Existe o romancista de um livro só. Todos se perguntam porquê aquela pessoa escreveu um único livro, porquê não deu continuidade à sua carreira literária (ainda mais quando se mostra promissora). Escrever não deixa de ser um ato de angústia, aquilo que chamamos de “angústia boa”. Muitos passam para o papel essa angústia uma vez e depois se calam, ninguém fica sabendo o que aconteceu, o que está ocorrendo, onde anda aquela pessoa, o que faz, se morreu ou não. Porque é assim: pessoas aparecem e desaparecem eventualmente, misteriosamente. Como num espelho que se parte logo após refletir apenas uma imagem. Não são sete anos de azar. Até porque não existe propriamente “azar” nem propriamente a contagem dos “anos”. Ocorrem outras coisas, outras situações, outros caminhos que nem sempre são definidos pelos homens. O conceito de “show da vida” propõe alguma coisa de magnânimo – que, novamente, não quer dizer a verdade, não pode haver certeza. A própria “verdade” é apenas de ‘um’ e não coletiva.
Talvez a proposta de Camus do “zero à zero metafísico” seja algo mais próximo do possível. Claro que pode-se também acreditar na idéia do filme Matrix (não creio). Por fim, termina-se numa espécie de limbo (não esse católico romano que remete às portas do inferno), mas num meio de caminho, numa caminhada de certa forma abstrata, uma visão de horizonte sem cores definidas, sem placas de indicação. Um enorme deserto com pequenos oásis ou um oásis com pequenos desertos. É a relatividade do ser, do espírito, do olhar, do impulso, da (possível) explosão. É a pedra, o rio, a lama. Simplesmente admitir que tudo é possível e impossível na mesma proporção.

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