Sonhos ou delírios
Domingo. 11. 5. 08 de G
Às vezes sinto vontade de falar da minha família. Minha mãe, meus filhos, minhas tias (que me deixaram órfão), meu irmão e mais outros, mais distantes. Não consigo, entretanto. Alguma coisa aconteceu, em algum momento que me desgarrei de todos e eu mesmo, sozinho, passei a ser minha família, com a convivência de Artur, meu gato. Já procurei entender o que aconteceu nesse período e não consegui. Nem porquê aconteceu. Com certeza não foi minha família que me abandonou, fui eu que a abandonei. E por quê? Não sei. Talvez preservá-los de perceberem os caminhos que escolhi para mim (resposta cômoda? Sim.) Talvez ainda tenha entendido que, mutante e ermitão por opção, devo seguir meu caminho sem dividir com quem me conheceu no passado - no que me transformei no presente. Talvez, nenhuma das opções acima. Certamente alguma coisa mais profunda (quem sabe, inconsciente?) Famílias encontram-se mais freqüentemente em datas especiais. Nem isso eu faço. Muito poucas coisas eu sei porquê faço. Talvez eu seja um alienado, talvez um mutante, talvez um sobrevivente (não no sentido glamouroso que a palavra se tornou recentemente). Não sei ao certo. O que tenho de certo sou eu e uma possível UTI. Não, nenhum drama, apenas as perspectivas que se encerram em mim diante de uma idade que se encaminha para “avançada”. Já contei aqui que durmo abraçado com meu gato. Já contei que, eventualmente, me deixo levar a ambientes (um tanto sórdidos) onde só existem bebidas, fumaças e alguém cantando na madrugada músicas que gosto e outras que detesto. Com certeza, uma vida errante. E não sei exatamente o que seria uma vida não errante fora o aludido convencional que abandonei. Melhor, não abandonei, a idéia é viva. Não realizo, simplesmente, o convencional. Talvez eu esteja procurando alguma coisa nova como o rouxinol que canta ao alvorecer e me confunda por não estar na alvorada vida. Talvez me perca entre sentimentos diferenciados e, por que não dizer, difusos, intransponíveis. Certamente não estou tratando a realidade de maneira amadora. Não! O que existe é a necessidade - não dita - de uma compreensão impossível. Muitas vezes me encontro no limiar do impossível, da retórica canhestra, do sonho escorregadio, da expectativa vã. São todas encruzilhadas, são todas relativas a uma certa fragmentação de um eu que nunca foi de fato. Percebo que é uma ilusão acreditar que falo toda a verdade na medida em que não a conheço completamente, numa ambiência em que verdades e sonhos e delírios se misturam de forma evidentemente não coerente.

E não te parece engraçado que a vida lhe imponha, hoje, a convivência com uma prima que você sequer sabia da existência?
Aqui do meu lado, estou achando ótima a presença de um primo gauche, capaz de me aguentar em bêbadas madrugadas perdidas pela Lapa…
Não tem jeito, priminho, tá gravado no DNA: vai ter que aturar!!!
Solitário…
Sozinho um caminho que sequer sabia porque escolhi…
Pode ser que meu estado atual de fazer as pazes com a família seja sintoma colateral de estar noivo, mas já tinha fito as pazes com o mundo
Talvez não devesse ter virado um ermitão mutante, um sobrevivente antes do vinte, mas estou deixando de ser.
Não quero com isso dizer para vc deixar de ser com seus masi de quarenta.
Quero dizer que seus textos tocam uma parte da minha alma que ainda está aqui, demasiado perto e via para que não snta uma nostalgia do tempo que u poderia escrevê-los sem estar mentindo.
Continuo sendo um mutante.
Continuo analisando as anfigonias e continuo usando essa palavra no sentido que certa vez achei no dicionário Caldas Aulete.
Mas até a próxima mudança de pel ainda trago vestígios da anterior.