Há muito a dizer, mas um branco toma toda a minha cabeça. Tenho a impressão de estar chegando a uma fronteira, ou melhor, à beira de um abismo existencial. Me reescrever é uma coisa muito diferente de “ser dois”. Ainda por cima meu corpo está maltratado e exausto. Tento pensar, relembrar as coisas que tenho lido, principalmente o caudolaso diário de Sylvia Plath e Molloy de Beckett. Nada: bloqueio intelectual completo. Eu ainda não havia percebido que o corpo castigado ‘breca’ qualquer tentativa no campo intelectual. Mas isso acontece. Infelizmente. As poucas horas em que relaxo, durmo (claro que com a ajuda de remédios). Até meu gato sente demasiadamente minha ausência. Minha casa está um caos. Não falo mais com meus filhos, não visito minha mãe. Busco em algum canto da mente uma saída honrosa onde eu consiga juntar tudo, dar conta de tudo (e, se der, algum prazer pessoal). A realidade me sacode e diz que isso é impossível, que estou delirando ao querer “jogar nas dez”. Tenho ódio do meu próprio embotamento. Olhos vermelhos e ardendo, corpo pedindo cama, intelecto pedindo alimento. O pior é que não existe nenhum culpado, são apenas circunstâncias da vida e a ‘inexorabilidade’ do maldito relógio que segue caminho, desconsiderando todo o resto. O meu resto. O relógio deveria ser uma aparelho para servir ao homem, mas o homem é prisioneiro do maldito tempo. Necessito desesperadamente ler Pessoa, Unamuno, Calvino – e alguns sonetos. Na prática vejo o ‘Eu’ esfacelado como rachadura que aumenta, como grave terremoto. Clarice, em sua sabedoria eterna, disse que não era profissional de nada, nem da escrita porque necessitava, antes, da sua liberdade. Sábio pensamento, pertinentes palavras. Certamente eu errei ao me convencer que era um profissional assim, nesse sentido. Eu não sou Clarice, mas sou uma espécie de Calvino (EVIDENTEMENTE SEM NENHUM TALENDO, QUE FIQUE BEM CLARO). Falo no estilo das viagens, dos questionamentos, nas buscas de entendimento do surreal. Porque parece que não se tocam, todas as pessoas não se tocam do quanto surreal e breve é a vida (brevíssima !).
Ela…

Trocas
"A descoberta do Prozac criou um universo de eunucos felizes"
"É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico" Albert Camus
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""Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues
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