De volta à Lapa
Domingo. 4. 5. 08 de G
Minha caminhada matinal não tem nada a ver com o culto ao corpo nem à saúde. Caminho simplesmente porque tenho que me deslocar de um ponto ao outro para comprar isso ou aquilo. Cigarros, por exemplo. Ao mesmo tempo encontro nas ruas conhecidos. Dessas pessoas que um belo dia te dão “Bom dia” no meio da avenida e, à partir daquela hora, te cumprimentam para sempre. São sempre pessoas de mais idade, pessoas com minha idade. Os mais jovens devem cumprimentar os mais jovens e os jurássicos idem. Quando eu morava em Copacabana ficava impressionado com o número de pessoas de idade que andavam em cadeiras de rodas elétricas (mais pareciam um carrinho, uma baratinha de corrida)). Aqui na Lapa nunca tive oportunidade de cruzar com nenhum sequer. Verdade que as calçadas não são boas e, apesar de se falar tanto em ‘revitalização da Lapa’, é mentira. Aqui só mora gente muito pobre. E pobre não tem cadeira de rodas movida a eletricidade. A Lapa é um ponto turístico onde as pessoas da noite vêm se divertir em busca das casas noturnas abundantes (algumas exóticas). Só isso. Depois cada um pega seu carrão e volta para o bairro de origem. De certa forma, o centro da cidade inteiro deixou de ser um bom lugar de moradia ou que tenha status para tal. Não tem. Quando eu conto para alguma pessoa que moro na Lapa, sempre há um sorriso curioso, como se eu fosse mais valente ou mais pobre. E a fala é sempre a mesma: “Você mora bem dentro do agito, deve ser ótimo morar aí”. Claro que eu não acredito no que estão dizendo, se fosse verdade, essas pessoas que admiram tanto o centro morariam aqui. Nas padarias, farmácias, ruelas, etc. encontro somente pessoas humildes. Outra característica: as pessoas não têm cachorros. Não existem cachorros nas ruas, o que não se pode falar de mendigos (são muitos e muitos). Verdade que também sempre encontrei milhões de mendigos em Copacabana, Ipanema e tal. Enfim, morar na Lapa não é pior nem melhor do que morar em outro lugar, mas não me venham fazer olhares de encantamento, como se aqui fosse um glamour puro. Não é! De toda a forma, eu gosto de morar aqui.
