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Parangolé de mim

A relação com seres humanos é nociva até para seus iguais e só vence mesmo a barata. Tento me reenquadrar socialmente e o que acontece é o caos, é um misto de anti-apocalipse ou implosão de apocalipse como se a Terra fosse engolida pelo seu próprio buraco negro. Me assusta essa antropofagia de terror cibernético e me refugio numa espécie de plataforma virtual onde tenho a possibilidade de jogar o game ancestral assim como deus joga dados. Fujo da merda jogada por catapultas mediavais e subitamente me torno um templário do terceiro milênio, um soldado ferido que ficou para trás na Segunda Guerra e encontrou uma enfermeira que cuida de suas feridas aparentes sem ver o interior minado, doente, podre.

Caminho errante um um Portugal cheio de armadilhas intelectuais e bejo,  um feliz Fernando Pessoa de barro. Tudo é felicidade no vinho, na música, no colorido das roupas da moça de aldeia, no gentil cavalheiro de chapéu de palha vistoso. Não tenho muito para onde me movimentar e percebo que enfim a terra é um tabuleiro de jogo antigo, a Terra transborda porque não é mesmo redonda, porque não existe Rotação e exitem figuras sem cor – cinza sobre cinzxa respeitando apenas tonalidades diferentes da não cor. Folheio Josué Montello e choro pelo tempo que não vai voltar, pelo que fui e pelo que não sou. Caminho perdido entre enormes peças de xadrez como num labirinto mental, numa idiossincrasia própria a mim e a mais ninguém. Decepciono-me um pouco mais com homens que conheci e levaram meu cavalho malhado, deixando-me de pé nessa chuva torrencial.

Torrencial é o espaço-vida em que me aventuro mesmo sabendo o resultado, o Fim de Jogo de Becket, mesmo sabendo a cor dos que saem de dentro da mina de carvão, mesmo sabendo que o céu, o sol e a chuva são tão somente efeitos das artes produzidas em videografismo, brincadeiras de um pintor pós-moderno. O sol vai se apagar e talvez seja a hora de lentamente, retirar minha roupa de dândi tropical (afinal os parangolés pegaram fogo e os homens erraram de novo a meu respeito).

Esparsos

Do caderno 17 C 2:

“,,, depois a noite e o silêncio. Unicamente essas expectativas para esse futuro incerto. Futuro de lutador que abandonou a luta há muito tempo, que abandonou o sorriso farto e solto, de ser que conhece a realidade e, de certa forma, desceu aos infernos e voltou. (…) verdade que não reafirma quem é como não reafirma “verdades” dessa vida brejeira, vida ordinária que corre tranquila como uma riacho virgem. Não ter nada e não lamentar. …. porque esse lamento é o do crente, do que espera respostas como um  Sísifo às avessas. Não existem respostas. …. exclusivamente o tempo a correr frente a frente, de forma livre, independente e liberta de ações. Não ser, portanto, mais um jogador. Não tentar interferir no movimento da Terra ou no dos astros. Basta a Estrela Guia. Movimentem-se pois à revelia, já que à  revelia tudo se deu: nascimento e morte. Força e fraqueza. Fim das esperanças pueris. (…) Desconhecer céus e terra, seus símbolos e lendas contadas de forma oblíqua deixados em documentos esparsos através dos tempos em que se acreditava nas empreitadas (…)


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"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus

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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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