Sem dúvida existe o momento em que paramos e olhamos para nós mesmos. A visão nem sempre é agradável, nem sempre desperta carinho. Em nenhum momento deixamos de ser caçadores, em nenhum momento deixamos de correr porque, igualmente, somos caça. A única forma de reinvertar-se, de reinventar a vida é através da arte, da literatura. Não por causa de uma certa erudição tolinha, jeka, mas pela possibilidade de conviver com situações e personagens iguais a nós mesmos, mas que não somos nós, que foram pensados por outras pessoas. Uma das dificuldades da vivência plena é a culpa de pensarmos a vida, dela ser conseqüência dos nossos atos. Personagens nos retratam, mas são personagens (o que alivia a culpa metafísica, a persistência atávica no erro cotidiano). Nem todos os personagens são interessantes da mesma forma que nem todos nós somos interessantes. De qualquer maneira temos a opção de perseguir reações de personagens e fazer a vida imitar a arte. É o paradoxo da arte existir porque existe vida e a vida existir porque reflete a arte.
Já tentei mais de uma vez fugir de ambas as possibilidades e criar uma vida minha, exclusiva, completamente solitária (e, portanto, mais realista), uma vida em que os valores e equívocos são observados apenas por mim, onde o tempo não existe e não faz falta, onde valores são revistos e novos conceitos entram em jogo como numa brincadeira com espelhos. É uma opção interessante (Thoreau já provou isso no magnífico Walden), mas que raramente dá certo porque o homem, ser humano, se agrega, se integra não consegue conviver muito tempo consigo próprio.
Esse tipo de dilema não é novo. Mas o que parece que são os autores, ao escreverem suas obras, que encontram um meio termo: conseguem sair da vida comum, de uma suposta ‘realidade’, conseguem igualmente afastar-se de um EU que não interessa em nada na medida em que está idealizando EUS outros, que nem ele é capaz de ser. Claro que é louco você idealizar alguém que você mesmo, criador, não consegue ser. Por isso sempre acreditei que os deuses devem ter inveja dos humanos e de todas as formas de vida porque somos o que eles não conseguiram ser.

0 Respostas para “Deuses e Personagens”