Como num aviso ancestral, o dia hoje nasceu com tons mais avermelhados do que de costume. Sinal? De quê? Bem verdade que não estou com muita paciência, tenho andado meio de saco cheio. Algumas pessoas ficam esperando que você pisque um olho e te abocanham e a idéia de viver minimamente feliz sem piscar me soa estranha e desagradável. Portanto, deixo esses assuntos para lá porque sou mesmo um sobrevivente da Coréia e não serão peidinhos rastaqüeras que conseguirão me desequilibrar.
O que tenho de bom é que nesse fim de semana terminei a leitura de “O Despenhadeiro” de Fernando Vallejo e me aventurei em iniciar “A gente se acostuma com o fim do mundo” de Martin Page apesar de uma crítica não muito favorável de K. De toda sorte, parece-me um livrinho leve e agradável e seu (anti?) herói passa por situações semelhantes às minhas. Ainda é muito cedo para falar.
Diante disso, desse cursor irritante que se recusa a parar de piscar, penso na máquina de escrever e da folha em branco que me cobrava antigamente, mas não havia o maldito cursor. Resta-me apenas mais uma caneca (das grandes) de café preto e uma infinidade de cigarros Marlboro Azul. Azul ou cinza deve ser igualmente a tonalidade dos meus pulmões carcomidos. Observo o dia azul, mas preservo muitas trovoadas sob a luz fria e branca dos escritórios, das reuniões vãs, das pessoas que lutam sem entenderem, da tola disputa de poder.
Volto ao meu livro como Sartre voltou a Colomba naquele bar na França deixando a garçonete sem saber se a sua taça estava meio cheia ou meio vazia de vinho doce. Nesse momento meu espírito voa longe, para uma certa juventude emocional que insisto em não perder para não cair no esgoto das pessoas vis. Essas crises de tosse alertam apenas que estou fumando, fumando muito, além do razoável e que o sofrimento, os estertores podem estar vindo à galope.
Observo então a vida sob novo ângulo, deixando de lado idiossincrasias, batalhas e personagens literários. Estou nu naquele sofá diante de um analista que se esforçar para salvar minha alma carregada, pesada, sufocada por tantos senões. Isso que chamam vida, eu chamo purgatório. Não há nenhuma depressão, nada patológico e sim, como já disse aqui, o que existe é alguma coisa filosófica como a mão (verme) descrita em A Náusea de Sartre. Percebo que meu desentendimento não é exatamente comigo, como parece, mas com o mundo a as situações escrotas desse mundo. Como num jogo de tênis quando dou uma raquetada numa bola normal e recebo – da raquetada do outro – uma bola de gosma. E assim termino não sabendo se quem sofre é meu cérebro ou o meu estômago – com essa quase eterna vontade de vomitar. Ou ainda se é tristeza pura por todos os outros mendigos esfarrapados que se arrastam em roupas caras e corredores assépticos. Não sei a verdade. Se soubesse tentaria mudá-la, sei apenas que existe um descompasso e eu entre uma determinada forma de vida.

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