Pensar diferente da maioria pode ser uma opção perigosa, pode nos encaminhar para o abismo social de uma solidão estranha, não programada. Ler e escrever de forma diferente também. Apesar de todos os avanços, a sociedade ainda cria, disponibiliza e só admite as pessoas que estão devidamente formatadas, ainda que numa pintura abstrata. O comportamento social caminha com pensamento único, o que equivale, na verdade, a não pensar. A ousadia é perniciosa porque assusta a média das pessoas que, comodamente, se enquadram. Não, ao contrário do que parece, não chego a ser um anarquista – acredito numa sociedade coerente e, dentro do possível ordeira – para que sobreviva a paz.
Mas se o tempo passa, as situações se alteram, paradigmas se quebram (e surgem em outros lugares), se pessoas nascem e outras morrem, evidente que nada continua exatamente igual, que é necessária a tal salutar desconstrução individual freqüente que provoca a discussão, a mudança pontual, o susto, a revisão do atavismo. Reencontro em mim mesmo o menino de cinco anos que fui um dia e dele sugo o que há de bom (e há em todos nós!) com a mesma certeza de que avanço no futuro, no que me resta de vida e encontro nesse homem-eu mais velho, ponderações (e até mesmo safadezas) que resgato para meu presente, que indefinidamente escorre entre meus dedos, perdendo-se nessa maratona “sísifica” de não se definir como presente e, muito menos, ser um pleno futuro.

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