Ontem tive tempo para conversar longamente com um amigo. Claro que falamos muito mais de insanidades do que dessa realidade imposta. Existe um “comportamento exemplar” esperado pela sociedade. Mas quem definiu o que é esse comportamento? Quem faz as regras? Me dou o direito de subverter as regras impostas e agir como me agrada, como acho que devem ser as coisas e, para tanto, afasto-me da massa. Já escrevi que existem mundo paralelos, mas, percebo agora, não era o que eu imaginava. Existem, na verdade, milhares de mundos paralelos que são as pessoas dispostas a romper com o estabelecido e reescreverem seu script de vida. São os marginais, os malditos, os malucos. Muitos se arrastam pelas ruas falando sozinhos. Outros tantos estão presos em masmorras gradeadas de hospícios e outros tantos estão aí, à margem do estabelecido, incomodando os carneirinhos. Esses grupos são uma pedra no sapato de uma sociedade velha, carcomida, bolorenta. São os que discutem, questionam e dizem NÃO. São entraves, é verdade. A questão é que não são poucos, são milhares, talvez milhões. Num primeiro momento, parecem um exército de Brancaleone, andrajosos que se escoram nas artes, que pintam, escrevem livros (ou papéis esparsos), que moldam formas inenarráveis numa argila outra, num bronze diferente.
A sociedade “oficial” fica incomodada, coloca os marginais contra a parede sem perceberem que não existem as tais paredes, que as paredes estão dentro de cada um de nós, que os limites podem ser infindáveis, que até mesmo o conceito de guerra é outro, é interna, de si para si. Por isso a idéia de vários mundos, de várias realidades e verdades, de várias idéias individuais, indivisíveis em grupos. Assim está posto e não sei como e viabilizaria alguma homogeneidade. Impossível. São mundos diferentes. Existe um galáxia dentro do planeta Terra e existem várias galáxias fora da Terra. E se compreendemos as de fora, temos que entender as de dentro. É preciso aceitar o individualismo, a diferença não como algo metafísico, mas alguma coisa palpável – formas de pensar, agir e vivenciar.
Negar diferenças é negar a vida, negar a possibilidade de criação no curto espaço entre o nascimento e a morte. Temos todos esse divisor de espaço-tempo. Uma espécie de gincana em que ninguém está brincando. Todo mundo está experimentando sempre, caminhando para a frente, para os lados e, eventualmente, para trás. Faz parte do jogo. Deus não joga dados, nós jogamos. O peso do existencialismo paira sobre todos, mas apenas alguns se dão conta e embarcam de cabeça nessa proposta filosófica, nessa angústia de ver em cada mão, um verme como em A Náusea. Não ler a Náusea é não possuir certidão de nascimento, estar à margem de quem pensa, de quem propõe (e volta atrás ou não). Entender Quixote como louco é jogar uma fina e podre mortalha sobre o anseio humano. Não concluir a leitura dos versos do Paraíso Perdido de Milton, é inviabilizar-se, desconhecer todo o sentido do pensamento, fonte principal da existência. E existem bilhões de pessoas que fazem isso, que aceitam caminhar para o matadouro sem emitir um ruído, um grito de alerta, um grito primal. Por isso esse estranhamento em mim. É a incapacidade de cada um de abrir a cabeça, desnudar o espírito, voar, sem medo, para a Terra do Nunca e outras Terras.

muito bom o texto. Realmente somos doutrinados a acreditar em verdades absolutas. A viver como escravos da sociedade e a esquecer nossos sentidos, vontades e necessidades.
Vim atras do Grito Primal do Arthur Janov e encontrei coisa boa tb: seu discurso, gostei das referencias de livros que citou, que ja anotei, A Nausea, o Quixote e o paraiso Perdido, vou atras desses logo logo. Digo que gostei, muito.
Lendo o Janove compreendi que para ser aceito e ser interessante e preciso ser bastante neurotico e obediente dos padroes comportamentais tido como bons, por exemplo a pessoa que nao se expressa e tida muitas vezes como elegante!!
quanto mais eu me conheço e me compreendo mais eu me distancio das outras pessoas, porque inflizmente elas ainda estao num profundo sono hipnotico