Padre gaiato
Sexta-Feira. 25. 4. 08 de G
No prédio em frente, preso por cordas, um operário vai descendo rente à parede. Só de me imaginar naquela situação fico suando frio. Mais de dez andares! O que faz uma pessoa escolher profissões assim? Eu sei, a necessidade, a fome. Certamente não é escolha dele (como a do padre gaiato de viajar pendurado em balões de festa de aniversário). Esse homem aqui está pendurado numa corda. Desce numa espécie de rapel, com os pés apoiados nas paredes externas do edifício. D-u-v-i-d-o que ela tenha participado de qualquer curso ou orientação profissional pra fazer isso. Esses homens - pobres homens - são movidos exclusivamente pela fome e pela noção absoluta de cidadania (ou virariam bandidos). Fico olhando e me perguntando: quanto ganham para fazer o que fazem? Afinal, não passam de operários. Gente sem rosto, sem voz, sem direitos… E se ele se machucar? Como será tratado num hospital público? E se ele morrer? Quem paga o enterro, quem sustenta a família (certamente numerosa por falta de educação sexual e geral)? Enfim, pobres homens arriscando a vida e a saúde diariamente no limite do tolerável para levarem, de madrugada, pão para dentro de casa. Enquanto isso, aquele imbecil daquele padre fica fazendo gracinha. Morreu? Certamente… Com certeza - de maneira inibida - era um suicida. Mas eu me interesso muito mais pela vida dos operários do que a vida desse padre.

Primo,
me lembrou aquela música do Chico: “morreu na contramão atrapalhando o trânsito….”
bj