eu as partir!
Só para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem
Gozo masoquista, espasmódico a sangue, da vida!


Os marinheiros levaram-me preso,
As mãos apertaram-me no escuro,
Morri temporariamente de senti-lo,
Seguiu-se a minh’alma a lamber o chão do cárcere privado,
E a cega-rega das impossibilidades contornando o meu acinte.
Pula, salta, toma o freio nos dentes,
Pégaso-ferro-em-brasa das minhas ânsias inquietas,
Paradeiro indeciso do meu destino a motores!
He calls Walt:
Porta pra tudo!
Ponte pra tudo!
Estrada pra tudo!
Tua alma omnívora,
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
PUM! pum! pum! pum! pum!
PUM!
Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objeto, o ativo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objetos que se imaginem e és tu!
Tu Hora,
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertação, ida, desfraldamento,
Tu intercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo…
Comboio de sensações a alma-quilômetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo, PUM!
Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.
Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica —
Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.
Não tive talvez missão alguma na terra.
Heia que eu vou chamar
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções
Todos os feitios de todos os pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algaravia metafisica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo.
Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo.

Modéstia

Na verdade esse assunto tá morto e enterrado e não pretendia mais voltar a ele, já escrevi bastante e, convenço-me, escrever blogues não leva a nada. As pessoas têm a nítida impressão de que estão escrevendo coisas novas, coisas importantes, relevantes e não estão. Estão contando suas coisinhas do cotidiano como os adolescentes sempre fizeram nos diários. Nem mais nem menos. Os adolescentes ainda tinham a vantagem de serem adolescentes, de não estarem com nenhum compromisso, de escreverem algo que “ninguém ia ler”. Essa história de publicação mudou os hábitos e uns lêem o que outros escrevem, comentam o que acharam, fazem críticas e elogios. E o que se ganha, na prática, com tudo isso? Rigorosamente nada. Cada post lido é apenas menos uma página de um livro lido. Mas não termina por aí. As pessoas enlouquecem e acham que têm talento, e acham que estão escrevendo coisas boas, coisas importantes, coisas que devem ser lidas. Doce ilusão! Não há nada bom, nada que se salve, nada que a gente imprima e guarde entre as folhas de um livro. Mas então, o que houve? As pessoas pioraram? Não. Foi a banalização da publicação. Não se pode publicar à torto e à direita, impunemente, sem escrever asneira em cima de asneira. Nos blogs lemos muito mais asneiras do que coisas interessantes! Jornalistas, contistas e poetas publicam em blogues sim, mas são a excessão da excessão. O resto é lixo. Um exemplo: o que há de novo ou interessante aqui? Nada! Lixo! Nem acho que a gente deva parar de escrever (porque é um processo sem volta), mas acho que a gente tem que levar bem na cara que fazemos muito, mas muito pouco, que temos que gramar muito! O blog faz a gente se aproximar muito do “intelectual” do Google! É um mal da internet e ninguém tem muita culpa disso (todos temos um pouco dessa culpa). O que excita mais? Um blog “erótico” ou uma revistinha de Carlos Zéfiro de 40 anos atrás? Zéfiro, claro! Ele tinha talento! Os poetas de agora ou os meninos da geração “mimeógrafo” de 70? Eles é claro. Ou seja, façamos tudo, vamos dar asas à nossa imaginação e à tudo o que consideramos bom e arte. Mas vamos com cuidado, vamos sabendo que o caminho é árduo e a concorrência é braba. A arte sempre acompanhou o homem, e, muitas vezes, o homem necessitou imitar a arte. Modéstia, blogueiros!

Onde?

Quantas chances eu tenho?
Uma, duas? Dez?
Quantas oportunidades os deuses dão aos homens?
Eu preciso mostrar meu caderno,
meus apontamentos,
minhas coisas mais guardadas,
essas letrinhas que eu chamo de meus segredos?
E se eu ainda tiver mais uma chance?
Quem vai cuidar?
Onde vou beber?
Onde?
Onde?

“Não há como refazer a realidade”

O dia amanhece como amanhecem todos os dias. Sem graça. Nós, com nossas fantasias e nossos estados de alma é que, eventualmente, achamos tão lindo o alvorecer. Ele mesmo não tem nada, é mecânico e eterno (não para nós…) Pois assim a noite vai sumindo, assim tons avermelhados e depois mais róseos tomam o céu até que tudo fique claro, que se desvendem as ruas, os prédios em frente e umas poucas pessoas madrugadoras. Observo tudo com a cabeça vazia, não me interessa agora ficar pensando no que foi ou no que vai, no porquê de determinadas coisas, bantando-me aceitar que sejam assim e pronto, está acabado. O que bastam nas manhãs são unicamente as canecas de café preto, o sentimento de um corpo e uma cabeça descansados (nem tanto, é verdade) e a impressão de que tudo se repetirá com as variantes também previsíveis. Mas isso não me aborrece em absoluto. Me chateia mais a escassez de notícias, a alternância de como e quando tenho notícias de pessoas. Dois amigos estão trabalhando na Bienal do Livro, fazendo um trabalho jornalístico em blogs no Globo excelentes. Um casal de bem com o mundo, sempre!

Minha versão das coisas é toda muito simples e termino por me perguntar se não estou sendo simples ou espartano demais. Não, não é uma crítica nem uma lamentação (já ultrapassei essa fase), apenas perguntas sem peso que passam na cabeça e vão embora, não esquentam lugar. Imagino apenas que minha descrição dos dias, de seus inícios e términos deve ser bastante repetitivas para quem lê, tornando aqui um lugar desinteressante perto dos outros, perto das novidades, nas poesias, das aventuras e tal. Não sei, pode ser impressão minha. Philip Roth em “Homem Comum”coloca na boca de um personagem: “Não há como refazer a realidade“. Observe que não fala de futuro nem de destino. Apenas: “Não há como refazer a realidade“. Contestatório, penso um pouco na afirmativa e silencio. Realmente, não há como refazer a realidade. Uma frase curta, simples, que carrega toda a dureza do mundo. Não sei porque fui ler isso agora, nesse amanhecer. Quem abre um livro, eu sei, se arrisca muito. Demais.

O que me resta é ir em frente. Tratar das coisas comezinhas como banhar-me, barbear-me, separar com calma as coisas que utilizarei ao longo do dia de trabalho, ter a certeza de que sim, que é mais um dia medianamente produtivo de um período que, pressinto, está chegando ao final. Sim, períodos chegam ao final, não apenas minutos, horas nem dias, mas exatamente períodos. Mas não tem problema, não adianta ficar muito ansioso. É esperar e ver o que virá. Entendi bem que “não se refaz a realidade”. Mais do que ler e citar, é bom colocar esse pensamento em prática, aceitá-lo exatamente como aceito todo anoitecer e todo alvorecer. Atos da vida imutáveis aos viventes.

Atividades naturais do mundo não deveriam ser aceitas acomo atos imutáveis e sim como a óbvia circunvolução das esferas. Dos relógios e dos planetas. Apenas isso. Sem explendor e sem glamour.

Qual é a verdade, afinal de contas?

O que trago em mim não é mais a esperança do que virá amanhã de manhã. Não. As manhãs trazem tão somente o despertar, a consciência de que estamos no mundo, de que qualquer lugar do país (e do mundo) é mais ou menos igual, que posso mudar eu, navegando em esperanças vãs, esperanças de menino que não quer crescer. Minto. Quero crescer e cresci. Cresci tanto que envelheci e agora me chamam, veja só que coisa mais engraçada, me chamam de “senhor“. Estranhei no início esse título, meio nobre, meio vagabundo, mas agora já me acostumei e até gosto, acho muito engraçado. E o que me diferencia? Rugas? Barbas brancas? Andar alquebrado? Dor nas juntas? Uma certa tranqüilidade em relação à tudo? Realmente não sei se cada uma dessas coisas ou o conjunto delas ou, o mais provável, nada disso e sim, me acharem irremediavelmente velho. Um preço que pago por ter feito e acontecido, vivido demais e, de certa forma, perigosamente. É isso.

Mas percebo com estranheza que a alcunha “velho”, não me afasta do centro, não diminui minha capacidade intelectual, não tira ainda das minhas mãos o poder das decisões. Pelo contrário: acumula-as. Vejo o olhar ansioso do jovem em minha direção, perguntando que tom de azul, que filtro, que enquadramento. A diferença é que não posso mais titubear nessa altura da vida (ora bolas! eu! o claudicante, o que se equilibra em inseguranças!). Respondo tudo pausadamente, aparentando saber extremo – quando na verdade ganho tempo na fala para que meu cérebro pense rapidamente no que dizer). Todo homem medianamente velho é embusteiro. Eu sempre fui embusteiro. Fui uma criança, um adolescente e agora sou um velho embusteiro. Engano a mim mesmo e aos outros com a tranqüilidade de quem faz uma oração (e nem orações verdadeiras eu posso elevar aos céus!). Mas é essa é uma parte da história, a parte inegavelmente mais fácil, mais tenra, por assim dizer.

A hora da verdade é quando fecho a porta atrás de mim, quando vejo a bagunça de papéis e livros espalhados, quando meu gato reclama que esqueci de deixar-lhe a comida, quando o cursor me cobra palavras e mais palavras, infinitamente, como se eu fosse uma máquina de produzir frases (e ainda mais coerentes!), como se eu soubesse o que dizer. Melhor: como se eu realmente tivesse alguma coisa importante a dizer! O que eu digo é nada. É o contrário. Tudo, tudo, rigorosamente tudo o que escrevo não é afirmativo, é uma enorme interrogação que assola meu espírito e que espero tranquilizar quando digo alguma coisa. O que espero, de fato, é que alguém perceba, ainda que vagamente, que entre esses ficheiros, papéis jogados e livros abertos eu estou escrevendo em busca de algo (certamente em busca de mim, claro), que me aflijo ao perceber que as frases saem incoerentes e, na maioria das vezes, inconclusas. Que não deixo as pegadas corretas (!), que não dou a pista certa ao afirmar, usar pontos e pontos de exclamação quando somente interrogações deveriam ser usadas. O que é? Talvez medo. Como reagiria uma pessoa lendo um texto exclusivamente pontuado por interrogações? Deve ser medo sim. A fragilidade do espírito assusta mais que a doença terminal porque a doença não é racional, é um fato, um acaso, um elemento que se instala em nós independentemente da nossa vontade e a dúvida não, a dúvida tem culpa. Sempre.

Digo essas coisas verdadeiras porque não desejo dar a impressão de escrever ou de conseguir escrever coisas razoaveis o tempo todo como se eu mesmo fosse alguém razoável. Não, não sou, nunca fui e jamais serei. Serei esse eterno cronista frágil exatamente por ser apenas cronista de si mesmo.

Como me afogo em você

Vim para dormir à tarde, para descontar a noite em claro, mas agora que bem poderia, o sono não me vem como a acusar-me de ser ainda de tarde. Não. Não necessitava realmente dormir, mas embalar-me num estado sonolento que me provocasse, quem sabe, o sonho. Sim, tenho dessas coisas, dessas vontades de sonhar sonhos bons, sonhos desses que nem propriamente sonhos são e sim planos, os mais marotos que já tive desde a infância. Hoje, fios brancos a cobrir-me o rosto, sonho muito mais atrevido e maroroto do que quando menino. Tenho para mim que meninos sonham pouco porque a própria vida que vem é matéria de sonho e mais: de sonho que vai realizar-se de verdade. Hoje tenho apenas o período fudidio de uma madrugada, um fiapo de vontade realizada como se meu desejo tivesse diminuído com a idade! Não! Continua igual! Não morri e não tenho sintomas de que vou por agora! Por que não realizar meu sonho num tempo bom, gostoso, duradouro como deve ser a realização de todos os desejos!?

Não importa muito. É verdade que eu poderia fazer igualmente ginástica de forma a manter, não o corpo em forma, mas a mente mais ou menos controlada. Impossível. Minha mente não se aquieta, diz para si mesma que estão querendo iludí-la ( e estão!) e não aceita nada como troca para seus anseios. Desejos… Um dia, há muito tempo atrás, acreditei que conseguiria controlar todos, que deixaria vir à tona apenas aqueles mais comedidos, de mais fácil realização. Desconsiderei a parte mais importante da história da vida: o outro. Sua imprevisibilidade, seu jeito manso de chegar e se instalar naquele canto do espírito em que não alcançamos. Pelo menos, não facilmente. Esqueci do óbvio, da coisa mais certa e inexperada: a incomensurável liberdade da outra pessoa. Agora tudo já aconteceu e não posso mais mudar as regras do jogo no meio do caminho. Resta-me seguir, perseguir, conquistar fragmentos. Foi o rumo que escolhi irresponsavelmente ao desconsiderar que nem tudo depende de mim. Tarde demais! Agora silencio reverente e libidinosamente.

Tem dias que é verdade: eu seria capaz de escrever um livro inteiro e dedicá-lo a outra pessoa. E não poderia ser menos, não poderia ser diferente ou nenhuma das coisas teria a lógica da atração

O que ela me traz dia, após dia. O que me entrega e não entrega

Ela me chega no meio da tarde, do meio do nada, com sandália que exibe o pé, com fotografia que se exibe toda, com segredo do que eu sempre soube. Sempre. Nunca me enganei a seu respeito porque existe uma sincronia elemental como desejos irmãos, como recônditos desejos, como se fôssemos gêmeos. Gêmeios?! Me pergunto se não somos e não sei se gosto ou desgosto de não ser. O que eu realmente queria ser? Com tantos quereres, como almejar e exigir que um deles me seja concedido já que percorro um trajeto reto pelo menos coerente com o que eu digo que sinto? Mas não é assim! A retidão não promove prêmios. Prêmios, imagino, conquistam-se e o que eu fiz para conquistar? Com certeza nada e agora olho o céu nublado com um olhar não humilde de cobrança. Há uma dívida comigo ou eu estou em dívida? O correr dos dias e os resultados, muitas vezes, me fazem imaginar que estamos, todos, sempre, em dívida.

Por favor! Estou fora desse tipo de cobrança devota, logo eu que alardeio com trombetas que não possuo nenhum compromisso com o metafísico, com o que não se explica racionalmente, materialmente! Não eu! Eu tenho a parcela que, com certeza, busquei para mim, fiz juz, conquistei. Escrevo, mas é tudo mentira! Minto para você e minto para mim mesmo. Melhor dizer a verdade, melhor dizer que me acho predestinado, que desejava muito mais e, de certa maneira, lutei sim, para alcançar o que não alcancei. Claro que a vida é marota, que não sei o que está reservado, que não sei nada do porvir, eu que não sei nem do passado, nem eu entendo como cheguei aqui, que caminhos tortuosos ou fáceis trilhei para tornar-me um crente dessa tela iluminada, um animador que escreve, antes, o criticável. Se nem eu sei de nenhuma dessas coisas…

Chuva e Grama Vagabunda

O tempo fecha e chove lá fora. Dou graças por ter voltado para casa antes da chuva mais forte cair ou teria, no mínimo, molhado meu livro (e me molhado). Não gosto da chuva nem acho belas as imagens de gentes caminhando e “entregando-se” à natureza, à chuva. Acho um lixo. Você se molha, precisa trocas de roupas, invariavelmente adoece e essa coisa toda. Não vejo lirismo nenhum em nada disso. Creio que não conseguiria morar em São Paulo, mas vá saber… O coração tem razões que a própria razão desconhece. Fiz tudo o que tinha que fazer e agora, anoto aqui umas poucas considerações antes de abandonar tudo em troca de uma leitura agradável. Parêntesis: Não gosto de ficar sem notícias das pessoas que elejo. São tão poucos eleitos! De toda a forma, sinto-me em paz, com a missão cumprida (pelo menos por hoje). Também não me agrada muito viver um dia à cada dia, como um mantra dos Alcoólicos Anônimos.

Talvez fosse mais interessante viver fases ao invés de dias. Verdade que o dia é um divisor de fase, mas não é a isso que me refiro, se me entendem. Penso nisso quase em segredo de mim para mim. Não é um pensamento “normal”, razoável, bem aceito. Ele me coloca naquela categoria de pessoas sem nexo, pessoas que ‘borboleteiam’ pela vida como se aqui fosse uma Paraíso materializado. Talvez seja, não sei mesmo. Sei muito poucas coisas da vida e seus dias. Sei o que me atinge mais diretamente, fatos que me trazem prazer ou dor. Todas as vezes que me aventuro em pensar na vida de uma forma macro, termino deprimido, precisando eu mesmo de auxílio, buscando perceber o que os fatos estão querendo me dizer, se realmente estão querendo me dizer ou se não é nada disso, se fatos acontecem infiferentemente às pessoas, como se elas não existissem ou não contassem, como se pessoas fosse um tipo de grama, dessa mais vagabunda.

Roteiros de vida e scripts de absurdo

Ontem escrevi muitos scripts. Scripts a serem seguidos na filmagem de hoje e outros, a serem seguidos por mim, na minha vida. Os das filmagens são simples de serem executados porque todo mundo sabe que um roteiro para uma filmagem deverá ser seguido, essência e espírito da própria atitude de filmar onde todos estão seriamente comprometidos. É-lhes o ganha pão. E, dito isso, não há mais discussões nem propostas divergentes. Há um sentimento hierárquico que beira o militar.

Não sabem essas mesmas pessoas, que escrevemos um outro roteiro, um outro script, de realização mais trabalhosa, que é o nosso próprio, que delineia nossos passos, atitudes, sorrisos e negativas. Não andamos com os papéis deste embaixo do braço. Sabemos como nos posicionar – claro que sim – mas a câmera é outra, obscura, disfarçada, que dispara sua fita magnética à sorrelfa e nunca sabemos se estamos em cena ou não. Para não errar, estamos, então, sempre em cena. O roteiro do programa ou documentário é único para todos os atores e técnicos. O scipt da vida varia, cada um é autor do seu. E espera-se que, ainda assim, as coisas tenham equilíbrio e lógica – como se fosse possível.

O roteiro do programa é escrito sempre muito conscientemente, o da vida às vezes é consciente, outras, inconsciente. Convivo, então, com dois scripts, duas histórias que deverão se desenvolver (ao mesmo tempo) entre pessoas, refletores e câmeras. Um deles é lógico e outro, parece sempre ilógico para quem não o escreveu. E a minha missão é essa, transitar entre duas histórias sem saber qual a mais real, dirigir a cena (ou as cenas?) e parecer em paz comigo mesmo ainda que esteja preso a um turbilhão que me joga de ponta cabeça, que me faz ter as mais variadas ânsias, os desejos mais incoerentes e brutais. Sou dividido. Todos somos.

As dívidas com minha Aldeia

Bem cedo, a manhazinha me encontra quase como me deixou. O sono que veio foi um fiapo, foi ralo, irrelevante. Não trouxe nenhum descanso, nenhum alívio, nenhum sonho. Nem daqueles, ralos, que a gente tem mais atenção, quase uma reverência dessas respeitosas que temos por quem nos alivia. Nada. Senti a controvérsia da madrugada longa versus minha insistência em não me entregar, não dormir. Ao sono é prazeroso deixar-me de fora, virar-me as costas, negar a boa vizinhança. Ele tem prazer em negar-me suas horas, em não dividir comigo nem paz nem descanso. Avilta o meu corpo como a um condenado a pagar por seu crime nas galés. Não estou me queixando de maneira nenhuma, constatando apenas. Somos um, a impossibilidade do outro. Orbitamos, mas não nos encontramos. É como uma certa menina que apareceu de repente (e sumiu em seguida). Já nem sei se, verdadeiramente, apareceu. Sol e lua, gato e rato, exercício puro de temperança.

Ouvir tudo o que preciso (e não preciso). Como o mundo tem a falar, como o mundo tem declarações, regras, leis! Como o mundo é exigente de cada um de seus viventes, como alega exatamente cada uma das coisas que está cobrando, como nos mostra devedores. Sou, antes, um devedor do mundo. Sou um aldeão com impostos atrasados, com plantio atrasado, colheita mais que atrasada! Sou o exemplo da dívida, do mau homem, mau exemplo, mau cidadão desse mundo tão bem organizado! E, sim, tenho coinsciência de tudo, minha culpa me transcende, me prende, mantém meus olhos abertos na madrugada, com órbitas que giram para dentro como quem deseja encontrar no  íntimo, a justificativa para tantos erros seguidos. Claro que pago meu preço. Talvez não seja o bastante ainda, talvez existam outros débitos que, bondosamente, nem sei por quem, não estão me sendo cobrados.

Títulos Novos para Um novo momento (será?)

Esse blog ia ser, na verdade, deletado. Por pouco não foi. Ia ser porque acabou. Não se pode observar o mundo com determinada ótica por mais de oito anos. Pelo menos eu não consigo. Não consigo nada tão longo, acho que a vida é muito mais breve e assim devem ser as coisas nela. Mais ou menos: acredito em coisas de longa e excelente duração na vida. E me explico para não parecer dúbio num próximo momento. Não quero mais escrever novelas. Tão somente contos, crônicas, frases, palavras soltas. Não consigo enganar ninguém, mas quem eu menos consigo enganar é a mim mesmo. Sou um traste nessa aventura. Sim, porque enganar é uma aventura, talvez não uma doce aventura, mas, com certeza, uma aventura. Nesse momento penso no Sobretudo de Lona completamente aliviado. Ele existiu, fez lá das suas (boas e ruins), participou de um movimento, de uma época, de uma tendência, de uma expectativa a ser posta em prática. É o que eu chamo da “geração mimeógrafo dos blogs“. Agora ele se mantinha, mas, sem dúvida, se arrastava, agonizava. Precisava acabar. E assim, ACABOU.

Não que minha expectativa para o futuro mude muito não. Não se trata exatamente disso. Trata-se de saber que é outra coisa, que pode até continuar escrita mais ou menos da mesma maneira (afinal eu sou o mesmo eu), mas que mudou em mim, que estou livre, que cumpri um papel (bem ou mal) e que agora vou em busca de outro, vou em busca de catalogar papéis esparsos, que isso aqui pode ser mais ou menos um ficheiro onde eu não tenha mais obrigação com nada (muito menos comigo mesmo). Olho as cenas, os acontecimentos, as esperanças, as decepções, o mendigo da minha rua (que continua insistindo em reescrever um livro – como já contei aqui). Quis não mudar o template, a composição me agrada, o banner a Beth com seu talento enorme fez pra mim…. enfim…. essas coisas que a gente vai juntando na vida e quando olha tem uma pasta abarrotada, um ficheiro estufado.

A Descoberta do Mundo” é um livro pouco conhecido de Clarice Lispector, na verdade são papéis esparsos dela, crônicas que escreveu no JB entre 67 e 73. Acho engraçado porque Papéis Esparsos (título tão comum, né?) me cheira a desvendar algo, falar de algo que pode ser comum, mas não tinha sido ainda percebido por mim. E, se percebo e escrevo, não deixo de estar descobrindo o mundo (minha tarefa maior na vida). Então, por enquanto, ficam esses dois títulos – que para mim são UM – até um determinado momento ou não sei mais quanto tempo para a frente. De toda forma, escrito de coração aberto aos amigos.

O reinício

Nem precisa colocar esse meio sorriso de escárnio na boca. Tampouco precisa avaliar se é uma atitude tola ou não porque atitudes são atitudes, nada mais que atitudes, não trazem em seu bojo nenhuma alteração para o mundo. O mundo – e os mundos – não se alteram nunca. Pelo menos não para nós.

Há um movimento que me altera, um movimento interior, um movimento de quem escuta os estalidos da madrugada. O SOBRETUDO DE LONA durou oito anos. Uma vida. Cumpriu o seu papel, ainda que, a meu ver, NÃO a contento. Não importa mais.

Não me vejo mais um contador de histórias nem um observador do cotidiano. Percebo-me alguém que (já há algum tempo) RASCUNHA coisas aqui e ali. A internet é uma circunstância menor. O guardanapo de papel ou a folha encontrada ao acaso servem igualmente. À partir de hoje, chamarei esse recanto de “A Descoberta do Mundo ou  Papéis Esparsos“. Mantenho o endereço antigo provisoriamente, para que não se percam os amigos e também e verdadeiramente por dificuldades operacionais (minha dificuldade e divergência  com a modernidade). O que muda? Nem eu sei. Mas será assim. Era mais do que a hora.


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"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"

"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

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Tempo…

 

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